quinta-feira, 23 de maio de 2013

PROGRAMA FAIXA LIVRE 23 DE MAIO DE 2013, ENTREVISTA ROBERTO ROMANO SOBRE STF, ANISTIA, ETC.

Ouvir Programa Roberto Romano - Professor de Filosofia e Ética da Unicamp
Tema: Anistia e política no Brasil
Duração: 12 minutos
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Estado. De fato, como diz Luis Inácio da Silva, o sorridente aliado de Maluf, Sarney não é um homem comum.

Autor da decisão de censura ao 'Estado' preside tribunal

23 de maio de 2013 | 8h 46

AE - Agência Estado
 
Mineiro de Araguari, o autor da decisão que impôs a censura prévia ao jornal O Estado de S. Paulo, Dácio Vieira, é amigo pessoal do senador José Sarney (PMDB-AP). Em junho de 2009, no dia em que o jornal revelou a existência dos atos secretos do Senado, os dois foram fotografados juntos no casamento da filha do ex-diretor da Casa Agaciel Maia.

As ligações do desembargador com o Senado são antigas. De 1986 a 1991 ele exerceu o cargo de consultor jurídico do Centro Gráfico do Senado. Em 1994, foi nomeado para o Tribunal de Justiça (TJ) numa vaga destinada a advogado. De lá para cá exerceu vários cargos no TJ e no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Distrito Federal. Em 2012 assumiu a corregedoria do TJ e, desde fevereiro deste ano, preside a Corte.

Mas em abril do próximo ano Dácio Vieira terá de deixar o tribunal. Nascido em 1944, ele completará 70 anos e será atingido pela aposentadoria compulsória. No Brasil, todo funcionário público tem de deixar o seu cargo no 70.º aniversário.

Após a decretação da censura ao O Estado de S. Paulo, o jornal pediu, em agosto de 2009, que Dácio Vieira se declarasse suspeito para tomar decisões no processo. Julgada pelo próprio desembargador, a exceção de suspeição não foi acolhida. No entanto, em setembro o tribunal aceitou pedido no qual o jornal alegava que Vieira deveria ser impedido de julgar o caso porque mantinha relacionamento pessoal com José Sarney.

Críticas

Entidades representativas da imprensa criticaram a decisão tomada, na quarta-feira, 22, pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal, que manteve a censura ao jornal. A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) considerou o fato "alarmante". "É incrível, a esta altura, que a censura prévia siga existindo no Brasil por decisão de alguns tribunais", disse Claudio Paolillo, presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP. "O caso que envolve o Estado e o empresário Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney, pode começar a competir pelos recordes Guiness devido à duração da censura. A informação que o jornal deseja publicar é de alto interesse público e de absoluta legitimidade jornalística, já que se trata de um caso de suposta corrupção com recursos públicos", acrescentou.

"É lamentável que o Tribunal de Justiça do Distrito Federal tenha tomado essa decisão", afirmou Ricardo Pedreira, diretor executivo da Associação Nacional dos Jornais (ANJ). "A ANJ considera isso um grande equívoco. O Supremo Tribunal Federal já se manifestou sobre o segredo de justiça, deixando claro que a obrigação de preservá-lo é dos agentes públicos, e de forma alguma deve se aplicar aos meios de comunicação. Esperamos que o Superior Tribunal de Justiça revise a decisão."

Transparência

Paula Martins, diretora da organização não governamental Artigo 19 para a América do Sul, afirmou que a decisão do TJ-DF "reitera o erro da determinação provisória que já impunha silêncio ao jornal". "É uma decisão absolutamente desproporcional, ao impedir de forma genérica qualquer manifestação do Estado sobre o caso, e que ignora totalmente o caráter intrinsecamente público do tema em discussão: possíveis atos de ilegalidade e corrupção."

A Artigo 19 é uma entidade que tem a defesa da liberdade de expressão uma de suas principais bandeiras. "Nesse tipo de caso, o debate aberto, transparente e amplamente público é essencial para garantir a pressão necessária para que as investigações cheguem ao final", destacou Paula Martins. "Não se trata de condenar de forma antecipada o acusado, mas de trazer à tona todas as ações tomadas para garantir o andamento efetivo das investigações."

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Marta Bellini, como diz o çabio Delfim Netto, os empresários brasileiros gostam de mamar no governo...

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Mãe boa ...


Imagem: do SOLDA
por Vladimir Safatle, 21.5.13
Estado-mãe
Os liberais gostam de criticar o Estado-providência por ver nele o paradigma de um funcionamento institucional da vida social que acomodaria os sujeitos a benefícios sem responsabilidades, desprovendo-os de capacidade de empreendedorismo e deixando-os sem coragem para assumir riscos. Tal como se fosse uma mãe superprotetora, tal Estado produziria apenas filhos letárgicos e sempre chorando por amparo.
É fato que há algo de verdadeiro nessa crítica ao caráter de "mãe má" próprio ao Estado-providência. Seu único problema é que ela erra de alvo quando procura identificar quem são, afinal, os filhos em questão. Vejam, por exemplo, o caso brasileiro. Na verdade, eis aí um verdadeiro Estado-providência, mas seus filhos são apenas certos setores da burguesia nacional e da sociedade civil associada ao governo. Há dois exemplos paradigmáticos ocorridos nas últimas semanas.
Durante os últimos anos, o governo investiu mais de R$ 1 bilhão na reforma do estádio do Maracanã. Obra feita a toque de caixa devido ao calendário da Copa do Mundo. Dias atrás, ficamos sabendo que um consórcio composto pela Odebrecht e pelo onipresente empresário Eike Batista ganhou o direito de administrar o estádio por (vejam só vocês) R$ 180 milhões pagáveis em 30 anos. Ou seja, só em reformas o Estado, principalmente via BNDES, gastou mais de R$ 1 bilhão para entregar a seus filhos, por menos de 20% do valor investido, um complexo esportivo com o qual nem mesmo o mais néscio dos administradores seria capaz de perder dinheiro.
Na mesma semana, descobrimos também que o governo paulista resolveu inventar um cartão que dá R$ 1.350,00 para viciados que queiram se internar em comunidades terapêuticas cadastradas. Nada de mais, à parte o Estado acabar por financiar comunidades terapêuticas privadas, normalmente vinculadas a igrejas e com abordagens "espirituais" de atendimento psicológico bastante questionáveis, enquanto sucateia vários Caps (Centro de Atenção Psicossocial) pelo Estado.
Assim caminha o paulatino abandono da capacidade governamental de formular políticas públicas em saúde mental. Mas pelo menos alguns de seus filhos, por coincidência com grande influência nos próximos embates eleitorais, serão amparados.
Diante da generalização de ações dessa natureza, há de perguntar se a crítica liberal clássica ao Estado-providência não é, no fundo, uma cortina de fumaça que visa esconder quem são os verdadeiros protegidos. O que demonstra como precisamos, na verdade, de uma crítica aos processos de privatização branca do Estado brasileiro. Privatização feita à base de negócios de mãe para filho.

Roque


Jornal do Terra, entrevista de Roberto Romano com Maria Lins.

Estado

Tucano não aprende a cuspir no 'burrai'




José Nêumanne
Aécio não vai ganhar se se limitar a reabilitar legado de Fernando Henrique e imitar Lula
O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), fundado a partir de uma dissidência paulista do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), foi embalado num berço socialista light, intelectualizado e grã-fino do “partido-ônibus” (em que sempre tem lugar para mais um) que comandou a resistência de dissidentes civis à ditadura militar. É, por isso, um mostrengo disforme, com uma cabeça imensa e pequenos pés de barro, incapazes de suportar a egolatria da cúpula. Diz-se, com razão, que tem caciques demais e índios de menos. Chefões destacam-se circunstancialmente: Fernando Henrique na Presidência da República, José Serra no repeteco de disputas eleitorais nacionais, estaduais e municipais em São Paulo.
Agora chegou a vez de Aécio Neves, presidente nacional, ex-governador bem-sucedido administrativa e eleitoralmente num Estado importante da Federação, Minas Gerais, senador e pule de dez para tentar tirar da chefia do governo a presidente petista, Dilma Rousseff. A seu favor conta com boa reputação como gestor em Minas, as vitórias sucessivas para o governo de seu Estado e a aliança bem-sucedida no comando da prefeitura da capital, Belo Horizonte, com um aliado eventual que pode virar adversário na mesma disputa: o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, senhor de baraço e cutelo do Partido Socialista Brasileiro (PSB), herdado do avô, Miguel Arraes.
Mas contra ele pesa sua inexpressiva atuação no Senado em dois anos e meio, em que muito pouco fez ou disse – de prático mesmo, absolutamente nada E há óbices maiores para realizar sua ambição. O partido que preside nunca foi nem está unido na luta por esse objetivo. O aliado Democratas (DEM) desmilinguiu, espremido pela ambição de um antigo militante de peso, o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, que levou para o Partido Social Democrata (PSD), que fundou, um número relevante de antigos correligionários dispostos a beijar a mão de Dilma.
Aécio assumiu o lugar a que não conseguiu chegar há quatro anos, quando perdeu a indicação para o ex-governador paulista José Serra. Seu avô, Tancredo Neves, ensinou que ninguém tem condições de disputar a Presidência se não unir o Estado de origem – e isso ele fez. Mas o mesmo não se pode dizer do PSDB. Aécio chegou prometendo resgatar o legado de Fernando Henrique, o único presidente que o partido teve e que ganhou as duas disputas de que participou no primeiro turno. Isso nunca foi levado em conta. Nem o fato de o tucano ter promovido a maior revolução social da História, com o Plano Real, que pôs fim à inflação e levou proteína à mesa da massa dos trabalhadores.
Isso de nada adiantou para a sonhada permanência do PSDB no poder. Fernando Henrique cruzou os braços na campanha de 2002, deixando Lula esmigalhar o sonho do tucano José Serra. Este, por sua vez, fez uma campanha como se o tal legado, que agora Aécio quer restaurar, fosse algo de que se envergonhar. Quatro anos depois, Lula reelegeu-se contra o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que chegou a vestir uma camiseta da Petrobrás para garantir que era mentiroso o boato de que privatizaria a maior estatal brasileira. Com isso passou ao eleitorado a mensagem de que a cúpula tucana tinha a privatização de Fernando Henrique na conta de titica. Na disputa contra Dilma, em 2010, Serra continuou cuspindo e pisando no melhor que o partido fizera.
Após 12 anos, tentar reabilitar a estabilidade, a austeridade fiscal e a privatização pode ser tarde demais. Até a estabilidade da moeda, uma conquista da Nação, e não de governo algum, parece ser um dado do passado distante, sob a ameaça da volta da inflação sem prejudicar os artífices desse prenúncio de desastre. Além disso, é inútil: o passado não elegerá Aécio. E ele não fala do futuro, que de fato interessa ao eleitor.
De tanto perder para Lula, o PSDB resolveu reagir a esse destino, que parece manifesto, imitando o que o maior adversário faz. Alckmin sugeriu que Aécio repita as caravanas da cidadania do petista-mor como estratégia eleitoral. A intenção é maravilhosa: há muito tempo os tucanos precisam mesmo de um banho de povo. A prática pode não ser, contudo, eficaz. Não basta visitar alguém para conhecê-lo bem. Como dizia um sábio conterrâneo de Tancredo e Aécio, o coronel Francisco Cambraia de Campos, Chichico Cambraia, de Oliveira, o bom político se conhece na cuspida no “burrai”. Ou seja, tem de entrar na casa do eleitor, sentar-se à beira do fogo, tomar um café demorado até esfriar e cuspir no borralho. Quanto mais cusparadas, melhor! Não basta o candidato se fazer conhecer. Ele tem de conhecer o eleitor.
Luiz Inácio Lula da Silva voltou de suas caravanas conhecido e conhecedor do Brasil. Elas lhe permitiram aprender com suas derrotas seguidas, uma para Fernando Collor e duas para Fernando Henrique. Os tucanos não têm demonstrado a mesma capacidade. Talvez fosse menos difícil convencer o adversário-mor a disputar a Presidência pelo PSDB do que tirar proveito das estratégias contra ele próprio e sua afilhada.
Ora, direis, isso é impossível! E é. Mas quem garante ser mais possível convencer o cacique José Serra a se empenhar para valer na campanha de Aécio, que nada fez por ele na disputa contra Dilma? Os sinais de má vontade que Serra tem dado de público deverão repetir-se na campanha. Pois o paulista atribui em parte sua derrota ao desinteresse do mineiro em 2010. Não deixa de ter razão. Mas não tirará proveito dela, pois seu futuro depende do êxito do outro. E se a economia não derreter, Dilma se reelegerá com facilidade, restando aos tucanos parodiar o mantra dos metalúrgicos do ABC, liderados por Lula, nos anos 70 e 80. Eles diziam: “O povo unido jamais será vencido”. E os tucanos entoarão: “O PSDB desunido será sempre vencido”.
Jornalista, poeta e escritor
(Publicado na Pag. A2 do Estado de S. Paulo da quata-feira 22 de maio de 2013)

Diante do inominável, a ANAC petista "pede"explicações dos selvagens "capitalistas". É o fim do mundo!

Ribeirão Preto

22/05/2013 - 05h17

Anac pede explicações à Azul após cegos serem barrados em voo

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VENCESLAU BORLINA FILHO
DE RIBEIRÃO PRETO

A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) pediu explicações à Azul Linhas Aéreas por ter impedido o embarque de três cegos em um voo de Ribeirão Preto (313 km de São Paulo) a Belo Horizonte (MG), no último domingo (19). 

Os deficientes visuais participaram de um campeonato em Altinópolis, no final de semana, e estavam na sala de embarque do aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão, quando foram impedidos pelo comandante de entrar na aeronave.
A empresa alegou motivo de segurança para a medida. Os três foram encaminhados para um hotel da cidade e embarcaram no dia seguinte, porém em três voos diferentes. 

O último só conseguiu entrar no avião rumo a Belo Horizonte 24 horas depois do primeiro voo.
Segundo os cegos, a Azul agiu com preconceito e não ofereceu alternativas ou um questionário onde pudessem informar sobre o problema. A empresa nega. 

Um deles afirmou que vai solicitar indenização à Justiça por danos morais sofridos. 

"Houve constrangimento porque nos impediram de embarcar na sala de embarque. Vou entrar na Justiça com uma ação por danos morais para que esse preconceito não se repita", disse o analista de sistemas Crisolon Terto Vilas Boas, 54. 

Ele afirmou que já viajou a 28 países e que essa foi a primeira vez que foi barrado. "Nunca tive problema e nunca fui perguntado se era deficiente. Em algumas ocasiões [em voos em outros países], houve reforço na tripulação." 

Vilas Boas contou inclusive que, num campeonato de xadrez para pessoas com deficiência visual na Polônia, um grupo de 192 cegos pegou um único voo da Air France com destino à Alemanha e que não houve incidente. 

"Sou 100% cego e não preciso de ajuda para me locomover. Sempre viajei sozinho e não teria problemas dessa vez", disse ele, que embarcou apenas às 18h de segunda-feira (20). 

'VETO SEM MOTIVO'
 
O enxadrista Davi de Souza Lopes, 36, afirmou que viaja muito e que nunca havia passado por essa situação. "Apesar de ser 100% cego, tenho uma mobilidade muito boa, uma noção de espaço boa."
Ele contou que as empresas aéreas têm que ter uma atenção maior com deficientes, mas que houve exagero da Azul. "A atenção é a mesma para os cegos. Se conduz um, conduz dois, três, cinco. Na prática, essa proibição não tem motivo", disse. 

A terceira enxadrista, a assistente de vendas Priscila Melo Cândido, 21, afirmou que comprou o bilhete pela internet e que em nenhum momento foi questionada se ela é deficiente visual.
Um estudo realizado no aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto, apontou que dos 26 pontos verificados quanto a conforto, segurança e acessibilidade, 13 foram classificados insuficientes.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Roberto Romano: A mulher e a Desrazão Ocidental. Uma retomada que ofereço à Marta Bellini.


O texto abaixo foi publicado pela primeira vez no Folhetim da Folha de São Paulo, em 03/04/1987, pp. 5-7. Depois integrou a coletânea intitulada Lux in Tenebris (Unicamp/Cortez, 1987). Eu o copiei e o publico neste Blog, com alguns acréscimos, sobretudo nas referências bibliográficas. Acho que num país onde as mulheres ainda são massacradas pelos seus maridos, namorados, amantes, e onde o machismo  impera no Estado (nas suas três faces, Executiva, Legislativa, Judiciária), é preciso pensar sobre as raízes venenosas que nutrem semelhante cultura da morte. Nada falo de fanatismos exteriores ao pensamento cristão. Creio que os fatos, nas estruturas sob o controle supostamente islâmico, são tão graves quanto os vividos no catolicismo ou protestantismo. Mas genocídio é genocídio, qualquer que seja o símbolo que o justifica, se a cruz, se o crescente. RR




A mulher e a desrazão ocidental

Roberto Romano

“Chamamos contra a natureza o que ocorre contra o costume (…)
Que esta razão universal e natural expulse de nós o erro e
o espanto trazidos pela novidade”(Montaigne, D’un enfant monstrueux).




Razões e lógica não raro engendram monstros. Acostumados a certas identificações entre figura e fundo, os virtuosos eternizam sínteses efêmeras ao produzirem atos e falas. Controlando o mutável, o intelecto agarra todas as manifestações espirituais alheias às normas. Heidegger: nas sociedades onde se olvidou o Ser e o tempo o mando impiedoso do “se” opaco define as relações dos humanos entre sí e com a natureza. Face ao inesperado, surgem gargalhadas mordentes e recusa espantada, ironia voraz e anátema fanático. Reações conformes à regra impessoal e absurda : aqui “nós” pensamos assim.

Definidas as formas corretas, desviantes são lançados no registro da morte e doença. Vítimas propiciatórias, cuja missão é corrigir o curso normal da existência. Para acalmar a sede inesgotável de segurança, que permeia as dobras da alma ocidental e cristã, foi preciso produzir para tudo, e todos, um “significado” estável. A doença, como a monstruosidade, arranca o filistino deste conforto ideal, ameaçando seu Ego pequeno com a pura insignificância do zero absoluto, a morte. Com ela, ficam claras as linhas assintóticas que deslizam entre forma e conteúdo, fazendo a vida inteira brotar como infinita surpresa, anamorfose.

Vemos hoje, ao lado das habituais presenças da morte, a desagregação causada pela AIDS. Atingindo sua pessoas que sempre estiveram for a das trilhas oficiais, da “normalidade”, sua irrupção espalha o terror entre os apologetas do costumeiro e da moral. Os seus portadores são empurrados para o deserto, carregando todas as angústias sociais. Não comovem as iniciativas eclesiásticas para instalar um hospital isolado, visando ao tratamento dos novos monstros: “o religioso”, diz René Girard, visa sempre o controle da violência, impedindo-a de se desencadear”. Administração das fobias populares, não significa abolir seu perigo latente. Pelo contrário: o poder religioso, com seus mandamentos terroristas, gera fúrias punitivas. Controlando racionalmente os impulsos primitivos, o padre define limites para a tolerância caridosa, mas idealiza a figura do Outro a ser expulso pelos zelotas. Quando a loucura coletiva escapa das mãos ungidas ( e untuosas), o Estado assume o comando do sacrifício ritual. Sacralidade identifica-se com separação.

Sábias frases de Girard: “o relacionamento entre a vítima potencial e a vítima atual não deve ser definido em termos de culpa ou inocência. Nada há para ser ‘expiado’. A sociedade procura desviar, em direção a uma vítima indiferente, vítima ‘sacrificável’, a violência que ameaça ferir seus próprios membros, os que ela pretende proteger acima de tudo”. Lí, recentemente, o seguinte comentário: “Se não for controlada, a AIDS destruirá toda a humanidade antes do século 21. O governo, com a dengue, mata os mosquitos e não busca ‘compreendê-los’. Com a AIDS o mesmo deve ser feito. Urge extinguir os homossexuais, os drogados, etc.”. Tamanha solicitude encontra-se numa revista protestante que, por ironia, chama-se Palavra da Vida.   

Se a norma fosse o horror, a própria identidade, hoje costumeira, seria um acaso na voragem do existente. Puro jogo, racional e irracional. O que fascina no monstro é seu desafio à percepção estulta do necessário. O ser que está aí, na sua irredutível diferença, não é passível de justificação lógica. Diante dele o discurso se esgarça, perde o sentido. Surge o desejo e a inveja: ele não está preso pelo banal, o bom senso cotidiano, o “se”.

O medo, o pavor da morte em vida, o desespero do lugar comum se desdobram, face ao monstruoso, em delírio povoado por fantasmas. A maneira estranha de corpos e ações impressiona o intelecto pelo artifício da memória e do sonho. Esmaecem as fronteiras entre consciência e alienação, tempo e espaço, masculino e feminino. As palavras adquirem a superfície singela do físico, de sons que, reunidos, significam o Nada.

Pergunta Hamlet: “que é um homem?”. Única resposta possível : “a beast, no more”. A razão pode ser dita de muitos modos, bem como a necessidade por ela determinada. São tênues os cordões entre o mais refinado convívio democrático e a violência tirânica dos humanos, sem nenhuma exceção, salvo a dos hipócritas:
                                               
Parecemos alegres, mas no fundo somos todos mal-humorados, e temos grande apetite. Lobos não são mais esfaimados; tigres são menos cruéis. Devoramos como lobos (…) como tigres, tudo o que é bem sucedido (Diderot. O Sobrinho de Rameau).


O próprio diabo teme a racionalidade quando exercida para a destruição do Outro : “Er nenn’ts Vernunft und braucht’s allein, Nur tierischer als jedes Tier zu sein”. (Goethe, Fausto).

Estas reflexões sobre o monstro e a necessidade, a inteligência nos seus brilhos e sombras, o natural e o costumeiro  physis e nomos  surgem ao considerarmos certos homens e mulheres jogados a toda hora no fogo propiciatório. Refiro-me aos indivíduos denominados Aussenseiter por Hans Meyer: o judeu, a mulher, o homossexual. Os três foram estigmatizados pela marca da monstruosidade, perseguidos pelas inquisições e também pela política totalitária. As maneiras de seu holocausto variaram. Mas o ímpeto de abafar, de forma racional, sine ira et studio, sua existência ameaçadora, se origina já nas primeiras representações masculinizantes do Ocidente, potenciando-se com a unidade entre o Logos da Grécia e a catequese cristã.

No Simpósio sobre a Inquisição, cuja primeira parte já se efetivou em Portugal (a segunda se realizará brevemente no Brasil), muito se falou, e se discutirá, sobre a razão eclesiástico-estatal e seus perseguidos. Muita luz será lançada em pontos sórdidos do catolicismo, várias hermenêuticas serão revistas, documentos encontrarão explicações mais concretas. Comunicações sobre os judeus, os heterodoxos sexuais, as mulheres acusadas de bruxaria, serão lidas e publicadas para refrescar a memória das bestas feras e para reconforto dos humilhados.

Evocando o signo da monstruosidade, agora, pretendo apenas chamar a atenção para as figurações lógicas do Necessário, tecidas pelo pensamento masculinizante e suas consequências terríveis, sobretudo para as mulheres. Não por acaso as bruxas serviram como alvo exemplar na moderna domesticação feminina. Os famosos K (Kirche, Küche, Kinder), símbolo do nazismo, não caíram na Alemanha e no mundo como raio em dia claro. Tiveram atrás de si uma lenta e cruel elaboração teórica que, somada à disciplina costumeira e às injunções da fé, encerrou as mulheres nos estábulos da moralidade viril, enquanto seus parceiros de exclusão foram arrastados para os campos e fornos crematórios.

Os monstros, diz o crítico contemporâneo, não brilham sob a luz do imperativo categórico kantiano: sua atividade não se converte em norma universal. Assim, ou é preciso pensar o próprio estatuto da teratologia ou identificá-la ao Todo natural, predicando-lhe essencialmente a falsidade. O regular, no humano, é apenas aparente.

Consta a humanidade (…) só de elementos igualitários, homens, mulheres, raças, complexos espirituais, corporais, anímicos? Ou mais exatamente: os monstros de toda espécie entram na Humanidade de forma que também para eles esteja destinada a luz da Aufklärung? Esta fracassou, até hoje, diante desta antinomia. Falhou face aos marginalizados (Hans Mayer).

O mesmo Kant, que defendeu a saída corajosa da Humanidade de seu estado infantil, menor, mantém este último para a mulher, assim definindo seu estatuto:

Para a (…) indissociabilidade de uma união, o encontro ocasional de duas pessoas não basta; um elemento deve  submeter o outro, e, recíprocamente, deve ser superior para poder comandar e governar (…)  a mulher, pela faculdade natural de submeter-se à inclinação que o homem tem por ela e a governar  (Antropologia do ponto de vista pragmático). ([1])

O controle utiliza a máscara da natureza. Se há repressão do mais forte sobre o mais fraco, é culpa da sábia Natura. Se quisermos modificar este ponto, loucos seremos nós.

Sigo a citação do famoso iluminista:

Não é possível caracterizar o sexo feminino pelo fim que propomos a nós mesmos, mas servindo-nos do fim da natureza, na constituição da feminilidade; uma vez que este fim, por meio da loucura (Torheit) dos homens, deve ser sabedoria segundo as intenções da natureza, estes fins supostos poderão servir para indicar o princípio desta característica : este princípio não depende de nossa escolha, mas de uma intenção mais elevada relativa à sexualidade humana. Trata-se: a) da conservação da espécie; b) da cultura da sociedade e de seu refinamento pela feminilidade. (op. cit). ([2])

Se há um plano onde não ocorreu a “revolução copernicana”, é este. Ainda notamos, aqui, a sombra de um ente exterior , a “natureza”, intrometendo-se nas relações dos sujeitos humanos. Neste palimpsesto filosófico revela-se, sob a camada crítica, a doutrina aristotélica dos “fins naturais”e sua meticulosa necessidade interna.

Lembremos a Física: “Natural é aquilo que tem em si mesmo um princípio de movimento ou de fixidez, uns quanto ao lugar, os outros quanto ao crescimento ou diminuição” ([3]) O perfeito possui em si mesmo o seu próprio fim. Que significa o vocábulo “mulher”? A resposta carregada pelo saber masculino foi dada de modo interrogativo e maroto por Rabelais: “o que faz o lobo sair do bosque? Falta de carne. O que torna as mulheres rebeldes? Vós me compreendeis muito bem”. A mulher não se pertenceria, sendo submetida aos movimentos das paixões que nela se agitam de acordo com a sua natureza geradora, “para o bem da espécie”.

A essência da mulher seria uterina. A matriz genital engendra humores:

Quando o flegma ácido ou salgado, ou quando humores amargos e biliosos, quaisquer que eles sejam, erram pelo corpo sem encontrar uma via de escape e, girando pelo interior o impregnam fortemente com sua humidade, misturando-se uns aos outros (…) produzem doenças de toda espécie na alma, mais menos fortes, mais ou menos numerosas”(Galeno).

Considerada a sua peça mais importante, a doença feminina por excelência é a histeria, “sufocação da matriz”. Em Aristóteles o útero é o orgão essencial da mulher. Mas ele nao produz semente fértil, pois a mulher gere e não gera o embrião. Procriar um garoto é sinal de perfeito acabamento. Já o contrário…([4]) Não se trata apenas de uma antropologia, mas de um sistema masculinizante que abrange o universo. Aristóteles explica: os termos “macho”e “fêmea”usados pelos homens comuns para designar o cosmos mostram bem que “a natureza da terra é algo feminino e por isto ela é chamada ‘mãe’. Eles dão ao céu e ao Sol e tudo o mais desta espécie o título de ‘gerador’ e ‘pai’ (Geração dos Animais, 716a). ([5])

O macho possui o princípio (arché) do movimento e da geração. A fêmea, o princípio da matéria (hylé). O macho gera em outro, a fêmea em si mesma. Assim, macho e fêmea diferem segundo seu próprio logos. Na fêmea a parte especial é o útero e no macho os testículos e o pênis. Dedução política da taxinomia: o homem é superior à mulher pelo uso do logos. “A relação do macho face à fêmea é naturalmente a de superior para inferior, o macho é o governante, a fêmea é súdito” (Política, 1254b). No mesmo trecho, o filósofo estabelece relação homóloga entre senhor e escravo. ([6])

A fêmea fornece a matéria, o macho a forma. A matéria cobiça a forma (a natureza busca o melhor…) “como a fêmea deseja o macho e o feio, o bonito”(Física, 192a). ([7]) A semente masculina supre o princípio ativo da geração e da alma racional e sensitiva. A mulher, macho infértil ou “macho deformado” tem descarga menstrual que é sêmen “em condição impura; falta-lhe um constituinte e um apenas, o princípio da alma” (Geração dos Animais, 737a) ([8])

Na Idade Média Santo Alberto Magno afirma : para a produção de um feto masculino, semelhante ao pai, é preciso “uma vitória total da semente viril sobre a matéria feminina”. O tema é tratado nas “Questões sobre os animais”. ([9]) Para Tomás de Aquino a mulher (mas occasionatus, homem falho) é naturalmente sujeita ao homem porque neste último predominaria a faculdade racional. Deus, em sua sabedoria, deixou o homem livre para perseguir fins intelectuais, superiores à capacidade da mulher. “Nisi ergo esset aliqua virtus quae intenderet femineum sexum, generation feminae esset omnino a casu, sicut et aliorum monstrorum”. (Questiones Disputatae De Veritate 5, 9, d. 9) Ou seja: “Se não fosse por algum poder que trouxe o sexo feminino à existência, o nascimento da mulher bem poderia ser um outro acidente, como o dos monstros”. ([10])

O homem é em si e para si, a mulher é apenas em outro. Logo, trata-se de um ser imperfeito definido por uma das suas partes. Famosa é a distinção do tratado hipocrático De locis in homine, 47 : “o útero é a causa de todas as doenças da mulher”. ([11]) O aforismo percorreu todo o saber médico até data recente. Se abrirmos o livro de Frei Antonio de Fientelapeña, El ente dilucidado, tratado de monstruos y fantasmas (1676), veremos o frade refutando uma opinião espalhada em seu tempo. Poder-se-á instar, diz ele, “que também a mulher é monstro e prvá-lo assim: a causa de uma coisa monstruosa segundo Aristóteles (…) provém de não alcançar a natureza seu fim perfeitamente, que é o de engendrar cada um o seu semelhante, de sorte que, não o alcançando, é monstro o que se engendra segundo aquela parte em que se diferencia de seu princípio. As mulheres não chegam à perfeição de seu gerador que é o homem. Logo, de algum modo, elas são monstros”. ([12])

Embora negando tal extremo o religioso citado aduz, em poucas palavras que o

Sexo masculino é mais perfeito (…) pois a mulher está sujeita ao varão e não o contrário, e as mulheres são incapazes para o sacramento da Ordem por direito divino (…) isto é tão certo que alguns quiseram dizer que na Ressurreição geral, toda a linhagem humana ressuscitaria no sexo viril… (idem).

Rondibilis, personagem de Rabelais, diz o seguinte das mulheres:

Platão[13] não sabe em que lugar devemos colocá-las: ou entre os racionais ou entre as feras; pois a natureza lhes colocou no interior do corpo (…) um animal, um membro não possuído pelos homens. Nele, algumas vezes se engendram ceros humores nitrosos (…) acres, mordentes, lancinantes, que coçam com amargor. Por sua picada dolorosa (…) todo o corpo é abalado, tomados todos os sentidos, todas as afecções substituídas, todos os pensamentos confundidos; se a natureza não lhes tivesse colocado sobre o rosto um pouco de vergonha, vós a veríeis correr (…) como nas Bacanais… ([14])


Histéricas, as mulheres vivem para o acasalamento, onde encontram cura para seu mal, sob domínio do corpo e da fala masculinos. Dito já recolhido por Jean de Meung de forma satírica: Toutes estes, serez ou futes/ De fait ou de volonté putes. Doutrina da histeria já enunciada pelos egipcios, vinte séculos antes de Cristo e ampliada nos seus “refinamentos. Cura proposta por Ambroise Paré no século 16 de uma histérica: “Tire-se os cabelos de suas temporas e os localizados atrás do pescoço ou então o das suas parte vergonhosas, a fim de que não apenas ela seja despertada mas ainda que, pela dor excitada embaixo, o vapor que sobe para o alto e a sufoca seja retirado e trazido para baixo por revulsão”. O autor que cita uma longa série desses tratamentos  assim se exprime de forma distinta:

Claro, esta concepção da doença histérica nos parece insólita –e no entanto a cura que ela sugere vale mais do que as fogueiras das bruxas acesas às centenas no momento em que surge a obra de Ambroise Paré. Além disso, sob uma forma simplificada este tratamento durou até o século 20. Os vidros de ‘sais’amoníacos que toda mulher do mundo deveria ter em caso de vapores, nada mais eram afinal em seu princípio ativo do que as ‘velhas urinas’ que Areteu da Capdócia aplicava nas narinas de suas pacientes, no primeiro século de nossa era.([15])


Constatação banal: nos últimos dias do século 19 os Annales médico psychologiques trazem novas figuras do tratamento. Não mais agir sobre o útero, mas causar terror na sua proprietária:

Se ameaça, com efeito, a doente de lhes colocar ferros em brasa nos ovários, indo até, para garantir a ilusão, a lhe aplicar sobre o abdomem o cautério, ‘subrepticiamente esfriado’(idem).

Se esta é a concepção do espírito do renascimento e na da modernidade “progressista”, por que o espanto se, em 1486, na pena dos inquisidores dominicanos a mulher é considerada como a principal acolhedora do demônio enquanto feiticeira, justamente devido ao seu fraco intelecto e à sua excessiva luxúria? Assim diz o Malleus Maleficarum, uma das grandes manchas na história do catolicismo: “toda feitiçaria nasce da luxúria carnal e esta, nas mulheres é insaciável. Leia-se Provérbios XXX : ‘Há três coisas que nunca estão satisfeitas’ sim, e uma quarta que não é dita, e que é o bastante, a lingua do ventre. Para satisfazer sua luxúria elas unem-se sempre com os diabos”.  Como discute Brian Easlea parafraseando o Malleus : “os demônios são onipresentes. Em particular como súcubos eles visitam os feiticeiros masculinos à noite, e de cujo sêmen usam, agora como íncubos, para impregnar fêmeas feiticeiras e, pois, aumentar o número dos servos de Satã”. ([16])

A conclusão genocida e religiosa (nos século 16 e 17 os crimes de feiticaria imputados às mulheres produziram mais condenações à morte do que todos os demais crimes reunidos)  recolhe toda uma sistematização racional sobre a mulher, sua essência e qualidade. Mas, como ainda mostra Brian Easlea, trata-se de uma ratio masculinizante mais do que machista. Não se reúnem naquela fala apenas o preconceito e a truculência, ditados por conjunturas das várias sociedades e suas experiências econômicas ou políticas/ É uma fria forma mentis transformada em transcendental, verdadeiro a priori nos livros e atos modernos. Mesmo Trevor Roper, tão preocupado em denunciar o terror inquisitorial, aceita sem maiores prudências a tese da histeria na versão de Vicente de Moray para explicar a bruxaria. “O diabólico íncubo é apenas a forma do século 16 de um tipo de histeria sexual, familiar para todo psiquiatra do século 20”. Ou então

No passado, os neuróticos e histéricos da cristandade centralizaram suas ilusões ao redor da figura do Diabo, como os místicos centralizaram as suas ao redor de Deus ou Cristo ([17])

Este conjunto ideal tornou-se avassalador pela aceitação feminina de sua própria figura, astuciosamente construída pelo homem:

A imagem da mulher significa a imagem masculina que a mulher toma, aceita voluntariamente e imita, até o ponto de poder apresentar, de fato, esta imagem para si mesmam como se ela fosse a imagem feminina. (Hans Mayer, comentando o livro de Pascal Lainé, La femme et ses images).

Da cosmologia masculinizante à antropologia que assegura a forma feminina como imperfeição, seguindo-se a consequência violenta de sua minoridade politico-social e sua constante qualidade de ente adoecido, histérico, chegamos ao Malleus maleficarum. Nada há, substancialmente que separe a recta ratio do fanatismo praticado por machos responsáveis pela purificação mental e corpórea do gênero humano. Isto foi justificado por filósofos, de Aristóteles até Kant. Sobre este último diz certeiramente Gérard Lebrun:

Com efeito, como poderia a razão orientar a ação humana, se não propusesse a esta última pelo menos o equivalente de uma certeza teórica? É justamente isto que torna tão ambiguo, em Kant, o estatuto da ‘existência de Deus’ ou da ‘imortalidade da alma’ enquanto postulados práticos. Certamente, já não se trata de enunciados teóricos, mas de enunciados pseudo-teóricos são autorizados pela razão prática. O que não temos direito de afirmar teoricamente, diz Kant, devemos pelo menos admitir como real em função do interesse prático. ([18])

O que diz Lebrun sobre “Deus” ou “imortalidade da alma”, pode ser enunciado para o estatuto da mulher na Antropologia kantiana. Trata-se certamente de fórmulas pseudo-teóricas mas com uma história muito antiga. Aliás, serve também para nosso assunto a conclusão que tira Lebrun da estranha idéia de uma razão prática: “A este respeito”, diz ele, “podemos nos perguntar se a idéia de ‘postulação prática’ não contem em germe a justificação de muitos fanatismos. O que é um fanatismo senão o fato de aceitar a contaminação da teoria pelo interesse prático?”. O teólogo, canonista e intelectual formado na escola aristotélica, Kramer, autor do Malleus, bem poderia responder a esta interrogação….

Entre a austera filosofia de Aristóteles e suas consequências, se estabelecem atos loucos, estarrecedores recolhidos por Trevor-Roper, Robert Mandrou, Keith Thomas, Norman Cohn e todos os autores sensíveis e inteligentes horrorizados com o crime definido e feito em nome da Fé e da Razão por sacerdotes da Igreja e de certa ciência. Nem todos pensaram e agiram deste modo. Mas o “nós”, o costume, garantiu a predominância do maior número. E não foi só no registro filosófico ou histórico que tal misoginia trouxe graves consequências. Basta ler os escritos de Mario Praz (La carne, la morte e il diavolo nella litteratura romantica), Shoshana Felman (La folie et la chose littéraire, e também Le scandale du corps parlant), Hans Mayer (Aussenseiter). Alí, de forma plasticamente superior discutem-se as metamorfoses do monstro sem alma (como quer Aristóteles)  nas figuras de Judite, Dalila e Salomé ([19]) passando por Lady Macbeth, Joana d’Arc e atingindo Lulu, todas mulheres vampiro (este, como a fêmea na sabedoria masculinizante, vive em outro, sua vítima), do teatro e cinema.

Hoje, no Brasil, as mulheres buscam definir seu espaço político. Não se animem as inteligentes que nesta tarefa pretendem encontrar alguma ajuda na filosofia “dialética”. Basta abrir a Filosofia do Direito hegeliana, escrita situada entre as mais tolas da razão ocidental, para perder as ilusões.

Se as mulheres estão no ápice do governo, o Estado corre perigo pois elas não agem segundo as exigências do Universal mas segundo inclinações e opiniões contingentes. A formação das mulheres se faz, não sabemos bem como, por impregnação da atmosfera difundida pela representação, ou seja, mais pelas circunstâncias da vida do que pela aquisição de conhecimentos. O homem, ao contrário, só impõe a si mesmo pela conquista do pensamento e numerosos esforços de ordem técnica. (§ 166, nota).

A irmã de Hegel enlouqueceu. “Ela acreditava ter-se transformado num pacote que, selado, seria posto no Correio; a cada vez que percebia um estranho, tremia com todos os seus membros; terminou jogando-se na água”. ([20]) Com semelhante irmão, este era o único fim previsível. Hoje, felizmente, o eixo da racionalidade inclina-se para as mulheres. Resta esperar que elas não o forcem demasiado, para si. A reação poderá ser violenta, como a definida em dois mil anos de racionalismo cristão, em conúbio com a tese aristotélica da vida. E da morte…

Roberto Romano da Silva
Professor do Departamento de Filosofia, Unicamp.




[1] “Zur Einheit und Unauflöslichkeit einer Verbindung ist das beliebige Zusammentreten zweier Personen nicht hinreichend; ein Theil musst dem andern unterworfen und wechselseitig einer dem andern irgendworin überlegen sein, um ihn beherrschen oder regieren zu können”.

[2] “Mann kann dadurch, dass man, nicht was wir uns zum Zweck machen, sondern was Zweck der Natur bei Einrichtung der Weiblichkeit war, als Princip braucht, zu der Charakteristik dieses Geschlechts gelangen, und da dieser Zweck selbst vermittelst der Thorheit der Menschen doch der Naturabsicht nach Weisheit sein muss: so werden diese ihre muthmasslichen Zwecke auch das Princip derselben anzugeben dienen können, welches nicht von unserer Wahl, sondern von einer höheren Absicht mit dem menschlichen Geschlecht abhäng. Sie sind 1. Die Erhaltung der Art, 2. Die Cultur der Gesellschaft und Verfeinerung derselben durch die Weiblichkeit”.  


[3] Livro II, 192b in Aristote, Physique (Paris, Belles Lettres, 1952), p.58.
[4] Knibiehler, Yvonne e Fouquet, Catherine : La femme et les medecins (Paris, Hachette, 1983), p. 33.
[5] Cf. Aristotle, Generation of animals in Loeb Classical Library, V. XIII (Cambridge, Harvard University Press, MCMLXXIX), p. 10. “Segundo Aristoteles (Geração dos animais, 716a, 727a–729b, 765b) a fêmea proporciona não só espaço mas também a matéria para o desenvolvimento do embrião. Esta matéria, no entanto, é vista como totalmente passiva;  o macho supre o princípio do movimento e da vida. A geração ocorre quando o ingrediente ativo, o sêmen, entra em contacto com o sangue menstrual e dá forma a este material inerte. A criança, diz o filósofo, pode ser dita originária do pai e da mãe apenas no sentido de que uma cama tem origem no lenho e no carpinteiro. Esta análise do processo reprodutivo é baseado na crença aristotélica sobre a inferioridade essencial da mulher: ‘a mulher é um macho infértil. Ela é mulher, de fato, devido a um tipo de inadequação’(Geração dos Animais, 728a). Blundell, Sueli : Women in Ancient Greece (Harvard University Press, 1995) p. 106
[6] Todo o contexto elogia a dominação do homem sobre animais, escravos, mulher. A passagem inteira fala da vantagem para o dominado (corpo, animal, escravo mulher) em ser dominado. Cf. Política, I, II, 9-13, 1254b:  Aristotle Politics in Loeb Classical Library, V. XXI, pp. 20-21. Cf. Easlea, Brian: Witch-hunting Magic & the new philosophy, an introduction to the debates of the scientific Revolution, 1450-1750 (Sussex, Harvest Press, 1980). Retiro a maior parte destes pontos daquela obra.
[7] Cf. Stephen David Ross: The gift of touch: embodying the good (Albany, State of New York Press, 1998). p. 60 e ss.
[8] Cf. Aristóteles, Geração dos Animais in Loeb Classical Library, XIII, pp. 174-175. Cf. Allen, Prudence: “Woman as infertile, imperfect and deformed man”in The concept of Woman, the aristotelian revolution, 750B.C. –A.D. 1250 (Michigan, B. Eerdmans Publishing &Co. 1985), p. 95 e ss.
[9] Jacquart, Danielle e Thomasset, Claude: Sexualité et savor médical au Moyen Âge (Paris, PUF, 1985), p. 194. Cf. Albert the Great, Questions concerning Aristotle’s on Animals, in The fathers of the Church (Washington, The Catholic University of America Press, 2008).
[10] 9. Differentiation of the sexes must be attributed to celestial causes. Our reason for saying this is as follows: Every agent tends to form to its own likeness, as far as possible, that which is passive in its respect. Accordingly, the active principle in the male seed always tends toward the generation of a male offspring, which is more perfect than the female. From this it follows that conception of female offspring is something of an accident in the order of nature-in so far, at least, as it is not the result of the natural causality of the particular agent. Therefore, if there were no other natural influence at work tending toward the conception of female offspring, such conception would be wholly outside the design of nature, as is the case with what we call “monstrous” births. And so it is said that, although the conception of female offspring is not the natural result of the efficient causality of the particular nature at work—for which reason the female is sometimes spoken of as an “accidental male”—nevertheless, the conception of female offspring is the natural result of universal nature; that is, it is due to the influence of a heavenly body, as Avicenna suggests.” De veritate, Sobre a Providência, in Questiones Disputatae de Veritate, by Thomas Aquinas, Html edition by Joseph Kenny, O.P. http://dhspriory.org/thomas/QDdeVer.htm

[11] Elaine Hobby (ed.) The midwives Book, or the whole art of midwifry discovered (Oxford, University Press, 1999),  p. 100; Manuli, P. “Fisiologia e patologia del femminile”in III Colloque International Hippocratique, Grmek, M.D. (ed.) :  Hippocratica (Paris, CNRS, 1980), p. 397. Cf. Helen King: “Once upon a text: hysteria from Hippocrates” in Sander L. Gilman (e outros, ed.) Hysteria before Freud (Berkeley, University of California Press, 1993), p. 3 e ss.
[12] Madrid, Ed. Nacional, re-edição de 1978, pp. 162-163.
[13] Timeu, 42 e 90c-91d. Como demonstra Charpentier (nota abaixo), em Platão os dois sexos possuem uma espécie de animal dentro de si que não escuta  a razão no desejo do acasalamento para procriar.  É conhecida a diferença entre o pensamento de Platão sobre as mulheres e os pósteros, a começar com Aristóteles.
[14] Pantagruel, Livro Terceiro capítulo 32. Cf. Charpentier, Françoise: “Notes pour le Tiers Livre de Rabelais, chap. 32: le discours de Rondibilis”in Revue Belge de philologie et d’histoire, 1976, volume 54, pp. 780-796
[15] Morel, P. e Quêtel, Cl, : Les médecins de la folie (Paris, Hachette, 1985), pp. 34-35.
[16] (Tradução inglêsa editada por Digireads. Com Book, 2009). Em 1490 O Malleus foi posto no Index librorum prohibitorum, livros vetados pela Igreja, mas os estragos foram feitos.
[17] Trevor-Roper, H. R. : The european Witch-Craze of the 16th and 17th Centuries (Penguin /books, 1969), pp. 50-53. Sob outro aspecto, cf. Céard, J.: “Folie et démonologie au XVIe siècle” in Folie et déraison à la renaissance (Paris, Vrin, 1976), pp. 129 e ss.
[18] Passeios ao Léu (São Paulo, Brasiliense, 1983), p. 71.
[19] Cf. o belo estudo de René Girard, “La danse de Salomé”in L ‘auto-organisation, de la physique au politique (Paris, Seuil, 1983), p. 336 e ss.
[20] Grasset, Idées médicales (Paris, Plon, 1910), p. 282.