quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Correio Popular de Campinas, 07 de janeiro de 2009

Publicada em 7/1/2009


Gaza: uma reflexão

Roberto Romano

A batalha de Gaza mostra que não desapareceu a razão de Estado que brota do Inferno no século 17 e cujas raízes penetram as sombras das eras. O poder estatal promete a proteção da vida aos subordinados. Em troca, exige a sua morte. A barganha designa o “monopólio da força física”, sobre o qual muitos juristas tagarelam sem captar o seu tremendo sentido.

Com a moderna política, cada indivíduo só tem segurança se estiver integrado no corpo estatal. Em Hobbes, o cidadão perde o direito de seguir a sua consciência contra o Estado. A ficção do pacto diz que todos assumem a sujeição comum ao soberano. “A personalidade inteira do povo passa sem reserva alguma à do soberano, seja esta a personalidade física de um indivíduo, seja ela a personalidade artificial de uma assembleia. Só nesta última e por esta última o povo é pessoa, enquanto é apenas uma simples multidão sem ela e, portanto, não pode ser pensado como sujeito de qualquer direito diante do soberano” (Otto Gierke).

Hobbes traduziu a Guerra do Peloponeso e o episódio central nas teorias sobre a razão de Estado (Livro V, 84 ss). A ilha de Melos queria a neutralidade na luta entre as potências gregas. Os líderes de Atenas lhe impõem um interrogatório com o quesito único: Melos deve se entregar. Em Tucídides, discursos possuem sentido bélico, basta saber os intentos de quem os pratica. Hobbes utiliza a sua lição, pois é vital interpretar o desejo do oponente.

Os de Melos escutam a dura razão de Estado: “Não usaremos belas frases, não diremos que nosso domínio é justo (...) de sua parte, não digam que recusaram o nosso lado porque são colonos de Esparta ou porque lhes fizemos algum mal (...) sabemos e vocês sabem, tanto quanto nós, que a justiça só é levada em conta quando a necessidade é igual. Sempre que uns possuem mais força e podem usá-la como puderem, os mais fracos arrumam-se nestas condições, como podem”.

M. Walzer (Just and Unjust Wars: A Moral Argument with Historical Illustrations, New York: Basic Books, 2000) indica que ambas, Melos e Atenas, estavam sob o jugo da necessidade. A última devia aumentar o império ou perder terras dominadas. A neutralidade de Melos ergueria rebeliões contra Atenas. Para os Estados em guerra a lei é dominar ou submeter-se. Por necessidade de natureza (termo usado por Hobbes para descrever a guerra de todos contra todos) os coletivos precisam aumentar suas terras e poder. Melos prefere ser livre e insiste: a luta será vencida por Fortuna ou Força. “Em se tratando da Fortuna não seremos inferiores, pois temos os deuses de nosso lado, somos inocentes em luta contra homens injustos. Quanto à Força, o que nos falta será suprido por nossa liga com os espartanos os quais, por necessidade, são obrigados, por laços de sangue ou pela sua honra, a nos defender”.

Resposta ateniense: “Quanto ao favor divino, nós o esperamos como vocês (...) os deuses seguem a opinião comum e os homens pensam que alguns, por necessidade de natureza, reinam em toda parte, segundo a força que tiverem. Não fizemos tal lei e nem somos os primeiros a usá-la; mas a encontramos e a deixaremos para a posteridade, para sempre. Assim a usamos, sabendo que vocês também a usariam, e outros que tivessem o mesmo poder que possuímos”. Quanto aos espartanos, sem interesse próprio nada é feito por um povo em favor de outro. Melos não se rende, os atenienses atacam, Esparta não ajuda os sitiados. Em 416 A.C. a cidade é tomada. Os atenienses matam os homens em idade militar e vendem mulheres e crianças, povoam a ilha para onde remetem 500 colonos. Os termos usados por Tucídides e traduzidos por Hobbes, consistem nos mesmos que o Renascimento sublinha na luta pelo domínio e instauração do poder: força, necessidade, fortuna. Tais palavras se espalham em Maquiavel e nos seus contemporâneos. Hobbes as conhecia e as usou.

As batalhas de Gaza mostram que o mundo vive sob o signo de Hobbes, de Tucídides e Maquiavel. Resta identificar os interesses envolvidos. Quem decide? Os deuses, a força, o direito? A razão de Estado ensandeceu há muito tempo. Para decidir conflitos como o de Gaza, seria preciso ouvir o coração, cujas razões a fria razão desconhece.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009



Palestra de Roberto Romano na Associação Paulista do Ministério Público, em Campinas, 05/12/2008, sobre corrupção e foro privilegiado.

Nota para os filósofos, o promotor imediatamente à minha esquerda, Dr. Felipe Locke Cavalcanti, membro do Conselho Nacional de Justiça, é descendente do autor do Segundo Tratado sobre o Governo.

http://www.apmp.com.br/diremacao/gruposestudos/grupo_estudo_2008.html


Corrupção e paradigmas do pensamento
Roberto Romano
Unicamp
Dezembro de 2008





Quando se discute a corrupção dos costumes políticos, fraudes econômicas e violência social, surge na fala popular e mesmo em textos de analistas um inevitável par de imagens que não define a essência dos referidos problemas. Da antiga filosofia aos nossos tempos as teorizações sobre a natureza e a sociedade seguem modelos inspirados em nossa forma somática ou nos instrumentos que produzimos. Projetamos o mundo e a sociedade como imenso corpo, ou os ideamos na figura de refinada máquina, construída por um artífice cujo ato devemos repetir. À linhagem mecânica, que vai de Platão a Hobbes e ao século 18, contrapõe-se a seqüência orgânica, seguindo Aristóteles e os estóicos, e deles aos românticos do século 19 e 20.


A ordem social seria, numa forma doutrinária, imenso organismo cuja saúde e doenças exigem cuidados especiais, remédios para as suas crises ou velhice. Todos já leram ou ouviram alguém falar que a corrupção política, a inflação, a violência seriam variações do câncer, cuja tendência é a metástase que ameaça a sociedade. Tais imagens, não raro, impedem a tarefa de produzir idéias novas no debate sobre valores éticos. Se o mercado, a ordem estatal e societária, entram na categoria dos corpos, nos quais “doença” e saúde dependem de certos médicos (estadistas, economistas, etc.), importa buscar receitas e trato cirúrgico. O nazismo e o stalinismo abusaram dessas imagens. Neles surgiram projetos para “curar” a vida pública, as finanças, etc. Os seus intelectuais não se descuidaram da cirurgia : se grupos ou indivíduos eram considerados doentes pelo Partido, servia a técnica da ablação: nos campos de trabalho forçado ou nas câmaras de tortura, dissidentes foram extraídos da vida social. Sob totalitarismo, quem recusa os remédios oferecidos pelo Estado é visto como doente e causador de moléstias. O mesmo ocorre com os que, supostamente, prejudicam o corpo econômico e a saúde financeira. Ainda hoje a China comunista usa tal medicina, pois fuzila funcionários ou dirigentes de empresa ditos improbos. Pelos reiterados casos de corrupção na vida chinesa, a doutrina do organismo e os seus processos cirúrgicos são pouco eficazes para definir valores ou corretas atitudes éticas.

Outra imagem usada para descrever a natureza e a sociedade encontra-se na máquina. Platão é o fundador dessa linha. O demiurgo, que alguns chamam Deus, fabrica o mundo a partir das idéias eternas, que ele copia, e da matéria preexistente. A fabricação cósmica é descrita no diálogo “Timeu”. O ser divino é comparado ao modelador de cera, ao operário que recorta a madeira, ao construtor que reúne saberes para construir navios, edifícios, etc. De maneira similar, a ordem política seria obra técnica. Estado e sociedade constituiriam grandes máquinas que permitiriam o convívio dos indivíduos e grupos. Hobbes e o “Leviatã” continuam essa tradição do Estado máquina, modelo essencial no século das Luzes, era da moderna democracia. O mal político ou ético não seriam doenças do suposto corpo social. Ele se compara à desregulagem dos engenhos, ao desgaste de suas peças, ao modelo técnico ultrapassado. Para resolver os desafios sociais, em vez de extirpar membros seria preciso imaginar máquinas políticas adequadas ao crescimento e complexidade dos aglomerados humanos. Quando um coletivo aumenta o número de seus integrantes, surgem novas maneiras de gerar e distribuir riquezas, novas formas de mercado (financeiro, ideológico, religioso, científico). A máquina estatal deve se atualizar técnica e politicamente.


Com o desenvolvimento técnico e científico, bem como artístico, várias tentativas são hoje empreendidas para ir além dos modelos mecânicos ou orgânicos. Filósofos como Elias Canetti desenvolveram teorias do coletivo seguindo os parâmetros da revolução quântica. Outros, como François Dagognet, se interrogam sobre o próprio estatuto das imagens e paradigmas e a complexificação trazida pela cibernética, computadores, avançados instrumentos de precisão. Teóricos de várias origens estudam modelos de percepção social, assumem a tarefa de imaginar quais deles estariam à altura dos nossos dias. Os exemplos utilizados na antiga reflexão ética, moldados a partir do corpo, dos instrumentos, dos ofícios, foram extraídos das artes e das técnicas. Com a engenharia genética e a informática, surge a oportunidade de recuperar o trabalho da imaginação, produzir mecanismos de controle da ordem social. A marcha tecnológica amplia o imaginário do artificio aplicado à sociedade e à política.

As imagens das redes de neurônios, cuja leitura se faz de maneira sempre mais instantânea, indica que em poucos anos será possível o acesso aos pensamentos dos agentes societários. Isso possibilita, também em escala previsível, o aperfeiçoamento de relações simbióticas entre seres vivos e instrumentos eletrônicos, o que pode remediar ou corrigir falhas do nosso organismo. “Tais nexos”, diz um pesquisador em bioética, “poderiam incluir arranjos ambientais ou acrescer a conjunção de humanos e máquinas”. É alvo da NASA, desde 1960, complementar os corpos pelo uso de instrumentos eletrônicos. Os progressos são efetivados não só no setor físico. Mesmo as intenções anímicas podem ser lidas diretamente na atividade do córtex parietal. Isto em animais. Mas já existem projetos nos EUA de criar “próteses neurais” que permitiriam entender o cérebro e como as mentes e máquinas podem interagir. Certa máquina do projeto Touring tem como alvo computar todo processo de raciocínio que possa ser representado por um algoritmo. Cientistas do MIT trabalham com sensores e algoritmos que poderiam reconhecer emoções como interesse, estresse, fadiga.

Voltemos ao pensamento platônico. Qual a causa da corrupção dos que têm por ofício proteger a vida e as riquezas públicas ? E porque a cidadania também se corrompe ou se deixa corromper? A causa está, diz Platão, na fraqueza técnica da pedagogia antiga , quando se trata de ensinar o respeito da lei. Acostumadas a ler textos legais e depois esquece-los, as pessoas ignoram os ditames éticos no convívio político. A solução é dada pelo filósofo com apelo à uma outra figura técnica. Para que a lei seja obedecida pelos guardiães e pela cidadania, é preciso que os legisladores e dirigentes operem como tintureiros exímios. Eles devem imergir as almas na tinta das leis por um tempo certo e intensidade correta. Assim, os indivíduos guardam as ordens legais em sua própria mente, de maneira indelével. A educação platônica pode ser resumida naquele tingimento de almas. Críticas foram levantadas contra o pensador. As suas propostas nada deixaram para a liberdade individual.

O que se passa hoje no caso da neurociência e da engenharia médica levanta as mesmas invectivas endereçadas ao sistema platônico. Os adversários dizem que se a consciência fosse capturada pela ciência, nada sobraria do livre arbítrio, não haveria escolha entre o bem e o mal. Daí para a imputabilidade seria um passo. Cortes de justiça tendem a aceitar argumentos das defesas, segundo os quais certos medicamentos ou processos técnicos comprometem a mens rea dos acusados, a condição mental exigida para a culpa.

Finalizemos. As antigas figuras da vida ética, a do corpo e a da máquina, em nossos dias tendem a ser peças do museu imaginário. Mas elas operam nas mentes e discursos de políticos e de analistas, são bem recebidas pela opinião pública. Com a neurociência, a cibernética e as tecnologias de leitura avançada dos poderes psíquicos, o projeto platônico de implantar as leis na mente humana pode se fazer realidade. Em vez de esperar que um banqueiro ou político burlem a lei, a educação e a tecnologia preveniriam aquele ato, enxertando mandamentos éticos e legais na mente da criança que agirá no universo social e no mercado. Delírio à maneira de Orwell ? No entanto, tal projeto pode ser visualizado. A DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency) contava com verbas conhecidas (fora as secretas), acima de 3 bilhões de dólares em 2006. Grande parte daqueles projetos entram nas pesquisas de neurociência. Apesar da crise mundial, tais projetos tendem a ser mantidos, sobretudo por interesses estratégicos. Para todos os prismas mencionados, uma fonte excelente é o livro de Jonathan D. Moreno : “Mind Wars. Brain Research and National Defense” (New York, Dana Press, 2006).

Ou seja: instrumentos para o controle moderno da corrupção pública e privada podem ser disponíveis em prazo breve. Eles ajudariam a impor determinada ética aos grupos, aos mercados, aos poderes. Mas a crítica feita a Platão e a Hobbes se mantêm, como na Grécia antiga : se a técnica permite prevenir desvios éticos, trará ela bons costumes e livre opção? Temos um desafio para a democracia que só poderá ser vencido com saberes e imaginação. Sem tais elementos, repetiremos idéias e receitas envelhecidas de governo, no mesmo passo em que a sociedade se torna mais complexa e...corrompida.

The Washington Post, 06/01/2009.

A Conflict Hamas Caused



Tuesday, January 6, 2009; Page A13

Nearly a year ago, I was in the southern Israeli city of Sderot, where, on almost any day, you could see the current war coming. "The next Middle East war may start over Sderot," I wrote back then. I came by my prescience the hard way -- in a bomb shelter. That day, three Qassam rockets had hit the city. It took no genius to see the imminence of war. It takes real stupidity to blame it on Israel.

This Story

On some days, dozens of rockets fell on Sderot. A blimp hovered over the town, and when it electronically spied an incoming rocket, the sirens went off. In Sderot, the sirens were virtually a single, long wail on some days. Everyone took shelter because shelters are everywhere -- a constant reminder of the nearness of death or, at the very least, destruction. Even a dud can bust through the roof of a house.

I get the impression that Israel is expected to put up with this. The implied message from demonstrators and some opinion columnists is that this is the price Israel is supposed to pay for being, I suppose, Israel. I am informed by a Palestinian journalist in a Post op-ed that Israel is trying to stop "amateur rockets from nagging the residents of some of its southern cities." In Sderot, I saw homes nagged to smithereens.

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While I was reading the online version of the Israeli newspaper Haaretz for all the latest news about the war, a pop-up ad announced itself: "Camp Kimama, Israel, 2009 -- What childhood memories should be made of." The picture shows kids frolicking in the water. Placed next to stories about battle, it was a jarring -- but vivid -- statement of war aims: the expectation of normal life.

The CIA's World Factbook says that Israel has a population of 7,112,359. Of these, about 5,434,000 are Jews. That includes 187,000 settlers in the West Bank, about 20,000 in the Israeli-occupied Golan Heights bordering Syria, and about 175,000 in East Jerusalem. It does not include, however, the approximately 750,000 Israelis living in the United States -- some for a brief amount of time, some for an extended period, some permanently. For a variety of reasons -- and often with considerable pain -- they have given up on the country of their birth.

As the leaders of Hamas understand, the war in Gaza is about Israel's incessant fight to be a normal country. Maybe that's impossible. The war between Arab and Jew predates the founding of Israel in 1948. For the Palestinians, it is a fierce fight for Arab justice, for Arab pride, for Arab myth -- for ancestral houses and orange groves that few living have ever seen. For Israel, it is so kids can swim in a lake.

Three years ago, Israel pulled out of the Gaza Strip. Good, the world said. Next, pull out of the West Bank, the world said. But then Hamas, which has vowed to destroy Israel, won the election in Gaza. Sderot soon became hell. The West Bank is controlled by Fatah, the moderate Palestinian organization, which once had control of Gaza, too. If Israel withdraws from the West Bank, will rockets come from there? If you lived in Tel Aviv, a spit from the West Bank, would you take the chance?

Anyone could have seen this war coming. The diplomats and demonstrators who are now so engaged in the problem and the process were nowhere to be found when rockets began raining down on southern Israel. The border between Gaza and Egypt is riddled with tunnels -- some for food, some for weapons. The international monitors that are so evidently needed now were just as evidently needed then.

Conventional wisdom says that when Israel went into Lebanon in 2006, it lost that war. Hezbollah stood up to the mighty Israeli army; Israel could not muzzle Hezbollah's rockets. That may not be the way Hezbollah sees things, however. After the war, its leader, Hassan Nasrallah, said he had miscalculated. He was not prepared for the fury of the Israeli attack. He apologized. Now, Hezbollah takes no role in the current war. It will be back, but it still has wounds to lick.

The horrors of war are not to be dismissed or demeaned. In 2006, Israel accidentally killed 28 civilians in the Lebanese village of Qana when it attempted to take out a nearby rocket site. In Gaza, innocent Palestinians are being killed. The suffering is great and cannot be ignored. But what has been ignored is the series of events that led to this war. Anyone could see how it was going to start. As always, though, it's a lot harder to see how it ends.

cohenr@washpost.com

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

SUL MARAVILHA...SEGUNDO ROQUE SPONHOLZ



FOLHA DE SÃO PAULO, 05/01/2009, DUAS ENTREVISTAS.

ENTREVISTA BASHIR BASHIR

Somos campo de jogo de interesses externos

Para cientista político, disputas regionais contaminaram luta política de palestinos

"O Hamas é um movimento enraizado, popular e ativo; se pretendem acabar com o grupo, vão fracassar", diz palestino de Jerusalém

SAMY ADGHIRNI
DA REPORTAGEM LOCAL

O cientista político Bashir Bashir diz, nesta entrevista por telefone, que territórios palestinos viraram campo de disputa de interesses estrangeiros e que o enraizamento político do Hamas impede sua destruição.


FOLHA - Que impacto a ofensiva em Gaza teve sobre o Hamas?

BASHIR BASHIR - É evidente que, diante da pressão sofrida, o Hamas está vendo a sua popularidade crescer. O ataque não é contra o Hamas, mas contra Gaza. Os palestinos sentem isso. Como o Hamas está no front, acaba se beneficiando da compaixão nacional. Essa visão não é unânime. Há críticas constantes ao grupo. Mas prevalece a impressão de que as pessoas devem se solidarizar com os moradores de Gaza, e isso passa pelo Hamas.

FOLHA - Os ataques parecem estar enfraquecendo o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, e o Fatah.

BASHIR - Abu Mazen [codinome de Abbas] demorou a reagir e, quando o fez, escolheu culpar o Hamas. Isso não corresponde ao que se esperava de um líder que, teoricamente, representa todos palestinos. As declarações destoaram da visão popular e dos interesses nacionais.

FOLHA - Mas esse enfraquecimento não vai contra os interesses de Israel, que diz querer consolidar sua liderança para negociar a paz?

BASHIR - O discurso israelense que pretende fazer de Abu Mazen um líder popular é infundado. Ele ofereceu a Israel uma tranquilidade quase total na Cisjordânia e está cooperando com os israelenses, inclusive na segurança. O que obteve em troca dessa cumplicidade e coordenação? Nada. Israel não removeu nenhum dos 400 postos de controle na Cisjordânia. Continua atacando em Nablus, Jenin e Ramallah e expandindo os assentamentos ilegais. Se o objetivo é fortalecer Abu Mazen -embora os palestinos não queiram que os israelenses fortaleçam quem quer que seja-, então devem pôr fim à ocupação.

FOLHA - Os ataques em Gaza aumentam ou reduzem as chances de reconciliação entre Hamas e Fatah?

BASHIR - É uma pergunta difícil. O fato é que nós, palestinos, precisamos nos mobilizar para pressionar os dois partidos a se reconciliarem. Mas esse diálogo depende de muitas incógnitas. Uma deles, infelizmente, é o fato de que, após a morte de Iasser Arafat, nós nos tornamos uma espécie de campo de futebol onde equipes de fora se enfrentam. Perdemos boa parte do controle sobre o nosso processo decisório. Os palestinos não estão mais sozinhos na hora de definir o que querem para o futuro. Hoje já não se trata apenas de pressão popular. A equação inclui os protagonistas regionais, que passaram a ter muita influência -Síria, Irã, Egito, Jordânia e outras entidades que tentam pautar a agenda política palestina. Até então, os atores regionais tinham influência limitada graças à obsessão de Arafat com a autonomia decisória palestina. Os palestinos hoje estão fragmentados, e isso compromete nossa credibilidade. Por outro lado, o Hamas não tem interesse em ter um Estado em Gaza, nem o Fatah em governar apenas a Cisjordânia. Todos sabem que isso precisa ser resolvido.

FOLHA - Mas muita gente não sente saudade da gestão corrupta e centralizadora de Arafat.

BASHIR - Arafat de fato era, além de um líder problemático e envolvido em corrupção, uma personalidade autoritária. Mas o cenário político palestino sob sua gestão sempre foi pluralista, eficiente e democrático. Arafat consultava todos os protagonistas palestinos, incluindo o Hamas, que não faz parte da OLP [Organização para a Libertação da Palestina]. Nossa cena sempre teve gente de esquerda, direita e centro.

FOLHA - Qual é a chance de o Hamas ganhar as eleições deste ano?

BASHIR - O Hamas pode ganhar, sim, claro. O problema é que a democracia no Oriente Médio é aceita apenas parcialmente pelas potências. Ela só é tolerada quando leva ao poder as "pessoas certas". Isso não é democracia, mas "hipocracia". Não tem sentido o Hamas aceitar participar do jogo político e o resultado acabar rejeitado. Não sou pró-Hamas. Mas sei que não há futuro democrático na Palestina sem o Hamas. O discurso que consiste em dizer que o ataque em Gaza visa destruir o Hamas não tem sentido. Acabar com o grupo significaria aniquilar 30% da população palestina. Não estamos falando de fanáticos e lunáticos nem de alguns milhares de quadros que podem ser eliminados. Estamos falando de um movimento de campo enraizado, muito popular e ativo. Se os bombardeios pretendem acabar com o grupo, estão fadados ao fracasso. Podem enfraquecê-lo, mas a longo prazo o Hamas sairá fortalecido.



perfil

Bashir estuda resolução de conflitos

DA REPORTAGEM LOCAL

Cidadão palestino residente em Jerusalém, Bashir Bashir é um cientista político especializado em resolução de conflitos e processos de reconciliação nacional e internacional. É doutor em teoria política pela London School of Economics, onde também foi professor.
Atualmente leciona na Universidade Hebraica de Jerusalém e mantém diálogo constante com intelectuais israelenses de várias tendências.
Bashir é coautor do documento "Retomando a Iniciativa", publicado em agosto pelo think tank Grupo Palestino de Estudos Estratégicos. O texto é um manifesto no qual os autores expressam descrença em relação aos caminhos trilhados até agora na busca pela paz entre israelenses e palestinos e apontam novas ideias, como um Estado binacional.

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ENTREVISTA
EYAL ZISSER

Israel sabe que derrubar Hamas não é realista

País quer cessar-fogo com supervisão internacional como no Líbano, diz analista

"O importante é saber se o poder de dissuasão de Israel saiu fortalecido, e a ofensiva militar serviu para isso", diz professor de Tel Aviv

MARCELO NINIO
ENVIADO ESPECIAL A SDEROT (ISRAEL)

A intransigência do Hamas, que não dialoga com Israel nem reconhece seu direito de existir, tornou a ofensiva em Gaza inevitável. A opinião é de Eyal Zisser, para quem Israel gostaria de tirar o grupo do poder, mas sabe que isso exigiria a indesejável reocupação de Gaza.


FOLHA - Entre os supostos objetivos de Israel nesta ofensiva, há um declarado, a suspensão dos disparos de foguetes de Gaza, e um não-declarado, que é derrubar o Hamas. Ambos parecem inalcançáveis. Quais as metas realistas?

EYAL ZISSER - Reocupar a faixa de Gaza é possível, mas isso não interessa a Israel. O objetivo da ofensiva é obter um acordo de cessar-fogo como no Líbano [em 2006], para colocar um fim ao disparo de foguetes. Isso incluiria algum tipo de supervisão internacional que impeça o disparo de foguetes e também controle a fronteira de Gaza com o Egito, para não permitir a entrada de armas. Acho que Israel gostaria de tirar o Hamas do poder, mas entende que esse não é um objetivo realista. Para derrubar o Hamas, é preciso não apenas entrar em Gaza. É necessário controlar o território, o que Israel não quer voltar a fazer.

FOLHA - Qual será o impacto dos ataques sobre o Hamas?

ZISSER - O Hamas sofreu um golpe muito duro e acho que aprendeu uma lição, mas não foi destruído. O resultado é que, no futuro, será mais cuidadoso em seu confronto com Israel. Nada além disso.

FOLHA - Israel corre o risco de obter justamente o oposto, fortalecendo o Hamas politicamente, como ocorreu com o Hizbollah no Líbano?

ZISSER - Sim, isso é o que sempre acontece nesse tipo de confronto, e só não se repetirá agora se o Hamas não conseguir sobreviver. E não vejo, no momento, uma alternativa com credibilidade, então a população continuará apoiando o Hamas. Mas é preciso lembrar também que esse é um fortalecimento ilusório. No Líbano, o Hizbollah sofreu sofreu grandes perdas. Grupo nenhum escapa ileso de mais de um mês de ataques. Foi enfraquecido, mas conseguiu vender a idéia de que ficou mais forte. Na situação atual de Gaza, deve acontecer a mesma coisa: aconteça o que acontecer, o Hamas cantará vitória. O importante é saber se o poder de dissuasão de Israel saiu fortalecido, e eu acho que, tanto no Líbano como em Gaza, a ofensiva militar israelense serviu para isso. Então, quem exatamente saiu fortalecido?

FOLHA - O governo israelense afirma que o objetivo da ofensiva em Gaza é estabelecer uma "nova realidade". Isso significa um novo cenário político?

ZISSER - Depois de oito anos de disparos, se houver calma no sul de Israel e o Hamas não ousar fazer provocações, lançar mais foguetes, essa será uma nova realidade. Ainda é cedo para dizer se ela incluirá um novo cenário político. Se a ofensiva fosse interrompida agora, sem dúvida o Hamas sobreviveria. Numa visão mais abrangente, incluindo outros inimigos, como Irã e Síria, não vejo mudanças. Mas o fato de os regimes árabes silenciarem sobre a operação israelense significa que a maioria apóia Israel contra o Hamas.

FOLHA - O primeiro-ministro Ehud Olmert disse que a ofensiva era inevitável. Mas, olhando para os últimos três anos, desde a eleição do Hamas, Israel não poderia ter agido para evitar essa escalada?

ZISSER - Não era possível evitar por um motivo simples: o Hamas se recusa a dialogar com Israel e a reconhecer o seu direito de existência. Foi essa intransigência que levou à escalada atual.

FOLHA - Não está claro se Israel tem um plano político para o pós-guerra. Qual deveria ser a estratégia política israelense após a ofensiva?

ZISSER - Não sei se Israel tem um plano, mas sinceramente espero que sim. Na minha opinião, o plano político deve estar casado com o plano militar. O objetivo deve ser chegar a uma situação em que o Hamas esteja suficientemente enfraquecido para que possa haver um acordo, com a ajuda da comunidade internacional, em que o grupo não queira e não possa disparar mísseis contra Israel. Depois disso, a condição básica para que Israel possa entrar em negociações com o Hamas é que o grupo reconheça seu direito de existir. Mas isso não parece estar nos planos do Hamas.

FOLHA - Há sinais de que o Hamas poderia voltar a se unir ao Fatah para obter trégua e dialogar com Israel indiretamente. O Fatah, mesmo sendo aliado de Israel, teria legitimidade para unir os palestinos?

ZISSER - Nenhum regime árabe é legítimo, a questão é se ele é forte. Se o Fatah servir de interlocutor confiável para os dois lados e conseguir passar a imagem entre os palestinos de que salvou a faixa de Gaza do caos, talvez isso seja possível.

Frase

"O plano político [de Israel] deve estar casado com o militar. O objetivo deve ser chegar a uma situação em que o Hamas esteja suficientemente enfraquecido para que possa haver um acordo em que o grupo não queira e não possa disparar contra Israel"

domingo, 4 de janeiro de 2009

Do Blog It's about nothing : http://aboutnotthing.blogspot.com/

COMENTÁRIO: Se no è vero è ben trovato! Aliás, muito bem achado, e a hipótese não é a de um solitário. Desconfio muito desses encontros e supostos desencontros dos primos petistas e tucanos, com a mediação de alguns demos. Na minha juventude, o nome para tais conúbios coletivos era outro, começava com s...
RR


Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

Ah, o velho embate entre Militância, Ideologia e Política


O que dizer aos militantes que esgoelam palavras de ordem repetidas de seus corolários ideológicos? O que dizer aos membros de seitas que ajoelham e, em quatro patas, seguem feitos cordeirinhos obedientes as diretrizes de seus estimados líderes? Ricardo Noblat em seu blog: (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=dem-de-kassab-socorre-pt-de-marinho&cod_post=150724) comenta a nova aliança DEM – PT em São Paulo entre os prefeitos Gilberto Kassab, o menino prodígio de Serra com Luiz Marinho o garotinho de ouro de Lula, para amenizar a oposição de ambos os partidos em suas prefeituras. Não é comovente?

Luiz Marinho teve a campanha mais cara da história do país para vencer a prefeitura de São Bernardo e foi carregado no colo de Lula a campanha toda. Gilberto Kassab teve a máquina tucana fiel a Serra em sua campanha, causando um racha no partido que concorria com Geraldo Alckmin.
Eles se merecem, todos: PT, PSDB, DEM, PSOL, PMDB, PSS, PP e os outros mais de 70 ‘Ps alguma coisa’ que existem espalhados nesse enorme chiqueiro coberto com uma lona de circo que chamamos de nação.Eles nunca me enganaram, porém gostaria de ver a cara dos militantes idiotas que se digladiaram na campanha Kassab X Marta.

Ao mesmo tempo em que isso me causa um arrepio na espinha por confirmar que a coisa é tão ou mais podre do que imaginava, causa-me riso ao lembrar os militantes idiotas se agredindo por seus ídolos de barro.


Continuo não descartando a minha hipótese (solitária?) de um plano ‘C’ nas pretensões palacianas de Lula. O ‘A’ como sabemos é o terceiro mandato, ele ‘trabalhou’ muito nesse final de ano para que seus asseclas providenciassem a reforma política que lhe possibilita um terceiro mandato. O plano ‘B’, por enquanto, é Dilma que fez até plástica para tentar ficar menos horrorosa. O plano ‘C’ (para muitos, vindo dessa mente conspiratória) é uma aliança com Serra. É simples, Serra assume e deixa alguns ‘cumpanheiros’ mamando no Estado e não mexe e divulga a farra com o dinheiro público e o show de corrupção que foi o reinado de Dom Luís 51 e em troca Dom Luís tira o time de campo e não transfere sua popularidade para Dilma ou qualquer que seja seu candidato, facilitando a vida de Serra.


Alguém ainda duvida? Eu não, mas só estando em 2010 para ver. Sinceramente eu gostaria de evitar algo que me provocaria ânsias de vômitos intermináveis.

sábado, 3 de janeiro de 2009

The New York Times

Israeli Ground Forces Push Into Gaza

Uriel Sinai/Getty Images

Israeli artillery fire lit up the sky above Gaza on Saturday night before the beginning of a ground offensive.



Uriel Sinai/Getty Images

In Ashdod, Israel, people were evacuated Saturday from a building struck by a rocket from Gaza.

Moises Saman for The New York Times

A view of the bombing in Gaza on Saturday from a vantage point on the Israeli side of the border.

GAZA, Jan 3 (Reuters) - Israeli troops backed by helicopters advanced into Gaza on Saturday, a Palestinian witness and the Israeli army said, in the first ground action of an eight-day offensive against Hamas in the Palestinian enclave.

The small column of military vehicles crossed the boundary fence into the northern Gaza Strip under darkness, said the witness, a resident of Beit Lahiya.

An Israeli military spokeswoman confirmed the incursion and said the aim was to seize areas from where Hamas was launching rocket attacks on southern Israel.

"The objective is to destroy the Hamas terror infrastructure in the area of operations," Major Avital Leibovitch said.

Israeli tanks and troops had been massed on the border for days awaiting a possible invasion as Israeli firepower pounded Gaza from land, sea and air.

Witnesses had earlier reported Hamas fighters taking up positions in Gaza to repel any Israeli incursion.

Israeli officials had repeatedly warned they were prepared to step up military action if Hamas rocket attacks on southern Israel did not stop but Hamas kept up the action on Saturday.

An Israeli air strike earlier on Saturday evening killed 11 Palestinian worshippers, including children, and wounded dozens as in a mosque in Beit Lahiya, Hamas officials and medics said.

Rescuers pulled people from the debris and the bodies of victims lay in pools of blood, witnesses said.

Israel has targeted mosques previously saying that Hamas had used them as command posts and fire bases.

The mosque raid brought the Palestinian death toll to at least 446, with about 2,050 wounded, in the worst sustained bloodshed in decades of the conflict between Israel and the Palestinians.

Four Israelis have also been killed in the cross-border rocket attacks by Hamas and other militant groups.

Israeli air strikes targeted Gaza from early morning on Saturday and naval vessels also shelled the area from the Mediterranean, witnesses said.

One strike killed Abu Zakaria al-Jamal, a senior commander of Hamas's armed wing, Hamas said. He was the second Hamas leader killed in three days.

Israel launched the campaign, called Operation Cast Lead, on Dec. 27 saying it wanted to stop the rocket attacks.

But about 30 Hamas rockets smashed into Israel on Saturday, the military said. Two people were hurt by shrapnel when a rocket hit a building in the port city of Ashdod.

Hamas said the Israeli operation would not force it to bow.

"Whoever thought a change in the political area could come through the bombs of planes and the tanks and without dialogue is an illusionist," it said in a statement after a cabinet meeting in Gaza in an undisclosed location.

The attacks have sparked a wave of protests around the world, where thousands of demonstrators marched in solidarity with the Palestinians in European cities on Saturday.

In Paris, more than 20,000 demonstrators, many wearing Arab keffiyeh headscarves, chanted slogans like "Israel murderer!".

In London, 10,000 protesters led by singer Annie Lennox marched with Palestinian flags and placards with slogans such as "End the siege on Gaza" and "Stop the massacre".

NOWHERE TO RUN

The plight of the 1.5 million Palestinians crammed into Gaza was growing more desperate. People sheltered in their homes and humanitarian agencies warned that food, water and medical supplies were running short.

"Nobody feels safe," an International Committee of the Red Cross worker said in a report on the body's website.

"The problem is that we have nowhere to run for shelter."

The power plant has shut down and the sanitation system cannot treat the sewage. In the winter cold, fuel for heating and cooking was no longer available, aid agencies said.

"We do not sleep at all at night. We stayed awake the whole night because of the planes," said Umm Kamel, a mother of 11 baking bread on a wood fire in her home in Gaza.

Israel has denied a humanitarian crisis is unfolding and says it has allowed food and medicine convoys into Gaza daily.

U.S. President George W. Bush said Hamas -- which the United States, Israel's main backer, deems a terrorist organisation -- must take the first step towards a ceasefire.

"Another one-way ceasefire that leads to rocket attacks on Israel is not acceptable," Bush said in a weekly radio address.

Israel occupied Gaza in the 1967 Middle East War and after Palestinian uprisings formally ended its military rule in 2005, although it still controls the borders.

International peace efforts aimed at creating an independent Palestinian state foundered after Hamas won elections in 2006 and drove Fatah forces loyal to Palestinian President Mahmoud Abbas from Gaza a year later.

Hamas called off a six-month truce with Israel last month and stepped up the rocket attacks, complaining at Israeli raids into Gaza and a continuing blockade of the enclave.

Outro deputado que citou artigo meu...interessante, não acham? Naquela época, eu era "professor". Hoje, integro o rol do chamados como "aquela gente".

26/04/2001 17h08

Wagner Lino cita filósofo sobre escândalo do Senado

PLENÁRIO




Sobre os fatos envolvendo senadores e a presidência da República, em Brasília, o deputado Wagner Lino (PT) leu artigo do filósofo Roberto Romano, publicado à página 3 da edição de 25 de abril da Folha de S. Paulo, intitulado "Em defesa do cinismo". Segundo o autor, a palavra cinismo vem do termo grego que designa cão, e os cínicos defendiam a postura da lealdade canina como parâmetro para a ética política.

Discurso do Deputado Walter Feldman sobre um artigo meu, na AL de São Paulo. Mostra que algum efeito as criticas geram...

26/06/2001 16h42

PARLAMENTO E PARLAMUITO - OPINIÃO

Walter Feldman*




Salman Rushdie descreve em um de seus livros - Harun e o Mar de Histórias - uma guerra entre uma democracia e um governo totalitário. O primeiro, conta ele, era governado pelo Parlamuito e seus exércitos viviam discutindo cada ordem, a hierarquia parecia estar sempre rompida e a batalha prestes a ser suspendida pela necessidade de alguma assembléia. Enquanto isto, do outro lado, as forças das trevas tinham o mais centralizado dos comandos e cada soldado do inimigo estava pronto a seguir qualquer ordem que lhes fosse dada.

Mas o autor se surpreende ao ver que na hora decisiva acontece justamente o contrário do esperado. Quando necessário as fileiras da democracia se cerram e todos lutam com empenho por terem a exata noção de sua missão, enquanto as forças das trevas eram meros escravos, sem vontade nem iniciativa e acabam derrotados.

Muitos não são capazes de compreender a importância do Legislativo. Julgam que os parlamentos são lugares onde não se produz nada além de conversa ociosa. Em especial os parlamentos irritam aqueles que não tem argumentos para justificar suas ações, aqueles que, sendo fracos demais para convencer, não têm outra alternativa senão a de tentar esmagar.

O excelente artigo do professor e filósofo Roberto Romano, publicado na sessão Tendências e Debates do dia 22/5, da Folha de São Paulo, sobre o qual, é importante frisar, nada tenho a discordar quanto à questão central, nem à análise, parece padecer, contudo, deste tipo de incompreensão. Como o professor professo o amor pela palavra e também me dói vê-la sendo usada de forma que não seja nobre, em especial nos parlamentos onde à necessidade de conhecimento sobre o que se fala deve se somar a necessidade desta palavra buscar o bem comum, objetivo essencial do Estado e dos homens públicos. Assim até compreendo o que julgo como alguns excessos do filósofo, justamente indignado contra o mau uso de ferramenta tão nobre.

Mas esta mesma paixão me impede de calar-me em relação a alguns tópicos que considero injustos. Em primeiro lugar o texto comete a falácia da generalização, ao estender a crítica a todos os parlamentares e parlamentos, não aos que praticaram a ação condenada por ele. Sem dúvida é este tipo de visão depreciativa dos políticos um dos grandes obstáculos à existência de parlamentos melhores, pois estigmatiza a função política. afastando dela muitas pessoas que teriam importantes contribuições a dar.

Outro filósofo, Sócrates, pensava ser melhor agir no sentido contrário. Ao mesmo tempo em que criticava duramente aqueles que postulavam cargos públicos sem estar preparados, admoestava - para usar um termo da moda - aqueles que sendo preparados para a função se omitiam de pleitear estas funções. Assim, é chamando-o de covarde - ou seja, com uma crítica muito mais dura do que a dirigida aos que pleiteavam o governo sem serem capazes - que Sócrates conclama Cármides a cumprir seu papel no Estado, porque o sabe capaz.

O aspecto seguinte que julgo necessário destacar no artigo mencionado é talvez mais sério, ainda mais vindo de um filósofo. Diz ele que "o fim da política é assegurado pela ciência, independentemente dos embustes parlamentares ou demagógicos".

Certamente o conhecimento é instrumento essencial para a boa gestão da coisa pública. Por compreender a importância disto é um dos projetos da Assembléia a criação de uma grande Academia parlamentar que treine, instrua e recicle deputados e suas assessorias para que desempenhem com maior eficiência sua função. Mas a idéia de que a "ciência" ou mesmo a razão possa dar resposta a todas as necessidades do Estado é uma distorção deste papel do conhecimento. É uma visão que ignora os conflitos internos da sociedade, a pluralidade de interesses, verdades e razões que impera em qualquer sociedade sadia.

Fosse tão fácil administrar uma sociedade e não seria necessário nem parlamentares nem filósofos, bastaria uma máquina de governar como já imaginaram os piores pesadelos dos escritores de ficção científica antes dele o padre Dubarle. Não basta a ciência, é preciso também a sabedoria, como já advertia Roger Garaudy: "O divórcio entre ciência e sabedoria, entre o domínio dos meios e a reflexão sobre os fins, nos ameaça de morte" (Roger Garaudy, Apelo aos Vivos). Outro filósofo, Marcuse, mesmo adversário de Garaudy, também chama a atenção para a Razão Instrumental que serve para encobrir outros desígnios e sufocar a busca da razão negociada.

Há, assim, uma perigosa armadilha neste raciocínio que diz que a ciência é necessária e o parlamento não. O tecnocratismo - braço político do cientificismo - por sinal, é talvez o maior adversário ideológico das democracias modernas. Aceitar a afirmação do professor Romano seria abrir uma brecha grande demais para se logo se justificasse uma máquina que nos governasse.

Espera-se que o parlamento continue sendo um estorvo para quem não está preparado para lidar com a democracia. Que o eco das palavras pronunciadas nos parlamentos continue a reverberar nos sonhos e pesadelos de todos que não têm estrutura psicológica para lidar com a democracia de fato e para os quais a palavra é um estorvo.

Não é à toa que as ditaduras sempre incluem entre suas primeiras vítimas os parlamentos. Neles, afinal, todo aquele que não está preparado para a democracia é fustigado pelas palavras. A discussão pode ser a argamassa do consenso, o meio de melhorar as boas idéias, como podem as palavras transformarem-se em punhais que ferem os egos, justa ou injustamente.

Amar a democracia é fácil em discursos, mas lidar diariamente com forças contraditórias e avalanches de argumentos requer uma outra fibra que só a mais sincera afinidade com a liberdade é capaz de dar. Mas a recompensa deste esforço é mais do que suficiente para gratificar quem se dispor a trilhar este caminho mais difícil.

Só a democracia - e não há democracia sem parlamentos fortes, mesmo quando às vezes eles não pareçam mais do que Parlamuitos - é capaz de unir a sociedade e mobilizar suas forças não como uma multidão de seres amorfos e hipnotizados, mas como um conjunto de indivíduos livres. E o potencial de um exército de homens livres tem sido demonstrado ao longo da história, a despeito da teimosia de tantos ditadores cujo saldo final não é outro senão o de entrarem no rol da Infâmia.

*Walter Feldman, 47, médico, é presidente da Assembléia Legislativa

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O artigo criticado pelo parlamentar tucano é o seguinte:



São Paulo, terça-feira, 22 de maio de 2001



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TENDÊNCIAS/DEBATES

Respeito, senhores do Parlamento!

ROBERTO ROMANO

"As palavras são os rastros da razão." Este dito é de Francis Bacon, quando lutava pelo incremento do saber moderno.Ele também gerou o célebre aforismo "knowledge and power meet in one", que entre nós se reduziu ao tolo "saber é poder". Não é isso o que pretende Bacon. Na sua idéia, os conhecimentos devem ser prestigiados pelos que mandam no Estado, para que a potência dessa instituição se amplie ao máximo. O fim da política é assegurado pela ciência, independentemente dos embustes parlamentares ou demagógicos.

Bacon iniciou, com essa premissa, a rigorosa tradição de análise lógica em falas ou escritos. Esse procedimento seguiu do século 16 à nossa época, corrigindo a distorção das palavras, o seu emprego ambíguo na retórica. Hobbes, com o cauteloso exame dos termos que denotam a paixão na política, no início do "Leviatã", seguiu a via baconiana, dando-lhe maior aprumo.

Lembranças assim atingem a nossa alma quando ouvimos políticos brasileiros torturando vocábulos técnicos da filosofia política ("razão de Estado" ,"ética da responsabilidade" e outros), dando à erística o dom de ludibriar os ignaros, envaidecendo quem julga possuir usucapião do poder e da verdade.

No Parlamento federal, lugar onde seria preciso falar em nome dos povos, verbo e decoro são frágeis. Certa feita escrevi, nesta Folha, um artigo intitulado "O prostíbulo risonho" (6/9/93). Nele eu não me referia apenas aos atos sem pudor impostos à nação, mas também às palavras, monstros sonoros emitidos na tribuna. Se, para Francis Bacon, os vocábulos marcam a razão, os impropérios de nossos parlamentares indicam descontrole grave e falta de domínio emocional.

Eles choram e insultam numa sincronia espantosa. Sua ira, para repetir o dito sábio, surge qual breve insânia. Em seus discursos, "a frase é entrecortada, as palavras são emitidas sem distinção, como se fossem lamentos ou mugidos". Esse diagnóstico vem de Sêneca ("De Ira").

Ouvindo muitas arengas no Congresso Nacional, temos a desagradável impressão, errônea talvez, de que o partido de Incitatus possui maioria parlamentar. Exemplo? Comentando a gravíssima denúncia, feita pelos mais reconhecidos juristas de nossa terra, apresentada do modo previsto na lei ao Parlamento, o líder Arthur Virgílio (PSDB-AM) criticou aquela ação e afirmou que o PT está envolvido na iniciativa."Eu não posso dizer que seja um partido criativo"; e conclui o "raciocínio": "De tanta ação na Justiça, eles vão acabar virando o partido "data venia'". ("Consultor Jurídico", 20/5/2001).

Peço "data venia" para a única apreciação devida desta e de outras falas: é pura grosseria mencionar assim algumas das pessoas a quem devemos boa parte das nossas conquistas democráticas; é desacato à dignidade popular. Os deputados apenas representam o cidadão e têm o dever de respeitá-lo.



Se os vocábulos marcam a razão, os impropérios de nossos parlamentares indicam falta de domínio emocional


Nomes como Gofredo da Silva Telles, impolutos, inteligentes, corajosos, sérios, recebem um mandato moral da sociedade civil, a base dos poderes políticos. No Brasil de hoje, senadores e deputados zombam das leis, debocham dos cidadãos, aceitam calados o esbulho de direitos constitucionais, sacralizam confiscos.

Dos planos econômicos aos acréscimos de taxação, como a CPMF, cujos recursos deveriam ser para a saúde pública, e a violência das punições no uso da energia, covardemente aplicadas sobre os particulares, tudo é aceito pelos representantes que não representam, mas apenas barganham com o Executivo. E mais: violam painéis de votação, difamam uma colega senadora, jogam lama na República. E ainda exigem o título de "excelência"!

Esquecem que este é apenas um empréstimo temporário; "excelente" é o povo soberano, a base única de todo o poder.Norberto Bobbio, comentando a situação política de sua terra em 1984, dizia melancólico: "Confesso que nunca imaginei a vida italiana inquinada até este ponto, em que não sabemos se o certo é nos indignarmos pela baixa qualidade da intriga ou do grande número de pessoas que a integram, pelo despudor de quem dirige o jogo ou insensibilidade dos que o aceitaram, dentre os quais muitos são chamados, na retórica oficial, servidores do Estado ("Il potere in maschera")".

Com Berlusconi, tal fala seria ainda mais negra. No Brasil, tenho certeza, ele se calaria, pois não existem frases eloquentes o bastante para expressar a infâmia que reina no Parlamento e no Executivo. Só existe um Estado, terminava Bobbio, o da Constituição republicana. "Fora dela, só existe o anti-Estado que deve ser destruído, começando do teto e chegando, se isso é possível, aos fundamentos".

Nas próximas eleições,a cidadania brasileira lembrará a lição do grande jurista.


Roberto Romano, 55, filósofo, é professor titular de ética e filosofia política na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Em 1999 eu alertava para a necessária prestação de contas dos dinheiros públicos, pelas Universidades. Alguém alertou...


Comissão de Cultura, Ciência e Tecnologia - 14ª Legislatura

16/09/1999 - Seminário sobre Ciências Sociais no Brasil

ATA DA QUARTA REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA DA COMISSÃO DE CULTURA, CIÊNCIA E TECNOLOGIA, DA PRIMEIRA SESSÃO LEGISLATIVA DA DÉCIMA QUARTA LEGISLATURA.

Aos dezesseis dias do mês de setembro do ano de um mil novecentos e noventa e nove, às quinze horas, no Auditório "Teotônio Vilela" da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, realizou-se a Quarta Reunião Extraordinária da Comissão de Cultura, Ciência e Tecnologia, da Primeira Sessão Legislativa da Décima Quarta Legislatura, sob a presidência do Senhor Deputado Vaz de Lima. Presentes os Senhores Deputados Claury Alves da Silva, Mariângela Duarte, Lobbe Neto, Cesar Callegari e Carlinhos Almeida. Ausente o Senhor Deputado Edmur Mesquita. Presente também o Senhor Deputado Jamil Murad. Havendo número regimental, o Senhor Presidente declarou aberta a reunião, sendo dispensada a leitura da Ata da reunião anterior e a mesma dada por aprovada. O Senhor Presidente suspendeu os trabalhos por três minutos. Reabertos os trabalhos, o Senhor Presidente colocou que a reunião fora convocada especialmente para a realização de um



Seminário sobre Ciências Sociais no Brasil, com a participação de diversas personalidades e de alunos do Centro Acadêmico Florestan Fernandes da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Comunicou o recebimento de dois expedientes de convidados desculpando-se a ausência na reunião e de outro confirmando a presença da Professora Doutora Sylvia Gemignani Garcia; e o recebimento de documento da Fundação Escola de Sociologia. Em seguida, o Senhor Presidente passou a direção dos trabalhos para a Senhora Deputada Mariângela Duarte, que pediu desculpas ao Senhor Presidente e aos Senhores Deputados por umerro na redação dos convites. Solicitou vênia à Presidência para que pudesse enviar à fundação e demais convidados ofício explicando o erro. Disse que o motivo que a levou a propor tal evento foi querer saber como pensar as Ciências Sociais e qual a responsabilidade daqueles que atuam no campo das Ciências Sociais. Com a palavra, o Senhor Deputado Vaz de Lima propôs a seguinte metodologia de trabalho: passar primeiramente a palavra aos expositores pelo tempo de quinze minutos cada; o que foi aceito pelos demais membros. A Senhora Deputada Mariângela Duarte, na direção dos trabalhos, convidou os expositores para comporem a Mesa, passando a palavra ao Professor Doutor Roberto Romano, Professor de Filosofia na UNICAMP e ligado às questões do ensino. Sua Senhoria levantou, entre outras, as seguintes questões: a inexistência de um diálogo constante entre a universidade e os três Poderes do Estado, as pesquisas realizadas na universidade, o modo de financiamento da pesquisa e o modo de controle desse financiamento pela sociedade civil e pelo Estado. Propôs a constituição de uma comissão de controle externo do dinheiro público na universidade, congregando representantes do Legislativo, do Executivo, do Judiciário e da sociedade civil, para verificar a aplicação dos recursos da universidade. Falou também da planificação da pesquisa e dos serviços da universidade e da modificação de projetos pelo reitor quando da mudança do governo municipal. O Professor Doutor Renato da Silva Queiroz, Vice-Presidente da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, abordou os seguintes tópicos: a função do docente, pesquisas publicadas no exterior em inglês, a não-liberação de recursos pela faculdade para a pesquisa, a não-reposição do quadro docente e a contratação de professor por tempo determinado. O Professor Doutor Antônio Carlos Mazzeo, do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP - Campus de Marília, levantou as seguintes questões: a inexistência de diálogo entre os órgãos de pesquisa e o Estado, o anonimato dos pareceristas, o esvaziamento das pesquisas autônomas, pesquisas direcionadas para enaltecer a política do Estado, a democracia na universidade com a eleição do reitor e dos chefes de unidades, os rumos que querem dar à Escola de Sociologia e Política. A Professora Doutora Anita Simes, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP - Campus de Araraquara, colocou que há na faculdade dois departamentos: o Departamento de Sociologia e o Departamento de Antropologia, Política e Filosofia. Achou que a disciplina de Ciências Sociais deveria estar no auge para responder questões no campo do desenvolvimento tecnológico. Falou da edição de uma revista, da falta de professores, da falta de recursos para os professores participarem de congressos, da necessidade de computadores, vídeos, máquinas fotográficas, laboratórios. O Senhor Guilhermo Alberto Denaro, aluno da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e membro do Centro Acadêmico Florestan Fernandes, considerou importante que se chegasse a uma ação efetiva, defendendo a proposta de criação de uma comissão para controle do dinheiro público para pesquisa e falou da criação da Escola de Sociologia e Política. A Professora Sylvia Gemignani Garcia, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, levantou as seguintes questões: as condições para a produção e reprodução intelectual, a tensão em relação à tradição, o tipo de financiamento dos recurso públicos, a formação dos estudantes, a necessidade de mercado e o desenvolvimento tecnológico, o recrutamento dos estudantes pelas instituições de ensino. Em seguida, a Senhora Deputada Mariângela Duarte, na direção dos trabalhos, passou a palavra ao público. O Senhor William Jorge Gerib considerou a falta de perspectivas existente por parte da sociedade e a necessidade de definir alternativas para sair da crise e saber o papel das Ciências Sociais. O Senhor Deputado CesarCallegari falou da reunião realizada com o conselho e a diretoria da FAPESP e da questão do financiamento do setor universitário. A Senhora Liliana Penna Rodrigues perguntou como a USP e a UNESP poderiam estar se unindo para defender as Ciências Sociais. Usaram a palavra, para responder às questões levantadas, os Professores Renato da Silva Queiroz e Antônio Carlos Mazzeo. O Senhor Michel Adriano Szurkalo levantou questão sobre a comissão permanente de fiscalização dos recursos das universidades. O Senhor Deputado Claury Alves da Silva propôs que as questões levantadas fossem levadas ao Fórum São Paulo - Século XXI, para serem discutidas nos grupos temáticos. Manifestaram-se ainda o Senhor Guilhermo Alberto Denaro e a Professora Sylvia Gemignani Garcia. A Senhora Deputada Mariângela Duarte, após agradecer a todos pela contribuição, passou a direção dos trabalhos ao Senhor Presidente, Deputado Vaz de Lima, que agradeceu a presença de todos e colocou em votação a proposta do Senhor Deputado Claury Alves da Silva. Tal proposta foi aprovada. Nada mais havendo a tratar, o Senhor Presidente declarou encerrada a reunião, que foi gravada pelo Serviço de Audiofonia, passando o teor da mesma, após a transcrição, a fazer parte integrante desta Ata, para todos os fins regimentais. Eu, Ademar Trindade Cruz, Agente Técnico Legislativo, secretariei a reunião e lavrei a presente Ata, que vai assinada pelo Senhor Presidente e por mim.

Aprovada em reunião de 21/10/99

a) Vaz de Lima - Presidente

a) Ademar Trindade Cruz - Secretário






Não leio com prazer perene o autor do artigo abaixo. No entanto, hoje subscrevo cada vírgula do texto. E depois do escrito recordo o final de um artigo publicado na Folha quando Lula ainda era um tiranete intra muros petistas, não havia chegado à condição de Soba dos trópicos. Apenas para lembrar que nem todos se calaram no momento certo. Hoje, muitos dos que romperam comigo na ocasião, se dizem críticos das arrogâncias petistas. Mas não tiveram coragem, na época, de indicar o ovo da serpente, no feio ninho.
Roberto Romano




São Paulo, sábado, 03 de janeiro de 2009



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IGOR GIELOW

Niyazov e os trópicos

BRASÍLIA
- Em 2002, o ditador do Turcomenistão, Saparmurat Niyazov, perpetrou sua mais famosa bizarrice: renomeou todo o calendário. Entre outras coisas, o mês de abril virou Gurbansoltan em homenagem à mãe do déspota, uma medida só revertida depois que Niyazov morreu, em 2006.

Estamos longe disso, mas um pequeno fato ocorrido no fim do ano dá conta do quão incipiente é o conceito de impessoalidade institucional no Brasil. Na terça passada, Lula participou da inauguração de um parque em Recife. O lugar, uma obra de R$ 29 milhões da prefeitura petista, visa homenagear retirantes como o próprio presidente.

Até aí, vá lá. Mas o parque se chama Dona Lindu, nome da mãe de Lula. Ou seja, um prefeito aliado torrou milhões para adular o presidente, que aceitou a brincadeira de bom grado. Parece picuinha, mas não é: em democracias decentes, não se faz isso com governantes no cargo. Não é, para ficar na "novilíngua" dos anos Lula, "republicano".

Esse processo não é novidade no Brasil, é lógico. A prática sempre esteve aí, tanto do lado do bajulador quanto do adulado. Mas a falta de ineditismo, assim como a popularidade de Lula, é desculpa para justificar quaisquer barbarismos, inclusive os talvez inofensivos.

Enfim, tudo só fará piorar: está prevista para este ano a filmagem da vida de Lula pelos próceres do pior do cinemão brasileiro, a família Barreto. É quase comovente ver a produção jurar que não usará um centavo de dinheiro público no projeto, para evitar críticas à previsível elegia da saga lulista. Pode até ser, mas vamos esperar a lista de "parceiros" do projeto. Lula é uma espécie de "Padim Ciço" em escala nacional. O efeito desse personalismo na psique política do país só será aferível quando Lula deixar a Presidência, espera-se, em 2010. Enquanto isso, resta torcer para que abril continue se chamando abril cá nos trópicos.




Final do artigo "O Senhor da Razão", publicado na Folha de São Paulo, em 04 de janeiro de 1986, por Roberto Romano. Além da referência aos intelectuais petistas, aduladores por excelência, seja notada a indicacão sobre as viagens do "Nosso Líder". Na época, ele diz não ter viajado muito. Hoje, já tirou a forra...

“Eu não quero” confessa Lula contente, “ser o dono da verdade, o senhor da razão”.(Lula). Se para atingir a verdade o ponto central fosse o bem querer de um ou outro, teríamos aqui um excelente exercício epistemológico. A bobagem, por enquanto, pode passar. Mas a tolice torna-se ameaçadora no complemento da frase: “eu tenho uma verdade que está subordinada à verdade coletiva” (Lula) Treblinka, Auschwitz, o Gulag, todos são corolários de tais “verdades coletivas”. Também o senador dedo-duro dos EUA, no período da Guerra Fria, movimentou massas com suas “verdades”. Mas vejamos um pouco mais de perto: como não é nem o povo que determina a forma e o conteúdo do verdade (ao contrário do simples populismo demagógico), pois ele deve ser “convencido” dela, resta que o depósito de razão está no Partido. Alí, por debates sine ira et studio, se estabelece os direitos do Mesmo e as exclusões do Outro popular. É nesse instante que se restabelece o serviço dos intelectuais no PT. Orgânicos, tais seres servem para racionalizar as bobagens ditas e as sandices feitas pelos militantes.


"Eles deixam-se exibir, atravessando-os, o grande saber do Partido, e mostram-se cada um como o seu reflexo; como bem diz Soljenitsin, este saber os atravessa como se eles fossem um ser de cristal, eles são belos pensamentos". (Lefort).


A epistemologia descrita acima também é velha: já está posta com todas as letras no Materialismo e Empiriocriticismo, onde Lenine definiu a “verdade dos partidos” …na ciência. O “coletivo” subsume o individual, formando a pedra dura e sempre idêntica do “Nós” emburrecedor. Pouco importa o que “eu” penso, uma vez que sou um com o Partido e este é minha razão de ser e de existir. Nele movo-me, ele é meu Corpo verdadeiro:

"Embora as pessoas imaginem que eu viajo o mundo inteiro, o único país socialista que eu conheço é Cuba. A partir de 15 de janeiro, pretendo conhecer a Alemanha Ocodental. Não conheço a Polônia" (Lula).

Ótimo, é mesmo excelente que Lula viaje bastante, não apenas no espaço, mas sobremaneira no tempo. Assim, poderá descobrir que o “socialismo” de seus delírios é real e impera numa enorme Galáxia que aparece diante dos olhos, sempre de modo anamorfótico: vista de perto, nela desaparece todo e qualquer apelo “revolucionário” no sentido da “transformação” do Mesmo, garantido pela ideologia de granito. Só resta, a partir daí o silêncio gelado dos “inimigos” e reina a ordem perfeitamente unida no mausoléu social onde, enfim, “poderíamos tranquilamente termos (sic) uma única classe…”(Lula…).


(*) Roberto Romano da Silva é professor titular de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor de Ética, também pela Unicamp, membro do Instituo de Filosofia e de Ciências Humanas (Unicamp) e Doutor em Filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris).

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009



http://veja.abril.uol.com.br/blog/genetica/20090101_dia.shtml


Genética

Mayana Zatz

Geneticista e diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano (USP) | email: mayanazatz.ciencia@gmail.com



Criacionismo nas escolas

Eu gostaria de saber o que a senhora acha do ensino do criacionismo nas escolas?
(Natalia)

Como cientista não posso acreditar no criacionismo embora defendo o princípio de que todos saibam a diferença entre a teoria científica da evolução e o criacionismo. Também não sou contra que isso seja discutido nas escolas, mas, na minha opinião, isso só poderia acontecer quando os alunos tivessem a maturidade para entender a diferença entre uma teoria baseada na pesquisa científica de outra de cunho religioso. Por exemplo, em aulas de filosofia discutir as duas correntes, sem tomar partido, seria muito interessante. Para falar desse assunto, entrevistei a doutora Roseli Fischmann, professora titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, que está diretamente envolvida nesse debate.

Por que voltou a polêmica entre o criacionismo e o evolucionismo?
A expressão "voltou" é bem feliz, porque em 2004 houve uma polêmica bastante intensa no Rio de Janeiro, sobre o que se fazia com publicações no meio científico. Mas de forma mais imediata, há dois aspectos. Primeiro, veio à tona o fato de que algumas escolas confessionais tradicionais em São Paulo estavam ensinando criacionismo nas aulas de ciências, inclusive com os livros didáticos ali adotados trazendo essa abordagem, e os ânimos se inflamaram. Houve os que defenderam que as escolas confessionais poderiam fazer o que bem entendessem, por serem particulares; e houve os que as acusaram de obscurantismo, por ensinarem como ciência o que é conteúdo de religião. O outro aspecto é que o debate sobre a laicidade do estado tomou força a partir do final de 2006 junto à opinião pública, e em particular quando da visita do papa Bento XVI ao Brasil em maio de 2007. Recentemente o governo brasileiro assinou um acordo internacional no Vaticano que tem impacto sobre a vida da população brasileira, e que passará pelo Congresso Nacional, para ser ou não ratificado. O impacto do caráter laico do estado também ficou claro, por exemplo, no debate no STF sobre as pesquisas com células-tronco, onde sua atuação, como cientista foi tão decisiva para permitir que se continuasse a pesquisar com liberdade, auxiliando a tantos.

Parece, então, que além do debate científico há vários fatores envolvidos nessa temática?

Sim e não. Sim, porque há questões ligadas à estrutura do sistema escolar brasileiro e ao funcionamento das escolas privadas em comparação com as públicas; e porque envolve crianças e adolescentes, arrastando consigo uma série de outros aspectos sociais e culturais, como argumentos de fundo religioso, que precisam ser analisados com discernimento. E ao mesmo tempo não, porque é preciso destacar que o ponto mais importante nesse debate é a definição que a ciência pode dar às questões ligadas ao tema, daí a relevância de que cientistas, como é seu caso, envolvam-se em esclarecimentos à sociedade.

Sua resposta me lembra o debate das pesquisas com células-tronco embrionárias. Seria possível traçar uma linha demarcatória entre a religião e a ciência, no contexto da educação?

Sem dúvida. Estudantes mesmo muito novinhos podem entender que a ciência é uma conquista da humanidade, que tem servido à melhoria da qualidade de vida no planeta. Confundir os argumentos, invocando visões religiosas sobre a origem da vida, das espécies e do universo - que são tantas quantas religiões e espiritualidades existem sobre a face da Terra -, como sendo do mesmo tipo que as teorias científicas, não serve a nada e a ninguém. Concordo que , em níveis mais avançados, como no ensino médio, esse é um tópico excelente para ser tratado em aulas de filosofia, por exemplo.

Qual é a grande diferença, na sua opinião, entre o pensamento científico e o religioso?

Religiões, que merecem todo respeito enquanto religiões, são aceitas por seus adeptos como fruto de revelação, inspiração divina e iluminação. Por isso, não podem ser contestadas com os mesmos tipos de argumentos que se usam na ciência, até em nome da liberdade de crença e de culto. Já a ciência se funda no questionamento e no progresso contínuo, no escrutínio entre pares, ou seja, cientistas devem satisfação do que fazem aos demais cientistas, com base em métodos científicos, e é isso que lhes dá, ou não, reconhecimento. Os cientistas, para ter credibilidade, precisam comprovar as suas hipóteses o que só ocorre se elas puderem ser replicadas por outros. A ciência não depende da religião para existir e produzir, o que parece gerar um tipo de rivalidade por parte de algumas religiões, que pretendem submeter as ciências às suas normas e valores. As religiões não devem se sentir ameaçadas pelas ciências, como não deveriam se sentir inclinadas a invadir a esfera da política pública, que se dirige a todos da cidadania, independentemente de religião. Se tiverem uma mensagem que sensibilize o seu adepto nesse recôndito humano, que é a consciência, nada as impedirá de influenciar essas pessoas; e será no íntimo de cada um que se fará, ou não, essa conciliação entre o que dita a religião e o que investiga a ciência.

Como cientista, defendo que nas aulas de ciências se ensine apenas evolucionismo, é claro. Como o sistema educacional brasileiro trata essa questão?

Desde 1997 está em vigor uma série de documentos para todas as escolas do Brasil, intitulado "Parâmetros Curriculares Nacionais", dentre os quais estão os documentos referentes a ciências. Foram fruto de um processo que envolveu pesquisadores e professores com prática da Educação Básica, redigindo versões que tomaram como base as mais avançadas propostas de educação, em nível nacional e internacional,. O conjunto dos documentos está disponível no site do MEC. Em todos eles a questão é tratada, obviamente, apenas a partir do tema do evolucionismo. Há um tema transversal dos PCNs, que redigi, denominado Pluralidade Cultural. Nesse documento há espaço para se falar de culturas, e tratar da diferença entre o que se constrói culturalmente e a busca científica.

Que diferença existe entre uma escola particular e uma escola pública, no que se refere a esse tema?

Entre as escolas não pode haver diferença no que se refere a esses conteúdos propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais do MEC. Visam definir uma referência comum a todos os estudantes do Brasil, sem tirar a liberdade da escola estabelecer seus planos de trabalho. Do ponto de vista dos direitos dos estudantes é indispensável que as escolas tenham a mesma base, até porque o direito de acesso à ciência é para todos, como o acesso à educação. O caráter confessional é plenamente reconhecido pela lei, desde que o eixo religioso da escola não submeta o eixo ligado à educação nacional. Ao funcionar regularmente, ou seja, atendendo os preceitos legais e normativos oficiais, essas escolas privadas e comunitárias, confessionais ou não, somam-se às escolas públicas, formando o sistema escolar, o qual propicia, portanto, que os pais possam escolher o tipo de educação que querem dar a seus filhos. Se as escolas confessionais quiserem ensinar criacionismo na aula de religião, poderão, é claro; mas não na aula de ciências. A ciência como obra humana auxilia o estudante de todas as idades a entender a natureza e os fenômenos biológicos, as responsabilidades que lhe são inerentes como cuidar do planeta , o respeito devido a cada ser humano, em sua dignidade inalienável. O papel da ciência, como praticada pela comunidade cientifica, é insubstituível.

Quero aproveitar para desejar a todos vocês, queridos leitores, um super feliz Natal e 2009.