sábado, 31 de maio de 2014

O horror, o horror. Sem outros comentários.

Ribeirão Preto

PM é acusada de racismo por cartaz colocado em ônibus de Ribeirão

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Cartazes fixados em ônibus do transporte coletivo de Ribeirão Preto (313 km de São Paulo) com dicas de segurança são alvo de crítica de uma entidade, que aponta que o material incentiva o racismo. 

A publicação traz uma mulher branca observada por um homem escondido atrás de um poste e ilustrado com a cor preta. A ideia do desenho é que o homem está prestes a assaltá-la. Os materiais fazem parte de campanha da Polícia Militar e da Acirp (associação comercial). 

O cartaz traz ainda um desenho que representa uma policial militar branca atuando no atendimento do 190. 


Camila Turtelli/Folhapress
Cartaz com ilustração supostamente racista em ônibus de Ribeirão Preto
Cartaz com ilustração supostamente racista em ônibus de Ribeirão Preto   

Segundo a Unegro (União de Negros pela Igualdade), ele incentiva o racismo. 

A Polícia Militar nega a acusação e a Acirp disse que não foi responsável pela elaboração do cartaz, embora seja parceira na campanha. 

A presidente regional da Unegro, Ana Almeida, afirmou que o cartaz reforça o estereótipo de que "negro é bandido". "Quem deveria nos proteger está praticando um crime racista", disse, sobre a PM.
Ana, também vice-presidente geral da Unegro, disse que a denúncia será levada ao Ministério Público na segunda-feira. "Estamos em plena campanha contra o genocídio da população negra jovem e temos que nos deparar com isso", afirmou. 

Em nota, a Acirp disse que considera o racismo, além de crime, conduta abominável que não condiz com o perfil democrático e de livre iniciativa defendido pela entidade. 

A PM afirmou que lamenta a percepção equivocada e exagerada do cartaz. 

Em nota, disse que "o 'criminoso' é representado pela caracterização de uma 'silhueta', por estar na penumbra, observando a sua vítima à espreita atrás de um poste, usando, para tanto, da sombra existente no local".

Estado. Ética, violência, vergonha. 30/maio/2014

O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,etica-violencia-vergonha,1502698O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,etica-violencia-vergonha,

Ética, violência, vergonha

*Roberto Romano

30 Maio 2014 | 20h 47

Na vida coletiva educada importa sobretudo o uso correto do corpo. Um significado relevante da ética reside no termo hexis, palavra grega que indica se o indivíduo tem, ou não, boa postura física ou de caráter. “Caminhar, nadar, todas as espécies de coisas assim são específicas de sociedades determinadas”, ensina o antropólogo Marcel Mauss. O mimetismo que reproduz gestos corporais é adquirido inconscientemente. Mauss notou que as enfermeiras dos Estados Unidos, ao andar, seguiam o molejo das estrelas hollywoodianas. O modelo do cinema foi assumido pelas profissionais, delas extraindo a originalidade somática.

A imitação irrefletida de atos incorretos gera sociedades em que vigora a guerra de todos contra todos. O péssimo uso dos corpos e de seu habitáculo, o solo comum, transforma o coletivo num inferno. As massas e suas manifestações que resultam em violência física causam temor. Multidões ou indivíduos, no entanto, integram o gênero humano. Todos, sem a disciplina educativa, agem fora do controle racional. Platão aconselha os genitores: se o recém-nascido chora, verifiquem o corpinho. Caso ele grite no dia posterior, fiquem alertas. Se berrar sem motivo grave, ignorem: o tirano está se revelando. O filósofo, em As Leis, diz ser preciso ensinar aos jovens a diferença entre a caça ao animal e a perseguição contra outros humanos. A tarefa caberia aos pais, professores, juízes. Nas ruas dominadas por sectários, ou nos shopping centers brasileiros, existe a tirania ruidosa dos que não respeitam a alteridade. Neles, muitos indivíduos se juntam para a caçada, desviam atividades legítimas e democráticas.

Tempos atrás, a pessoa que me seguia em shopping center paulista advertiu a genitora de uma criança que ali rodopiava aos berros, sem controle. Em vez de acatar o aviso (dado em tom gentil), a mãe vociferou que o alerta vinha de alguém ressentido, porque não percebia “tratar-se de uma inocente”. Segundos depois a inocente esmagou o pé da minha acompanhante e arrancou-lhe a unha. Foi preciso o socorro dos bombeiros para o curativo. A mãe da criança nem sequer pediu desculpas. Foi embora sem receber advertência dos seguranças.

No mesmo local, em época natalina, uma dama empurrou o ser humano que me acompanhava, jogando o indigitado ao chão. “Desculpa (notemos o uso do verbo, que põe o atingido no papel íntimo ou inferior do tu, sem tratamento civilizado), eu não vi”. Sem ajudar a vítima, ela rosna impropérios como réplica aos reclamos: “Sou de família importante, viajo sempre para Nova York e Paris”, etc. Felizmente, tudo resultou em escoriações menores.

Ver os demais seres humanos integra o primeiro treino de quem usa o espaço coletivo. “Não vi” é confissão de idiotismo, na semântica da palavra grega “idiota”: o que percebe apenas o seu interesse pessoal. Pelo menos três outros casos similares eu teria para relatar.

Se as minhas experiências não bastam, vejam o que aconteceu com a notável artista plástica Maria Bonomi e uma amiga em restaurante de shopping paulista. Elas jantavam pacificamente quando, na mesa ao lado, começou o berreiro. Reclamaram e receberam palavrões seguidos de uma garrafa de cerveja despejada sobre suas vestes. Os funcionários nada fizeram para impedir a cacofônica animalidade. Breve a Justiça ouvirá dois indivíduos que urinavam na frente de todo mundo num shopping brasiliense. Certo professor de educação física, ao exigir o necessário decoro, foi por eles atacado. Os agressores causaram-lhe traumatismo craniano e problemas de locomoção. Como sempre, o agredido é acusado pelos indecentes que estão presos, aguardando o pronunciamento dos juízes.

Todas esses fatos entram na ordem do que é ruim e feio em termos éticos. Os gregos indicavam o sentimento de quem se envergonha com as coisas odiosas usando o termo aidós – pudor, vergonha (cf. Cairn, D.: Aidós, the Psychology and Ethics of Honour and Shame in Ancient Greek Literature). No Brasil a vergonha vem dos belos atos, nunca dos horrendos. Os nossos políticos replicam usos e costumes de uma sociedade que não enrubesce, nas ruas ou nos espaços de elite.

Egocêntricos, incapazes de ver os demais seres humanos, os desprovidos de respeito cidadão usam o carro como dirigem seu corpo: desobedecem aos sinais e limites de velocidade, desafiam leis, ignoram a preferência do pedestre nas faixas, estacionam em vagas de idosos e deficientes, furam as filas preferenciais. Donos do mundo, nunca recebem sanções negativas da Justiça. Preconceituosos, consideram engraçado ferir gays, negros, judeus, nordestinos. Como integram o grupo dos happy few, ninguém tem coragem de lhes impor decoro e respeito. Pelo mimetismo, seus costumes atrozes abarcam a sociedade, transformando-a em alcateia feia e virulenta.

Se muitos indivíduos empurram os outros, ameaçam sua integridade física em locais que deveriam ser pacíficos, no trânsito a crueza aumenta exponencialmente, pois os veículos são usados como armas. A covardia impera nas estradas e ruas do País, aço é movido contra carnes frágeis. Com autorização para matar por embriaguez ou estímulo de psicotrópicos, dada a leniência dos poderes públicos, integrantes da sociedade embrutecida matam no Brasil com enorme facilidade. Ainda não aprenderam a distinção entre caça aos bichos e caça aos humanos. As estatísticas de “acidentes” aqui trazem números superiores aos de muitas guerras.

O mimetismo, retomemos, ocorre sem maiores reflexões. Digamos aos ensandecidos do trânsito que eles são assassinos. Todos ficarão indignados porque fantasiam para si uma integridade corporal e de caráter (hexis) inexistente. O Brasil registrou 56.337 homicídios, o maior índice na feitura do Mapa da Violência. Praticantes do gesto incivil ainda têm a caradura de alardear nojo dos políticos corruptos, de quem são irmãos siameses. O belo e a vergonha não vigoram no solo brasileiro.

*

PROFESSOR DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS, É AUTOR DE ‘O CALDEIRÃO DE MEDEIA' (PERSPECTIVA)

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Roque


Radio Estadão no Ar. entrevista de Roberto Romano dada a Roxane Ré

no ar 11:34

Metrópole


Notícias da cidade e prestação de serviços com apresentação de Alessandra Romano....
Ouça Agora

Barbosa não tem perfil para cargo eletivo, diz cientista político

Roberto Romano, cientista Político da Unicamp, comenta a aposentadoria do presidente do STF, em conversa com Roxane Ré

Veja. É tudo farinha do mesmo saco! Que vergonha!


Esporte

30 de Maio de 2014
 

Fotografia

Imagens do dia 30 de maio


Foto 1 / 9
Padilha, pré-candidato ao governo de SP pelo PT, recebe apoio do PP de Paulo Maluf em ato na Assembleia Legislativa
Padilha, pré-candidato ao governo de SP pelo PT, recebe apoio do PP de Paulo Maluf em ato na Assembleia Legislativa -

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Roque


Roque


Rudá Ricci, excelente entrevista ao IHU.


 


 

O movimento sindical e os partidos. Longe das frustrações diárias, desafiados pelo 'enxameamento'. Entrevista especial com Rudá Ricci

“A esquerda brasileira cometeu os mesmos erros que a europeia. Só espero que a tragédia das eleições para o parlamento europeu — em que vários partidos de extrema direita saíram vitoriosos das urnas — não se repita por aqui”, afirma o sociólogo. 
Do mesmo modo que as manifestações de junho impactaram os partidos políticos, as greves recorrentes, muitas das quais ocorrem sem acordos e negociações com os sindicatos, “criaram um grande alerta nas cúpulas sindicais do país”. Trata-se de “dois fenômenos de quebra de legitimidade das representações formais. Mas que não apontam alternativas”, avalia Rudá Ricci, em entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail. Para ele, não é possível prever qual será o impacto sindical e político das greves que têm ocorrido em muitos estados brasileiros, mas “a tendência será a luta pela recuperação da liderança perdida. E isto significará radicalização do discurso sindical, como medida de antecipação às oposições”, assinala.
Por enquanto, menciona, só é possível afirmar que um conjunto de fatores — entre eles, o fato de várias das organizações que nasceram com a reabertura democrática, nos anos 1980, terem esquecido “da sua origem anti-institucionalista” — dá sinais do que está acontecendo no atual cenário brasileiro. “Os sindicatos ingressaram nas arenas de tomada de decisão de políticas de governo e indicam, hoje, quem assumirá as secretarias do trabalho nos Estados. Abriu um hiato de representação, o que é grave num país onde a desigualdade ainda é a marca no cotidiano da maioria da população. O que significa dizer que as frustrações diárias não têm mais por onde se expressar. Os canais de escuta que forjavam pautas de demandas sociais, que facilitavam a vida dos governantes comprometidos com a superação das dificuldades das populações mais carentes foram interditados”, pontua.
Para Ricci, o resultado dessa situação é a “frustração diária”, que explodiu nas manifestações, e “é isto que estamos vendo desde junho de 2013 e que, agora, também envolve rupturas das bases sindicais com suas diretorias e movimentos sociais que demandam reforma urbana”. Na avaliação dele, as greves sinalizam um “retorno à desconfiança em relação ao plano institucional, como havia nos anos 1980”. Entretanto, explica, “naquele período, a desconfiança partia da arrogância e violência do regime militar. Agora, volta-se contra a arrogância, inoperância, tutela e ausência de diálogo dos governantes, sindicatos e partidos”.
Junto a isso, destaca, “a aristocratização de muitos dirigentes sindicais, que adotam uma carreira política cujo início é o sindicato, impacta fortemente a base sindical, aumentando o ressentimento. Esta fissura abre a temporada de disputa entre correntes sindicais”. 
Rudá Ricci (foto abaixo) é graduado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC, mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. É diretor geral do Instituto Cultiva, professor do curso de mestrado em Direito e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara e colunista político da Band News. É autor de Terra de Ninguém (Ed. Unicamp), Dicionário da Gestão Democrática (Ed. Autêntica), Lulismo (Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto) e coautor de A Participação em São Paulo (Ed. Unesp), entre outros.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O senhor aponta o surgimento de uma outra política, que nasceu das ruas a partir das manifestações de junho. Em que consiste essa nova política e em que aspectos ela se diferencia do que vinha sendo feito até então?
Rudá Ricci - Ela leva a marca de uma nova geração de protagonistas, entre 20 e 30 anos de idade, que já manifestaram suas peculiaridades em muitas outras manifestações ao redor do mundo, como os confrontos ocorridos em Seattle, quando do encontro da Organização Mundial do Comércio, em 1999. A ela se seguiram outras, como as de Bolonha, Gênova, Praga e muitos confrontos em Londres. Mas em Seattle já havia uma articulação de forças e organizações (locais, nacionais e internacionais) que se repetirá várias vezes, incluindo ONGs ambientalistas e voltadas para o direito do consumidor e questões trabalhistas, sindicatos, grupos de estudantes, organizações religiosas (Jubileu 2000) e anarquistas. O que há de novo neste conjunto de manifestações que incluem as de junho de 2013 no Brasil?
Uma geração que desenvolveu valores entre seus "pares de idade", que se forjaram à sombra da diminuição gradativa do tempo de convívio familiar. Com a desmontagem da socialização primária que a partir do século XVII, segundo Ariès, passa a ser de responsabilidade das famílias, as tribos urbanas se constituíram em redes de proteção social de jovens, com fortíssimo caráter comunitário. As comunidades, vale destacar, não são afetas ao mundo público, já que desenvolvem identidade grupal, fechada e, não raro, se contrapõem ou ignoram outros grupos comunitários. As redes sociais reforçaram a lógica comunitária juvenil. 
A cultura que emerge daí é, portanto, grupal, afetiva, agressiva em relação à diferença, refratária às instituições e valores do mundo adulto, apoiada numa lógica de relação direta e horizontal, que nega hierarquias e vanguardas. O que vimos em junho de 2013 foi a somatória de muitos agrupamentos com suas inúmeras prioridades e demandas. Sem lideranças coletivas, sem vanguardas, anti-institucionalistas, autonomistas. Evidentemente, se confrontam com todas organizações de representação social e política que se consolidaram no século XX.

“O problema do lulismo é que ele avança em termos sociais e até econômicos, mas retrocede na dimensão política”

IHU On-Line - Quais são os discursos presentes nas manifestações?
Rudá Ricci - Inúmeros, marcados pela polifonia. Cheguei a pontuar que teriam como mote a "utopia no presente", absolutamente provisórias, de momento, realizando o que poderia ser a alternativa no momento da manifestação. Algo que existe até hoje no Occupy ou M15.
Foi um carnaval político (ou, uma transgressão dentro da ordem). Por este motivo que os partidos ficaram atônitos (não sabiam a quem se dirigir) e a grande imprensa procurou desesperadamente adiantar qual era a demanda mais importante. Utilizar o olhar do século XX, hierarquizado e organizado racionalmente, numa manifestação juvenil deste tipo é usar óculos escuros para enxergar na escuridão. Temos que alterar o paradigma das ações sociais para entender o que há de novo. Alguns autores espanhóis, que foram seguidos por norte-americanos, estão, inclusive, sugerindo desta nova prática o que denominam de "enxameamento": uma ação que lembra os enxames de abelhas, que surgem do nada e somem sem aviso prévio.
IHU On-Line - O que essas manifestações e, de modo geral as greves que estão ocorrendo, demonstram sobre a esquerda ou o que viria a ser um projeto de esquerda no Brasil?
Rudá Ricci – Que, nos últimos dez anos, várias das organizações que nasceram nos anos 1980, durante o processo de redemocratização do país, esqueceram a sua origem, muitas vezes anti-institucionalista e “basista”, valorizando mecanismos de democracia direta e utilizando a violência no confronto com a PM (como o uso de bolinhas de gude para derrubar os cavalos utilizados pelas polícias estaduais ou, ainda, utilizando mitsubishi para furar pneu de ônibus durante os piquetes). As ONGs, sindicatos e muitas pastorais sociais se voltaram para o Estado e se afastaram das ruas. Muitas dessas entidades assumiram serviços sociais terceirizados pelo Estado. É o caso da Pastoral do Menor, que assumiu a administração da FEBEM (hoje, Fundação Casa) em São Paulo. Ou tantas ONGs que assinaram convênios com governos para assumir atendimento a famílias em risco. Os sindicatos ingressaram nas arenas de tomada de decisão de políticas de governo e indicam, hoje, quem assumirá as secretarias do trabalho nos Estados. Abriu um hiato de representação, o que é grave num país onde a desigualdade ainda é a marca no cotidiano da maioria da população. O que significa dizer que as frustrações diárias não têm mais por onde se expressar. Os canais de escuta que forjavam pautas de demandas sociais, que facilitavam a vida dos governantes comprometidos com a superação das dificuldades das populações mais carentes foram interditados.

“Temo que um governo de origem de esquerda acabe ensinando como a direita brasileira deve governar na democracia”

Qual a resultante desta situação? A frustração diária, em algum momento, explode como um mosaico, sem lideranças, marcada pelo ressentimento em relação a quem deveria representá-los ou ouvi-los. É isto que estamos vendo desde junho de 2013 e que, agora, também envolve rupturas das bases sindicais com suas diretorias e movimentos sociais que demandam reforma urbana. Em suma: a esquerda brasileira cometeu os mesmos erros que a europeia. Só espero que a tragédia das eleições para o parlamento europeu — em que vários partidos de extrema direita saíram vitoriosos das urnas — não se repita por aqui.
IHU On-Line - Quais as implicações dessa outra política nos movimentos sociais?
Rudá Ricci - O retorno à desconfiança em relação ao plano institucional, como havia nos anos 1980. Naquele período, a desconfiança partia da arrogância e violência do regime militar.
Agora, volta-se contra a arrogância, inoperância, tutela e ausência de diálogo dos governantes, sindicatos e partidos. Presenciamos a pior geração de gestores públicos da nossa república. São governantes que não valorizam a prática política, da escuta, da habilidade e da negociação. Não nos lideram e não nos empolgam. Estamos às vésperas da Copa da FIFA e não há sinal de verde e amarelo nas ruas, o que é uma novidade na nossa história. Mas, aí, olhamos para os governantes e vemos que eles também não estão empolgados. O discurso deles é tecnocrático, se assustam com o imponderável, não criam fatos políticos, são omissos. Enfim, o discurso do Estado Mínimo e adoção de práticas empresariais para gestão do Estado chegou forte pelas mãos desses governantes sem alma, que não se forjaram na luta social. Esta tragédia tem este lado positivo: nos ensina que experimentação na política não dá bons frutos. A política é para líderes, para pessoas forjadas nesta prática da negociação, da antecipação que cola, ainda, corações e mentes. Competências que não encontramos em empresas.
IHU On-Line - Desde o ano passado aumentou o número de categorias profissionais fazendo greves sem o consentimento dos sindicatos, ou seja, literalmente passando por cima dessa organização. O que isso significa e como senhor avalia tais greves? Trata-se de manifestações pontuais por conta da atual conjuntura ou há sinais de mudanças em relação a algumas categorias, a exemplo da greve dos garis, no Rio de Janeiro, e a greve dos motoristas de ônibus em vários estados, especialmente em São Paulo?
Rudá Ricci - Acho que é uma conjunção de fatores. Sem dúvida, o cenário de euforia de 2010 está se diluindo a cada mês e isto cria uma situação de insegurança em relação ao futuro. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - DIEESE revela que as greves aumentam ano a ano, mas os resultados são gradativamente menos auspiciosos.
Também é fato que a aristocratização de muitos dirigentes sindicais, que adotam uma carreira política cujo início é o sindicato, impacta fortemente a base sindical, aumentando o ressentimento. Esta fissura abre a temporada de disputa entre correntes sindicais. A CUT está acuada porque adotou certo padrão governista, mais focado nos acordos de cúpula com o Estado e menos afeto ao conflito trabalhista. A Copa da FIFA apenas cria o ambiente ou oportunidade para que as diferenças e insatisfações se apresentem publicamente. A situação é ainda pior nos setores de serviços públicos, onde o governismo gera insatisfação ainda maior na base sindical.

“Presenciamos a pior geração de gestores públicos da nossa república”

IHU On-Line - A que atribui essa distância dos sindicatos de suas bases?
Rudá Ricci - Ao que Philippe Schmitter denomina de neocorporativismo, ou seja, quando as estruturas de representação corporativa se inserem na lógica de Estado, participando de fóruns e arenas de elaboração e tomada de decisão governamental. Já vimos o resultado em vários países europeus, como a Itália. Lá, as comissões de fábrica foram se autonomizando em relação às centrais e sindicatos. O fenômeno do neocorporativismo partidariza o sindicalismo e também o corrompe, tornando o dirigente sindical não um representante, mas um segmento social profissionalizado.
IHU On-Line - Quais são as razões das greves recentes e o que elas sinalizam em relação ao trabalho no Brasil, especialmente após um período em que houve aumento gradativo do salário mínimo e, por outro lado, um acesso maior à universidade?
Rudá Ricci - A pergunta parece sugerir o que alguns autores denominam de demandas pós-materialistas, tal como sugere Ronald Inglehart. Não me parece que tenhamos chegado a este ponto. Acredito, antes, que se trata de um clima de insegurança em relação ao futuro (não necessariamente ao presente). Como se a base sindical percebesse que há sinais de insustentabilidade dos ganhos dos últimos anos: inflação em alta, endividamento perturbador das famílias de renda baixa e média, diminuição da oferta de crédito, aumento da taxa de juros. Lembremos que em maio de 2013 um simples boato do fim do Bolsa Família deu o alerta para 920 mil beneficiários sacarem de suas contas na CEF. Justamente o público mais cativo do governo federal.
IHU On-Line - Como avalia a adesão da Central Única dos Trabalhadores – CUT à defesa da Copa do Mundo e declarações de que os protestos contra a Copa são eleitoreiros?
Rudá Ricci - Uma partidarização excessiva, que supera o limite da prudência num momento de aumento da disputa sindical na base. Reforça, ainda, a imagem governista, que a aproxima do sindicalismo peronista. Um alto risco que coloca por terra a origem da CUT, que nasceu valorizando as oposições sindicais como representantes legítimos da base, defendendo o fim do imposto sindical e a necessária organização no local do trabalho.
Lembremos, inclusive, que a CUT chegou a criar uma estrutura paralela à estrutura oficial do sindicalismo brasileiro, com os departamentos de categoria. O caso mais evidente foi o do Departamento Nacional de Trabalhadores Rurais - DNTR/CUT que tentou criar um comando paralelo à CONTAG até meados dos anos 1990.
IHU On-Line - A CSP Conlutas, hegemonizada pelo PSTU e também com participação do PSOL vem crescendo? Ela pode ameaçar a hegemonia da CUT junto aos servidores?
Rudá Ricci - Cresce lentamente. Mas em alguns setores em que o conflito com o sindicalismo governista é mais agudo, em especial nas categorias do serviço público e em alguns conflitos da área da construção civil. É importante notar que a elite do movimento sindical vem se alterando. Os bancários perderam seu posto de liderança, que desde os anos 1990 esteve emparelhado com os metalúrgicos. Categorias do serviço público aumentam seu poder no mundo sindical. O caso ilustrativo é o da CUT Minas Gerais, onde a presidente é a coordenadora do sindicato estadual de professores, SindUTE. Não é um caso isolado. No campo do sindicalismo privado, cresce o poder dos comerciários. Perceba que há relação direta com o novo Brasil da agenda lulista-rooseveltiana: maior poder orientador do Estado e aumento do consumo popular.
IHU On-Line - Pode-se esperar uma nova etapa para o movimento sindical brasileiro? Em que sentido? Ou os sindicatos já fazem parte do passado?
Rudá Ricci - Ainda é muito cedo para vislumbrar impactos reais, tanto no mundo sindical como no mundo político. Acredito que a tendência será a luta pela recuperação da liderança perdida. E isto significará radicalização do discurso sindical, como medida de antecipação às oposições. Não há dúvidas de que as greves deste mês criaram um grande alerta nas cúpulas sindicais do país. Na mesma medida em que as manifestações de junho impactaram os partidos políticos e governantes. Dois fenômenos de quebra de legitimidade das representações formais. Mas que não apontam alternativas.
IHU On-Line - Recentemente o senhor declarou que estamos a um ponto de ter manifestação dos beneficiários do Bolsa Família. O que isso significa, considerando que o programa é bastante popular entre os que recebem?
Rudá Ricci - Esta declaração teve relação com duas percepções. A primeira, em função dos "novos brasileiros" estarem se projetando publicamente. Os brasileiros que se forjaram como novas comunidades a partir das mudanças sociais que ocorreram nos últimos dez anos, fruto das políticas lulistas. Os "meninos de junho" revelaram uma nova juventude, com valores realmente peculiares e novos. Os meninos do rolezinho revelaram o consumismo dos filhos dos emergentes, que alguns autores apressadamente denominaram de nova classe média. Agora, vemos se projetar uma nova base sindical. Todos se contrapondo à lógica das elites ou procurando ocupar um espaço que antes só era definido pelas elites (econômicas, políticas ou sindicais). Dos "novos brasileiros", só os beneficiários do Programa Bolsa Família - PBF não se apresentaram coletivamente.

“A CUT está acuada porque adotou certo padrão governista, mais focado nos acordos de cúpula com o Estado e menos afeto ao conflito trabalhista”

Mas a segunda percepção nasceu da leitura do livro de Walquiria Rego, "Vozes do Bolsa Família", um trabalho muito importante desta professora da Unicamp. O livro revela que as mulheres beneficiárias deste programa não são, nem de longe, clientela do Estado, como se lê na grande imprensa. Inclusive, afirmam que se trata de um direito e criticam o valor que recebem. Fico imaginando se não poderia ocorrer, numa versão mais politizada do que ocorreu quando do boato do fim do Bolsa Família em maio do ano passado, de essas beneficiárias articularem uma demanda coletiva por benefícios mais amplos, por uma rede de promoção que vá além da proteção à sua reprodução social. Porque o PBF não promove, apenas garante a reprodução daquele segmento como tal. Trata-se, portanto, de uma política liberal que, num país de cultura política conservadora como o nosso, é taxada de esquerda. Era uma mera especulação de minha parte.
IHU On-Line - Muitas das análises feitas ao governo Lula e Dilma nesses 12 anos destacam medidas importantes, como o aumento na distribuição de renda, aumento do salário mínimo, acesso a crédito, programas sociais de ingresso à universidade, etc. Diante desse quadro, como explicar as manifestações? Concorda com as análises de que há um mal-estar na sociedade? Esse mal-estar está associado a quê? Trata-se apenas a conjuntura da Copa?
Rudá Ricci - O problema do lulismo é que ele avança em termos sociais e até econômicos, mas retrocede na dimensão política. O lulismo parece refratário à gestão participativa e a qualquer mecanismo de cogestão ou educação para a cidadania ativa. Veja que não houve nenhuma novidade em termos curriculares, tanto no ensino básico quanto no universitário. O Programa Mais Médicos existe porque o projeto curricular para a medicina brasileira é conservador e elitista. Ouvi de um amigo médico que o padrão brasileiro é o norte-americano, em que embaixo do jaleco se usa terno e gravata. O lulismo não confrontou com a cultura fundamentalista e conservadora do país porque necessitava criar um ambiente de investimentos a partir do pacto desenvolvimentista de inspiração rooseveltiana. O problema é que este modelo foi implantado numa conjuntura de crise econômica internacional. Em suma, Lula implantou um fordismo tardio ou modelo rooseveltiano fora do seu tempo. As oscilações econômicas são inevitáveis. E somente um líder carismático pode domar o mar revolto. O que Lula fez magistralmente, quando, num gesto de ousadia, disse que a crise de 2008 era uma mera marolinha. Os brasileiros ouviram e confiaram, gastando naquele final de ano o que a prudência diria para não fazerem. E o país conseguiu tempo para fazer ajustes que acabaram por enfrentar o impacto da crise internacional.
Mas, desde 2011, a crise externa se agravou e não temos mais uma liderança carismática liderando o país. Enfim, o problema do lulismo é o campo político. Centrado na tutela estatal, dependemos do sinal do líder a cada percalço. E a população beneficiada por políticas de transferência de renda e incentivo ao consumo popular aguarda o sinal seguro do governo para lhe garantir estabilidade e até mesmo ascensão social constante. Quando isto não ocorre, o medo de voltar à pobreza se instala. E não há como se manifestar porque não foram criados mecanismos de organização ou canais institucionais de participação popular. Só resta uma saída: as ruas.
IHU On-Line - O que, especificamente, os protestos contra a Copa significam?
Rudá Ricci - Um constrangimento aos governos. Nada mais que isso. E os governos parecem que morderam a isca. Estão se armando desproporcionalmente. O que infla os manifestantes mais engajados. Aliás, algo que ocorreu na juventude da Presidente da República, já que o AI-5 não a fez retornar à sua casa. Muito pelo contrário. Temo que um governo de origem de esquerda acabe ensinando como a direita brasileira deve governar na democracia.
IHU On-Line - O que é possível vislumbrar para o mês da Copa? Mais protestos?
Rudá Ricci - Sim. Protestos diários, em cada localidade onde ocorrer um jogo da Copa, com poucos manifestantes e alta intensidade. Se os manifestantes adotarem o padrão dos grandes eventos internacionais que citei no início desta entrevista, cercarão hotéis onde as delegações e jornalistas internacionais estarão hospedados, imediações dos aeroportos e estádios. Mas não deverão envolver muita gente, já que estamos no país do futebol.
Contudo, se a seleção brasileira fracassar precocemente, a humilhação nacional poderá ter um lugar para se manifestar, já que os protestos estarão lá, todos os dias. Se isto ocorrer, poderemos ver novamente as multidões tomando as ruas das capitais brasileiras.
IHU On-Line - E em relação às eleições, que resultados e atitudes são possíveis vislumbrar tendo em vista esse cenário de protestos? Algum dos candidatos saberá dialogar com o público que está nas ruas?
Rudá Ricci - Se a seleção brasileira vencer o torneio da FIFA, o evento agraciará a reeleição de Dilma. Não haverá muito clima para críticas ácidas num momento em que o país estará de bem consigo mesmo. Estaremos nos redimindo de 1950, inclusive. Mas, se a seleção fracassar, a humilhação será quase insuportável, abrindo caminho para o ressentimento que já citei anteriormente. O problema é mais grave porque nenhum dos candidatos de outubro possui histórico que lhes dê condições para explorar esta insatisfação possível. Qualquer um parecerá oportunista. Mas dois personagens da política possuem tal histórico e legitimidade. Justamente os dois que não serão titulares do jogo, o que demonstra o quanto nosso sistema político-partidário está desorientado: Lula e Marina, os dois Silva.
(Por Patricia Fachin)
Fotos: (1)www.jornaldaparaiba.com.br (2)www.rodrigovianna.com.br

IHU. Os petistas e seu respeito aos direitos humanos. Triste.

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O Ajuste de Direitos proposto pelo Ministro da Justiça

"O que acontece a um país quando seu Ministro da Justiça se coloca acima da Constituição e decide “ajustar direitos”? Que instabilidades jurídicas para os direitos dos povos indígenas geram tal ação política do governo federal, promovendo “acordos” de revisão de extensão de áreas declaradas? Não deveria o Estado reafirmar o direito constatado e garantir a sua efetividade, mesmo que emperrada a questão nos tribunais?", perguntam Marcelo Zelic, Vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-SP, membro da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e coordenador do Projeto Armazém Memória e Jair Krischke, presidente do Movimento Justiça e Direitos Humanos, em artigo publicado pelo Jornal GGN, 28-05-2014.

Segundo eles, "diminuir 85% das terras dos Guaranis do Rio Grande do Sul, reproduz a pratica política de confinamento aplicada a seus parentes no Mato Grosso do Sul nos anos de 1970. O Estado brasileiro em 2014 busca assim a solução do problema?"

Para Marcelo Zelic e Jair Krischke, "frente a tantas violações de direitos humanos contra os povos indígenas brasileiros, apontadas nos estudos da Comissão Nacional da Verdade, não deveria a título de reparação, o Estado brasileiro rever suas praticas e mudar de conduta, demarcando suas terras e cuidando do bem estar destes povos? Repará-los é preciso, fundamentalmente um dever do Estado e de nossa sociedade. Reparar nossos graves erros para com eles é demarcar suas terras e não ajustar seus direitos".

Eis o artigo.
As declarações do Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo sobre as “negociações”, que realizou recentemente no Rio Grande do Sul com os povos Guarani e Kaingang, para resolver o conflito de terras que se arrasta há décadas neste estado, acende o sinal vermelho para aqueles que se preocupam com os rumos dos direitos humanos no Brasil.

A solução encontrada é de estarrecer: retirada de direitos para os Guaranis e intimidação do movimento Kaingang com a prisão de suas lideranças.

Segundo o site da Fundação Nacional do Índio a situação da terra indígena de Mato Preto foi reconhecida como de ocupação tradicional do povo Guarani no Rio Grande do Sul, sendo portanto constitucionalmente uma terra declarada indígena, aguardando somente os procedimentos finais do executivo para sua demarcação, homologação e a consequente desintrusão dos invasores que usurparam os direitos Guaranis a estas terras no passado.
Expulsos de suas terras na década de 50, as famílias Guaranis vivem acampadas na beira da estrada RS-135 desde setembro de 2003, travando uma dura luta pela sobrevivência, manutenção de sua cultura e demarcação de suas terras, cujo estudo de identificação foi realizado pela antropóloga Flávia de Melo, aprovado pela FUNAI, a quem cabe por direito a realização destes estudos e foi reconhecido através da Portaria n º 2.222 do Ministério da Justiça em 21/09/2012. Tudo realizado como previsto na Constituição do nosso país.

Pelo “ajuste de direitos” anunciado em entrevista coletiva sem a presença das lideranças indígenas da região, o Ministério da Justiça, que deveria zelar pelo cumprimento da Constituição e garantir os direitos indígenas, reduz as terras do povo Guarani de Mato Preto em quase 85% de sua área declarada.

Qual o contexto desta “mediação de conflito” realizada pelo Ministro da Justiça?

A “negociação” com os Guaranis deu-se algumas semanas depois de uma controvertida operação da Polícia Federal, que prendeu no dia 09 de maio sete lideranças Kaingang, convidadas a negociar com o estado brasileiro solução para o conflito em suas terras. Saíram presos logo após o início da reunião, sob acusação, sem provas, de que teriam participado do assassinato de dois agricultores gaúchos em conflitos de terra na região, pegando o Governo do Rio Grande Sul, anfitrião da reunião, de surpresa, segundo sua assessoria.

A comunidade Guarani que há mais de 10 anos vive precariamente na beira da estrada, numa correlação de força desigual, sob impacto de forte preconceito, não aguentando mais ameaças verbais e convivendo com constantes tiros para o alto disparados por agricultores, numa ação intimidatória de persuasão pelo medo, acabou por ceder ao Ministro conforme declarou o cacique de Mato Preto, Joel Kuaray ao jornalista Leonencio Nossa: "A gente aceita diminuir nossa terra porque hoje estamos na beira da linha do trem". "A gente tem o sentimento de que as ameaças vão diminuir, porque a redução da terra vai exigir a retirada de um número menor de agricultores da área."

O que acontece a um país quando seu Ministro da Justiça se coloca acima da Constituição e decide “ajustar direitos”? Que instabilidades jurídicas para os direitos dos povos indígenas geram tal ação política do governo federal, promovendo “acordos” de revisão de extensão de áreas declaradas? Não deveria o Estado reafirmar o direito constatado e garantir a sua efetividade, mesmo que emperrada a questão nos tribunais?

Como deve agir a cidadania quando se constata que o “ajuste de direitos” celebrado de forma leonina, fere preceitos legais e beneficia o lado não coberto pela Constituição? É este um exemplo de país que respeita e trabalha para o desenvolvimento dos direitos humanos e o zêlo pelas populações originárias? Ou aponta o advento de uma nova era do manda quem pode, obedece que tem juízo?

Ao se aproveitar da vulnerabilidade física e emocional de uma comunidade, para “celebrar” um acordo, reafirmamos, leonino, lesivo aos direitos constituicionais dos Guaranis, o Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo fere ou não fere o Código de Conduta da Alta Administração Federal? Irá o Ministro da Justiça assinar uma portaria de desmarcação de terras indígenas, anulando a portaria nº 2.222, sobre as terras Guaranis de Mato Preto, assinada por ele mesmo em setembro de 2012? É ética tal solução encontrada?

Diminuir 85% das terras dos Guaranis do Rio Grande do Sul, reproduz a pratica política de confinamento aplicada a seus parentes no Mato Grosso do Sul nos anos de 1970. O Estado brasileiro em 2014 busca assim a solução do problema? Quanto tempo levará para o crescimento populacional desta comunidade apresentar o quadro desolador e desagregador de confinamento em que vivem os Guarani-Kaiowá nas reservas a eles impostas durante a ditadura militar? Vale registrar que somente em 2013 73 indígenas se suicidaram no Mato Grosso do Sul. Isto não é um caso de saúde pública gerado pelo confinamento em que vivem? Reconhecer e demarcar os 4.230 hectares da Terra Guarani de Mato Preto não é o bom caminho da justiça social?

Em tempos pré-eleitorais, onde tudo se distorce e é usado por aqueles que almejam o poder, devemos calar frente às violações de direitos humanos cometidas pelo Estado? Em que este silêncio eleitoral beneficiará os direitos dos povos indígenas? Quem perde quando este tipo de discussão fica relegado a segundo plano e se torna objeto de muito patrulhamento ideológico sobre quem as levanta? Se por uma estratégia eleitoral é preciso calar sobre violações de direitos, perde o país.

Frente a tantas violações de direitos humanos contra os povos indígenas brasileiros, apontadas nos estudos da Comissão Nacional da Verdade, não deveria a título de reparação, o Estado brasileiro rever suas praticas e mudar de conduta, demarcando suas terras e cuidando do bem estar destes povos? Repará-los é preciso, fundamentalmente um dever do Estado e de nossa sociedade. Reparar nossos graves erros para com eles é demarcar suas terras e não ajustar seus direitos.

No campo dos direitos humanos é fundamental enquanto nação enfrentarmos estas questões, ainda mais em períodos eleitorais, para evitarmos mais retrocessos como a PEC 215, a portaria 303 da AGU e o desmonte da FUNAI,  efetivando o estado democrático de direito em nosso país.

Blog da Mary

Muro das lamentações


UOL. Com a Espanha na beira do caos, com gente suicidando por não ter como se manter, com o mundo como está, o IDIOTA vem com papo estilo Pelé. Ele lucra com Copa e sem Copa, bem como seus patrões. Devia calar a boca ou se informar melhor. E o jornalista, bem, poderia perguntar coisas como o emprego na Espanha, etc. E sobre os transportes, a saúde pública, a segurança no Brasil. Alienação é pegajosa.

Iniesta diz não entender protestos no Brasil: "o povo deveria celebrar"

João Henrique Marques
Do UOL, em Barcelona

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Iniesta, meia da Espanha Best Photo Agency & C / Pier Gia
 
Destaque da campeã mundial Espanha, Andrés Iniesta vem ao Brasil sem entender a razão das manifestações populares previstas para o período da Copa do Mundo. O meia admite que não conhece a realidade brasileira e evita criticar os protestos da população, mas deixa claro seu pensamento que as ruas do país deviam ser tomadas unicamente pela celebração. "É a Copa no país do futebol, e nada é mais bonito que isso. Todos deveriam festejar", disse.

Iniesta falou ao UOL Esporte em Barcelona durante evento de um de seus patrocinadores, realizado pouco antes do início da preparação da seleção espanhola para a disputa da Copa do Mundo. Os campeões mundiais estreiam em 13 de junho, contra a Holanda, em Salvador.

O meia carrega a responsabilidade de, hoje, ser o principal nome de sua seleção. Iniesta já tem o nome marcado na história do torneio como autor do gol do título em 2010, na África do Sul. Quatro anos depois, ele afirma que tal sucesso não mudou em nada seu futebol e personalidade. Confira a entrevista:

UOL Esporte: Você chega para a Copa do Mundo como o autor do gol do título na edição passada. Isso te traz alguma sensação diferente. Sente uma pressão maior?

Iniesta:O meu foco é em título e contribuição com a seleção espanhola. E isso é exatamente a mesma coisa com que convivia na edição passada. Nada é diferente e não me sinto maior por ter feito o gol do título.

Fazer o gol do título não mudou nada em sua vida?

Sou a mesma pessoa, tenho a mesma personalidade e me relaciono com os outros da mesma forma. O que mudou é o nascimento da minha filha (Valeria nasceu em 2011). Isso sim pode me fazer ser uma pessoa diferente. Não sinto nada de especial que mude o rumo da minha vida com o gol da Copa.

E como jogador, atualmente, é um Iniesta diferente?

Também não. A minha função dentro do Barcelona e da Espanha segue sendo a mesma. Ainda consigo fisicamente ajudar, mas tenho sempre que estar em alto nível. A preparação com muito empenho nunca vai faltar de minha parte.

Você está consciente que algumas manifestações vão ocorrer no Brasil durante a Copa? O que pensa disso?

Estou sim! Na Copa das Confederações já percebemos um cenário desses. Não tenho propriedade para ficar opinando pelos outros, em especial os problemas do Brasil. Eu só acho que é algo que me parece raro, soa dessa forma.

Como raro?

É, veja bem: É a Copa no país do futebol. Nada é mais bonito que isso. Todos deviam festejar. É desta maneira que eu penso, daqui de longe.

E ganhar essa Copa no Brasil tem um significado especial?

Na verdade, o que penso é que ganhar o Mundial no Brasil, vindo com duas Euros (Eurocopa) e um Mundial, seria o encerramento perfeito de um ciclo. Algo de ouro. Vamos em busca disso.

A Espanha é a favorita para ganhar a Copa?

Temos uma chave complicada, com Holanda, Chile, não é coisa simples. Brasil, Alemanha, Argentina, Itália, todas essas carregam o mesmo favoritismo que o nosso.

Muitos comentam que a rivalidade entre Barcelona e Real Madrid atrapalha a seleção. Isso acontece?

Nós sempre convivemos com essa rivalidade. Só que na hora que chegamos à seleção somos todos bem relacionados. Aqui somos todos amigos fora de campo. Ganhar a Copa para a Fúria é o objetivo que nos une.

O que achou da temporada de Neymar no Barcelona?

A temporada foi boa, como esperávamos. Ele demonstra enorme talento, mas acima de tudo um potencial para crescer cada vez mais. A responsabilidade que já carrega por aqui é grande, só que ele está acostumado com isso. Superou isso na própria seleção.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Roque


Roque


Blog da Mary

Jornal da Unicamp

Campinas, 23 de maio de 2014 a 01 de junho de 2014 – ANO 2014 – Nº 598

O consumo e as lições da crise

Dissertação analisa desregulamentação bancária e financeira dos EUA nas últimas três décadas
Em seu estudo de mestrado junto ao Instituto de Economia (IE) da Unicamp, a bacharel em relações internacionais Lídia Brochier buscou compreender a evolução do consumo pessoal nos Estados Unidos (EUA) a partir da década de 1980 até a crise financeira de 2007 a 2009. O “consumo financeirizado”, como ela denomina em seu trabalho, manteve, de um lado, a expansão da economia norte-americana por quase 30 anos, mas gerou, de outro, um endividamento insustentável, que culminou na crise. A situação estadunidense, segundo a autora do estudo, serve como alerta para a economia brasileira.
“Não é mais possível analisar o consumo apenas baseado na renda. E as teorias clássicas se apoiam muito neste aspecto. É importante avaliar a variação dos ganhos de capital porque ela demonstra como o consumo se expande atualmente. Tem a questão do crédito e do endividamento, que podem se tornar inconsistentes no médio prazo. Num primeiro momento o crédito leva ao crescimento do consumo e da economia, mas posteriormente isso pode apresentar consequências negativas, como aconteceu nos Estados Unidos. Embora o Brasil ainda tenha muito espaço para a expansão da economia, a situação norte-americana serve de alerta ao país”, analisa.
A pesquisadora pondera que a oferta de crédito no Brasil ainda é baixa quando comparada com as estatísticas norte-americanas. “Mas não basta somente expandir o crédito ao consumidor. O consumo e o investimento têm que caminhar juntos. Não tem como o consumo crescer indefinidamente se o investimento não crescer no país. É preciso haver uma complementariedade”, defende.
Em relação à situação norte-americana, a estudiosa observa que, atualmente, o crescimento do investimento está num patamar razoável, com uma taxa real de 9,5%, registrada em 2012. “Resta saber se esse crescimento é sustentável em médio prazo. Na falta dos investimentos aos níveis necessários, a formação de uma nova bolha na economia pode não ser o cenário desejável, mas é, sim, palpável.”
Lídia Brochier foi orientada pela docente Ana Rosa Ribeiro de Mendonça Sarti, que atua no Departamento de Teoria Econômica do IE. A dissertação, defendida em fevereiro deste ano, obteve apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que concedeu bolsa à pesquisadora. No momento, ela dá sequência aos estudos com uma pesquisa de doutorado no IE com o objetivo de aprofundar as estruturas de financiamento do consumo e suas consequências.

A dinâmica
Para a estudiosa da Unicamp, a desregulamentação progressiva do sistema bancário e financeiro norte-americano, desde 1930, gerou forte expansão do consumo, permitindo que as famílias passassem a consumir com base em instrumentos não tradicionais. Tais “inovações financeiras” ampliaram a capacidade de empréstimo das famílias, tornaram ativos ilíquidos em ativos líquidos e dinamizaram o consumo de maneira sem precedentes.
Mas, por outro lado, esse “consumo financeirizado” trouxe endividamento crescente, que se tornou insustentável, como demonstrou a crise financeira no país. Lídia Brochier considera que a expansão do crédito tem aspectos positivos, sobretudo para aumentar o consumo e impulsionar a economia, mas a forma como isso foi feito nos Estados Unidos, com a alavancagem excessiva, trouxe problemas.
“Lá as famílias tinham empréstimos até com amortização negativa. Isso significa que o pagamento mensal era cada vez menor e, portanto, o montante da dívida final ia aumentando. E uma hora isso ia estourar, pois gerava desequilíbrio nos balanços das famílias. A expansão do crédito ao consumidor e das hipotecas desde a década de 1980 esteve na base do ‘consumo financeirizado’ no país. Esse padrão de crescimento, em ação por quase 30 anos, foi questionando pela crise financeira”, lembra.
Assim como a financeirização moldou as formas de investimento das empresas, ela também evocou um papel para o consumo das famílias mais sofisticado do que aquele previsto pelas teorias clássicas do consumo. A pesquisadora afirma que os estudos sobre a financeirização focam, em geral, muito mais a questão de como ela afeta as decisões das empresas e, consequentemente, o investimento, do que dos consumidores.
“Meu trabalho revisa as teorias mais convencionais e difundidas do consumo a fim de extrair ideias pertinentes para compreender a evolução do consumo no contexto da financeirização. Objetiva também destacar alguns pontos em que tais teorias são historicamente datadas, não se aplicando às modificações ensejadas por esse processo. O consumo é um fenômeno pouco investigado, sobretudo entre as teorias mais clássicas. Mas ele dever ser entendido, atualmente, como uma peça fundamental do sistema capitalista”, sustenta.

O peso nas economias
Conforme levantamento de 2011 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o consumo pessoal representou cerca de 60% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2009. Na economia dos Estados Unidos, o gasto familiar superou os 70% do PIB em 2012, conforme dados do ano passado do Flow of Funds Accounts (FFA), levantamento realizado pelo banco central americano, o Federal Reserve (FED).
“O consumo tem enorme peso no PIB de muitas, senão, da maioria das economias. Além disso, num contexto em que países como a China estão fortalecendo sua estratégia de crescimento a partir da demanda interna, a relevância do tema se torna explícita. Graças ao ambiente gerado numa economia financeirizada, o descasamento dos gastos das famílias dos limites da renda contribui para o funcionamento do consumo como elemento ativo da demanda. Os Estados Unidos constituem a configuração mais peculiar na qual o consumo agiu como motor de expansão dos gastos nas últimas décadas”,  examina Lídia Brochier.
Seu estudo foi dividido em três capítulos. No primeiro, a pesquisadora realizou uma revisão das teorias do consumo. Foram estudadas as teorias de John Maynard Keynes, James Duesenberry, Franco Modigliani, Milton Friedman, Michael Kalecki e Hyman Philip Minsky. No segundo capítulo, ela elaborou uma contextualização histórica do processo de desregulamentação bancária e financeira. Por fim, no último a pesquisadora discute os dados do consumo em torno de três eixos: a renda, a riqueza e o crédito, e o endividamento das famílias.


Publicações
Artigos
BROCHIER, L. . A financeirização do consumo e o problema da geração de demanda agregada nos EUA. 2013. (Apresentação de Trabalho/Congresso). XVIII Encontro Nacional de Economia Política.
BROCHIER, L. . A financeirização do consumo e a crise financeira nos Estados Unidos: o fim do padrão de crescimento. 2012. (Apresentação de Trabalho/Congresso). V Encontro Internacional da AKB (Associação Keynesiana Brasileira).

Dissertação: “A financeirização do consumo: uma análise das modificações do consumo pessoal nos Estados Unidos da década de 1980 à crise financeira de 2007-9”
Autora: Lídia BrochierOrientadora: Ana Rosa Ribeiro de Mendonça SartiUnidade: Instituto de Economia (IE)Financiamento: Capes

IHU/Unisinos

  
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Repúdio ao ataque da PM contra manifestação pacífica no DF

Indígenas e manifestantes do Comitê Popular da Copa entraram em confronto com policiais em Brasília, durante manifestação nesta terça-feira. Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) seis indígenas, um fotógrafo da Reuters e um padre foram feridos durante ataque da polícia. Três pessoas foram presas. A APIB divulgou nota pública condenando a ação policial.

Eis a nota.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) vem a público repudiar a violenta e despropositada ação da Polícia Militar do Distrito Federal, que reprimiu na tarde desta terça-feira, 27/05, ato pacífico em que participavam cerca de 600 lideranças indígenas de todo o país.

Por volta das 17h40 os indígenas, que estão em Brasília participando da Mobilização Nacional em Defesa dos Direitos Territoriais de seus povos, se uniram ao ato convocado pelo Comitê Popular da Copa - DF e marchavam tranquilamente em direção ao Estádio Nacional Mané Garrincha quando foram surpreendidos pela Cavalaria da Polícia com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, spray de pimenta e tiros de bala de borracha.

O Tenente Coronel Moreno, da Polícia Militar, havia feito acordo com o Comitê Popular da Copa para assegurar a chegada do protesto pacífico ao Estádio Nacional Mané Garrincha. Porém, quando os manifestantes se aproximaram do estádio, começaram a ser atacados pela polícia.

Seis lideranças indígenas foram atingidas por balas de borracha, entre elas uma mulher do povo Pankararu, do Nordeste. Um fotógrafo da Agência Reuters sofreu ferimento na perna por resquícios da explosão de uma bomba de efeito moral. Um padre que acompanhava o povo Xerente foi atingido na mão por uma bala de borracha. Além dos feridos, três manifestantes foram presos.

Diante desses fatos, exigimos a apuração imediata dos abusos cometidos pela polícia que são parte da estratégia de criminalização dos movimentos sociais e dos nossos povos.

Brasília-DF, 27 de maio de 2014.
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB

IHU/Unisinos

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O inimigo interno é, no conceito de pacificação de hoje, o povo todo das favelas

Movimentos sociais protestam, em frente à favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, e na Avenida Brasil, contra ação da tropa do Bope na comunidade em junho, que resultou na morte de 10 pessoas. Foto de Tomaz Silva/ABr.
O Brasil inteiro se acostumou a assistir, por anos a fio, notícias da violência que caracterizava a vida de uma de suas cidades: em qualquer canto desse país, todo mundo sabia que, no Rio de Janeiro, traficantes de drogas instalados nas favelas imprimiam um clima de guerra à população. Em 2009, o Brasil inteiro recebeu, com otimismo, o anúncio de uma política que expulsaria o tráfico, ‘pacificando’ as favelas cariocas. Cinco anos depois, esse mesmo Brasil inteiro assiste, na tela da mesma TV, a cenas em que moradores dessas comunidades interditam ruas, queimam pneus em protesto e atacam a sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), chorando seus mortos – só que, agora, pela polícia.
A entrevista é de Viviane Tavares, publicada por EcoDebate, 27-05-2014.
Depois de passar seis meses visitando, conhecendo e entrevistando pessoas de diversas favelas cariocas, Maria Helena Moreira Alves, professora aposentada da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), acaba de lançar o livro ‘Vivendo no fogo cruzado’, que ajuda a entender esse processo. Nesta entrevista, ela explica que o projeto de pacificação que chegou ao Brasil tem origens num programa norte-americano que foi aplicado durante a Guerra do Vietnã e que tem semelhança com a experiência de outros países, como a Colômbia. Ela localiza na ditadura o início da construção de um inimigo interno, que hoje se identifica com as populações de favela. E alerta: as pessoas reagem quando começam a perder seus filhos.
Eis a entrevista.
A política de ‘pacificação’ no Brasil vem desde Duque de Caxias, passa por Canudos e hoje é encontrada nas favelas. Como se deu isso historicamente e como você avalia o que temos hoje?
É claro que já temos todo um precedente que apoia isso, mas o que nós temos hoje, o programa da UPP e o termo pacificação, está ligado diretamente ao programa dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, que, aqui, está ligado à doutrina de segurança interna, que foi aplicada durante toda a ditadura militar. Isso foi criado durante a ditadura, não foi com Duque de Caxias nem com a escravidão. Apesar de podermos dizer que o Bope [Batalhão de Operações de Policias Especiais] parece o capitão do mato, na verdade ele é um soldado armado para enfrentar uma guerra interna, e o inimigo interno é, no conceito da pacificação de hoje, o povo todo das favelas.
Costuma-se dizer que a referência da UPP aqui no Brasil veio da Colômbia. Você diz que veio do Vietnã. O que há em comum na experiência de Brasil, Colômbia e Vietnã?
Têm em comum o cerco, a tomada do território, o trabalho primeiro militar, seguido de um trabalho social. No Rio o trabalho social nunca chegou, ficou só no repressivo. Em Bogotá sim, teve mais trabalho social, que também não foi adiante, mas a repressão foi mais intensa. O Vietnã foi o modelo, com um programa que se chamava Pacification Hamlets. Era o cerco das aldeias que eles achavam que estavam sob influência dos vietcongues, em áreas do Vietnã do Sul, que estava em guerra com o Vietnã do Norte. Os Estados Unidos apoiavam o Vietnã do Sul, mas havia várias áreas que estavam sob influência dos vietcongues. E nesses territórios eles fizeram o Pacification Hamlets, que seguia muito o modelo que agora a gente vê da UPP: primeiro uma invasão militar do território, seletivamente eliminando os líderes mais importantes; depois uma segunda onda de repressão que envolvia tortura não seletiva – já não eram os líderes, mas qualquer pessoa comum que eles pegavam, torturavam e jogavam para as outras verem, como parte do terror; e controle de modo que a aldeia ficasse pacificada pelo medo. Mas vinha uma segunda etapa que era para ganhar corações e mentes, com programas de educação, esportes em geral e saúde também, com muita coisa voltada para crianças. A ideia era dividir a comunidade, que algumas pessoas que estivessem envolvidas em programas sociais achassem bom e tentassem ignorar a parte repressiva. E a parte repressiva passava a ser mais escondida. No caso do Vietnã, quando houve o massacre muito famoso em My Lai, o povo se rebelou e os Estados Unidos tiveram que fugir quando perderam a guerra. E o mesmo vai acontecer no Brasil. Chega um momento em que a política de terror gera mais raiva do que medo. É parte da própria sobrevivência: qualquer animal quando está muito acuado se defende atacando. E essa reação vem quando você começa, por exemplo, a perder seus filhos.
Qual é o objetivo da pacificação e quem está sendo pacificado?
A população que está sofrendo esse processo é aquela que não é útil para o sistema econômico. Então, se eliminá-la, não faz falta. O que eles estão eliminando são os jovens pobres, negros, analfabetos que não servem para a mão de obra, aquela mão de obra fácil, que já tem muito. Em termos de direitos humanos, o Brasil é um dos piores países. É sempre importante lembrar que estamos em um país que não está em guerra declarada, embora o ex-governador do Rio de Janeiro tenha declarado guerra, mas isso foi da cabeça dele. O Brasil está em situação de rebelião popular, mas não é uma guerra civil, ainda. Espero que não venha a ser. Se continuar essa pressão, até pode vir a ser, como é o caso da Colômbia. Muitos casos, como o da Nicarágua, com o levante de Manágua, que eu vivi quando morei lá, foram causados também pelo terror, que controla até certo ponto. Depois, quando você não tem mais esperança, acaba o medo.
O levante de Manágua foi quando aconteceu a operação Herodes, no final do governo contra os sandinistas, na qual eles mandaram rodear certas áreas mais combativas de Manágua, retiraram à noite das casas os maiores de dez anos e metralharam na rua, com argumento de que eles já estavam entrando na Frente Sandinista de Libertação Nacional. É muito parecido com a forma como a polícia brasileira fala que o jovem vai virar traficante: ‘Nasceu, vira criminoso ’. E eles mataram tantas crianças, que houve uma rebelião total, as pessoas se juntaram aos sandinistas e fortaleceram o movimento, que ganhou a revolução. E as pessoas falaram que acabou o medo quando não tinham mais nada a perder. Hoje, o que temos? O Bope entra nas casas, arromba as portas, bate nas pessoas… Ouvi relatos de mulheres que falavam ‘Graças a Deus meu marido não estava em casa, porque quando tem homem eles matam’.
Mas, nos exemplos que você cita, como o da Nicarágua, havia forças de esquerda organizada com a qual a população revoltosa se aliou. Como isso se dá no Brasil?
Nós temos um exemplo histórico único no Brasil de organização de revolta popular, que são os quilombos. Infelizmente, não se trabalha muito com isso, mas somos um dos únicos países que teve uma revolução popular de escravos que chegaram a fundar cidades, foram mais de 8 mil quilombos. Eu acho que ainda temos essa cultura nas favelas pelo trabalho comunitário, o chamado mutirão. Existe muito dos quilombos nesse sentido. Fiquei admirada de ver que, quando começava um tiroteio nas favelas, apareciam pessoas de tudo quanto era lugar e esvaziavam a escola em 20 minutos. Retiravam mil crianças, não necessariamente deles, mas de vizinhos, e elas ficavam protegidas até os pais voltarem. É uma organização comunitária muito profunda de solidariedade. Não é que as pessoas estejam a favor do tráfico ou achem o tráfico melhor do que a polícia, mas diziam o seguinte: o traficante local é da comunidade, nós temos menos medo dele porque se você não for diretamente contra ele, ele não faz nada com você nem com a sua família, já a polícia não, vai contra todo mundo. A diretora de uma das escolas em que eu estive no Complexo do Alemão me contou que, durante um tiroteio muito grande, houve um momento em que o Bope entrou, com Caveirão e tudo, e começou a dar tiros de dentro da escola. Tiraram até telhas para dar tiro. E no dia seguinte veio o chefe do tráfico reclamar com ela, dizendo: ‘como é que você deixa uma coisa dessas? Eu tenho filho nessa escola’.
Agora, sobre rebelião popular, é outra coisa. Acho que você tem razão. Nós não temos condições hoje de organizar nenhuma resistência – eu nem diria rebelião – com caminhos dirigidos, como tínhamos esperança, quando fundamos o PT, de que o partido fizesse esse papel. Seria o caminho da classe trabalhadora guiada pelo PT para um jeito petista de governar, mudando todas as referências, não fazendo alianças, inclusive com uma coisa que também não aconteceu, e que é triste, que era o novo movimento sindical ser autônomo, não ligado a nenhum governo. Durante um tempo isso foi muito forte, mas hoje a CUT tem dirigentes no governo, acabou a autonomia do movimento sindical e, de certa maneira, de outros movimentos também. Então, diminuíram os movimentos sociais como uma corrente que possa organizar o povo e não existe partido que possa organizar o povo em geral, porque todos estão vinculados a uma política de interesses. Isso é muito grave porque a população deixou de acreditar nas instituições. E o que pode ser uma rebelião popular, então? Pode ser uma explosão social, do tipo queima tudo, quebra tudo, sem direção, que pode virar fascista ou pode ser só quebra-quebra e ter um massacre geral de repressão e voltar à situação de repressão interna das comunidades mais pobres. Até ter outra explosão. Isso acontece em vários países. Tem que ter um grande líder carismático e todo um movimento por trás organizado para conseguir isso. E o Brasil não tem mais nem um líder carismático. Eu acho que o Lula ainda é, mas já não tem mais a força da condução de um movimento, como tinha antes. Ele podia ter feito isso em 2002, acho que tinha 80% de aprovação para fazer transformações profundas. Na hora em que não fez, em que começou a fazer alianças para governar dentro do modelo político que existe, tirou essa possibilidade. E hoje em dia acho que o povo está descrente. Então nós podemos ter uma situação de muita confusão, muita briga na rua, mas sem uma condução política.
Você disse que a política de segurança mudou muito pouco, mas muitas pessoas acreditaram nas UPPs. Por quê?
Acho que as pessoas tiveram uma esperança muito grande por chegarem outras coisas com a UPP. E foi-se vendo, com o passar do tempo, que não era isso. Lembro uma frase de uma moradora da Rocinha [favela do Rio de Janeiro] que, quando perguntada se era a favor da UPP, respondeu: ‘Estou em silêncio’. E foi indagada que, se estava em silêncio é porque estava gostando, e ela respondeu que o silêncio significava o medo. Se você mora lá, diante da violência, não é possível dizer que é contra, com sua família na mira de uma metralhadora em cada esquina. E essa população está em um fogo cruzado porque os donos do morro ainda estão lá, mas os mandantes estão fora da favela. No livro ‘Vivendo no fogo cruzado’, a entrevista com Beltrame [secretário de segurança do Rio de Janeiro] mostra que não tem traficante nas favelas, que eles moram fora das favelas, o que existe é o pequeno tráfico, vendido em envelopinho de R$ 300. O governo não está com véu nos olhos e sabe quem comanda o tráfico e quem comanda o tráfico é internacional.
Ainda é cedo para avaliar a estratégia adotada no Brasil, como defende o secretário de segurança pública do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame? O que já dá para avaliar hoje?
A UPP está muito clara. É possível avaliar há muito tempo. O Beltrame, por ser um intelectual e ter uma certa vivência que vai além da UPP, ele não gosta muito do programa. Inclusive na entrevista do livro [‘Vivendo no fogo cruzado’] ele diz que não gosta do nome ‘pacificação’ por chamar muita atenção ao que realmente é. O que não está claro é por que o governo federal está apoiando. E por que a Ministra de Direitos Humanos chora quando vê uma notícia como a da mulher arrastada [Cláudia Silva Ferreira], a do Amarildo, e depois não faz nada de concreto. Não tem uma intervenção do Governo Federal. E tinha na época do Lula, isso eu tenho que dar crédito a ele, mas ele acabou se aliando ao Cabral, e a aliança com o Cabral foi mais importante do que os direitos humanos. Aliás, ele nos falou isso em uma das entrevistas: que faria aliança até com o diabo se fosse necessário para o Brasil aprovar as leis sociais para acabar com a pobreza. ‘E para passar as leis no Congresso, eu preciso do PMDB. E o PMDB no Rio é o Cabral. Eu tenho que me aliar ao Cabral’, ele disse. Era uma crítica dele mesmo ao sistema de governo. Ainda estávamos no Pronasci [Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania], mas ele já sabia que o programa iria morrer. O que precisamos é uma reforma geral, temos que rever a Constituição. Antes eu falava de desmilitarizar, mas agora eu defendo que a PM deve ser abolida. Precisamos de uma polícia civil para lidar com o povo, melhorá-la, treiná-la, trabalhar com inteligência, não pode ser os que estão aí hoje, mas acho muito difícil. A PM está nas mãos dos governadores.
Por que o Pronasci não vingou?
Eu acho que existem interesses por trás que estão vinculados ao crime organizado e que não querem que o programa dê certo. Realmente não interessa a muita gente poderosa – eu não diria que está no poder, diria poderosa – do crime organizado internacional, que está vinculado com o crime local, que isso dê certo. É mais fácil comprar a polícia, formar miliciano, do que ter uma polícia eficaz que trabalha com a comunidade e vai prevenir crime. Isso é bem claro. Os governadores não querem porque têm o Exército nas suas mãos e muitas vezes defendem interesses não só deles, mas interesses econômicos próprios. Vi uma notícia de que a senadora Kátia Abreu está apresentando um projeto no Congresso que elimina o cadastro das empresas que têm trabalho escravo. Isso é muito grave e mostra como ainda existem interesses até para manter a escravidão.
A investigação coordenada por Philipp Alston, relator especial da ONU sobre Execuções Extrajudiciais, Sumárias ou Arbitrárias, aponta diversas iniciativas como o fim da polícia militar e do caveirão, a instalação da ouvidoria da polícia de forma séria e a eliminação dos ‘autos de resistência’ ou ‘resistência seguida de morte’ para o avanço da segurança pública no país. Isso pode ajudar?
As sugestões do Philipp são importantes porque vêm da ONU, mas Luiz Eduardo Soares já falava isso e continua falando. Hoje a OAB já assumiu esse discurso. É importante que seja a ONU porque há possibilidade de sanções sobre o Governo Federal. E não vai ter esse papo de que não posso intervir porque a Constituição não deixa. Isso é difícil porque faz parte da geopolítica internacional não falar da violência do Brasil, não falar mal da UPP, não fazer sanção. Se o que está acontecendo no Brasil fosse na Ucrânia seria um escândalo internacional. Há todo um esquema internacional, porque querem que o Brasil continue fazendo o seu papel de subimpério. A doutrina de segurança nacional com desenvolvimento existe ainda e o papel geopolítico do Brasil como a Escola Superior de Guerra concedeu ainda está vigente dentro do contexto geopolítico internacional. Não é à toa que o Obama deu palmadinha nas costas do Lula e falou que ele é o cara. O Lula não entendeu o que isso quis dizer. Ele é o cara ideal para conduzir o país em uma geopolítica que interessa aos Estados Unidos, que nunca quiseram reformas políticas profundas no Brasil. Pode ter o Mujica no Uruguai que eles aguentam, dão prêmio, mas o Brasil é outro papo. O Brasil tem fronteira em quase toda a América Latina, domina o Atlântico inteiro, de lado a lado, com isso domina a África, e isso tudo está dentro da concepção da doutrina de segurança nacional e internacional da Escola Superior de Guerra.