quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Renúncias, Roberto Romano

Renúncias

Roberto Romano

13 Agosto 2015 | 03h 00
 
Quais reflexões surgiram na mente de Bento 16 quando decidia, na solidão dos apartamentos pontifícios, a sua renúncia? Ponderava as várias faces do seu governo, as dificuldades vencidas e as insuperáveis, em razão da idade? Pensou ele nos inúmeros obstáculos para chegar ao trono de São Pedro? Rememorou os instantes de crise desde que, assessor em teologia reconhecido pela competência entre padres do Vaticano II, seguiu pelos corredores dos palácios recolhendo títulos? Reviu a cena de sua consagração episcopal, depois cardinalícia por João Paulo 2? Evocou as vezes em que exigiu explicações dos teólogos progressistas, antes seus aliados, para atender a pastoral do papa reinante? Num átimo, repassou sua vida toda, desde a infância na Bavária, quando vestiu o uniforme da juventude hitlerista? Ninguém sabe.

O fato é que, inesperadamente, com latim castiço, ele surpreendeu os líderes da Igreja com sua renúncia. E o mundo ficou perplexo com eles. Foi matéria rica para a imprensa mundial durante dias, numa época em que as notícias da manhã são gastas e sem interesse no crepúsculo. Joseph Ratzinger entrou para a seleta companhia dos poderosos que abriram mão do poder, deixando a liderança de uma instituição antiga como o Ocidente.

A Igreja Católica é rica de ensinamentos espirituais que reúnem prismas os mais diversos. Os seus símbolos ultrapassam em dignidade as que se baseiam em signos lógicos, jurídicos, políticos, econômicos. A Igreja é um tecido simbólico intrincado. A nos inspirar em Tertuliano, ela é uma cauda de pavão com múltiplas cores, todas convergindo para o efeito maior, a vista sinótica do arco-íris. Nela, têm lugar todas as culturas e ideias. A única exigência é que a harmonia do todo seja respeitada pelos particulares. Administrar cada uma das formas da cultura e conduzi-las à concórdia sempre foi o desafio dos pastores. O catolicismo reúne os opostos e os conduz, na observação de E. Canetti, rumo ao Eterno. A sua hierarquia não se deixa dominar pela voragem do tempo que desgraça os Estados, a sociedade civil e os mercados. Jacques le Goff o diz bem num artigo eloquente: “Tempo da Igreja e tempo do mercador”. Este último deixa-se penetrar pela rapidez das trocas, vende e compra o tempo na forma dos juros. Mas a Igreja declara que o tempo a Deus pertence e adverte contra a divinização das moedas.

Muito se fala, no Brasil, sobre o dito de Lampedusa em O Leopardo: é preciso mudar tudo, para que tudo permaneça como está. Poucos recordam a desolada atitude do personagem principal do romance, o Príncipe de Salina, com sua plena consciência de que os poderosos têm hora e data para mandar e para desaparecer do cenário político e mundano.

Quando seu confessor o reprova, e à aristocracia, por não defender a Igreja, o nobre responde com clareza meridiana: “Não somos cegos, caro padre, somos apenas homens. Vivemos numa realidade transitória à qual tentamos nos adaptar como as algas se dobram em face das ondas marítimas”. À Igreja foi dada implicitamente a promessa da imortalidade, diz ele, modificando o dito evangélico de que as portas do inferno não prevalecerão sobre a pedra na qual Pedro vigiará os céus e a terra. Tu est Petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam. Entre a imortalidade eclesiástica e a vida dos indivíduos e classes, brota o abismo. “Para nós, um paliativo que promete cem anos equivale à eternidade. Poderemos nos preocupar com os nossos filhos, talvez com os netinhos; mas além deles tudo o que podemos acariciar com estas mãos não nos obriga. Não posso me preocupar sobre quem serão os meus descendentes eventuais em 1960. Mas a Igreja, sim, deve se preocupar, porque ela é destinada a não morrer. No seu desespero está implícito o conforto. E o senhor acredita que, se ela pudesse salvar a si mesma com o nosso sacrifício, não o faria?

Sim, com certeza. E faria bem.”

As dimensões do tempo esmagam poderes e riquezas. A Igreja não é eterna, mas recebeu a promessa da imortalidade. Haverá um dia em que ela será chamada por Deus a prestar contas dos fiéis e de si mesma. Este será o dia do Juízo Final, quando o tempo sumirá no Eterno, com todas as vaidades do mundo. Não haverá mais tempo e espaço. Mas até o instante oportuno (Kayrós) ela, por não ser eterna, conhecerá a tentação do nada, do mal. Na marcha rumo à salvação, ela passará por todos os príncipes, Estados, sociedades, classes, cujo tempo é finito, pura degração do Eterno. Nada no tempo é estável, durável, sobretudo os homens e seu poder.

Com base em tais doutrinas, a dupla de escritores Alain Boureau e Corinne Péneau publicou em data recente um livro com vários ensaios mais do que oportuno no mundo político e no Brasil de hoje: O luto do poder, ensaios sobre a abdicação (Paris, Les Belles Lettres, 2013). O volume repassa a renúncia da rainha Cristina, do general De Gaulle, do literário Rei Lear, de Bento 16. Todos os autores da coletânea insistem na situação peculiar dos abdicantes: com seu gesto, eles se põem acima do poder que lhes foi delegado. Mas, assim, eles também se colocam entre os mais solitários dos seres humanos. Ao poder estatal é atribuída a permanência, desde que súditos e reis morram ou renunciem. O segredo da estabilidade reside justamente na substituição dos entes efêmeros que ocupam os postos de poder.

A leitura da coletânea pode ser útil para todos os políticos nacionais que, no governo e nas oposições, se preocupam com a solidez institucional. Esta, não raro, depende de muitas renúncias: dos que estão como hóspedes nos palácios ou de quem almeja neles se instalar temporariamente. Para bom entendedor, uma vírgula basta.

*Roberto Romano é professor da Unicamp, é autor de ‘Razão de Estado e Outros Estados da Razão’ (Perspectiva)

domingo, 9 de agosto de 2015

Zero Hora, Coluna PROA

Colunistas

Roberto Romano: inflações

"A inflação, como os tumores, é sintoma, não origem. O desarranjo na estrutura do corpo, biológico ou social, brota dos excessos, tolerâncias imprudentes, hábitos perniciosos à saúde"

Por: Roberto Romano*
08/08/2015 - 15h07min
Roberto Romano: inflações Marcelo Oliveira/Agencia RBS
Outrora, até mesmo o chuchu foi culpado pela inflação Foto: Marcelo Oliveira / Agencia RBS
 
* Roberto Romano é professor titular de Ética e Filosofia Política da Unicamp. Escreve quinzenalmente.

O termo inflação, como boa parte dos vocábulos políticos, econômicos ou éticos ocidentais, tem origem na medicina. “Inflatio” significa comumente inchaço, tumor, enfizema, edema. No campo espiritual, o sujeito “inflatus” é o pavão humano cheio de ar, tolo. A medicina que honra seu nome jamais confunde os registros físicos e os morais. Ela observa os excessos da paixão que acomete o cliente e o próprio médico. Existem pacientes intratáveis, mas também médicos autoritários, incompetentes, vácuos. A razão é que ambos integram a humanidade, mistura de bom senso e loucura, simpatia e malícia, honradez e crime. 

A inflação monetária – fato físico e espiritual – destrói valores. Páginas sombrias foram escritas por Elias Canetti em Massa e Poder, monumento antropológico do século 20. Ali, uma tese exige reflexão: “Pode-se afirmar que nas nossas civilizações modernas, excetuando-se as guerras e as revoluções, não existe nada que em sua envergadura seja comparável às inflações”. Se o índice inflacionário na república de Weimar fosse menos grave, diz ele, milhões teriam escapado dos campos construídos pelos nazistas.

Apenas imprudentes menosprezam o fenômeno inflacionário. Um livro que amplia o pensamento de Canetti pode ser lido pelos que se empenham em direitos civis. Refiro-me ao trabalho de B. Widdig, Culture and Inflation in Weimar Germany (Berkeley, University of California Press, 2001). Ao falar do invento do zero e sua relevância no drama financeiro, Widdig afirma: “A inflação marca um derretimento catastrófico no qual os opostos do infinito crescimento e do vazio entram em colapso um no outro”. Se há eficácia econômica, o zero indica acréscimo vital. Na inflação impera o zero como vazio e morte. Um trabalhador ganha milhões de salário, mas só recebe a fieira de zeros que nada garantem para sua família. Temos a base social para o niilismo totalitário. Não por acaso, o fascismo gritou na Europa, sobretudo na Espanha: “viva la muerte!”.  A ruptura dos laços humanos, o regresso ao animalesco, o sumiço da compaixão seguem o inchaço da moeda na dança macabra que termina em monstruosos cemitérios. Widdig mostra, índices à mão, que o fato inflacionário não foi gerado pela república de Weimar, mas o antecedeu com as despesas alemãs no primeiro conflito mundial. Nele, todo o horror que Erasmo de Rotterdam aponta nas guerras se realizou, piorado. 

No Brasil, a “inflação Sarney” começa na ditadura, quando Mario Henrique Simonsen chegou ao deboche de atribuir a culpa do fenômeno ao… chuchu. A inflação, como os tumores, é sintoma, não origem. O desarranjo na estrutura do corpo, biológico ou social, brota dos excessos, tolerâncias imprudentes, hábitos perniciosos à saúde. 

Segundo G. Naudé, autor do primeiro livro sobre os golpes de Estado (1640) “os hábitos do intelecto são distintos dos vividos pela vontade. Os primeiros pertencem às ciências e sempre são louváveis; os segundos ligam-se às acões morais, que podem ser boas ou más”. E arremata : “é lei comum que todas as coisas instituídas para um fim bom, com frequência são abusadas: a natureza não produz venenos para matar os homens, se ela fizesse tal coisa, destruiria a si mesma; a nossa malícia gera tal uso”. 

A trégua da inflação brasileira, algo bom, elegeu no entanto presidentes populistas, esmagou a oposição, gerou servilismo de intelectuais e universitários, garantiu a lisonja jornalística ao poder. Ela anestesiou as massas. Com o retorno do descontrole monetário vem o ódio que dissolve amizade e companheirismo em todos os setores e partidos. O ético não deriva do econômico, mas dele não escapa. Cuidado, para que não cheguemos aos extremos ditatoriais que “salvaram” povos da inflação com o esmigalhamento de seres humanos. A cautela maior deve ser contra o ego inchado dos governantes, parlamentares, acadêmicos. Com frequência é neles que a inflação recebe impulso, pois o dogmatismo os leva à cegueira política,  uma loucura sem remédio.

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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Apesar de ver a Folha, hoje em dia sobretudo, como um jornal pouco confiável (aboli minha assinatura e não tenho saudade), o artigo abaixo, enviado por um amigo, merece leitura e reflexão.

 
 
 Clóvis Rossi
 
 
Folha de São Paulo


Sempre achei que a esquerda, nacional e internacional, ficou soterrada sob os escombros do Muro de Berlim. Até aí, dava para entender embora não para justificar. Afinal, a queda do Muro e o consequente fim simbólico do comunismo foram acontecimentos tão transcendentais que teriam mesmo que desnortear até quem estava do lado de cá do Muro, quanto mais os que simpatizavam com o lado derrotado.

O que surpreende, agora, com o manifesto de escritores e artistas em defesa de José Dirceu, é que esse pessoal não conseguiu sair nem sequer da rua Maria Antônia, cuja simbologia antecede de muito a queda do Muro. É inacreditável que gente que parece inteligente não perceba que José Dirceu deixou há séculos de ser o jovem idealista que lutava contra a ditadura nas barricadas estudantis de 1968.

Nem era preciso o mensalão ou, agora, o petrolão para fazer uma constatação tão óbvia.

Bastava saber, por exemplo, que Dirceu admitiu à revista "Piauí", em 2008, que prestava consultoria ao bilionário mexicano Carlos Slim, um dos três homens mais ricos do mundo, segundo a revista "Forbes".

A esquerda, inclusive muitos ou todos que assinam o manifesto, sempre denunciou a maneira como se enriquece no México (ou no Brasil).

Um idealista de verdade jamais prestaria serviços a esse tipo de empresário.
O estranhamento não é apenas meu, mas de um fundador do PT, o cientista político Rudá Ricci, que se afastou do partido desencantado.

Escreveu Rudá após a entrevista de Dirceu à "Piauí":

"O grande problema não foi se expor como um megaconsultor, homem de R$ 15 mil por consultoria, ou R$ 150 mil mensais. Esta vaidade de se expor é estranha para um ex-clandestino de esquerda. Revelar que trabalha para o homem mais rico do mundo também é estranho para um ex-presidente do maior partido de esquerda do país. Mas são idiossincrasias que acometem as melhores famílias".

À essa lucrativa "idiossincrasia" somaram-se consultorias –não devidamente comprovadas, segundo a Polícia Federal– às maiores empreiteiras do país.

No tempo em que a esquerda pensava, não deixava de denunciar a promiscuidade entre obras públicas, tocadas em geral por essas mesmas empreiteiras, e poder público.

Hoje, ao defender Dirceu, defende-se automaticamente a promiscuidade, como se houvesse maracutaia do bem (as "nossas") e do mal ("as dos outros").

Os pedidos, em voz quase inaudível, para que o PT faça um reexame de suas práticas já surgiram em 2008, na esteira do mensalão.

Rudá Ricci, por exemplo, escrevia então: "Seria fantástico se o julgamento [do mensalão] provocasse um debate franco entre petistas e toda esquerda tupiniquim. Mas já não tenho mais 20 anos. Não tenho motivos para acreditar que o brilho da utopia seja mais forte que as cores reluzentes do poder absoluto e domesticador".

Bingo, Rudá. O poder domesticou não só dirigentes do PT mas também uma fatia da intelectualidade, o que é um contrassenso: intelectual, por definição, é contestador.

sábado, 25 de julho de 2015

Um prefácio meu para a Anistia Internacional

Educando para a Cidadania
Os Direitos Humanos no Currículo Escolar
PREFÁCIO
A presente coletânea destaca temas elevados do espírito humano, dando-lhes tratamento respeitosos. Da língua à biologia, passando pela química, sistemas filosóficos, alma religiosa, desvelam-se camadas do intelecto, dobras do coração. Tudo isso convida à tarefa de refletir. Cada um dos artigos aqui reunidos – breves, decorosos – gira ao redor do fato educativo. Como levar nossa gente, em especial a juventude, até o respeito pelos direitos humanos?

Esta tarefa tem sido o alvo da Anistia Internacional, movimento a quem o mundo deve pouco do ânimo e da bondade que ainda lhe restam. Os homens e mulheres comprometidos com a Anistia atenuam, todos os anos, com seus relatórios e denúncias, os efeitos da bestialidade estatal tirânica, reforçada neste fim de século. Com isso, milhares e milhares de vidas são resgatadas para a esfera da vida pública, beneficiando lares, igrejas, partidos das mais diversas atitudes doutrinárias. Se existe um setor realmente democrático em nossa terra, este é a Anistia Internacional.

A coletânea é fiel a esse espírito eminente. Todos os trabalhos preocupam-se com a falta de base, nas políticas convencionais, ou a falha ética afirmada com a desmedida valorização do ser humano no interior do cosmos. O orgulho luciferino dos engenhos finitos fez com que eles esquecessem o fundamento natural que os une aos demais seres. Combatendo o privilégio arrogante da razão cartesiana, disse um dia Espinosa em sua Ética: “os que escrevem sobre as paixões e a conduta da vida humana parecem, na maior parte, tratar não de coisas naturais, seguindo as leis comuns da natureza, mas de coisas exteriores à natureza. Na verdade, eles concebem o homem de fora da natureza, como um império dentro de outro império” (Ethica, Pars Tertia, De Origine et Natura Affectuum).

A separação entre homem e cosmos ajuda na tarefa de justificar – no plano social – os sistemas de força. O cogito extra-natural, milagrosa propriedade de alguns gênios, é, para Espinosa, produto do imaginário auto-centrado. Quem se julga dono da natureza e do Estado (e das Igrejas) está pronto para qualquer aventura despótica, contra o “comum dos mortais”.

Todos os arautos de sua própria eminência – diminuindo os semelhantes – seguem, céleres, para a negação da cidadania e dos postulados democráticos. Deste modo, “eles imaginam realizar uma obra sublime, atingindo a mais alta sapiência, ao elogiarem uma natureza fictícia, acusando sem piedade aquela existente. Pois eles não concebem os homens tal como eles são, mas pelo modo pelo qual sua filosofia quer que eles sejam. Ao invés de uma ética, eles escreveram uma sátira” (Tratado da Autoridade Política). Espinosa foi o filósofo da alegria. Todo o seu pensamento se dirige no sentido de assegurar a posse comum do conhecimento pelos homens numa democracia política não repressiva.

Comentando as perturbações políticas e as guerras de seu tempo, nosso filósofo diz sempre com humor lúcido: “Se o famoso personagem que ria de tudo viesse ao nosso tempo, ele morreria de rir, com certeza. Quanto a mim, essas violências não me incitam nem ao riso nem às lágrimas; pelo contrário, elas excitam em mim o desejo de filosofar, melhor observando a natureza humana”. Tese estratégica: “os homens, como os outros seres, são apenas uma parcela da natureza”. Como o todo desta última é desconhecido por nós, julgamos absurdas muitas coisas que podem ser perfeitamente normais. Daí a intolerância face à alteridade, base da raiva aristocrática contra a democracia. Qual o princípio de Espinosa, neste plano? “Deixo cada um viver segundo sua própria compleição e consinto que cada um, se o desejar, morra por aquilo que acredita ser o seu bem, desde que me seja permitido viver para a verdade” (Carta XXX, a Oldenburg).

Lição dura de ser assumida, convenhamos. Normalmente, nossa “tolerância” não se pauta pelo  veraz, mas pelo que nós consideramos “normal”, sagrado, ético. Nega-se, deste modo, qualquer direito à alteridade, destruindo-se, ipso facto, a noção de direitos e deveres universais, abalando a própria idéia democrática. Contra essa corrosão do respeito mútuo, que gera os Estados policiais, as torturas, as mortes dos adversários políticos, o confinamento de indivíduos que pertencem a etnias minoritárias e todo rol de barbáries praticadas no cotidiano de nossas sociedades, ergue-se até hoje o ensino espinosano, sobretudo no Tratado Teológico – Político.

Citarei apenas alguns trechos desse último e nobre monumento à democracia moderna. “Dos fundamentos do Estado, tal como o explicamos, resulta com evidência máxima que seu fim último não é a dominação: não é para manter o homem no medo, e pelo medo, fazendo-o pertencer a um outro, que o Estado é constituído; pelo contrário, é para liberar o indivíduo do medo, para que ele viva tanto quanto possível em segurança, isto é, conserve, quando puder, sem danos para outrem, seu direito natural de existir e agir. Não, eu repito, o fim do Estado não é o de conduzir os homens da condição de seres racionais para o de bestas feras, ou autômatos, mas pelo contrário, o Estado é instituído para que suas almas e seus corpos cumpram com segurança todas as suas funções, para que eles usem uma razão livre, para que eles não lutem apenas por ódio, cólera ou astúcia, para eles suportarem uns aos outros, sem maldade”.

A busca de alvos semelhantes faz da Anistia Internacional uma herdeira dos mais nobres sonhos filosóficos. Enquanto isso, nosso povo, incitado por fascistas que não ousam dizer o próprio nome, irrita-se contra a defesa dos direitos humanos. Há ignorância nesse ponto, mas também má-fé espantosa. Pelo rádio, televisão, imprensa escrita, repetem-se slogans assassinos e sofísticos que marcam a consciência dos mais humildes. Para eles, o próprio vocábulo “direitos” tornou-se um sinônimo de conivência com o crime. A par do não saber, temos a demissão coletiva dos educadores na escola primária, secundária e no terceiro grau. Em parcas ocasiões os nossos engenhos universitários pronunciam-se coletivamente, verberando o estupro da liberdade e da igualdade, quando se trata dos “negativamente privilegiados”. Mesmo nas igrejas isso ocorre. Além de poucos heróis, como na Comissão de Justiça e Paz, tudo se dirige para manter a aparência de normalidade, dentro da pior violência.

Os escritos aqui reunidos podem ser um início da pedagogia mais necessária para nosso tempo: a descoberta da nobreza que reside em toda vida. Sem cidadania universal, ninguém está seguro. Ou todos se transformam, como temia Espinosa, em autômatos a serviço deste ou daquele tirano. Porém, além de autômatos, os entes humanos podem regredir à condição de feras. Olhemos os dados sobre os assassinatos de crianças, no Brasil e na América Latina. Aristóteles costumava afirmar que um indivíduo isolado ou é Deus, ou uma fera. Os ajustamentos políticos que por eufemismo chamamos “Estado”, em nosso continente e no mundo, provam que as feras se reúnem. O diálogo racional, compreendido agora no plano da educação para os direitos, pela Anistia Internacional , oferece uma esperança de metanóia em nossos estudantes – futuros dirigentes – e nos partícipes da coletividade mais ampla. O livro foi feito para ser discutido. Assim, merece o respeito de todas as mentes democráticas e livres. Sem o seu concurso, e o de outras formas de melhorar o panorama axiológico pátrio, a palavra “ética”, com o seu correlato “direitos” (também “deveres”), corre o risco de ser um termo vazio, ou de se reduzir ao simples prisma do slogan.

Esperemos, portanto, que estas páginas, editadas pela Anistia Internacional, sejam estudadas nas salas de aula, nos debates públicos, nas reuniões informais e cotidianas. O pensamento prudente vale mais, a longo prazo, do que a propaganda que tende para o repetitivo e carente de espírito. Esta é uma aposta vital para quem preza a dignidade e a sublime elevação do homem no interior de uma natureza respeitada.

Roberto Romano

Minha coluna semanal no Zero Hora, caderno PROA

Colunistas

Roberto Romano: milagrosa normalidade

"Fatos mostram à saciedade o quanto é anômalo o funcionamento de nossas estruturas políticas"

Por: Roberto Romano*
25/07/2015 - 15h02min
Roberto Romano: milagrosa normalidade Wikicommons/Reprodução
Quadro de Justus Sustermans representando Galileu Galilei Foto: Wikicommons / Reprodução
* Roberto Romano é professor titular de Ética e Filosofia Política da Unicamp. Escreve quinzenalmente.
O Brasil, dizem alguns, tem instituições democráticas garantidas. Elas, repetem as mesmas vozes, funcionam em plena normalidade. Atrapalho o foguetório e afirmo que estamos longe da norma na ordem democrática. Basta pensar nos bilhões subtraídos dos cofres públicos. A Petrobras é uma empresa estatal a mais no rol dos roubos cometidos por lobistas e políticos. O dinheiro foi usado em campanhas políticas. As contas partidárias receberam aprovação da justiça eleitoral. O “normal” seria o controle rigoroso que não abençoasse números espúrios, marcas do submundo que Norberto Bobbio chama de “anti-Estado”. 

Se for lida a Constituição, ela manda ser o exercício dos cargos, nos três poderes, impessoal. Como aceitar que o presidente da Câmara dos Deputados “rompa pessoalmente” com o Executivo e ofenda o Judiciário? Fatos mostram à saciedade o quanto é anômalo o funcionamento de nossas estruturas políticas. Basta pensar nas esdrúxulas coalizões partidárias, nos apadrinhamentos para cargos “de confiança”, na indignação de quem paga impostos, na ruína da fé pública. A normalidade alardeada indica que a prática desmente o idioma do encantamento publicitário, feito para enganar os incautos que ainda restam na vida pública. 

Tais mentiras piedosas me fazem recordar uma história do século 17 mas atualíssima, dados os aproveitadores da crendice geral. A narrativa é de Gabriel Naudé, pensador importante sob Richelieu e Mazarino – cardeais astutos, verdadeiros ditadores truculentos e impiedosos –, homens que moldaram o Estado moderno. Naudé usa a religião, mas desconfia das batotas encenadas pelo clero para engambelar as massas. Com base na política religiosa, ele publica o clássico Considerações Políticas Sobre o Golpe de Estado (1640). 

Diz ele que encontrou certo dia o padre Melchior Inchofer, jesuíta que escreveu o livro intitulado Veritas Vindicata (“A Verdade Defendida”). Vários panfletos da época traziam tal título, dada a discórdia na Igreja Católica e a guerra de religião que atingia a fé mística e a confiança pública, arruinando reputações de intelectuais.

Pois bem, o bom padre Inchofer defendia a veracidade de uma carta remetida diretamente pela Virgem Maria às pessoas da Sicília. Naudé apresentou ao padre razões pelas quais a missivista não poderia ser a mãe de Jesus. E ficou espantado (ou fingiu espanto) quando o autor declarou saber perfeitamente que se tratava de uma fraude. Mas escrevera assim mesmo o texto “para agradar e obedecer os superiores que lhe haviam mandado fazer tal coisa e, ademais, ele nada acreditava de tudo o que estava contido na referida carta”. Medita Naudé : “Eis como se espalham no mundo os erros e os abusos; eis como os espíritos simples são enganados todos os dias”. Quantos intelectuais de hoje, ao se tornarem militantes, escrevem ao modo do padre Melchior! 

O nome completo do livro escrito por Maquiavel, perdão, pelo jesuíta, é o seguinte: Epistolae B. Virginis Mariae ad Messanenses Veritas Vindicata (Messina, J. Matarozii Ed., 1619). Outra informação valiosa: o padre embusteiro é membro da Comissão que examina o Diálogo Sobre os Dois Sistemas do Mundo, de Galileu. Ele justifica a condenação do pensador e de seu livro num opúsculo intitulado Tractatus Syllepticus (1633). Mentira em dose dupla, no caso da Virgem e da ciência. Numa instituição milenar que cometera tantas fraudes – a Doação de Constantino foi uma delas – o engodo a mais seria “normal”.

Termino: as falas sobre a “normalidade institucional” no Brasil são tão verazes quanto a carta da Virgem aos sicilianos. Entre a fé pura e a mistificação, não raro, a distância é pequena. Cabe à prudência julgar e bem agir.

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O governo Dilma é um desastre...

A Semana > Entrevista
|  N° Edição:  2382 |  24.Jul.15 - 20:00 |  Atualizado em 25.Jul.15 - 18:05

ROBERTO ROMANO

"O governo Dilma é um desastre"
Professor da Unicamp diz que o Estado brasileiro funciona à base da corrupção e considera grave a situação da presidente
por Ludmilla Amaral (ludmilla@istoe.com.br)

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REIS SEM COROA
Para o filósofo Roberto Romano, negociadores
designados por Dilma agem de forma imperial

Doutor em filosofia e professor de Ética Política na Unicamp, Roberto Romano mostra ceticismo em relação ao futuro do País. Para ele, a crise política é estrutural e remonta ao processo de criação de um Estado de modelo absolutista. “No princípio absolutista, os governantes estão acima do cidadão comum e, portanto, não têm de prestar contas a ninguém. Há o controle do poder no plano central, mas não há autonomia dos municípios e dos Estados. Um País onde 70% dos impostos vão direto para o cofre do poder central é um país de exército vencido”, critica.
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"O Lula adota um modo muito antigo de governar o País. Ele atua na
base do caciquismo. O Lula é um cacique"

Na avaliação de Romano, a crise se agrava quando uma presidente, no caso Dilma Rousseff, encontra sérias dificuldades para dialogar com a sociedade e escala auxiliares tão ou mais inábeis quanto ela. “Se somar a incapacidade de dialogo notório que a presidente tem com a incapacidade de seus auxiliares, você tem um governo que é esse desastre”. Para um partido que vendeu esperança, na eleição de Lula, o quadro é grave, avalia. Na opinião do professor da Unicamp, equivoca-se quem diz que as instituições operam normalmente. Ele considera a intervenção estatal no BNDES uma prova de que a democracia ainda capenga no Brasil. 
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Desde que assumiu a Câmara, Eduardo Cunha tem defendido uma
pauta que não é do interesse geral, e sim de facções
Istoé -  O senhor disse uma vez que “a inflação é um desagregador político muito forte”. A crise no governo Dilma se dá por conta da alta dos preços?
 
ROBERTO ROMANO -
 A inflação é um ingrediente complicador. Ela quebra a capacidade que o ser humano tem de confiar. Esse fenômeno desagregador da inflação é o ponto essencial, mas não é o único ponto da crise política.
 
Istoé -  Quais são os outros pontos?
 
ROBERTO ROMANO -
 O fato de o nosso Estado ser ainda gerado para combater a democracia moderna. Dom João VI trouxe para cá um Estado contra revolucionário. O modelo trazido para cá é um modelo absolutista. Tanto que na primeira Constituição independente do Brasil há a figura de irresponsabilidade do chefe de Estado. No princípio absolutista, os governantes estão acima do cidadão comum e, portanto, não têm de prestar contas a ninguém. Há o controle do poder no plano central, mas não há autonomia dos municípios e dos Estados. Nós não temos municípios até hoje. É uma ficção. Um País onde 70% dos impostos vão direto para o cofre do poder central é um país de exército vencido. O poder central age em relação aos estados e municípios como um poder invasor, que controla tudo.
 
Istoé -  Como esses pontos influenciam na crise do governo Dilma?
 
ROBERTO ROMANO -
 O problema não é só essa questão da estrutura do Estado que é obsoleta. Você tem essa figura do chefe de estado que possui prerrogativas de imperador. Em vez de a preocupação ser com a estrutura da máquina do Estado, a preocupação é com as pessoas. Se a pessoa está distribuindo favores e as políticas sociais são transformadas em favores, quando a fonte dos favores diminui evidentemente que a popularidade também diminui. Eu sempre digo que o presidente brasileiro é um gigante de pé de barro. É um gigante, mas precisa da base aliada, dos acordos com as oligarquias, do dinheiro das empresas. Então, você tem um presidente que, ao invés de mandar no sentido absolutista, ele é mandado. E se ele tiver capacidade política, diplomática, ele pode se sair razoavelmente bem. Infelizmente a presidente Dilma não tem essa capacidade política e diplomática. Para piorar, ela escolheu muito mal os seus auxiliares.
 
Istoé -  De quem o sr. está falando especificamente?
 
ROBERTO ROMANO -
 Veja os chefes da Casa Civil escolhidos pela Dilma: Erenice Guerra, Gleisi Hoffmann e Aloízio Mercadante. Eles não sabem conversar. Eles sabem mandar. E são desastrados. Então, se somar a incapacidade de dialogo notório que a presidente tem com a incapacidade de seus auxiliares, você tem um governo que é esse desastre.
 
Istoé -  Na semana passada, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, anunciou o  rompimento com a presidente Dilma Rousseff. A crise se agrava na opinião do sr.?
 
ROBERTO ROMANO -
 Enquanto presidente da Câmara e também como deputado, ele não pode dizer que está rompendo em caráter pessoal. Ele está cometendo um atentado à Constituição e isso é gravíssimo porque ele não é do Executivo. Um técnico do Executivo até pode cometer erros constitucionais assim, mas quem elabora as leis em nome do povo como pode dizer que decidiu pessoalmente uma coisa que não pode ser decidida pessoalmente?
 
Istoé -  Como o sr. vê a atuação dele como presidente da Câmara?
 
ROBERTO ROMANO -
 Desde que assumiu a presidência da Câmara, ele tem defendido uma pauta que não é do interesse geral, e sim de facções. Hoje ele é líder de uma facção. Como deputado ele tem direito de liderar uma facção, mas como presidente da Câmara, não.
 
Istoé -  O sr. acha que o PMDB realmente terá candidato próprio em 2018?
 
ROBERTO ROMANO -
 É uma situação muito interessante, porque na época do Sarney, o PMDB era quem decidia tudo no governo. Passado esse período, eles têm só suportado governos. Na ditadura, o MDB tinha presença em todo o Brasil, e ampliou suas bases municipais. Isso faz com que sempre em toda eleição eles consigam uma base parlamentar, tanto de deputados como de governadores, bem razoável. O PSDB e o PT não aproveitaram seus oito anos de governo para ampliar suas bases municipais, então eles continuam dependendo muito do PMDB para ter a famosa base parlamentar de apoio.  No entanto, os peemedebistas ganham cargos, mas do ponto de vista macro, eles continuam coadjuvantes, o que não interessa. Isso, ao que parece, mudou. O problema é quem será o candidato deles. Existe a possibilidade de ser o Eduardo Paes, prefeito do Rio. O Cunha, antes cotado, se isolou no próprio PMDB, além de ter rompido com o Ministério Público e o Supremo. Foi um pulo mortal sem rede. Um ato de imprudência política.
 
Istoé -  E o papel do vice-presidente Michel Temer nesse momento?
 
ROBERTO ROMANO -
 O Temer é uma garantia de que a presidente não vai continuar fazendo impolidez ou falta de tato maior. Por enquanto ela está afastadinha e eu acho que é o mínimo que ela pode fazer. Não porque quando ela fala toca panela, não. É porque efetivamente a situação dela é muito grave.
 
Istoé -  O senhor enxerga alguma semelhança entre as situações de Collor, em 1992, e a de Dilma agora?
 
ROBERTO ROMANO -
 O Collor conseguiu muita impopularidade com o golpe que ele deu nas poupanças. Ele confiou demais na sua popularidade e arruinou o seu relacionamento com todas as classes brasileiras. Ele pertencia a um partido minúsculo que dependia vitalmente de outros partidos também, mas ele nunca teve, por exemplo, a base sólida do PMDB. Já a Dilma recebeu do Fernando Henrique e do Lula essa capacidade de aliança com grandes partidos. Mas Dilma não levou adiante isso graças a inabilidade de seus negociadores que agiram de forma imperial. Boa parte dessa erosão que a Dilma está vivendo já foi eclodida no segundo governo de Lula, quando essa aliança com o PMDB já começou a periclitar.
 
Istoé -  Mas os escândalos também começam a se aproximar do gabinete da presidente... Inclusive há uma outra CPI em gestação, a do BNDES, que pode ser arrasadora para o governo. Há quem diga que os estragos podem ser maiores do que o Petrolão.
 
ROBERTO ROMANO -
 Há um mantra entre meus colegas de que as instituições estão operando normalmente. Isso é conversa mole para boi dormir. Não estão operando normalmente e nunca estiveram operando normalmente. Não foram resolvidos os problemas de estrutura do Brasil em termos democráticos. O BNDES é uma instituição pública que tem dinheiro da população e que operava de maneira sigilosa até agora. Como isso pode ser normal numa democracia? Pega-se bilhões da população e coloca-se na mão de Eike Batista. Isso é normal? Não se justifica a atitude de gerir o BNDES no sigilo. É preciso, sim, fazer uma investigação das contas do BNDES, do Banco do Brasil, de todas as estatais para se constatar quanto está sendo subtraído dos planos propriamente econômicos.
 
Istoé -  Num capítulo do livro “Uma Oveja Negra al Poder” diz-se que Lula teria dito ao presidente uruguaio que ele teve de lidar com “coisas imorais, chantagens.” Esse é o cenário da política brasileira?
 
ROBERTO ROMANO -
 O Estado brasileiro funciona à base da corrupção. Em todo o Estado do mundo ocorre essa negociação e essa tomada de cargos, mas tal como existe no Brasil é uma coisa absolutamente delirante. Não há outra saída, porque não houve o parlamentarismo. A Presidência da República é quase irresponsável e o Parlamento não é responsável. Não há o princípio da responsabilidade. O Congresso não assume a plena responsabilidade pela governança do País, ele ou chantageia o Executivo ou é subserviente a ele. Isso vem acontecendo desde a morte do Getúlio.
 
Istoé -  Em uma de suas colunas, o senhor disse que “usar utopia, como faz Luiz Inácio Lula da Silva, é pintar cinza sobre cinza.”O que o senhor quis dizer com isso?
 
ROBERTO ROMANO -
 Em 1987, eu escrevi um artigo chamado “Lula, o senhor da razão”, e eu mostrava claramente que ele tinha posição extremamente conservadora, muito carismática e muito ligada a sua pessoa, ele era o dono da razão. Isso não coaduna com um País democrático e com um partido democrático. Desde a greve do ABC, o Lula sempre é o protegido, nunca se pode criticar o Lula, o que faz com que ele seja uma continuidade de personalidade como Getúlio Vargas, Perón, e etc. Ele não tem a característica de um líder colegiado, tanto é verdade que hoje o PT só tem o Lula. Todas as tentativas de lideranças regionais do PT foram cortadas em favor do Lula. Hoje, se o Lula faltar, o PT está sem uma alternativa. O Lula adota um modo muito antigo de governar o País. Ele atua na base do caciquismo. O Lula é um cacique.
 
Istoé -  As investigações da Lava-Jato têm chegado cada vez mais perto de Lula. O que isso pode significar para a história do ex-presidente e para o futuro do PT?
 
ROBERTO ROMANO -
 Vamos supor que seja provado que ele fez lobby e tudo mais. Vai ser mais uma decepção para a população brasileira. Desde Getúlio Vargas nós vendemos pais do Brasil e o Lula sempre dizia que era o pai do Brasil. O caudal de tristeza e da perda de fé pública em termos de perda de confiança nos líderes vai ser algo muito grave. Um slogan muito usado na campanha do Lula era “a esperança venceu o medo”. O que está acontecendo é que o medo está voltando e a esperança chegando a ponto mínimo. A popularidade de Dilma ilustra o índice da diminuição do nível da esperança. Eu diria que o povo brasileiro tem 7,7% de esperança na sua sobrevivência. E isso é muito grave.

sábado, 4 de julho de 2015

J. R. Guedes de Oliveira




Imigração Norte-Americana ao Brasil



                                                                                   J. R. Guedes de Oliveira



            Neste 2015, lembramos do 150º aniversário do final da Guerra da Secessão Norte-Americana (1861-1865).

           Em homenagem ao povo americano, pelo que representa no contexto das nações,  pela sua firmeza de decisões em prol da democracia,  pela sua capacidade de unir os povos para o  convívio salutar entre todos e pela sua luta incessante contra os tiranos e déspotas, realizamos este vídeo histórico.
          
          Portanto, segue anexo documentário que trata da história da "Imigração Norte-Americana ao Brasil", ocorrida a partir do ano de 1866, especialmente para os locais onde hoje estão as cidades de Santa Bárbara d’Oeste e Americana, na atual região metropolitana de Campinas, interior do Estado de São Paulo. Mas há registros da chegada desses imigrantes em Iguape-SP, Santarém, Rio de Janeiro, Natal, Fernando de Noronha, porém, como o grupo de Santa Bárbara foi bem sucedido, imigrante estabelecido em outras regiões migrou-se para lá.

          Durante os anos de 1861 a 1865, os Estados Unidos experimentaram uma das piores guerras da sua história: a “Guerra da Secessão” como foi chamada, onde, por motivos abolicionistas, 11 estados do sul dos Estados Unidos queriam se tornar independentes e assim formar um novo país, que seria chamado de "Estados Confederados da América". Em 12 de abril de 1861, às 04h30minh da manhã, para cumprir esse intento, os Estados Confederados atacaram o Forte de Sumter, um posto militar americano na Carolina do Sul. Só ali soltaram nesse ataque mais de 3 mil bombas.

         Os Estados Confederados já trataram de designar sua capital - Richmond - e eleger para o governo provisório o presidente Jefferson Davis.

          Os estados do norte reagiram dizendo que os estados do sul não tinham o direito de separar-se e criar um novo país. Assim começou a Guerra da Secessão, uma guerra civil que durou 4 anos e que terminaria somente em 28.06.1865, com a rendição das últimas tropas remanescentes dos Estados Confederados e devastação total dos estados do sul. O saldo de mortes chegou a quase 1 milhão de pessoas.

          Nos estados do sul a atividade principal era a agricultura de algodão, com significativo volume de exportações, muito dependentes da mão-de-obra escrava. Possuíam apenas 10,5 dos 31,0 milhões de habitantes norte-americanos, e ainda quase 4 milhões deles eram escravos.  O sul tinha apenas uma fábrica de armamentos. Já o norte possuía 3 fábricas de armas muito mais modernas, extensa rede ferroviária, e contava com 2/3 da população total. Evidentemente, os estados do sul iniciaram uma batalha com larga desvantagem humana, de armamentos e de recursos.

          Para fortalecer os estados do norte, tentando assim enfraquecer os do sul e acabar com a guerra, o então presidente americano Abrahan Lincoln, um republicano contrário à escravidão, em plena Guerra da Secessão, assinou o "Emancipation Proclamation" no dia primeiro de janeiro de 1863, libertando todos os escravos. Mas os escravos eram analfabetos e ainda proibidos de aprender ler e escrever, e, portanto, não tomaram conhecimento dessa lei na ocasião.

          Em 15.04.1865, praticamente no final da Guerra da Secessão, o presidente Abrahan Lincoln foi assassinado pelo fanático ator sulista John Wilkes Booth.

          Durante essa guerra foi interrompida a produção e o fornecimento de algodão nos estados do sul, tanto às empresas têxteis dos Estados Unidos, como para empresas do resto do mundo, e evidentemente, o preço do produto disparou no mercado internacional.

          A Guerra de Secessão foi considerada a primeira guerra moderna da história, fazendo surgir os fuzis de repetição e as trincheiras, que irão marcar, de forma mais acentuada, a Primeira Guerra Mundial entre 1914 e 1918. As novas técnicas tornaram obsoletos o sabre e o mosquete, fazendo da luta corpo a corpo uma forma de combate cada vez mais inútil.

          Um dos combatentes sulistas, o Coronel Willian Hutchinson Norris, insatisfeito com a derrota e com as condições a que teriam que se submeter, e agora sem poder contar com a mão-de-obra escrava em suas lavouras, lidera um movimento migratório para outro país. O Brasil foi o país escolhido, por possuir grandes extensões de terras férteis, por ainda poder contar com o trabalho escravo e pela acolhida com que o governo imperial brasileiro, liderado por D. Pedro II oferecia. Tanto D. Pedro II, como o Cel. Norris eram ligados à Maçonaria, o que facilitou muito essa aproximação. O Coronel Norris foi Grão Mestre da Grande Loja Maçônica do Alabama e senador por este estado americano.

          E, então, o Cel. Willian H. Norris lidera esse movimento de imigração para o Brasil, trazendo para cá intelectuais, profissionais liberais e pessoas com larga experiência na agricultura, na medicina, na geologia, professores, dentistas, a grande maioria deles já fazendeiros nas localidades de origem. O processo de imigração desses norte-americanos ao Brasil iniciou-se em 1866, mas culminou em 1868.

          O local escolhido para a fixação da maioria deles foi onde hoje estão situadas as cidades de Santa Bárbara d’Oeste e de Americana, na região metropolitana de Campinas, interior do Estado de São Paulo. Isto se deveu à fertilidade do solo, às facilidades e abundância de água e disponibilidade de terras para a lavoura. A pequena Villa de Santa Bárbara já existia, fundada em 04.12.1818, por Dona Margarida da Graça Martins, e viveu uma euforia de progresso com a chegada desses imigrantes norte-americanos.

          Chegando, imediatamente cuidaram de construir suas casas, formar as vilas e começar o plantio do algodão, que estava com altos preços no mercado internacional.

          A prosperidade chegou à região. Logo depois, apoiada por fazendeiros de café do interior de São Paulo, chegou a ferrovia tendo uma estação na Villa de Santa Bárbara e se estendendo até o local onde hoje se localiza o município de Rio Claro. Criou-se a primeira indústria têxtil na região, a histórica "Indústria Têxtil Carioba". A industrialização de Americana se deveu a essa fábrica, que vendia suas máquinas obsoletas aos funcionários, e estes abriam pequenas fábricas têxteis de fundo de quintal em suas casas.

          O progresso não parou mais, tanto que Americana ganhou a carinhosa denominação de a “Princesa Tecelã”, por conta da qualidade do tecido fabricado ali e do volume de indústrias têxteis na cidade, fato que se nota até hoje.

          Uma história bonita de progresso, de trabalho, de determinação e acima de tudo, de união das famílias em prol do desenvolvimento, que acabou culminando no surgimento e no desenvolvimento das cidades de Americana e de Santa Bárbara d’Oeste, hoje dois pólos de desenvolvimento no interior de São Paulo, podem ser sentidas visitando essas cidades.

          Mas eles expandiram seus horizontes. Várias cidades na região também sofreram a influência e o benefício dessa imigração. Em Piracicaba-SP, vizinha de Santa Bárbara d’Oeste, a missionária Martha Watts fundou, em 13.09.1881, a primeira escola metodista do Brasil: o "Colégio Piracicabano", sendo referência em instituição de ensino até os dias atuais.

          As músicas inseridas nesta apresentação são as seguintes:

          - StarsStripes Forever – USSMA Regimental Band
          - National Emblem March – The Boston Pops Orchestra

         Agradeço a contribuição de informações prestadas pelos amigos Sr. José Roberto Guedes de Oliveira, historiador de Indaiatuba-SP (guedes.idt@terra.com.br), Dr. Marcus Vinícius, de São Paulo e Dr. Tito Sobrinho, de Augusta, na Geórgia, Estados Unidos, que foram de extrema valia para a elaboração e complementação deste trabalho. Agradeço, também, ao Museu da Imigração de Santa Bárbara d’Oeste, pela cessão das imagens antigas (em preto e branco) exibidas nesta apresentação.

          Abra o arquivo anexo, ligue o som e conheça um pouco da história desses desbravadores norte-americanos, que um dia escolheram o Brasil como sua segunda pátria e para cá trouxeram o progresso.

          Edison Piazza – Piracicaba, SP. (organizador)
            José Roberto Guedes de Oliveira – Indaiatuba, SP. (historiador).

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Sobre Eduardo Cunha, maquete de ditador.

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/07/03/manobras-de-cunha-enfraquecem-processo-politico-dizem-especialistas.htm

Manobras de Cunha são 'golpe' no processo político? Especialistas avaliam
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Márcio Padrão
Do UOL, em São Paulo
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  • Pedro Ladeira/Folhapress
    2.jul.2015 - Com uma manobra regimental, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, colocou em votação novo texto da PEC que reduz a maioridade penal 2.jul.2015 - Com uma manobra regimental, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, colocou em votação novo texto da PEC que reduz a maioridade penal
As decisões do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de reverter decisões da Casa sobre duas PECs (Propostas de Emendas Constitucionais) no dia seguinte à votação original, como ocorreu em maio no financiamento privado em campanhas eleitorais, e na última quarta-feira (1º) na redução da maioridade penal para 16 anos, poderão ter repercussões que enfraquecerão o processo político brasileiro, dizem cientistas políticos ao UOL.
Para conseguir a reversão dos resultados, Cunha empregou uma interpretação própria do regimento da Câmara (que regulamenta as votações no plenário) e o agendamento urgente de propostas de lei similares às que foram derrotadas. Dessa forma, conseguiu burlar o trecho da Constituição que determina que a matéria seja rediscutida apenas no ano seguinte à votação anterior. Juristas e parlamentares criticaram severamente a atitude de Cunha e prometem recorrer ao STF para reverter as manobras.
Os professores de ciência política ouvidos pela reportagem se dividiram sobre considerar um "golpe" as "pedaladas regimentais" de Eduardo Cunha, como falaram alguns deputados.

"Apesar de um exagero na palavra, a Ordem dos Advogados do Brasil já vai pedir ao Supremo analisar essas manobras se forem aprovadas. A sugestão de golpe é apropriada" Wanderley Reis, do departamento de ciência política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)

"Não diria que é golpe, mas um procedimento golpista. Quando ele impõe a pauta, está agindo como líder da facção que está momentaneamente no poder da presidência da Câmara" Roberto Romano, professor de ética e filosofia política da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

"Golpe é um pouco exagerado, mas acho importante o Supremo Tribunal se pronunciar sobre o assunto" Leonardo Avritzer, do departamento de Ciência Política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)

Crise política enfraquece Dilma

Os especialistas são unânimes, porém, em afirmar que a situação é reflexo do momento político vivido pelo país. A formação de um parlamento mais conservador após as eleições de 2014, que por sua vez está levando ao enfraquecimento da presidente reeleita Dilma Rousseff, permitiram a ascensão de Cunha e de sua postura mais agressiva à frente do Congresso.

"Outros líderes da Câmara já realizaram manobras regimentais antes, mas não a ponto de causar uma resposta considerável, como ocorreu com Eduardo Cunha. Sinto que ele está usando o interesse próprio para marcar a presença dele e aumentando a insatisfação no plenário" Argelina Cheibub Figueiredo, professora da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)

"As bancadas não obedecem a liderança de ninguém e e fácil cooptá-las. Isso ocorre por causa do troca-troca entre deputados. É uma das formações mais fisiológicas que já vi" Michel Zaidan Filho, cientista político da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco)

Futuro

Tal situação poderá ser o início de uma crise de Estado mais profunda. "Quando se tem uma presidência falha, um Judiciário que se preocupa com as próprias benesses, como esses 78% de aumento salarial, e um Legislativo que age sob os atos de um dirigente ocasional, são sintomas que indicam que a soberania do Estado está em xeque", declarou Romano.
No entanto, o próprio Cunha poderá se dar mal por conta de sua postura, no entender de Romano. "Ele não percebe que esse instrumento de poder é complexo e poderá se voltar contra ele mais tarde, se por acaso ele se candidatar a presidente em 2018, como andam dizendo, e ele perca a eleição. Fora das eventuais alinaças do PT e do PSDB, ele com certeza vai perder essa hegemonia e sentir as dores do parto", especula o professor.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Tragédia grega: a cortina se fecha sobre um ato totalmente absurdo.

 

Tragédie grecque : le rideau se referme sur un acte totalement absurde

Je n’ai rien posté jusqu’ici sur la tragédie grecque. Je n’ai pas estimé utile d’en parler parce que la question était parfaitement traitée ailleurs et que tout cela donnait davantage lieu à du mauvais spectacle qu’à une politique économique sérieuse. Mais un acte du drame touche maintenant à sa fin et la tragédie peut maintenant se transformer en quelque chose de nouveau qui pourrait avoir de graves conséquences géopolitiques.
La Grèce s’est fort endettée à l’époque où les banques distribuaient de l’argent sans se soucier de la capacité des débiteurs à rembourser. Quand ce petit jeu a pris fin et que la source s’est tarie, il y a six ans, la Grèce s’est trouvée dans l’impossibilité d’emprunter davantage pour rembourser ses dettes antérieures. C’est à ce moment-là qu’elle aurait dû faire défaut.

Mais on a fait pression sur le gouvernement grec pour qu’il rembourse sa dette aux banques commerciales, alors même qu’il n’avait pas (et n’aurait jamais) assez d’argent et assez de revenus pour le faire. Les lobbyistes des banques ont fait pression sur d’autres gouvernements de l’UE pour qu’ils rançonnent leurs contribuables afin de couvrir indirectement les pertes des banques. Ces autres gouvernements ont alors poussé la Grèce à accepter les « prêts d’urgence » qu’ils lui consentaient pour payer les banques commerciales étrangères.

Les Grecs dans le besoin n’ont jamais vu la couleur de cet argent. Cette petite vidéo montre bien ce qui est en réalité arrivé à tous ces jolis prêts que les contribuables étrangers ont « donnés aux Grecs ».
Pour obtenir ces nouveaux prêts, la Grèce a dû consentir à des mesures économiques insensées, un programme d’austérité et des « réformes » néolibérales pour équilibrer son budget. Mais l’austérité ne marche pas, n’a jamais marché et ne marchera jamais. Elle détruit l’économie, réduit les revenus fiscaux et, du coup, le pays a encore plus de mal à rembourser ses dettes. Cela crée un cercle vicieux qui aboutit à la catastrophe économique.

Après six années d’austérité absurde, la Grèce a élu un nouveau parti qui a promis de mettre fin au cycle infernal et d’arrêter les mesures d’austérité. Mais le nouveau gouvernement Syriza a mal évalué la situation et la férocité criminelle des gouvernements et organisations avec lesquels il était obligé de négocier. Il a dit tout de suite qu’il ne ferait pas défaut et il s’est privé ainsi de son meilleur atout dans la négociation. Les négociations ont échoué. Les créanciers exigent toujours plus d’austérité. Maintenant, il va être obligé de faire défaut, mais dans des conditions où il sera beaucoup plus difficile à la Grèce de se remettre sur pieds.

Hier, Tsipras le premier ministre issu de Syriza, a appelé, dans un discours à son peuple, à la fin du chantage et a annoncé un référendum pour décider de la suite des événements :

Chers concitoyens, je vous demande de répondre souverainement et fièrement, comme notre histoire nous le commande, au chantage de cet ultimatum qui veut nous faire accepter une austérité sévère, dégradante, éternelle et sans aucune perspective d’une reprise économique et sociale.

A l’autoritarisme et l’austérité radicale, nous répondrons par la démocratie, calmement et sûrement.
La Grèce, le berceau de la démocratie, enverra un puissant message démocratique à l’Europe et au monde.

Paul Maison de Channel 4 News pense que c’est une avancée positive qui sera probablement couronnée de succès. Les gens vont voter non à l’austérité, et le FMI, la Banque centrale européenne et les gouvernements de différents pays vont continuer à donner de l’argent frais à la Grèce. Yves Smith du site Naked Capitalism ne croit pas que cela se passera ainsi. Elle qualifie le référendum d’imposture. Pour elle, la Grèce fera défaut et le seul avantage du référendum sera de maintenir Syriza aux affaires. Elle reproche à Tsipras d’avoir mal jugé la situation et de ne pas s’être préparé à ce qui va sans doute se produire :

La défiance de la Grèce vis à vis de ses créanciers, la rendra plus dépendante d’eux, et non pas moins, pour l’année qui vient. A quel point les choses tourneront mal pour la Grèce dépendra en grande partie de ce qui les créditeurs feront pour contrebalancer l’impact de l’implosion du système bancaire, qu’ils prennent des mesures extrêmes pour garder la Grèce dans la zone euro, ou, si la Grèce s’effondre et sort de l’euro, du niveau d’aide humanitaire et d’aide commerciale ciblée (surtout pour les importations de pétrole) qu’ils fourniront.

La Grèce aurait dû faire défaut il y a six ans. Tsipras aurait dû se préparer à faire défaut immédiatement après être devenu premier ministre. Il aurait dû utiliser cela comme un moyen de pression au cours des négociations. La Grèce va maintenant devoir faire défaut dans la pire situation possible et sans s’être assez préparée aux conséquences de la faillite.

Mais la Grèce ne sera pas seule à en subir les conséquences. Cela affectera aussi l’UE, l’OTAN et l’équilibre politique de la Méditerranée. La Grèce peut maintenant décider de quitter le royaume « occidental » et de devenir, par là-même, un exemple que d’autres pourraient suivre.

Les gouvernements allemand et européens ont promis à leurs contribuables que la Grèce ne ferait pas défaut et que le programme d’austérité qui lui a été imposé réussira. Ils vont maintenant perdre de leur crédibilité politique et économique. La faillite de la Grèce sera une leçon un peu sévère et coûteuse pour les électeurs de ces pays aussi. Espérons qu’ils en tireront les bonnes conclusions.
Traduction : Dominique Muselet
»» http://www.moonofalabama.org/2015/06/the-greek-tragedy-curtain-closes-...