segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

NO YOU TUBE....

Barack Obama The Magic Negro
02:14
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Em todo lugar do mundo existem os filhos da puta que se permitem graçolas com o que é sério e vice versa.
Racismo é uma coisa, democracia é outra.
Roberto Romano













Caro Orlando Tambosi: não consigo postar um comentário em seu Blog.

Não se preocupe com os supostos aborrecimentos: eles não integram o número dos verdadeiros aborrecimentos. Você imagina que eu fico triste com o fato de fanáticos não me cumprimentarem ou desconvidarem? Quem como eu foi cortado de um emprego na USP pela esquerda (o Igrejão e o Partidão) por defender uma tese onde mostrava a inanidade e a mentira da santa aliança entre marxismo e catolicismo, ambos "progressistas", e foi parar em Marilia, no interior paulista, seis horas longe de casa, não fica impressionado com as caras fechadas e os punhos idem.

Quem precisou enfrentar a fúria do PC do B (quando o livro Brasil Igreja contra Estado foi publicado, o jornal Movimento fez matéria dizendo que a fonte de minhas críticas à Igreja seria ressentimento de ex-frade e outros mimos), a dubiedade dos trotskistas, etc. não fica aborrecido com caretas. Se ficasse aborrecido por ser vituperado em círculos onde imperam os fanatismos, já teria há tempos entrado para a vida particular com o fito de "cultivar meu jardim", seguindo a sugestão de Voltaire. Basta olhar na internet, os comentários da seita sobre minha pessoa. Mas...Honni soit qui mal y pense!

Fico é contente por não ser obrigado ao convívios de pessoas daquele quilate. A vida é assim, ou assado. Melhor seguir com os amigos verdadeiros ( que não se fecham porque pensamos diferente) do que endurecer a mente com aplausos identitários.Bom Ano para você, sigamos em 2009 contra a maré.
Roberto Romano


Esqueci de dizer que uma das causas decisivas dos "desconvites"e "descumprimentos"no IFCH foi a resenha do excelente livro de Orlando Tambosi, abaixo

A falência do marxismo

(*) Roberto Romano da Silva

Não gosto de analisar livros recentes. Prefiro esperar e ver como reagem no rarefeito ar acadêmico. Tenho comigo um belo texto de 1991. Eu o acompanhei desde bem antes. Seu autor estudou na pós-graduação da Unicamp. Aluno raro porque unia a gentileza ao cuidado acadêmico com as regras, as fontes de trabalho, etc. Estive como examinador na sua qualificação quando a pesquisa amadureceu e se transformou em doutoramento. Naqueles dias o trauma do enterro inglório da URSS era recente. Muitas pessoas que hoje se proclamam livres do marxismo e da esquerda recitavam o rosário da famosa DIAMAT (Dialética Materialista). Com muita coragem o jovem autor apresentou uma rigorosa análise do ideário marxista, tendo em conta o teórico Lucio Colleti. O nome do jovem, originário de Santa Catarina, é Orlando Tambosi.

O livro traça, antes de tudo, um panorama das doutrinas marxistas na Itália, em suas raízes mais fortes, como é o caso de Croce. Depois, discute os escritos fragmentários de Gramsci que permitia, ao usar noções vagas sobre a sociedade civil e o papel dos intelectuais orgânicos, atenuar a grosseria do marxismo oficial, cujos jogos entre “infra” e “super” estrutura permitiam parolar sobre tudo e de nada dar conta no mundo efetivo. Perto de Roger Garaudy (aquele mesmo que afirmava, piorando o materialismo do século 18, que o cérebro secreta o pensamento como o fígado a bilis) e de Jean Kanapa (aquele outro que delatou em Sartre tendências filo-imperialistas norte-americanas, porque o autor da Crítica da Razão Dialética ousara recusar o estupro da Tchecoslováquia) Gramsci era um portento especulativo. Mas o colosso tinha pés de barro.

As suas fraquezas foram apontadas por Lucio Colletti. Como sempre, em se tratando de seitas, o crítico não foi ouvido. Ocorre na Itália e na Europa o debate sobre socialismo e democracia. Gramsci coqueteou com Hegel, via Croce, o que fazia do seu ideário uma receita de adesão ao “necessário encadeamento histórico”. O futuro estava garantido (como denunciou Regis Debray) o que fez do marxismo uma receita de aceitação do presente, desde que dirigido pelos gloriosos líderes do proletariado. Parêntesis: hegelianismo e aceitação do fato coincidem, o que leva aos realismos indigentes dos militantes, sempre dispostos a quebrar os ovos alheios quando se tratava de fritar o omelete da “boa história”. Não por acaso Nietzsche caçoa dessa crença : “olhem os joelhos dos hegelianos, gastos de tanto serem dobrados diante da necessidade histórica!”.

A crítica de Galvano Della Volpe, virulentamente anti-hegeliano, suscita o debate sobre os elos entre Hegel e Marx, com direito à uma visita ao museu do materialismo romântico tardio, cujo ícone era Feuerbach. O exame da contradição dialética atingiu, era inevitável, a cabeça dos teóricos italianos e europeus. Sofísticos ao máximo, escapando simuladamente das denúncias kantianas sobre os paralogismos da razão, Hegel e discípulos “dialetizam” tudo, tudo engolem com sua lógica absoluta, tudo explicam. Mas tudo fica inexplicado porque a dialética foge da epistemologia. Ela opera sem limites ou regras. É delírio racional tão idiotizante quando os devaneios do metafísico.

É disso que se trata: o marxismo, “herdeiro” da bela dialética não passa de metafísica selvagem, pão para toda boca pois explica a natureza e a cultura, com ajuda de meros truques como a passagem da quantidade para a qualidade e quejandos. Como a feitiçaria não escapa do mundo, em especial do político, a tal escolástica não explicou nem moveu o Estado italiano, um dos mais complexos da história moderna (quem leu Maquiavel, sabe).

Orlando Tambosi segue Lucio Colletti na desmistificação a raiva da ciência (“burguesa”) presente no PC. As determinações kantianas ajudaram a denunciar a enfermidade pan-lógica e metafísica. E nas suas últimas páginas, ele extrai as lições de Kant, ainda na linha de Colletti. Mas o mesmo Colletti extrai de Max Weber um ensino até hoje ignorado pelos militantes e acadêmicos da chamada esquerda : “a tensão entre a esfera da ciência e a dos valores da salvação religiosa é incurável”. Os marxistas falavam em “ciência” quando faziam fervorinhos religiosos, dobravam a espinha para a raison d´État soviética. Diziam “natureza” e “realidade”, quando suas categorias eram metafísicas. No campo hegeliano original tais noções eram coerentes, visto o “idealismo objetivo” de Hegel fundamentar-se no Espirito que tem sua Epifania no Estado. Nos escritos marxistas, eram apenas e tão somente lambões especulativos, a folha de uva que escondia a nudez do infalível Partido. Dessa experiência emburrecedora, quem pensa não tem saudade. Nome do livro? O declínio do marxismo e a herança hegeliana (Editora da Universidade Federal de Santa Catarina,1999). Título muito respeitoso com um defunto que não merece velas de libra. Em italiano, o nome é claro e distinto: Perché il marxismo ha fallito, porque o marxismo faliu... (Milano, Mondadori, 2001). Leitura obrigatória para quem deseja pensar o passado de uma ilusão.

Em 2005 o IFCH da Unicamp me convidou para um Colóquio sobre Marx. Foi o último e derradeiro convite para o assunto. A partir daquela época os marxistas do Instituto me colocaram na lista das pessoas que não devem ser cumprimentadas nos corredores acadêmicos. Conheço o procedimento e o entendo. O Jornal da Unicamp, na época, fez uma entrevista com vários partícipes do evento. No trecho abaixo, recorto as perguntas e as minhas respostas, pois a parte alheia cabe ao alheio. Os leitores podem analisar minhas atitudes teóricas e delas discordar, ou concordar em parte, ou aceitá-las. Mas creio ser relevante insistir no tema, visto que não raro se debate o assunto sem reflexões prudentes. Sei bem que enquanto existirem "ismos", ou seja, enquanto existir a humanidade, quem pensa diferente é, por definição, idiota ou maldito. E na "comunidade"acadêmica, os malditos devem ser aniquilados. Ainda bem que, fora das seitas, existem técnicas e leis que garantem a expressão do pensamento não alinhado.
Roberto Romano



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MARX Ontem e hoje.
E amanhã?

ÁLVARO KASSAB e EUSTÁQUIO GOMES

O papel do marxismo ao longo da história é analisado nesta e nas próximas três páginas pelo cientista político Armando Boito (Unicamp), pelo historiador Jorge Grespan (USP), pelo filósofo Roberto Romano (Unicamp) e pelo deputado federal e escritor Fernando Gabeira (PV-RJ). Este e outros temas serão debatidos no IV Colóquio Internacional Marx e Engels (leia na página 8), que ocorre na Unicamp entre os dias 8 e 11 de novembro. Serão mostrados 120 trabalhos durante o evento, que reunirá quatro conferencistas do exterior. Jornal da

Unicamp – Não faltam os que afirmam que, finda a experiência marxista da antiga URSS, derrubado o muro de Berlim e instalada a economia de mercado na China, o marxismo enquanto utopia se esgotou no século XX. O que o sr. pensa disso?

Roberto Romano – Permitam-me responder longamente a essa pergunta tão complexa. Marx não se deseja utópico. Desde A Ideologia Alemã, a sua filosofia procura captar o mundo tal como ele se manifesta, recolhendo a essência do trato entre homem e natureza, em desenvolvimento imanente. Em vez de universalidades vazias (como o Homem, a Sociedade, o Estado etc.,) o pensador pretendeu usar a ciência de seu tempo. “O físico, para se dar conta dos procedimentos naturais, ou estuda os fenômenos quando eles se apresentam em sua forma mais saliente e menos obscurecida por influências perturbadoras, ou experimenta em condições que asseguram tanto quanto possível a regularidade de sua marcha.” (O Capital). O símile entre a crítica da economia política e a física, tal como a entende Marx, mostra que o seu alvo não reside em nada exterior ao tempo e ao espaço.

No caso da sociedade capitalista, a grande procura do pensador é a sua lei natural de desenvolvimento. No pósfacio ao Capital há uma resenha da revista russa O mensageiro Europeu, onde se enuncia que o método de Marx “é rigorosamente realista”. Uma só coisa o preocupa: “encontrar a lei dos fenômenos (das Gesetz der Phänomene zu finden); não só a lei que os rege (…) mas sobretudo a lei de sua mudança e desenvolvimento, a lei de sua passagem (Übergang ) de uma forma a outra”. Não se pode falar em utopia em Marx, pelo menos nos textos teóricos. A recusa dos socialistas utópicos como Saint-Simon e outros, é comum no par Marx/Engels.

Comentadores aproximaram o seu pensamento e as concepções de Fichte, no relativo à livre atividade humana. Mas o lado “realista” é essencial nos escritos de Marx. No século XX, suas investigações são trucidadas pela máquina de moer cérebros chamada Partido, suas pesquisas são encolhidas em algumas fórmulas a priori. Toda a sua ciência foi tragada pelas palavras de ordem dos líderes partidários e o realismo científico se transformou em “realismo” da razão estatal soviética.

Nesse clima de esvaziamento conceitual e volitivo surge Ernst Bloch, cuja utopia impulsiona alguns revolucionários e lhes permite esquecer o dogma partidário que “tudo” explica no mundo histórico e natural. E muitos militantes que se negam a dobrar os joelhos às pretensas “leis” de Marx (para os teóricos oficiais da URSS eram certezas que dispensavam a crítica e a pesquisa) assumem uma perspectiva utópica. Mas o utopismo não abarcou o marxismo como um todo. Pelo contrário, foram conduzidos ao máximo tanto o realismo vulgar quanto uma versão oportunista da razão de Estado.

Merleau-Ponty, ao criticar Claude Lefort (A Contradição de Trotsky e o problema revolucionário, Temps Modernes, 1949 ), aponta o naturalismo de Marx como fonte dos equívocos marxistas. Descobertas as leis do seu desenvolvimento, torna-se possível revolucionar uma sociedade. “A dialética havia estabelecido entre o presente e o passado uma dupla relação, de continuidade e descontinuidade. O capitalismo cria seus próprios coveiros, prepara o regime que o derrubará, o futuro emerge do presente e o fim brota dos meios de que ele é apenas a soma total e o sentido.” O marxismo “fala da revolução como uma onda que toma o Partido e o proletariado onde eles estão e os leva para além do obstáculo. Ou então, ao contrário, põe a revolução além de tudo o que existe, num futuro que nega o presente, no final de uma depuração infinita.”

A passagem do capitalismo ao socialismo está garantida: existe a ciência do materialismo histórico e dialético. A passagem do capitalismo ao socialismo não está garantida: a parúsia ocorrerá apenas num futuro sempre adiado, enquanto o Partido e a sua forma estatal garantem as conquistas do pretérito, nos limites de um só país. Daí o pêndulo entre revolução armada e a luta eleitoral.

Regis Debray (Tempo e Política, Temps Modernes, 1968) indica o milenarismo presente nas decisões partidárias. De um modo ou outro, trata-se de jogar as esperanças no futuro, porque “um dia”, com maior número de votos, chegará a hora da sonhada revolução. Os que se insurgem contra semelhante contínuo temporal, como o próprio Debray nos anos 60, assumem a luta armada como quebra da lógica milenarista eleitoral. O dia certo, o kayrós, pensa Debray, deve ser imposto pelos revolucionários hic et nunc. Mas as duas estratégias fundamentam-se numa certeza: existem leis que regem a passagem do capitalismo ao novo modo de produção e sociedade. Trata-se de uma questão de tempo, longo no caso do comunismo oficial, acelerado pelas organizações armadas, no caso dos guerrilheiros.

Um comentário do referido descompasso noético é feito pelo lingüista Roman Jakobson, não suspeito de ter sido preso pela razão de Estado miúda que assolou militantes e dirigentes comunistas: “Em 1930, após a morte de Maiakóvski, anotei o seguinte: lançamo-nos em direção ao futuro com excessivo ímpeto e avidez para poder salvaguardar algum passado. O laço dos tempos rompeu-se. Vivemos demais no futuro, nele pensamos demais, acreditamos nele, não temos mais a sensação de uma atualidade que se baste a si mesma, perdemos o sentimento do presente… tínhamos apenas os encantadores cantos que nos falavam do futuro, e, de repente, esses cantos, saídos da dinâmica do presente, transformaram-se em fato de história literária”.

Muitos marxistas viveram a paixão do futuro, imaginaram que o passado supostamente abolido na URSS traria novos dias, desde que a dialética materialista fosse entendida perfeitamente, pela repetição das suas fórmulas, e aplicada sem questionamentos.

Stalin enuncia “quatro princípios fundamentais do método dialético marxista”: a) a interdependência geral de todos os fenômenos, a lei da totalidade; b) o movimento, pois “segundo o método dialético, só é invencível o que nasce e se desenvolve”; c) a transformação da quantidade em qualidade, num acúmulo quantitativo gradual e rupturas súbitas, fazendo passar de um estado a outro. E d) a lei dos contrários, “conteúdo interno do processo de desenvolvimento”. (Stalin, O materialismo dialético e o materialismo histórico).

E Lenin, antes de Stalin, enuncia as teses inquestionáveis do marxismo em Materialismo e Empiriocriticismo. “A verdade absoluta resulta da soma das verdades relativas em via de desenvolvimento. As verdades relativas são reflexos relativamente exatos de um objeto independente da humanidade. Esses reflexos tornam-se sempre mais exatos. Cada verdade científica contém, apesar de sua relatividade, um elemento da verdade absoluta”.

Além do líder russo, outros teóricos avançaram enunciados com pretensões epistemológicas e políticas. É o caso de Mao: “Para que se complete o movimento que conduz ao conhecimento justo, é preciso freqüentemente muitas repetições do processo que consiste em passar da prática ao conhecimento, depois do conhecimento à prática. Tal é a teoria marxista do conhecimento, a teoria materialista da dialética do conhecimento” (Cinco Ensaios Filosóficos). Seqüência admirável, extraída de um texto não menos admirável publicado na França ainda em 1975 : “Viva o marxismo-leninismo maoísmo! Viva a guerra popular”, da União dos Comunistas da França Marxista Leninista (U.C.F.M.L.). O Materialismo e Empiriocriticismo fornece a grande fórmula da verdade objetiva, inscrita na história. O desenvolvimento desta última é uma aproximação gradativa da verdade, cuja sede é o Partido. E o Partido é o detentor da teoria, da certeza, do ser.

Escutemos Trotski no XIIIº Congresso do PC na URSS : “Ninguém dentre nós (…), nem pretende nem pode ter razão contra seu Partido. Definitivamente, o Partido tem sempre razão (…) Não se pode ter razão a não ser com e para o Partido, porque a história não tem outras vias para realizar sua razão” (citado por Claude Lefort, Un homme en trop). Como analisa Lefort, identificados o real e o Partido, razão e Partido, “da realidade à teoria, como da teoria à realidade, a passagem é sempre evidente”. Se a teoria não o prevê, um fenômeno não existe. “Sem a orientação da doutrina marxista-leninista, doutrina todo poderosa porque verdadeira, nada de bom e duradouro pode ser alcançado” (D. A. Câmara, Forjemos nosso Partido à imagem e semelhança do Partido de Lenin e Stalin, Problemas, 1953). Entre as evidências, a mais solar: “Somente a sabedoria coletiva do Comitê Central, tendo à frente o camarada Prestes, permite dar aos militantes uma educação de elevado teor ideológico”.(M. Alves, “Elevar o nível ideológico do Partido, tarefa essencial na luta pela vitória do Programa [Informe em nome do Presidium do C.C.]” Problemas, 1956). A técnica pedagógica é translúcida: tratando-se do Programa, “seus fundamentos, suas teses, seus objetivos e suas tarefas devem ser profundamente compreendidos e assimilados. Cada comunista necessita ficar saturado das novas idéias” (A. Câmara, Novo Programa, Novas Tarefas, Novos Métodos, Problemas, 1954)

Finalmente: “Guiados pelos ensinamentos do camarada Stalin, nosso educador, estudemos e assimilemos a doutrina marxista-leninista” (Luis Carlos Prestes, Nossa Política, Problemas, 1950). Para todas essas citações, leia-se Rückert, Sérgio Joaquim, Persuasão e Ordem: a escola de quadros do Partido Comunista do Brasil na década de 50, mestrado/Unicamp, 1987.

Essas formas doutrinárias foram introduzidas e aceitas voluntariamente pela massa dos militantes, com perícia cirúrgica e litúrgica: “todo lugar comum, todo cliché, é na realidade uma espécie de reza, funciona pelo mecanismo da repetição e da sugestão, veicula na vida social a mesma potência hipnótica das ladainhas na vida religiosa” (Shoshana Felman, Folie et Cliché). De Marx aos que se julgaram, em Moscou ou no Brasil, infalíveis consciências políticas do proletariado, ocorreu um enrijecimento noético. A pesquisa se transformou em catecismo. E tudo isso tem muito a ver com a razão de Estado, o realismo que se curva ao existente em nome de uma revolução mitológica, a ser revelada no Final dos Tempos.

Segundo Max Weber, quando uma seita percebe que o Dia de Juízo demora a chegar, ela se adapta para viver no mundo “tal como ele é”. Surge a Igreja burocrática e prudente, com Santas Inquisições e sacramentos, ladainhas. Ao examinar a história dogmática do cristianismo, marxistas atilados poderiam ler no final : De te fabula narratur. Não leram.

JU – Há também quem diga que a utopia do século XXI é a técnica, ou seja, os impactos sociais, econômicos e políticos da tecnologia esvaziariam de sentido as ideologias clássicas. Qual sua opinião a respeito?

Roberto Romano – A utopia técnica enquanto política tem a idade de Platão, basta atentar bem para a forma e o conteúdo da República. O Renascimento, época das utopias (Morus, Campanella, Bacon) definiu o modelo tecnológico e político da modernidade (o famoso knowledge and power meet in one baconiano). As ideologias clássicas, pelo menos as geradas no século XVII francês, inglês, alemão, foram todas ligadas às técnicas. O liberalismo é ininteligível sem a passagem pela tecnologia e pelo ordenamento mecânico do universo e da sociedade. Recolhemos hoje o resultado de uma cultura milenar que se apóia no símile da máquina e do mundo.

Ao contrário do que afirmam Heidegger, Hans Jonas e outros pensadores que devem, no entanto, ser estudados com respeito e cautela, penso que as representações técnicas precisam ser valorizadas ao máximo. O retorno às formas primitivas de cultura sendo uma impossibilidade, resta introduzir, como aliás proclamam alguns românticos mais lúcidos, entre eles Novalis, “alma na máquina”.

JU – As experiências marxistas do século XX (URSS, China, Albânia, Hungria, Tchecoslováquia, Cuba) coincidiram com longos períodos de supressão das liberdades individuais, embora se denominassem democráticas. Pode-se argumentar que os países capitalistas ou sob o capitalismo oprimem ou são oprimidos pela exclusão e pela desigualdade social. Contudo permanece a questão: como conciliar marxismo e democracia? Ou o conceito de democracia, no caso, está condicionado ao princípio da justiça social?

Roberto Romano – O problema reside no conceito de ditadura, algo que determina o juízo possível sobre os jacobinos franceses e os bolchevismos. Um partido ditatorial, que se rege pelas doutrinas mencionadas na primeira resposta, conduz ao massacre de quem pensa diferente, no interior ou fora da organização política. O autoritarismo dogmático que invade a fala de militantes e dirigentes, prenuncia os campos de concentração.

JU – Os marxistas brasileiros freqüentemente são acusados de pregar a democracia interna (o que incluiria a realização de eleições livres) e de fechar os olhos à eternização de chefes comunistas no poder, como por exemplo Fidel Castro em Cuba. Como conviver com esse tipo de contradição, se é que se contradição se trata?

Roberto Romano – Entre a democracia interna, exposta em termos homiléticos, e a sua prática, há um abismo. Veja-se o PT: os dirigentes todo poderosos nada viram, nada ouviram, nada cheiraram, nada tocaram, nada perceberam no partido e no governo, do presidente de honra aos líderes menores. Tudo foi efetivado sem consultas às bases, do “recurso não contabilizado” às decisões governamentais sobre o superávit primário atual.

O centralismo “democrático” é apenas um outro nome para “ditadura”, com os frutos previsíveis em todo coletivo que proíbe o debate real, a crítica, o acesso a todos os dados. Quem forneceu os “recursos não contabilizados”? Quando este e demais segredos forem abertos pelo próprio partido aos militantes e ao público, será possível dizer, sem provocar gargalhadas, que ele é democrático.

JU – István Mészáros prega que a obra de Marx é inacabada e, como tal, dois componentes, entre outros, não podem ser ignorados na preservação de seus ideais: as seguidas mutações do capitalismo; e, falando na condição de húngaro oprimido pelas tropas soviéticas, as experiências do socialismo real. O senhor acha que essa releitura é possível nos dias de hoje?

Roberto Romano – Não tenho condições de responder a esta pergunta.

JU – Há um curioso ponto de convergência nas trajetórias – e nos discursos – de Fernando Henrique Cardoso (um aplicado leitor de Marx na juventude) e de Lula. O primeiro, cujos livros eram adotados maciçamente na academia nas décadas de 60 e 70, pediu que esquecessem o que havia escrito; o segundo chegou a afirmar que nunca havia sido de esquerda, muito embora tenha se cercado, ao longo se sua trajetória, de intelectuais marxistas. A que o senhor atribui essa postura?

Roberto Romano – Uso com freqüência, para descrever a atitude de todos as lideranças políticas, a análise de Elias Canetti sobre o poderoso enquanto sobrevivente. Pouco importa o seu discurso anterior, as alianças anteriores, os companheiros do passado: se for preciso para a sua sobrevida, o poderoso alegremente jogará tudo fora.

Fui um crítico duro do governo de FHC. Mas para ser justo, não é possível identificar sua frase “esqueçam o que escrevi” (ele nega a sua autoria) e o “nunca fui de esquerda” do atual presidente. Uma pessoa de esquerda pode errar no passado e corrigir seus pontos de vista. Quando FHC foi eleito, poucos esperavam que ele faria um governo de esquerda, pois as suas teses eram conhecidas desde longa data. A própria “teoria da dependência” não se enquadra nos parâmetros habituais do marxismo e fora criticada por vários intelectuais, mais próximos da esquerda do que FHC, entre os quais Francisco de Oliveira.

Lula foi eleito porque prometeu um governo de esquerda, em todos os sentidos, inclusive no econômico. Se ele e seus amigos viram no programa de seu partido apenas e tão somente “bravatas” e se, a partir da “Carta aos Brasileiros Donos de Banco” negaram todo o seu passado, a coisa é bem mais grave do que no caso de FHC.

JU – Correntes pregam que as transformações pelas quais passou o mundo colocaram na pauta da esquerda novas demandas (ambientalismo etc), que passam ao largo dos cânones marxistas, embora a maior parte dessas urgências sejam tributárias ou derivadas das idéias do filósofo alemão. O senhor acredita que a esquerda pode abrir mão da perspectiva marxista?

Roberto Romano – Quando o marxismo ainda era uma doutrina prestigiosa nos campi, alguns estudantes exigiram que “numa universidade marxista, se estudasse Marx”. Errado. Em primeiro lugar, uma universidade pública não é marxista nem bakuninista, nem liberal ou católica.

Em segundo, a seguir Marx, seria preciso assumir o seu modus operandi: ler Aristóteles, Hegel, Adam Smith, Ricardo, Malthus, para efetivar a crítica da economia política. A crítica efetiva só pode ser feita, depois que o estudioso domina as razões básicas das teses criticadas. “Não ler e não gostar”, ler apenas os autores autorizados pelo grupo ou partido, beira o fanatismo. Não é possível abrir mãos dos textos de Marx e de muitos marxistas notáveis pelo saber. Como não é possível abrir mão da filosofia grega, dos teólogos que pensaram a idade média e toda a cultura letrada. Ler, examinar, verificar escritos, sem protocolos, é condição de liberdade.

JU – Em que medida o marxismo dá conta das mudanças nos meios de produção – mercado informal e globalizado, desemprego em massa, oligopólios etc – registradas nas últimas décadas?

Roberto Romano – Creio que ele “não dá conta” de todos esses problemas difíceis. Como, aliás, ninguém pode se jactar de conhecer todo o universo implicado na pergunta acima. Alguns cenários globais podem ser produzidos para ajudar a intelecção do mundo atual, mas a busca dos elementos empíricos e a sua análise com auxilio de conceitos, definem um processo longo, penoso, que exige trabalho interdisciplinar prudente e aberto ao diálogo.

No mundo inteiro surgem instituições, movimentos e grupos dedicados a pensar o mundo atual. As análises publicadas não trazem muita esperança, mas também não jogam medo absoluto no futuro imediato. Apenas para ficar na questão dos recursos naturais e, nela, o problema das águas. Sem petróleo (algo que motiva os piores conflitos bélicos em nossos dias) é possível a sobrevivência da humanidade, pois energias alternativas existem e podem ser aprimoradas. Mas sem água desaparece a vida humana. Vastas populações estão condenadas à morte certa no mundo. Ensaios de cooperação entre países e movimentos políticos opostos trazem alguma esperança neste setor. Em Israel, técnicos e cientistas palestinos e israelenses trabalham em conjunto para recuperar as fontes hídricas da região. Algo semelhante pode ser feito em todos os continentes. Mas isso exige muito saber técnico e muito diálogo entre partidos, governos, Estados. Note-se que falamos de efetividades econômicas que determinam o destino de coletivos inteiros. E muitos pensadores marxistas ou não marxistas podem ajudar na tarefa de entender e administrar esses desafios.



domingo, 28 de dezembro de 2008

É triste, mas é assim: vários setores dos movimentos negros aderem ao fascismo, sem nenhum pudor. Trata-se da Realpolitik...

Culture 28 déc. 15h54

Dieudonné dérape encore

Vendredi soir, pendant son spectacle, il a invité sur scène et sous les applaudissements le négationniste Robert Faurisson. La ministre de la Culture Christine Albanel se dit «consternée».

23 réactions

Libération.fr avec source AFP

Le 23 mars 2007 à Paris, lors d'une conférence de presse avec Jany Le Pen, l'épouse de Jean-Marie Le Pen.

Le 23 mars 2007 à Paris, lors d'une conférence de presse avec Jany Le Pen, l'épouse de Jean-Marie Le Pen. (AFP)

On n'avait plus entendu parler de lui depuis l'histoire du baptême de sa fille avec comme parrain Jean-Marie le Pen. Le silence n'aura pas duré bien longtemps: vendredi soir, Dieudonné, déjà condamné pour ses propos sur la mémoire de la Shoah, a décidément touché le fond.

A la fin de son spectacle au Zénith de Paris, Dieudonné déclenche une ovation en l'honneur de Robert Faurisson négationniste Robert Faurisson, qui conteste depuis plus de 30 ans la réalité de l'Holocauste. Faurisson est accueilli sur scène par une accolade et un «prix de l'infréquentabilité et de l'insolence» lui est remis par une personne déguisée en déporté juif.


«Vos applaudissements vont retentir assez loin (...) Votre présence ici et notre poignée de main sont déjà un scandale en soi», lance Dieudonné devant 5.000 spectateurs.



Robert Faurisson, souvent condamné pour négationnisme, fait l'objet d'une nouvelle enquête judiciaire pour avoir qualifié l'Holocauste de «religion officielle» qui «continue d'abuser des millions de gens par des procédés grossiers».

La ministre de la Culture et de la Communication, Christine Albanel a fait part dimanche dans un communiqué de sa «consternation».

THE NEW YORK TIMES

Israeli Attacks in Gaza Strip Continue for Second Day

Published: December 28, 2008

GAZA — Israeli airstrikes against Hamas facilities in Gaza continued for a second day on Sunday and the death toll rose to more than 280 as Israel retaliated for rocket fire from the area with its most severe campaign against Palestinian militants in decades.

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Mohammed Saber/European Pressphoto Agency

Palestinian prisoners fled after an Israeli missile struck the Hamas security compound known as the Saraya in central Gaza City on Sunday. More Photos »

Ahmad Gharabli/Agence France-Presse — Getty Images

Palestinian protesters threw stones at Israeli soldiers in clashes near Jerusalem on Saturday. More Photos >

The Palestinian groups again launched barrages of rockets and mortars into Israel on Sunday, extending their reach further than ever before, and the Israeli government approved the emergency call up of thousands of army reservists in preparation for a possible ground operation.

Speaking before the weekly cabinet meeting in Jerusalem, Israeli Defense Minister Ehud Barak said the army “will deepen and broaden its actions as needed” and “will continue to act in Gaza.”

Among the 30 or more targets hit Saturday night and early Sunday was the main security compound and prison in Gaza City known as the Saraya; metal workshops throughout Gaza; Hamas military posts; and the house of a chemistry professor from Gaza’s Islamic University. The Hamas-owned Al-Aqsa television station was also struck, as was a mosque that the Israeli military said was housing armed men and was being used as a terrorist operation center.

Palestinian officials said that most of the dead in Gaza were security officers for Hamas, including two senior commanders, and that at least 600 people had been wounded in the attacks.

The prime minister of Israel, Ehud Olmert, said on Sunday that “the patience, determination and stamina” of the residents of Israelis would, in the end, determine the success of the military and diplomatic campaign against Hamas.

Two rockets fell in the vicinity of the major Israeli port city of Ashdod, almost 25 miles north of Gaza, a military spokeswoman said. Others landed in the coastal city of Ashkelon. Several Israelis were lightly wounded by shrapnel. The hundreds of thousands of Israeli citizens now within rocket range have been instructed by the authorities to stay close to protected spaces and an emergency has been declared.

Israeli military officials said that the airstrikes, which began on Saturday morning, were the start of what could be days or even months of an effort to force Hamas to end its rocket barrages into southern Israel.

After the initial airstrikes, dozens of rockets were fired into southern Israel sending thousands of Israelis into bomb shelters. One man was killed on Saturday in the town of Netivot, the first death from rocket fire since it intensified a week ago.

A number of governments and international officials, including leaders of Russia, Egypt, the European Union and the United Nations, condemned Israel’s use of force and also called on Hamas to end the rocket fire. But in strong terms, the Bush administration blamed Hamas for the violence and demanded that it stop firing rockets.

Early Sunday morning in New York, the United Nations Security Council issued a statement expressing concern about the escalation of the conflict and calling on both parties for an immediate end to all violence. The statement came after envoys of the 15-member council met for over four hours in a closed session, Reuters reported.

A military operation had been forecast and demanded by Israeli officials for weeks, ever since a rocky cease-fire between Israel and Hamas fully collapsed a week ago, leading again to rocket attacks in large numbers against Israel and isolated Israeli operations here.

Still, there was a shocking quality to Saturday’s attacks, which began in broad daylight as police cadets were graduating, women were shopping at the outdoor market, and children were emerging from school.

The center of Gaza City was a scene of chaotic horror, with rubble everywhere, sirens wailing, and women shrieking as dozens of mutilated bodies were laid out on the pavement and in the lobby of Shifa Hospital so that family members could identify them. The dead included civilians, including several construction workers and at least two children in school uniforms.

By afternoon, shops were shuttered, funerals began and mourning tents were visible on nearly every major street of this densely populated city.

The leader of the Hamas government in Gaza, Ismail Haniya, said in a statement that “Palestine has never witnessed an uglier massacre.” Later, in a televised speech, he vowed to fight Israel. “We say in all confidence that even if we are hung on the gallows or they make our blood flow in the streets or they tear our bodies apart, we will bow only before God and we will not abandon Palestine,” he said.

In Damascus, Syria, Hamas’s supreme leader, Khaled Meshal, said in an interview with Al Jazeera television that he was calling for a new Palestinian intifada against Israel, including the resumption of suicide attacks within Israel for the first time since 2005. Hamas, he said, had accepted “all the peaceful options, but without results.”

“We wanted to attack military targets while the terrorists were inside the facilities and before Hamas was able to get its rockets out that were stored in some of the targets,” said a top Israeli security official, briefing a group of reporters by telephone on condition of anonymity.

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Hatem Omar/Associated Press

An injured Palestinian was helped from the rubble after an Israeli airstrike struck Rafah in the Gaza Strip on Saturday. More Photos >

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ALERTA MÁXIMO :

PEÇO AOS LEITORES PRUDENTES QUE LEIAM O TRECHO ABAIXO, SOBRE O GOLPE DE ESTADO DE 1964 E O PROBLEMA DA HIERARQUIA MILITAR. NAQUELES IDOS, GRUPOS DE SARGENTOS E DEMAIS PATENTES MENORES, IMAGINANDO OBTER O APOIO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA, OU DE FATO SOB TAL APOIO, DESAFIARAM A HIERARQUIA MILITAR DE MODO PROVOCATIVO, TENDO EM VISTA ABALAR OS FRÁGEIS FUNDAMENTOS DO REGIME DEMOCRÁTICO INSTITUIDO EM 1946. HOJE, CONFORME A ENTREVISTA QUE RETOMO ABAIXO, DE UM CAPITÃO DO EXÉRCITO, FICAMOS SABENDO QUE EXISTE UM MOVIMENTO SIMILAR AO DE 1964, COM EXPLÍCITO INTENTO DE APOIAR O PRESIDENTE LULA. SE TAL PROCESSO NÃO FOR GOLPISMO, NÃO SEI O QUE SIGNIFICA A PALAVRA (E A COISA) QUE DESIGNA O GOLPE. SE ELES FOSSEM DE FATO DEMOCRÁTICOS, SUAS PALAVRAS DE ORDEM SEGUIRIAM RUMOS DIVERSOS, DO QUE O APOIO AO "BENEFACTOR"DE PLANTÃO, OU "NOSSO GUIA". COM A CRISE ECONÔMICA, PARECE QUE O PETISMO GOLPISTA NÃO CONSEGUIRÁ EMPLACAR DILMA ROUSSEF (O PRESIDENTE JÁ SE AFASTA DO APOIO EXPLÍCITO, PRATICADO MESES ATRÁS, À CHEFE DA CASA CIVIL).OS OFICIAIS DIZEM QUE IRÃO APOIAR O CANDIDATO DO PRESIDENTE LULA. COMO TAL CANDIDATO SERÁ INVIÁVEL, E COMO TODOS SABEM QUE O CANDIDATO PERENE DO PRESIDENTE LULA É O PRESIDENTE LULA, E COMO A ALTERNÂNCIA NO PODER É A HIPÓTESE MAIS TEMIDA PELOS SEGUIDORES DE LULA, RESTA O TERCEITO MANDATO. SE ESTE ÚLTIMO NÃO FOR ASSUMIDO PELO CONGRESSO, RESTA O APOIO DA BAIXA OFICIALIDADE, QUE AGORA SE ORGANIZA EM NOVO NINHO DE SERPENTE. IMPORTA SEGUIR COM MUITA ATENÇÃO OS PASSOS DO MOVIMENTO, PARA QUE A CIDADANIA DEMOCRÁTICA NÃO SEJA TOMADA DE SURPRESA.

QUANDO DENUNCIO TENTATIVAS GOLPISTAS COMO A QUE ESTÁ EM CONSTRUÇÃO, SEMPRE EXISTE UM DOGMÁTICO PARA ASSEGURAR QUE 1964 "JAMAIS"VOLTARÁ A OCORRER. É COMO SE TAIS DOGMÁTICOS VISSEM A HISTÓRIA COM LENTES DIVINAS.NÃO, CAROS SENHORES DAS CERTEZAS ETERNAS! GOLPES SÃO PROCEDIMENTOS POLÍTICOS, USADOS PELOS QUE SE INSTALAM NOS PALÁCIOS E DELES NÃO QUEREM SAIR.E PARA APLICAR TAIS GOLPES, ATORES MENORES SÃO MOBILIZADOS. SE FRACASSAM, OS ATORES MAIORES SAEM INDENES. SE CONSEGUEM SUCESSO, OS MESMOS ATORES MENORES SÃO MORTOS, EXILADOS, PRESOS... LEIAM, POR FAVOR, O INSTRUTIVO VOLUME DE GABRIEL NAUDÉ, "CONSIDERATIONS POLITIQUES SUR LES COUPS D'ÉTAT" (NA GALLICA, BNF, PODE SER BAIXADO O LIVRO INTEIRO). POR FAVOR, LEIAM O TRECHO DO ARTIGO (FRUTO DE CONFERÊNCIA SOBRE O GOLPE DE 1964, INTITULADO "A MISSA NEGRA DE 1964") E DEPOIS CONFIRAM COM A ENTREVISTA DO REFERIDO CAPITÃO NA FOLHA DE SÃO PAULO. ATENÇÃO AO QUE ESTÁ SUBLINHADO EM VERMELHO.
BOM 2009...
ROBERTO ROMANO


"Discutamos a outra instituição que, desde a Colônia, assegurou o território nacional e o Estado, as Forças Armadas. Para elas, como para a Igreja, a ordem hierárquica é essencial. Após a ditadura getulista, quando houve certa unidade de comando e obediência nas casernas, os soldados se preocuparam com a pequena democratização do governo Dutra, as crises do governo democrático de Vargas, as sucessivas formas de golpes e contra-golpes de setores parlamentares que buscavam apoio nos quartéis (as famosas “vivandeiras”) antes do governo Juscelino. Após todos esses eventos, quando foram duramente questionadas a unidade de comando e a hierarquia, ocorreu a renúncia de Jânio Quadros, acuado por um parlamento hostil, sem maioria sólida possível. Na ocasião, com o veto do Alto Comando à posse de Goulart e com o parlamentarismo instalado pelo Congresso, ocorreu uma fratura perigosa aos olhos dos militares. Essa fenda ameaçaria a Federação, de um lado, e a unidade das Forças Armadas. Refiro-me ao apoio do III Exército e demais setores leais ao vice-presidente da República, sob liderança de Leonel Brizola.

Dada a cura provisória da crise institucional e federativa, com o parlamentarismo, os militares aparentemente aceitaram o status quo obtido pelos que dirigiam o Congresso. Mas a fratura ocorrida no interior dos quartéis, de modo público e notório, permaneceu na consciência militar à espera do que poderia ocorrer.As sucessivas manifestações de insubordinação dos soldados e patentes menores evidenciaram um processo geral de perda da autoridade do Executivo. As manobras políticas a diminuíram ainda mais. Seria preciso dar um basta aos que assim quebravam a hierarquia. A Igreja colocou massas nas ruas. As Forças Armadas prepararam a tomada das mesmas ruas pelos canhões. Quando as duas maiores forças de imposição do mando, uma espiritual e outra física, sentem que estão à beira da ruptura interna, e se quebra a linha de comando, elas reagem para sobreviver e tentam cortar a fonte de seus males, pelo menos a mais aparente. Se o governo não conseguia impor sua autoridade, mas até incentivava gestos de rebelião, era urgente substituir o governo, com a conivência do Congresso, manifestada sempre que golpes civís ou militares anteriores foram perpetrados.

É preciso ter uma idéia muito realista do soldado profissional no mundo político. Um soldado é feito para executar o monopólio da força física estatal na guerra. Seu alvo é garantir a integridade do Estado com armas letíferas contra inimigos exteriores. Em caso de conflito civil, sua função continua tendo como essência a morte dos adversários. Para que este fim seja alcançado plenamente, o militar deve obedecer ordens de modo perfeito. Um movimento muito importante na propaganda golpista, em 1964, foi a Sociedade Brasileira Tradição Familia Propriedade (TFP). Aquele setor foi inspirado pelos teóricos da contra-revolução romântica do século 19, incluindo o pensador espanhol Donoso Cortés. “Um soldado”, enuncia Donoso Cortés, “é um escravo em uniforme”. A frase encontra-se no famoso Discurso sobre a Ditadura (1849). Alí, o teórico ataca a democracia representativa e ironiza todos os que confiam numa Constituição estável e permanente. Segundo Cortés, nada no mundo pode garantir estabilidade, porque o próprio Deus age por meio de golpes —os milagres— e age ditatorialmente. Cito o espanhol cuja presença fez-se notar nos piores golpes de Estado, na Espanha e na América do Sul, de Franco aos que derrubaram Salvador Allende :

Gobierna Dios siempre con esas mismas leyes que el mismo se impuso en su eterna sabiduría y a las que nos sujetó a todos. No señores; pues algunas veces, directa, clara e explicitamente manifiesta su voluntad soberana quebrantando esas leyes que El mismo se impuso e torciendo el curso natural de las cosas. Y bien, señores: cuando obra asi, no podria decirse, si el lengaje humano pudiera aplicar-se a las cosas divinas, que obra dictatorialmente?

Esse discurso inspirou o já mencionado Carl Schmitt, jurista que muito colaborou com Adolf Hitler, bastante lido por pessoas como Francisco Campos e outros personagens de nossa república. Quando Cortés diz que o soldado é escravo em uniforme, ele afirma um traço vital que esteve presente no golpe de 1964.

Ainda Elias Canetti fornece uma chave antropológica para a compreensão das Forças Armadas em 1964. A sentinela que permanece imóvel é o melhor exemplo da constituição psíquica do soldado. Os motivos habituais de ação, como os desejos, o temor, a inquietude que constituem a vida humana, são reprimidos dentro dele. Todo ato seu deve estar sancionado por uma ordem. O momento vital na existência de um militar é o da posição atenta diante do superior. A educação do soldado começa no instante em que lhe são proibidas muito mais coisas do que aos demais homens. O aspecto anguloso do soldado mostra que ele se adaptou aos muros, sendo um prisioneiro satisfeito. Para ele, a ordem tem valor supremo. Integra a sua formação que ele aprenda a obedecer ordens sozinho ou na companhia de outros. Os exercícios o habituam a movimentos executados com os demais. Todos devem realizá-los de modo absolutamente idêntico. O indivíduo torna-se igual aos outros. É a mesma ordem, pouco importando que seja apenas umq ue a recebe, ou todos. O uniforme, além das outras funções bélicas, evidencia a perfeita igualdade de todos na obediência às ordens.

A disciplina define o exército. Trata-se de uma dupla disciplina. A declarada é a ordem, tal como descrita acima. A outra é a promoção. Esta última corresponde à capacidade de um militar para ser aguilhoado internamente pela ordem. Para cada ordem atualizada, fica um espinho dentro dele. Se é soldado raso, ele não pode desfazer-se desses espinhos, aninhados em seu corpo e alma. Ele obedece e se torna cada vez mais rígido em sua obediência maquinal. Para sair desse estado, só com a promoção. Quando promovido, ele se desfaz —nos outros— dos seus aguilhões/ordens. A disciplina secreta consiste no uso dos aguilhões/ordens armazenados.

Essa disciplina responde pelo fato de os exércitos mais poderosos do mundo terem seguido ordens de partidos totalitários, pelo menos até que vislumbrassem a derrota, sem pestanejar. “Estou cumprindo ordens”. Sem tal frase, inexistiriam o fascismo, o nazismo, o stalinismo. O Alto Comando é o que menos ordens recebe, mas mesmo assim ele as recebe de quem possui autoridade para tal. Essa cadeia verticalizada de obediência, no caso dos soldados rasos, só explode nas situações de guerra onde o inimigo é disseminado, como nas guerras de guerrilha. Nessas horas a solidariedade horizontal conta mais do que as ordens vindas de cima. Há um bom livro de David Hansen, The Western Way of War: Infantry Battle in Classical Greece, que evidencia esse traço.

Na vida comum, quando não há guerrilha do inimigo externo ou interno, o exército segue a disciplina e a ordem das promoções. Para que ambas existam é preciso que a hierarquia e o próprio instituto militar sobrevivam. É absurdo para um soldado que cumpriu ordens a vida toda e subiu até o posto de coronel ou general de brigada, imaginar que suas próprias ordens não serão obedecidas. Nesse caso, mesmo que o Alto Comando permita a “insubordinação” e mesmo que o comandante supremo —o Chefe de Estado— assuma uma suposta “abertura democrática” face aos exército, quebrando a ordem rígida e a disciplina, eles serão desobedecidos, numa suprema tentativa de restaurar a ordem comum, com o golpe de Estado.

No Brasil em 1964, unidos à inquietude das altas hierarquias religiosas e à insubornição ao governo civil e às angústias diante das movimentações de massas na sociedade e nos quartéis, os militares seguiram quem lhes prometia restaurar a ordem e manter a carreira, a promoção. Quando a sociedade no seu todo —por suas lideranças— não sente-se ameaçada, o ato dos militares não encontra terreno fértil, mesmo dentro do exército. Lembremos, no início da redemocratização espanhola após a ditadura franquista, a tentativa de golpe em que os protagonistas ficaram sozinhos com seus revólveres no Parlamento ameaçado. Recordamos aquela situação tragicômica, com os políticos agachados e os golpistas a gritar frases desconexas.

Um golpe militar ocorre quando, às tensões externas, somam-se a angústia e as incertezas internas de manter tôda uma existência baseada na disciplina, na hierarquia das ordens, na carreira e na promoção. Foram decisivos o pânico e a insegurança sentidos nas duas maiores instituições da ordem no país, a espiritual, a Igreja Católica, e as Forças Armadas, com seu medo de se fragmentarem, perdendo-se irremediavelmente.

Assim, tivemos pelo menos três elementos importantes na geração do golpe de 1964 ( muitos outros existem e eles serão tratados pelos demais participantes do simpósio) : em primeiro lugar, a pregação jurídica contrária ao liberalismo, bem conhecida de autores como Francisco Campos e outros. Em segundo, a Igreja Católica, com a hierarquia. Em terceiro, as Forças Armadas com a disciplina. Da síntese desses três elementos, somados aos demais, surgiu a justificativa do golpe de Estado. Não é preciso ser adepto de Gabriel Naudé para constatar que os anos da ditadura, sem nenhuma exceção, exercitaram a diábolica missa negra que danou indivíduos e grupos de modo irremediável: torturas, assassinatos praticados nos estabelecimentos do Estado, censura, intolerância e violência anônima. Os perseguidos deveriam provar a sua inocência, sem que ao Estado se exigisse a prova de sua culpa. Vivemos muito tempo sem direitos e sem o Estado de Direito. A única comemoração que faz plena justiça ao golpe, será a feita no cotidiano de nossa vida cívica. Por pior que seja a democracia, ela garante pelo menos parte dos nossos direitos à vida e ao pensamento. Os donos do estado de exceção desconhecem direitos. Respeitemos o regime democrático. Este é o culto mais indicado, se os cidadãos quiserem fugir dos horrores vividos pela ditatura instituida em 1964. "

São Paulo, domingo, 28 de dezembro de 2008



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Capitão afirma que a democracia pode melhorar o Exército

Luis Fernando Ribeiro de Sousa defende mais participação política na corporação e quer concorrer à Câmara em 2010

Oficial nega que movimento queira minar a hierarquia e a disciplina no meio militar, como alegam os setores conservadores do Exército


Eduardo Lima/Folha Imagem
O capitão Luis Fernando de Sousa, no centro de Porto Alegre


DA ENVIADA A PORTO ALEGRE

O mineiro Luis Fernando Ribeiro de Sousa, 32, cresceu e até hoje vive no meio militar. É um capitão do Exército que acredita que a democracia pode melhorar as Forças Armadas. Ele integra um movimento que defende mais participação política na corporação, e se prepara para concorrer em 2010 a deputado federal. Para evitar punições, ele falou à Folha enfatizando que todas as idéias são pessoais e não representam a corporação. (ANA FLOR)

FOLHA - Como surgiu esse movimento?
LUIS FERNANDO RIBEIRO DE SOUSA
- Mudanças que poderiam melhorar as Forças Armadas, para que ela tenha papel importante, só acontecem por meio de participação política. Qualquer coisa que a gente pode fazer passa pela via política. Precisamos de deputados e senadores para promover qualquer transformação. Assim começamos a nos organizar.

FOLHA - Qual o objetivo do movimento?
SOUSA
- O regulamento disciplinar do Exército não contempla um monte de garantias que a Constituição contempla. O movimento é para dizer que o documento maior é a Constituição [e não regimentos internos]. Deve-se ter direito à liberdade de expressão, de associação para fins pacíficos.

FOLHA - Querem mais democracia no Exército?
SOUSA
- Dentro das Forças Armadas, até certo ponto tem democracia e até certo ponto não tem. O processo para que todos os direitos do artigo 5º e do artigo 6º [da Constituição Federal] cheguem aos militares não será de uma hora para a outra. Precisa haver democracia para toda a sociedade, inclusive para o Exército. O que está errado é o regulamento disciplinar. Lá na Constituição, que é a arma que nós empunhamos, diz que ninguém pode ser preso senão em flagrante delito. Temos que fazer mudar o regulamento disciplinar do Exército, da Marinha, da Aeronáutica, fazer um regulamento da Defesa unificado e pedir que os governos estaduais também façam isso com as polícias militares.

FOLHA - Querem menos disciplina?
SOUSA
- Há setores mais conservadores, ainda da ditadura militar, que dizem que estamos querendo acabar com a hierarquia e a disciplina. Muito pelo contrário. Será uma disciplina verdadeira. Como uma pessoa pode ser punida por dar uma entrevista, por se associar?

FOLHA - O Exército está boicotando o movimento?
SOUSA
- O Exército sabe que nosso objetivo é ter um candidato por Estado. O que ele fez? Transferiu [os oficiais]. As ligações políticas locais são quebradas. A meu ver, foi uma medida pensada para desarticular esse movimento. Querem evitar que haja interferência política em assuntos do Exército.

FOLHA - Ao falar em participação política dos militares, não há como não se lembrar da ditadura...
SOUSA
- A gente não tem nada a ver com a ditadura militar. Eu não quero entrar no mérito [e dizer] se foi certo ou errado. Cabe a nós pensar para frente, somos capitães, tenentes. Nosso pensamento é desenvolver o Brasil, um lugar para a gente crescer, com a não-criminalização dos movimentos sociais.

FOLHA - O que é o capitanismo?
SOUSA
- É um movimento que constrói a democracia. É uma adequação da estrutura secular das forças militares à realidade pós-88. É fazer chegar a Constituição também ao meio militar.

FOLHA - Quantos os senhores são?
SOUSA
- Eu não quero identificar ninguém, porque a retaliação pode vir pesada. Mas eu recebo cerca de cem e-mails por dia, de todo o Brasil. São pessoas de todas as Forças Armadas com o mesmo sentimento.

FOLHA - Como os senhores estão se organizando para 2010?
SOUSA
- Estamos discutindo os candidatos. Definimos que vamos apoiar quem o presidente [Luiz Inácio] Lula [da Silva] apoiar. Vemos o Lula como uma pessoa mais desenvolvimentista. Não é uma opção pela direita ou pela esquerda. É desenvolvimento, onde há projetos de usinas nucleares, de submarino nuclear, de tecnologia militar, de fortalecimento da indústria militar de defesa. Queremos um país forte, uma América Latina integrada.

FOLHA - Quando você entra nas Forças Armadas, você sabe do regulamento ao qual deve se submeter.
SOUSA
- Regulamento que não contempla direitos. Um regulamento que te coloca uma rédea curta. Ele pode ser totalmente diferente sem estragar nada. O grande problema, que os generais não aceitam, é a [eliminação da] pena restritiva de liberdade. Você ficar preso dentro do quartel. Eu fui preso e meu filho foi me visitar. Imagina o que o menino pensa: "Meu pai é do Exército ou é traficante?" Prisão é para criminoso. Quem está com cabelo grande não é criminoso.


sábado, 27 de dezembro de 2008


Com o Inácio no governo, chargista "nestepaís" não tem a menor graça; virou fotógrafo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

CORREIO POPULAR DE CAMPINAS, 24 DE DEZEMBRO DE 2008

Publicada em 24/12/2008


Boas festas

Roberto Romano

A semana é de paz e beleza. Deixo para mais tarde a publicação da feia herança oferecida por Carl Schmitt. Continuaremos com o doutrinário após o Natal. Hoje recordo a passagem do Eterno ao tempo, o retorno do finito ao infinito, efetivados na Encarnação do Verbo. De todas as metáforas para mostrar o revelado pela fé (o porquê Deus se fez homem) a figura da tradução é preciosa na cultura ocidental. Ela já se apresenta no Evangelho de João : “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, a Palavra era Deus (...) Nele estava a vida, a vida era a Luz dos homens. E a luz brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam”. O termo grego usado pelo evangelista para designar a fonte da Palavra é arkhé, cujas conotações trazem as idéias de poder, fundamento, origem. O Cristo, uno com o Pai, penetra no mundo (as trevas) na aparência de suma fragilidade, como se fosse desprovido de toda potência. Semelhante tradução é ininteligível para os não crentes, visto que eles ignoram o texto original, a Palavra. A julgar apenas pelos sentidos humanos, Jesus é antítese do ser divino.

Comentário bonito o de Erasmo no Adágio Sileni Alcibiadis: todos conhecem o trecho platônico no qual, segundo Alcibíades, Sócrates seria como as estatuetas vendidas no mercado, nas quais por fora surgiam sátiros feios e desprezíveis. Por dentro, no entanto, os artistas esculpiam seres belíssimos. Para chegar ao sublime seria preciso abrir a capa hedionda. Olhem um pouco o Sileno Jesus, diz Erasmo: no exterior nada poderia ser mais pobre, desprezível. “Sua casa? Muito modesta. O homem? Um deserdado. Os genitores? Gente sem meios. Os discípulos? Poucos e sem recursos. Quando ele os chamou, não estavam nos palácios dos grandes, nos púlpitos dos fariseus, nas escolas filosóficas, mas nas redes dos pescadores”. Sob a carcaça feia encontrava-se a pérola rara, na “profunda abjeção, uma altura vertiginosa, na extrema pobreza a riqueza imensa, na fragilidade, força incrível”. Cristo poderia se instalar no trono de monarca universal, possuir um cortejo maior do que Xerxes, amealhar riquezas maiores do que o opulento Creso, calar todos os filósofos. Mas sua doutrina era oposta a todas as filosofias e políticas, oposta às regras mundanas. Assim, quem não via a sua face com a base no livro divino, não lia o texto correto, ficava apenas na capa, não traduziria para a lingua humana o verbo eterno.

Outra figura da tradução encontra-se em John Donne. Refiro-me ao trecho aproveitado por Hemingway no romance Por quem os sinos dobram?. Ali, Donne proclama que nenhum homem é uma ilha: “a morte de todo homem me diminui, porque estou envolvido pela humanidade, e portanto nunca procure saber por quem os sinos dobram; eles dobram por você”. (Meditatio n Xvii, in The Works of John Donne, v. 3, Londres, John W. Parker, 1839, pp. 574-575).

Mas a grande metáfora do poeta Donne no trecho, encontra-se antes da insular. “A Igreja é católica, universal, como as suas ações; tudo o que ela faz a todos pertence. Quando batiza uma criança, aquele ato me toca; porque a criança doravante se une à cabeça que é também a minha cabeça, está presa ao corpo do qual sou membro. Quando a Igreja enterra um homem, aquele ato me toca; toda a humanidade tem um só autor e forma um só volume; quando alguém morre, um capítulo não é arrancado do livro, mas traduzido em linguagem melhor; e todo capítulo deve ser traduzido; Deus emprega vários tradutores; alguns trechos são traduzidos pela velhice, outros pela doença, alguns pela guerra, outros pela justiça; mas a mão de Deus está em toda tradução, e sua mão unirá novamente nossas folhas rasgadas, porque naquela biblioteca todo livro deve permanecer aberto um ao outro”. Beiramos o abismo de uma crise sem precedentes na história. Lembremos que o nascimento de Cristo marca a passagem do divino ao humano e deste à sua fonte perene. Que amanhã possamos traduzir misérias humanas em força divina, com auxílio da Palavra. Boas Festas para os leitores e profissionais do Correio!