terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Vale a pena ler. E refletir.

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Estado de direito e/ou razão de estado em 2007: “tentativas de legitimação do direito de exclusão”

Enviado por Vinício C. Martinez
  1. Resumo
  2. Bibliografia

A arte da guerra é de importância vital para o Estado.

É uma questão de vida ou morte,

um caminho tanto para a segurança como para a ruína...

Seja sutil! Seja sutil!

E empregue seus espiões em toda a espécie de atividade

Sun Tzu

O estado de paz entre os homens que vivem juntos

não é um estado de natureza (status naturalis),

o qual é antes um estado de guerra, isto é, um estado em que,

embora não exista sempre uma explosão das hostilidades,

há sempre, no entanto, uma ameaça constante.

Kant

A estratégia é o ofício do guerreiro...

Fala-se que o guerreiro deve seguir o Caminho duplo

da pena e da espada e que deve

ter gosto por ambos os caminhos

Miyamoto Musashi

RESUMO

O artigo traz uma breve retrospectiva acerca da geopolítica, do Estado de Direito e do estado da arte da Razão de Estado, basicamente em 2007. Porém, veremos esses sentidos não como destaque da afirmação da soberania, mas sim atraindo os sinais gravosos da negação de direitos igualmente básicos e clássicos, como: sociais, individuais, políticos. Em suma, veremos que em 2007, em nome da chamada Razão de Estado, houve uma ampla e complexa série de tentativas de se legitimar ou justificar o nefasto "direito de exclusão" " este que, por sua vez, nada mais é do que a "negação do próprio direito". O trabalho, portanto, é muito mais um apontamento ou "recolhimento empírico" de casos interessantes e oportunos acerca do tema, do que propriamente uma análise de base teórica ou histórica.

PALAVRAS-CHAVE: Estado de Direito, Razão de Estado; geopolítica; negação dos direitos humanos; direito de sedição; "direito de exclusão".

Diz a sabedoria popular que quando prestamos atenção a um fato, seus efeitos parecem se suceder e se multiplicar á nossa volta. Alguns, por exemplo, dizem que "o câncer cresce como nunca visto na história". O fato é que talvez se morresse sem saber a causa: lembro-me, de criança, que meu avô paterno aplicava injeções de morfina em um dos seus vizinhos. O que ele teria, senão câncer?

No caso presente, passei a notar a chamada Razão de Estado e sua "luta intestina pela soberania", contra insurretos e sedições. "Minha visão", de hoje, não esteve menos chocada do que as injeções de morfina, de ontem: só que agora o "remédio" foi chamado de Estado de Exceção Permanente, frente ao crescente reclamo pelo direito de sedição que praticamente espocou nos cinco continentes. Foram cerca de duas dezenas de ocorrências oficiais e oficiosas, confrontando-se Razão de Estado e direito de sedição, só em 2007.

Outros dirão que não, que a "globalização" enterrou o sonho nacionalista, bairrista, chauvinista do Estado-Nação. Neste caso, basta-nos observar os "n" exemplos de histeria nacional e de xenofobia mundo afora. Entretanto, os especialistas em "relações internacionais" dirão que o acordo de Schengen aboliu as fronteiras entre seus membros, por um território superior a 4 mil km, e estabeleceu uma zona sem controle fronteiriço dentro da União Européia.

Assinado em 1985, inicialmente era composto por: França, na época Alemanha Ocidental, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Em 1995 somavam 15 países da Europa Ocidental. Em seguida, os 24 membros da UE também aderiram ao tratado, além de outros países: Noruega e Islândia. A Suíça deve ser incorporada em 2009, mas Grã-Bretanha e República da Irlanda mantém apenas cooperação policial.

Portanto, o Estado-Nação que vimos em 2007 seria só o pó do que já foi e, ainda, continuariam os experts no fim do Estado: "A partir de 21 de dezembro de 2007, o novo espaço geopolítico englobará cerca de 400 milhões de pessoas, pois mais oito países bálticos e ex-comunistas tornaram-se membros, além da Ilha de Malta: Polônia, Estônia, Lituânia, Letônia, Hungria, Eslovênia, República Checa e Eslováquia. Considera-se a partir de agora, definitivamente, o fim do que se conheceu como "Cortina de Ferro".

Veja-se que aqui, o problema ressaltado, especialmente pelas autoridades em segurança, é a ameaça de invasão da UE por imigrantes "ilegais" vindos do Leste Europeu. Um imenso território sem fronteiras, mas criado exatamente no continente mais rico em fronteiras e dotado historicamente para a guerra, acabaria por levar á construção de sistemas de segurança, contra os indesejados miseráveis (e sem contar os "muçulmanos que são extremistas ou terroristas").





Frontex é a agência da UE responsável pela coordenação, principalmente da segurança, utilizando o Sistema de Informação Schengen (SIS). O "sistema inteligente" impediria que alguém barrado em algum de seus países pudesse entrar em qualquer outro. No entanto, como a sede fica na Polônia, a própria direção da agência reconhece que a imigração vinda do Leste Europeu exercerá uma forte pressão. Em 2009, deve entrar em funcionamento o SIS II, que armazenaria "dados biométricos" (impressões digitais).

Desse modo, o primeiro efeito da liberdade foi a multiplicação do efetivo policial: "O que nos leva a uma pergunta melancólica: por que a extensão da liberdade precisa ser acompanhada por um aumento da vigilância? George Orwell, do paraíso em que repousa, poderia nos esclarecer" (Lapouge, 21/12/2007). Novamente a realidade vai atrás da ficção:

Já se observa o afluxo de despossuídos que se concentram ás portas de Schengen, com o desejo fatídico de encontrar um buraco, uma abertura por onde entrar no "santuário", convencidos de que, uma vez dentro, poderão se dispersar no espaço imenso [...] Povoados são criados, dentro dos quais vagam libaneses, iraquianos, russos, moldavos e outros (Lapouge, 21/12/2007 - grifos nossos).

A grande ironia é que a liberdade venha cercada de tanta (in)segurança, uma vez que a falta de controle territorial trouxe um intenso/extenso controle sobre as pessoas, além de se promover preconceito, medo, distanciamento e xenofobia (na mais nova frente: estudantes brasileiros são expulsos da Alemanha).

Assim, vemos que a Razão de Estado vai se ajustando continuamente ás mudanças geopolíticas, especialmente as impostas pelos blocos e estruturas trans-nacionais ou globalizadas. Todavia, essa onda de xenofobia assegura-nos que a Razão de Estado é o equivalente político-institucional do nacionalismo ou da "identidade nacional". Diante desse choque entre o global (multinacional) e o local (a "identidade cultural"), os grupos que reivindicam legitimidade aos governos, a liberdade de escolha propiciada pelo direito de sedição, acabaram por se multiplicar. Nos primeiros dias de 2008, por exemplo, no Sri Lanka, depois de seis anos, governo e separatista romperam o cessar-fogo e retomaram conflitos que no passado recente mataram 70 mil pessoas.

Relembremos alguns casos notados em 2007: Venezuela e Colômbia e todo o combate á oposição, em nome da Razão de Estado; a Turquia e sua onda de nacionalismo que não cessa de opor as duas faces do país: Ocidente e Oriente caminham no fio da navalha; o Paquistão e o golpe de Estado travestido de Estado de Emergência: com a deposição da Suprema Corte, contrária á reeleição do Presidente Pervez Musharraf; a França, com sua lei de imigração baseada na identificação dos imigrantes pelo DNA: com isto, o presidente francês Nicolas Sarkozy procura atrair a simpatia e o apoio político da Frente Nacional, de extrema-direita.

O "fichamento genético" francês reacendeu um dos maiores e piores pesadelos contemporâneos, porque o estímulo á competição desenfreada no neoliberalismo carrega consigo a nódoa da xenofobia, da discriminação e o descarte dos chamados "menos aptos" ou dos "inimpregáveis", para usar uma expressão dos anos 90. Hoje aplicado a imigrantes, amanhã o fichamento poderá ser generalizado. Aliás, de certo modo ocorreu mesmo, porque:

Já somos identificados por meios biométricos (altura, cor dos olhos e dos cabelos, impressões digitais, íris, sistema sangüíneo etc.), pelo registro da imagem (câmeras de segurança e, em breve, robôs-espiões), por nosso comportamento como consumidores ou cidadãos (cartão de crédito, chips, internet, GPS etc.) e até mesmo por nosso gestual (que pode suscitar desconfiança para câmeras ditas "inteligentes"), sem falar das técnicas reservadas aos mais suspeitos (escutas telefônicas, bracelete eletrônico etc.) (Testart, 12/2007).

O uso de tais recursos, entretanto, também avança para outras áreas que não só a segurança, incluindo-se aí a economia e evidentemente a política, uma vez que a tecnologia só faz sentido se é estatisticamente viável. Neste caso, alguns cientistas já se especializaram na busca de componentes individuais não-patológicos, como humor, sexualidade[1] e inteligência. Os "fatores de risco", mas também o "pólo positivo-produtivo", estão na contabilidade desse proto-fascismo moderno:

O eugenismo de Francis Galton[2] permanece como a caução científica de toda pretensão a se predizer o futuro de um indivíduo [...] De acordo com essa tradição, e com a ambição de "otimizar" a contribuição das pessoas a uma sociedade cujo único sonho é ser eficiente, pode-se prever a irrupção de análises sistemáticas do DNA, permitindo tanto o fichamento das pessoas quanto a predição de suas potencialidades [...] Detectados na criança, poderão, além disso, apoiar políticas de orientação escolar e, em seguida, profissional. Mas, detectados no embrião (diagnóstico genético pré-implantatório: DPI[3]), poderão até mesmo obstar um direito á vida. é o número relativamente pequeno (cerca de cinco) de embriões obtidos graças á fecundação in vitro que ainda impede o DPI de responder aos desejos dos pais e ás "necessidades" da saúde pública (Testart, 12/2007 - grifos nossos).

Esta resposta irônica ás "necessidades da saúde pública" é apenas um indicativo de que, da suposição de uma necessidade (ou até que possa ser real), vê-se a sua própria metamorfose, por agentes autocráticos do poder, em Estado de Emergência. Mas este também figura como mero expediente para se chegar ao Estado de Sítio Político.

O uso "preventivo e controlativo do DPI[4]" procura restabelecer o antigo sonho eugênico do "bom nascituro", com comportamentos balizados pelo "consentimento esclarecido, promessa propedêutica de saúde, ausência de traços de violência ou de anti-sociabilidade". O DPI seria utilizado "preventivamente para favorecer e estimular", como instrumento de medição de índices de produtividade, docilidade, obediência, resignação ou, ao contrário, agora "preventivamente para selecionar e incapacitar", os mais sediciosos, inconformados ou "simplesmente elimináveis" do consumo geral[5]. Sarkozy ainda provocou a oposição ao escolher um geneticista para conselheiro do presidente: o professor Amold Munnich, especialista em análises moleculares para detectar patologias[6].

O mito do Estado (Cassirer, 2003) atualizou-se com o genoma e metamorfoseou o DNA em mero uso/abusivo dos meios de exceção. Neste caso, parece que definitivamente submetemos Prometeu á Pandora:

Recordemos que a biometria sempre funcionou pelo medo, o medo do Outro, e se generalizou sem oposição organizada, deixando lugar para uma verdadeira atonia social. De "detalhe" em "detalhe", constrói-se um mundo que logo poderá nos anunciar "Bem-vindos a Gattaca![7]" [...] é o mesmo filamento de DNA que corre da delegacia para o tribunal e o consultório médico (medicina preditiva-preventiva), passando por utopias terapêuticas (genes-remédios) ou industriais (plantas transgênicas), pelos escritórios de seguradoras (níveis de riscos), por empresas de orientação escolar e profissional e, finalmente, suscita o ressurgimento de mitos fabulosos (super-homem, clones, quimeras) [afinal] A economia neoliberal não tem necessidade alguma de estigmatizações raciais, já que prefere se empenhar em descobrir os melhores elementos disponíveis em cada comunidade humana e em rejeitar os que lhe parecem pouco aptos a contribuir para o "crescimento competitivo", qualquer que seja sua cor de pele. Trata-se de uma nova espécie de triagem, tão detestável quanto a triagem racial, entre os indivíduos[8]. é este o sentido da aceitação dos estrangeiros segundo o critério de "competências e talentos" (Testart, 12/2007).

Mas há resistência em toda parte, como se houvesse uma "base espraiada em defesa da luta pelo reconhecimento". No caso da França pelo menos, pois além das grandiosas manifestações populares e estudantis (desde 2005), há também ações mais organizadas:

Desde o mês de outubro, os 14 monges franciscanos, que não vivem na clausura [...] tomaram a decisão de se reunir mensalmente na Praça do Capitole [...] para protestar da sua maneira contra as condições de detenção no centro de retenção de Cornebarrieu [...] "Muitas pessoas ignoram até mesmo a existência deste centro", constata o irmão Alain, que aposta nas fotos expostas nos painéis para fazer com que se tome consciência do universo carcerário deste prédio novo [...] "Quando as pessoas vêem essas fotos, com freqüência elas perguntam em qual país elas foram feitas. Nós lhes respondemos que as cenas acontecem a uma dezena de quilômetros dali apenas". O velho monge resolveu retornar ao centro de retenção e fazer, ele mesmo, fotos adicionais do local, em 30 de janeiro passado, para publicá-las algumas horas mais tarde no site da comunidade na Internet (www.franciscainstoulouse.fr). Graças ao efeito "milagroso" das novas tecnologias, o círculo do silêncio vai se ampliando[9].

O que não deixa de ser uma resposta interessante, inovadora diante do "irracionalismo" ou do controle biotecnológico, como veremos logo adiante. A resposta do Estado francês, contudo, permanece na procura da legitimidade científica, mas alimentado pela xenofobia e "negação dos direitos humanos", foi coroar o "direito de exclusão" com o DNA. Sem dúvida, trata-se de uma reinvenção para-moderna de Lombroso[10] e de Frankenstein[11] (Shelley, 1994). é como se o processo civilizatório, do Renascimento[12] ao Iluminismo, e daí em diante, pudesse sempre ser claro ou escuro, homem ou monstro, razão ou barbárie. Este paradoxo, porém, é mais notável do que apenas isto, pois, foi a razão, e mais especificamente a Razão de Estado, que criou um ódio de conquista latente: um discurso de poder baseado em argumentos de autoridade.

Mas, sem a ciência, a lógica, o "esclarecimento da razão", escorregamos ou retroagimos ("agimos contra nós mesmos") facilmente para os domínios dos fanatismos dotados de "pensamento mágico" e cheios de "encantamentos" ou encastelamentos ideológicos, como quimeras e ilusão. Para ver o poder, entretanto, é preciso estar um tanto desiludido:

A intolerância racial, religiosa, política - que nunca desaparece e que retorna em nossos dias, com a ressurreição do nazismo - é uma das atitudes assumidas pelo pensamento moderno. As outras formas de agir, entretanto, encamparam a tese de uma exclusão radical dos supostos "inimigos" do bom Estado e da boa sociedade [...] Se determinado cidadão, na Alemanha fascista, ou na Áustria[13] e na Itália de hoje, é tido como "inimigo" (e o judeu, os árabes, o liberal, os homossexuais, entre outros, são sempre "inimigos"), vale a receita "médica" habitual nos sistemas de força: o "órgão adoecido" deve ser extirpado (Romano, 2003, pp. 19-20).

Somos, portanto, parte das monstruosidades deslocadas do Renascimento e do Iluminismo: "Em Rousseau e demais pensadores das Luzes é nuclear a passagem constante entre a razão e a monstruosidade, nos diversos planos da vida. Pode-se enunciar que naqueles filósofos a monstruosidade é co-essencial ao fato da razão (Romano, 2003, p. 18).

Mas este paradoxo foi percebido principalmente por Diderot, e mais claramente quanto ás liberalidades permitidas á pesquisa médica empírica, sem tanto rigor ético, e que se convertem acima de tudo em manejo político:

No plano político e moral, a longa e sinuosa fieira que vai dos fragmentos de Empédocles[14] até os nossos tempos, trouxe um modo de encarar a vida em sociedade como experiência dos limites entre o humano e o teratológico[15]. Os pensadores ora se dedicam á tarefa de "humanizar" o mando (como em Erasmo de Rotterdam), ora apontam para o seu lado bestial mas domesticável (Hobbes), ora mostram que a junção monstruosa é inelutável, sendo preciso utilizá-la alternadamente em tempo e modo certos (Maquiavel). Mas todo saber político discute esse vínculo temido e terrível (Romano, 2003, p. 33).

Por isso, esses casos e "tipos" quase ficcionais acabam misturados a outros, com a diferença de que possam ser um pouco mais nitidamente jurídico-políticos: a Turquia e a escalada crescente de "negação dos curdos"; Curdistão e Iraque sob "Lei Marcial"; a China e toda a censura existente, além do isolamento do Tibet: uma imposição chinesa por meio de "Lei Marcial"; Mianmá (sua "Revolução Açafrão") e a ditadura de mais de 40 anos; Cuba e as muitas restrições á democracia radical (vigora um tipo de "democracia estruturalista"); os EUA e os "atos patrióticos" que negam os direitos humanos e os direitos individuais. Incluem-se ainda a Espanha, em perseguição a opositores que "estariam" ligados ao ETA; a Suíça e a ultra-direita vencedora que prevê "cotas de expurgo de imigrantes". Sem contar o Afeganistão, os inúmeros conflitos africanos, como no Zimbábue e no Congo: ex-Zaire.

Estranhas coincidências também envolvem outros casos, destacando-se o anseio pelo poder, a exemplo da África do Sul, em que questões evidentemente jurídicas tornaram-se relevantes para a Razão de Estado e movimentaram todo o aparato estatal. Neste caso específico, um processo por corrupção "interrompido" em 2006 foi reaberto em fins de 2007, porque Jacob Zuma, eleito líder do Congresso Nacional Africano (CNA), praticamente assegurou a vitória futura de 2009, para presidente: o CNA tem maioria do eleitorado negro, desde que liderou a luta contra o Apartheid. Thabo Mbeki, atual presidente sul-africano, foi derrotado na disputa pelo controle político do partido e por isso partidários de Zuma o acusam de perseguição política.

No mesmo curso apontado, também na África, o Partido do presidente do Quênia (ex-colônia britânica, desde 1963) pedia moderação aos líderes opositores e que aguardassem a contagem final dos votos. A véspera do anúncio do vencedor trouxe um fluxo crescente de violência, como protesto devido ás acusações de "fraude e corrupção":

O partido do presidente do Quênia, Mwai Kibaki, pediu á oposição, neste domingo, que permita á Comissão Eleitoral concluir a contagem dos votos [...] "Faço um pedido urgente de moderação a nossos oponentes. Peço que deixem o Quênia seguir adiante com seu mandato constitucional", declarou á France Presse o porta-voz da coalizão eleitoral do presidente, Ngari Gituku. Ele acrescentou que as duas agremiações políticas devem ter a "elegância de aceitar o veredicto do povo" [...] O líder da oposição do Quênia, Raila Odinga, proclamou-se novamente vencedor das eleições [...] De acordo com o último boletim parcial, porém, Odinga aparece na liderança com uma estreita vantagem sobre seu adversário [...] A apuração foi suspensa após o surgimento de denúncias de fraude (grifos nossos)[16].

Mwai Kibaki venceu por pequena margem de votos, mas, á custa de uma terrível onda de violência: "Pelo menos 70.000 pessoas fugiram de suas casas na região oeste do Quênia [...] Imagens aéreas de áreas do oeste do país mostram centenas de casas e barracos incendiados [...] "é um desastre nacional", declarou em entrevista coletiva o secretário-geral da Cruz Vermelha queniana, Abbas Gullet[17]". No início de 2008, entretanto, já eram mais de 250 mil refugiados. Esta onda de violência, no entanto, deixaria um rastro de morbidade e que não se limitaria ás construções:

Cerca de 50 pessoas, a maioria mulheres e crianças, morreram dentro de uma igreja que foi incendiada por grupos de manifestantes no Quênia [...] Segundo a edição digital do diário Nation [...] As vítimas tinham se refugiado na igreja porque suas casas já haviam sido incendiadas [...] O diário também informa que dezenas de milhares de pessoas armadas estão se dirigindo para um local a poucos quilômetros de Eldoret, onde no passado foram registrados sangrentos confrontos entre tribos rivais[18].

No Quênia, a situação foi descrita como um "tsunami de ódio", pois a reeleição do presidente reavivou conflitos tribais e étnicos, e trouxe de volta uma violência primitiva, inesperada e assustadora. A capital Nairóbi tornou-se a própria cidade sitiada, com policiais cercando ruas, impedindo o acesso e o deslocamento em grupo. Manifestações massivas foram igualmente suspensas, em virtude do bloqueio dos principais acessos: inclusive na que Odinga pretendia se auto-proclamar "presidente do povo". O isolamento da favela de Kibera, principal reduto da oposição, ainda sugere dois sentidos para o ato de exceção.

O governo do presidente acusou a principal oposição, o Movimento Democrático Laranja (ODM) de incitar o ódio antecipadamente, a fim de promover o genocídio. O candidato da oposição, Raila Odinga, rebateu as críticas dizendo que o governo ordenou aos policiais para que atirassem contra os manifestantes. Por fim, ainda afirmou: "Não dialogamos com um ladrão" (Ramos, 03/01/2008). Observadores da União Européia afirmaram que as irregularidades beneficiaram Kibaki e também o procurador-geral Amos Wako afirmou te encontrado fortes indícios de manipulação do resultado eleitoral.

Esses conflitos tribais diferem de Ruanda e do Burundi, contudo, porque, enquanto esses dois países são dominados basicamente por tutsis e hutus, no Quênia há pelo menos 42 etnias distintas. Apesar de ser a maior etnia, os Kikuyu representam apenas 22% da população total (37 milhões) e os rivais Luos são perto de 13%. Isto significa que não hegemonia de nenhum grupo étnico sobre os demais. Outra característica que difere o país de boa parte do conjunto africano é que, as elites investiram seu dinheiro no país e não no exterior e, assim, não desejam ver a economia arruinada (Nairóbi, 04/01/2008).

Aliás, esses relatos apenas confirmam que "desordem e desonra moral", além da violência, têm servido cada vez mais de moeda de troca política, seja para a oposição que usa da violência desordenada (em muitos casos, não fazendo jus ao direito de sedição[19]), seja com a situação que arrola o mesmo argumento da corrupção e fraude como promotores da insegurança institucional e assim utilizam do artifício para decretar o Estado de Exceção. De todo modo, a corrupção política tem sido a marca deste jovem século XXI.

A guerra civil, quando travestida, metamorfoseada em nome de um direito de sedição que não se mostra realista e legítimo, portanto, não passa de genocídio ou de limpeza étnica, levando nações inteiras (ou até quase continentes) ao abismo econômico. Também fica claro que não é a democracia que faz mal á Razão de Estado, mas sim a sua ausência ou, então, a própria corrupção da política.

Os conflitos africanos, em um contexto amplo, entre 1990-2005, custaram US$ 284 bi: o mesmo montante enviado em "ajuda humanitária"[20]. No total, foram 23 conflitos no período, ao custo de 18 bilhões de dólares cada um, com efeito catastrófico de encolhimento das economias nacionais em 15% ao ano.

Os gastos refletem o dinheiro usado unicamente para matar e que, segundo disse Irungu Houghton, consultor da ONG Oxfam, seria suficiente para aplacar a crise da AIDS, prevenir a tuberculose e a malária, fornecer água potável, saneamento básico e educação. O Burundi, por exemplo, tinha expectativa de crescimento 5,5% a.a., mas com a violência decresceu 1,1% no mesmo período. Em resposta, em 2006, 153 países aprovaram na Assembléia-Geral da A ONU o início das discussões do Tratado sobre Comércio de Armas (para conter o fluxo "ilegal" de armamentos): somente EUA votaram contra e Rússia e China se abstiveram (África, 12/10/2007). O que reforça o evidente Estado de Emergência Humanitária Permanenteem que vive todo o continente africano. Também é bom frisar que a maioria das guerras civis e dos conflitos étnicos ainda é resultado da longa luta pela descolonização.

Outro exemplo claro desse prejuízo econômico trazido á África, em virtude de guerras civis ou de atentados suicidas contra pessoas (mas que simbolizam ações de admoestações contra o Estado) está no cancelamento de uma das mais tradicionais provas de automobilismo. Pela primeira vez na história, o famoso Rali Paris-Dacar foi cancelado por causa da violência, dessa vez na Mauritânia. A ex-colônia francesa, nos últimos anos, descobriu jazidas de petróleo, cobre, fosfato, ouro, diamantes e gesso. Porém, mesmo com essa onda de prosperidade, dia 24 de dezembro de 2007, turistas franceses foram assassinados em Aleg. Isto alertou os organizadores da prova, principalmente porque em setembro um líder da Al-Qaeda fez um apelo para que os muçulmanos "limpassem" a África da presença de espanhóis e de franceses.

No Congo (ex-Zaire), em confronto que teve início em 1988, foram mortas mais de 4 milhões de pessoas e ainda sofrem outros 3,5 milhões de refugiados. Oficialmente, a guerra terminou em 2003, mas o país ainda é palco de conflitos e tem uma crise humanitária das piores do mundo. Apesar de ser rico em diamantes, ouro e outros minerais preciosos, milhões de congoleses sofrem de doenças, fome e de uma terrível perseguição a partir do Leste do país (Kivu do Norte e Kivu do Sul). Em 1994, a vizinha Ruanda também conheceu o genocídio: mais de 1 milhão de tutsis foram assassinados pelos hutus. Depois, em 1996, o governo tutsi foi restabelecido e invadiu o Congo para atacar os hutus e isto (re)iniciou a guerra, envolvendo Ruanda, Angola, Uganda, Zimbábue e Namíbia.

No Congo, mas pode-se dizer que em muitas outras partes do mundo, as táticas empregadas esgotam-se no uso/abusivo dos meios de exceção. O aliciamento de crianças com engodos e justificativas que mais parecem ameaças também são "armas ideológicas" usadas pela Razão de Estado:

Patrick entrou na milícia aos 11 anos, por vontade própria: "ninguém me obrigou. Via os combates, gente sendo morta toda hora. Então decidi entrar no grupo para defender o lugar onde eu morava". O diretor explica que, no Congo, muitas crianças recrutadas por milícias - algumas com apenas 6 anos - repetem essa história. Na verdade, trata-se de uma justificativa criada pelos rebeldes para convencer os garotos a lutar. Mas, após quatro anos, Patrick diz que ficou feliz em ser resgatado (Barba, 17/12/2007).

Tão grave quanto o uso de crianças como "escudos humanos" ou "pontas de lança" diretamente no front, é o emprego massivo de estupros de mulheres e de jovens (para "quebrar o moral do povo"), tanto por rebeldes quanto pelo "exército regular": o mesmo se viu na Bósnia e em tantos outros casos. No Congo, em relação á barbaridade cometida, até mesmo os "nomes" acabaram cheios de um simbolismo esclarecedor:

As ONGs do Congo que apóiam mulheres vítimas de violência sexual são chamadas maisons d´écoute - algo como "casas onde se escuta" [...] "O estupro veio com a guerra. E a única explicação que eu vejo para ele ter se propagado a esses níveis é que ele é uma forma barata e eficiente de destruir a sociedade congolesa" [...] Nicole, de 35 anos, também parece sofrer mais com a solidão do que com o estupro em si. "Estava voltando do mercado próximo de onde eu morava, em Uvira, quando encontrei quatro homens armados. Todos me violentaram", conta, quase sussurrando, como se os vizinhos estivessem ouvindo (Barba, 17/12/2007).

O que revela que a estratégia e os meios utilizados são os mesmos e que, nessas circunstâncias, tudo o que se possa dizer sobre a Razão de Estado não passa de "retórica de poder": todos acabam vítimas da guerra fratricida e do próprio Estado. Os "guerreiros" não se limitam a qualquer tipo de afirmação de identidade nacional, pois isto poderia dar-se no âmbito da cultura, no intercâmbio entre o os povos, pelo salutar hábito do "turismo cultural, artístico, lingüístico".

Em situação semelhante a quase todas aqui relatadas, alegando-se o direito de sedição, um brasileiro morreu em ataque armado no norte de Angola, no enclave de Cabinda, fronteira com a República do Congo e a República Democrática do Congo:

O ataque aconteceu, separado do resto de Angola [...] Segundo a emissora católica "Rádio Ecclesia", no ataque dois veículos foram incendiados [...] A emissora responsabilizou uma das facções da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC), que luta pela separação desse território do resto de Angola [...] O conflito de Cabinda teve origem em 1975, quando Angola tornou-se independente de Portugal. A região era um protetorado português e não fazia parte do território de Angola, mas foi anexada depois da independência pelas novas autoridades de Luanda [...] As ações armadas são, no entanto, muito esporádicas[21].

Além desses casos ainda há a Palestina, a Hungria, a Geórgia e a Inguchétia, no sul da Rússia, requerendo o mesmo direito de sedição. A Rússia, por exemplo, em represália á Geórgia, apóia as províncias separatistas da Ossétia do Sul e de Abkházia, que exigem independência desde 1991. Contudo, ao contrário da crise no Paquistão, como veremos, o Parlamento da Geórgia aprovou a vigência do Estado de Exceção: a terra Natal de Stalin teve o Estado de Emergência decretado em 07/11/2007. O presidente Mikhail Saakashvili, ironicamente, liderou a revolta que derrubou o presidente Eduard Shevardnadze, em novembro de 2003, na chamada "Revolução Rosa".

Para o povo, a Revolução Rosa teve um desfecho semelhante ao da Revolução Laranja, na Ucrânia, entre 2004 e 2005, provocada por uma "paralisia política dramática": "o entusiasmo dos revolucionários da pequena Geórgia transformou-se em decepção e, depois, em furor" (Lapouge, 09/11/2007). Na maioria dos casos, as acusações se assemelham quanto ao(s) fato(res) gerador(es): corrupção, conspiração, tentativas de assassinato da oposição.

A Revolução Laranja foi uma série de protestos políticos ocorridos como resposta ás acusações de corrupção, intimidação e fraude eleitoral, durante a eleição presidencial de 2004. Adotou-se o laranja por ser a cor oficial da campanha eleitoral do principal candidato da oposição, Viktor Yushchenko. O símbolo da solidariedade com Yushchenko foi uma fita laranja ou uma bandeira com o slogan ("Sim! Yushchenko!"). Após um segundo processo eleitoral, em dezembro de 2004, Yushchenko foi declarado presidente. Mas, perdeu as eleições legislativas em 2006, acusado de corrupção e desvio de promessas de campanha, justamente para seu algóz Viktor F. Yanukovych, atual presidente.

Um caso emblemático e precedente a esses, e também no antigo "Leste Europeu", foi a Revolução de Veludo, na ex-Tchecoslováquia, liderada por Václav Havel. A partir de 1989, seguindo-se á onda reformista de Mikhail Gorbatchov (Perestroika e Glasnost), projetou-se o ideário revolucionário que recebeu esta nomenclatura pela maneira suave e não violenta com que afrontou as "necessidades da Razão de Estado". O movimento começou com pressões populares porque Václav Havel, líder da oposição democrática, estava preso.

Em seguida, uma série de grandes manifestações de massa, até chegar á greve geral, provocou a legalização dos partidos de oposição e, finalmente, a renúncia do presidente Gustav Husak. Havel assumiu a Presidência em caráter provisório, mas foi confirmado na Presidência nas eleições de 1990. No mesmo ano, começou a encorpar a campanha separatista " tornando-se irresistível: Havel era contrário á secessão e acabou renunciando em julho.

Em novembro, porém, aprovou-se uma emenda constitucional dividindo o país: a Tchecoslováquia deixaria de existir no dia 31/12/1992 e Havel foi eleito presidente do novo Estado que nascia, em 1993, como filho direto da sedição: a República Tcheca. Václav Havel, que viveu os horrores do que chamou de "Estado espetáculo totalitário", descreveu sua própria experiência, mas com substância suficiente para que pudéssemos ainda hoje compreender a engrenagem do Estado de Exceção (no seu caso, um Estado Totalitário travestido de "juridicidade falsificada[22]"):

Enquanto nas ditaduras "clássicas", a vontade de poder se realiza, em larga medida de maneira direta e expeditiva não tendo estas razão para se esconder ou camuflar o exercício do poder, nem, por conseguinte, atrapalhar-se demasiado com uma qualquer regulamentação jurídica, o sistema pós-totalitário, ao contrário, está obcecado pela necessidade de tudo comprimir dentro de uma regulamentação [...] A regulamentação jurídica tem, também ela, um papel de álibi: enverga os fundamentos "baixos" do poder executivo com o smoking dos termos da lei [...] Tive muitas vezes ocasião de presenciar com os próprios olhos de que maneira um policial, um procurador ou juiz " quando defronta um cartista com alguma experiência ou um advogado mais temerário do que a média e que está exposto aos olhares do público (como indivíduo nomeado, arrancado ao anonimato do aparelho) ", começa de repente a velar com angústia para que não apareça nenhuma fissura no ritual (Havel, 1991, pp. 178-179-183 - grifos nossos).

Depois, em tom também crítico, mas dirigido sobretudo á dinâmica tecnicista que orienta a modernidade tardia, Havel faria um pronunciamento no Brasil, em 1996, no Parlamento Latino-Americano.

Como já indicado, outro caso que já é um clássico desse "evento jurídico-político", envolvendo o uso/abusivo dos meios de exceção e que foram instrumentalizados pela Razão de Estado, resultando na conversação do Estado de Emergência em estatuto político[23], foi dado pelo presidente do Paquistão. Pervez Musharraf já havia chegado ao poder por meio de um golpe de Estado em 1999 e, em 2007, perpetrou novo golpe de Estado travestido do status jurídico do Estado de Emergência.

No dia 03/11/2007, Musharraf suspendeu a Constituição e afastou o presidente do Supremo Tribunal, Iftikhar Chaudhry - depois de ter-se declarado inconstitucional o próprio Estado de Emergência, todos os juízes foram mantidos presos no interior da Suprema Corte. A decisão foi tomada pouco antes da Suprema Corte anunciar seu veredicto sobre a legalidade da candidatura do general á Presidência, depois de ele ser reeleito no pleito realizado em outubro, uma vez que foi candidato ocupando, ao mesmo tempo, o cargo de comandante do Exército: a expectativa, generalizada, era de que a decisão da Suprema Corte seria contrária. Segundo Musharraf, quando a Suprema Corte também decretou a inconstitucionalidade do Estado de Emergência (Sítio), militantes islâmicos estavam agindo como um governo próprio no país, e o "Estado oficial" se via paralisado pela interferência do judiciário:

"O Paquistão atingiu um ponto perigoso, e está passando por uma crise interna", disse. "O que quer que esteja acontecendo é por causa de distúrbios internos. A situação está mudando muito rápido. O terrorismo e o extremismo estão no limite [...] O sistema de governo, no meu ponto de vista, está em semiparalisia. Todos os funcionários do governo estão sendo insultados pelos tribunais[24], e é por isso que nós não estamos sendo capazes de tomar medidas" (grifos nossos)[25].

Musharraf aproximou-se da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, líder nacional, que retornou ao Paquistão após oito anos de exílio voluntário. No ato do congelamento do Estado de Direito, Bhutto estava nos Emirados Árabes Unidos, mas criticou as decisões e disse que tudo não passava de ditadura: "A menos que o general Musharraf reverta seu curso, será muito difícil que ocorram eleições justas [...] Eu concordo com ele que nós enfrentamos uma crise política, mas acredito que o problema é a ditadura; eu não acredito que a solução é ditadura[26]". O governo tirou do ar emissoras independentes de TV, suspendeu direitos individuais e as demais garantias constitucionais. Com isto, Musharraf implementou um evidente Estado de Sítio Político (ou golpe de Estado decretado sob o nome de "emergência", ás pressas), não para solucionar emergências do tipo "catástrofe natural" ou "necessidade localizada de controle social[27]", mas sobretudo para garantir-se no poder.

Depois de muita pressão, de ameaça do ius rebelli, no dia 15 de dezembro de 2007, o presidente do Paquistão suspendeu o Estado de Exceção: "o saldo final do estado de exceção foi o fechamento de vários canais de televisão críticos a Musharraf e a detenção temporária de 5.700 advogados, ativistas políticos e opositores, entre eles o ex-presidente do Supremo Iftikhar Chaudhry e a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto" (Islamabad, 16/12/2007 - grifos nossos). Entidades de direitos humanos, como a Human Rigths Watch, afirmaram que o ato político não implicaria, por si só, no retorno ao "direito constitucional verdadeiro". Especialmente porque os "juízes rebeldes" do Supremo Tribunal paquistanês, na vigência do Estado Exceção, foram paulatinamente substituídos por outros mais dóceis ao Executivo e ao uso/abusivo da exceção.

Mas, com o assassinato de Benazir Bhutto, já de volta ao Paquistão, no dia 26 de dezembro de 2007[28] (fato comparável a um atentado ao Estado, dada a dimensão política da ex-premiê), abriu-se um "grande vácuo político". Com isso, o maior temor passou a ser o de que grupos islâmicos radicais pudessem tomar o poder em um país nuclearmente armado. A avaliação quase geral é de que Benazir Bhutto parecia a única proposta política viável ao instável Estado de Exceção. De acordo com a avaliação diante do caos político-institucional, o povo e as autoridades passaram a pressentir que era chegada a hora da Lei Marcial: não há dúvidas de que a exceção criou este ciclo político trágico. Em resposta, a oposição passou a atacar duramente o Presidente Pervez Musharraf, numa grave e ameaçadora onda de violência:

Os moradores da maior cidade do Paquistão começaram a sair de suas casas neste domingo e se esforçam para encontrar comida e combustível entre os prédios queimados, vidraças quebradas e carros queimados por Karachi [...] Os três dias de manifestações e confrontos deixaram ao menos 40 mortos na Província de Sindh, onde fica Karachi. Centenas de agências bancárias foram destruídas e 950 veículos foram incendiados. O porto da cidade, normalmente movimentado, continuava completamente vazio [...] Mohammed Umar, 60, servidor público aposentado, saiu de casa para comprar farinha em uma das duas lojas abertas na principal região comercial [...] Na noite anterior, Umar disse ter visto pessoas arrombando os cadeados de lojas, e perguntou por que a polícia não estava tomando medidas mais agressivas para conter o caos. "O governo é totalmente responsável por isso", afirmou [...] Policiais munidos de rifles faziam a guarda nas esquinas da cidade, e patrulhas militares em jipes rodavam pelas partes mais violentas de Karachi[29].

As manifestações e conflitos trouxeram 60 mortos e prejuízos de mais de US$ 1,3 bilhão de dólares. No episódio que envolveu a morte da ex-primeira-ministra, em si mesmo, estão imiscuídos elementos dramáticos, quase romanescos, entre Razão de Estado, desordem político-jurídica, intolerância religiosa e tragédia familiar: "A tragédia da família Bhutto - seus irmãos também foram assassinados, um envenenado e outro a tiros, e o marido dela passou sete anos na prisão - tornou-se parte da luta dos paquistaneses para criar um Estado moderno e democrático viável" (Rashid, 29/12/2007).

A ex-primeira-ministra era considerada gigante em meio aos "pigmeus políticos e seus acólitos militares", e também se opunha ferozmente ao governo militar e ultimamente ao Talebã: o que teria gerado o ataque terrorista-extremista. Com a deposição e o enforcamento do avô e da morte a tiros da mãe, Bilawal Bhutto Zardari, de apenas 19 anos, assumiu a liderança da dinastia política paquistanesa na oposição, mas já adiantando o que pensava: "minha mãe sempre dizia que a democracia é a melhor vingança" (Paquistão, 21/12/2007). A condição política excepcional do país, entretanto, tornou-se um problema mundial com destaque para alguns itens: A bomba atômica, a progressiva talebanização de regiões do país e as fronteiras com a China, o Irã e o Afeganistão transformam o país asiático em um nó chave para a estabilidade mundial[30].

é evidente que o mote de toda essa associação é a Realpolitik, inspirada em Bismarck, afinal, a exceção é uma "política de resultados que exclui princípios"[31]. Vimos como se processou esta repetição da Razão de Estado na figura do Estado de Necessidade e depois na forma mais escancarada do Estado de Exceção. Na verdade, há mais "repetição e conservação do mesmo", há mais do mesmo, do que qualquer tipo de reinvenção: se há metamorfose, o resultado final mantém o tema central. Isto é, quer seja no Antigo Regime ou no liberalismo clássico da Revolução Francesa, quer seja nos exemplos de 2007, o Estado de Necessidade foi só mais um expediente dessa condição monocromática e autocrática da soberania. Como disse Carl Schmitt (2006): "o poder soberano é o poder de exceção". Desse modo, podemos ver do que se compõem esta tecnocracia política[32] da Razão de Estado.

O que há em comum a todos os casos é uma "proposital confusão entre crise de governabilidade e Razão de Estado". São apenas exemplos, mas como se vê podem ser multiplicados e assim, gradativamente, a exceção vai se tornando regra e, o que é pior, nem percebemos (ou percebemos e é tarde para reagir). Por isso, é preciso ver esse problema e colocá-lo em destaque, observando-o com lupa, pois, no caso do "poder de exceção", vemos o quanto afloram suas metástases. Vimos, enfim, o quanto e a que velocidade se espraia este poder com força capaz de subtrair os direitos mais fundamentais e elementares á mínima convivência social.

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Autor:

Vinício C. Martinez

Bacharel e mestre em Direito, é doutorando em Ciências Sociais pela UNESP/Marília, e membro do grupo de pesquisa CEPAE - linha de pesquisa: "Direito educacional e direito á educação":

vicama[arroba]uol.com.br


[1] O próprio Sarkozy já dissera que seria possível prever (evitar?) o homossexualismo.

[2] Francis Galton (1822-1911), médico e estatístico, é o fundador desse eugenismo.

[3] "Em seu "Parecer n.o 98", de 31 de maio de 2007, o Comité National Consultatif d"éthique (CCNE) exigiu um "contra-poder", diante da "generalização excessiva da biometria" (Testart, 12/2007).

[4] A triagem de embriões com risco de estrabismo já foi autorizada na Grã-Bretanha.

[5] Vejamos o caso do Arquivo Nacional Automatizado das Impressões Genéticas: "Inicialmente reservado aos delinqüentes sexuais, este "fichário" francês logo se estendeu aos destruidores de plantas transgênicas ou coladores de cartazes políticos" (Testart, 12/2007).

[6] Antes do médico francês, Francis Fukuyama, autor da apoteótica teoria do fim da história, tornou-se assessor da Casa Branca como especialista em tecnologias e estratégias.

[7] Filme de Andrew Niccol (1997), Gattaca retrata um centro de pesquisas para jovens com patrimônio genético perfeito, selecionados com o DPI, e a exclusão do Outro: os indesejados por sua deficiência e considerados "defeituosos".

[8] "Em cinco aeroportos dos Estados Unidos, os passageiros considerados como "sem perigo" podem integrar o programa "Clear Registered-Traveler". Este oferece a 45 mil pessoas uma passagem acelerada pelos controles de segurança, mediante seu registro biométrico (impressões digitais e scan da íris) e um bônus anual de 75 euros" (Testart, 12/2007).

[9] Veja-se em: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2008/01/04/ult580u2850.jhtm.

[10] Cesare Lombroso (1835 - 1909), professor universitário e criminologista italiano, tornou-se famoso por seus estudos de caracterologia e do "atavismo de tipo hereditário": ressurgimento de características apresentadas em ascendentes distantes. Tentou relacionar características físicas, como o tamanho da mandíbula, á psicopatologia criminal. Esta abordagem descende da frenologia (do físico alemão Franz Joseph Gall, do século IX) e da fisiognomia (estudo das propriedades mentais a partir da fisionomia do indivíduo). Acabou desacreditado, mas criou um campo conhecido como antropologia criminal.

[11] Lembremos que a "criatura" criada pelo médico Victor Frankenstein só queria o reconhecimento afetivo, ao contrário do cientista que não economizaria esforços para alcançar a glória. é preciso lembrar, ainda, que Frankenstein não é a "monstruosidade" gerada, mas sim o médico exemplar.

[12] Porém, diferentemente de Romano (2003), pensamos que o Renascimento foi realmente grandioso, revolucionário e que o Iluminismo domesticou, apropriando-se e institucionalizando o Leviatã, criando a base legal do Estado de Exceção. "O Renascimento foi o verdadeiro Iluminismo" ou "o Iluminismo antes do seu tempo" e, hoje, deveria/poderia ser pensado como um "reencantamento do real",

[13] Está disponível um interessante relato histórico-analítico acerca da ascensão da extrema-direita na Áustria, em: http://www.derechos.org/nizkor/brazil/libros/neonazis/cap6.html.

[14] "Para Empédocles [490-435 a.C.] o devir das coisas é a história de um aperfeiçoamento" (Romano, 2003, p. 31).

[15] Teratologia (teratos = monstro; logus = estudo) é o estudo das deformações congênitas e das anomalias de desenvolvimento que provocam alterações morfológicas no nascituro.

[16] Veja- se em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u359075.shtml.

[17] Veja-se em: http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2008/01/01/ult34u196342.jhtm.

[18] http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI2191241-EI294,00.html.

[19] Alguns autores preferem tratar das características mais precisamente jurídicas e por isso usam a expressão mais convencional do "direito á revolução", denotando seu estatuto jurídico (Menezes, 1998).

[20] Uma das conclusões, mais do que viáveis, é a de que o dinheiro recebido em forma de "ajuda humanitária" converteu-se em gastos militares.

[21] Veja-se em: http://noticias.uol.com.br/ultnot/efe/2007/12/27/ult1808u108425.jhtm.

[22] Aliás, em tudo, seu relato lembra O Processo de Franz Kafka (1997).

[23] Ou seja, Estado de Sítio Político (Marx, 1986).

[24] Certamente, referia-se ao que imaginava ser sua própria condição.

[25] Veja-se em: http://noticias.uol.com.br/bbc/2007/11/03/ult5022u488.jhtm.

[26]Veja-se em: http://noticias.uol.com.br/bbc/2007/11/03/ult5022u488.jhtm.

[27] Veja-se em: http://noticias.uol.com.br/bbc/2007/11/03/ult5022u487.jhtm.

[28] "De acordo com a polícia paquistanesa, um suicida disparou contra Bhutto quando a ex-premiê deixava o evento e preparava-se para entrar em uma caminhonete. De acordo com Rehman Malik, responsável pela segurança dela, tiros atingiram seu peito e seu pescoço. Em seguida, o suicida explodiu uma bomba, matando ao menos outras 20 pessoas das milhares que estavam presentes ao comício." é notório que o fato de ter sido baleada várias vezes mostra uma falha grave na sua segurança pessoal. Veja-se a matéria em: http://noticias.uol.com.br/ultnot/2007/12/27/ult23u881.jhtm.

[29] Veja-se em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u359169.shtml.

[30] Veja-se em: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2008/01/09/ult581u2403.jhtm.

[31] "Quanto á Realpolitik, ela resulta do malogro das revoluções européias do ano de 1848 [...] A figura romântica do herói, a paixão do romantismo pelo entusiasmo revolucionário cedem lugar a uma análise mais fria das relações de força, justificando compromissos políticos [...] O pivô da Realpolitik está nessa política de resultados, que exclui os princípios [...] O problema da Realpolitik está, pois, em que renegando o que caracteriza a proposta revolucionária, a pretexto de garantir certos resultados, acreditando numa idéia mais ou menos linear de progresso, graças á qual concessões hoje obtidas se somarão a outras amanhã, pensando, finalmente, que o detentor do poder é bom, e sensível aos reclamos da justiça, ou prudente, e pode ceder um pouco para melhor assegurar sua dominação, ou tolo, e não notará que corrói seu próprio poder, ela erra enquanto política liberal ou democrática, e abre a via justamente para a reação conservadora, no caso Bismarck" (Ribeiro, 1993, p. 142).

[32] Tecnocracia: engenharia do poder que busca calibrar meios e fins e ajustar-se pela lógica econômica do custo-benefício, para melhor proveito dos que já são detentores do poder.



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MAROLINHA, MAROLINHA...

02/02/2010 - 11h06

Exportações caem com crise e derrubam produção industrial, diz IBGE

CIRILO JUNIOR
da Folha Online, no Rio

O bom desempenho do mercado interno não foi suficiente para conter o estrago que a crise provocou na demanda externa, e foram justamente os setores mais dependentes das exportações que influenciaram diretamente o pior desempenho da industria brasileira desde 1990. A produção industrial em 2009 registrou queda de 7,4% ante 2008, primeira resultado negativo desde 1999, quando a indústria havia tido retração de 0,7%.

Produção industrial recua 7,4% em 2009 e tem pior resultado desde 1990
Mantega admite aumentar juros para conter inflação
Varejo inicia ano em queda mensal de 0,8%, mas supera 2009, diz Serasa

"A redução dos investimentos e a menor demanda externa foram decisivos para que a indústria apresentasse esse desempenho. Ao logo do ano, já nota-se uma retomada dos investimentos, mas as exportações ainda não reagiram no mesmo ritmo", afirmou Isabella Nunes, coordenadora da PIM (Pesquisa Industrial Mensal).

Ao mesmo tempo, os dados referentes à segunda metade de 2009 mostram claramente uma recuperação da indústria. No primeiro semestre, a produção industrial caiu 13,4% em relação a igual período em 2008. Na segunda metade de 2009, a retração da indústria foi de 1,7%.

"O setor industrial foi o mais atingido pela crise. Houve queda em diversos países do mundo. No Brasil, já vemos um movimento de recuperação, com uma retomada consistente, com qualidade e retomada dos investimentos", afirmou Isabella Nunes, coordenadora da PIM (Pesquisa Industrial Mensal).

Ela acentuou que, diante os ajustes na indústria em função da crise, a queda de 7,4% em 2009 pode ser considerada normal. Acrescentou também que o cenário macroeconômico atual é bem diferente do que era notado em 1990, e que isso vem permitindo que a indústria reencontre o rumo do crescimento de forma mais rápida e mais robusta.

A indústria de bens de capital, por exemplo, despencou 17,4% em 2009. No primeiro semestre, essa redução foi de 22,9%. De julho a dezembro, o ritmo de queda foi menor, com essa produção apresentando variação negativa de 12,3%. No ano, a retração mais expressiva foi observada na produção de máquinas e equipamentos, que despencou 18,5%.

Juntamente com os bens de capital, os bens intermediários representam cerca de 70% da indústria. O desempenho desse segmento também foi decisivo para que a indústria tivesse o pior desempenho em 19 anos. A produção de bens intermediários teve redução de 8,8%, influenciada principalmente pelo desempenho da indústria de metalurgia básica, que caiu 17,4% frente a 2008.

No primeiro semestre, a queda entre os intermediários foi de 15,7%. Já na segunda metade do ano, a retração foi de 1,9%.

A redução da produção de veículos automotores (-12,4%) puxou o resultado negativo dos bens de consumo duráveis, que apresentaram queda de 6,4% ao longo de 2009, na comparação com o ano anterior. A produção de material eletrônico e equipamentos de comunicações registrou queda de 25,5%, impactada pela baixa nas exportações de telefones celulares.

A manutenção do consumo do mercado interno, em função da manutenção do nível de emprego e renda do brasileiro, fez com que a produção de semi e não duráveis caísse de forma menos intensa, com redução de 1,6% frente a 2008.

O Estado de São Paulo, 31/01/2010. Comentário sobre a edição Diderot, Ed. Perspectiva

O pensador que fundou o mundo moderno

Com sua Enciclopédia, Diderot provocou poderosos e deu voz ao homem comum

Antonio Gonçalves Filho


Uma enciclopédia que fosse de fato uma suma do conhecimento humano provocaria um incômodo tão grande no mundo contemporâneo que governos cairiam, igrejas perderiam fiéis e seus autores seriam perseguidos pelo planeta afora, a julgar pelos ataques virtuais que os chineses têm desferido contra o Google nos últimos meses. Informação perturba. Conhecimento, mais ainda. Por saber demais, o filósofo francês Denis Diderot (1713-1784), um dos principais pensadores iluministas, foi parar na cadeia em 1749. Autor de um panfleto contra as regras universais da moral e a favor do livre-pensar, ele ousou defender o ateísmo numa época em que a Bíblia segurava monarquias decadentes na Europa. E mais: não fugiu do assunto em sua Enciclopédie, mãe de todas as enciclopédias modernas e tataravó da Wikipedia (leia texto abaixo).

É justamente a Enciclopédia de Diderot que volta a incomodar o coro dos conformistas em tempos de censura internética e intolerância. Depois de publicar, em 2007, um volume com seus verbetes que definem várias escolas filosóficas, o editor Jacó Guinsburg, da Perspectiva, lança agora o segundo volume de História da Filosofia (tradução de Newton Cunha, 368 págs., R$ 68), um resumo que vai de Aristóteles a Spinoza. E, de bônus, entrega às livrarias uma nova tradução, sua, de A Religiosa (256 págs., R$ 52), o polêmico relato romanesco de Diderot que também chega ao mercado na versão em DVD (Cult Classic, R$ 29,90) do filme homônimo dirigido por Jacques Rivette em 1966 (leia texto na página ao lado).

Se depender da disposição do experiente Guinsburg, a Coleção Diderot não vai parar nesse oitavo volume, que dá seguimento ao projeto de reunir o melhor da obra filosófica e literária do autor, cuja paixão pela racionalidade e a liberdade marcou o Iluminismo e conduziu à Revolução Francesa. Brevemente chegará ao leitor o terceiro volume da História da Filosofia e uma biografia do filósofo, primeira paixão de Guinsburg antes mesmo de fundar a editora Perspectiva, em 1965. "Não tenho a pretensão de publicar a obra completa de Diderot, mas creio que lançamos alguns de seus principais livros". De fato, além dos já citados, sua editora publicou, entre outros, o picaresco Jacques, O Fatalista, e Seu Amo e o satírico O Sobrinho de Rameau. Em ambos os casos nota-se a irreverência de Diderot e sua hostilidade às autoridades constituídas, do Estado ou da Igreja.

Apesar disso, entre os colaboradores de sua Enciclopédia ele contou com padres progressistas, não perdendo uma única oportunidade de incorporar visões heterodoxas. Ele foi o que se chama hoje de um homem sintonizado com seu tempo, familiarizado com as descobertas científicas e até mesmo precursor de algumas teorias - como a evolucionista, depois desenvolvida por Darwin - que definem a posição filosófica de um materialista e determinista. Sua adesão inicial ao deísmo - que vê na razão o único modo de assegurar a existência divina, o que significa não considerar qualquer religião -, que muitos atribuem à influência do pensamento filosófico de Shafstebury (1671-1713), foi trocada pelo ateísmo em seu ensaio Carta Sobre os Cegos (1749). Ele traduz a impossibilidade de Diderot de se identificar com a ideia de uma harmonia cósmica e de um design divino defendida pelo pensador inglês. Já Sainte-Beuve, o crítico francês do século 19, considerou seu ateísmo mais como uma resposta rebelde ao aspecto tirânico que a doutrina de Pascal deu ao deus cristão, alegando que Diderot, na velhice, tinha sérias dúvidas sobre a inexistência de Deus.

Educado por jesuítas e destinado à carreira eclesiástica, Diderot chegou a ser tonsurado aos 13 anos, mas sua futura carreira de libertino não poderia conviver com uma cabeça raspada e roupas de padre. Há uma passagem em A Religiosa na qual a sofredora Suzanne, confinada pelos pais num convento, expressa sua repulsa pelo hábito que lhe cola à pele e aos ossos como uma maldição que a priva da liberdade. Ela não é só a filha bastarda que se rebela contra a decisão dos pais ou a irmã humilhada pela madre superiora, mas alguém a quem ficou grudado um estigma. Privada de sua liberdade pelos pais burgueses, Suzanne é a antípoda dos homens descritos por Diderot em seu Supplément au Voyage de Bougainville (escrito em 1772 e publicado em 1796), habitantes das ilhas do Pacífico que vivem o sexo livre numa sociedade sadia. O filósofo seguiu seus modelos. Libertino, escreveu cartas a amigos contando suas orgias numa certa casa de Landes.

Não foi, claro, por seu malabarismo sexual que Diderot passou à história, embora seus panfletos tenham ligação indireta com o dito. Ao ser preso, em 1749, por causa de Carta Sobre os Cegos, a acusação que lhe pesava era de que ele professava "um ceticismo e um sensualismo confinante com o materialismo". De fato, o filósofo defende na carta que o conhecimento adquirido por meio da percepção não deve jamais ser desprezado. A monarquia francesa, que estava desmoronando, ainda teve forças para tirá-lo da prisão de Vincennes justamente porque seus representantes liberais não só entendiam como aprovavam esse conhecimento advindo dos cinco sentidos - afinal, muitos deles participavam das orgias na casa de Landes. De qualquer modo, a prisão o tornou discreto, até mesmo porque sua Enciclopédia lhe traria fortes dores de cabeça por causa das acusações de subversão da ordem constituída, desrespeito à religião e incitamento à revolução.

A Enciclopédia exigiu de Diderot mais de 20 anos de dedicação (de 1745 a 1772) e o levou a escrever O Filho Natural (1757), A Religiosa (1760) e O Sobrinho de Rameau (1761) - todos lançados pela Perspectiva -, aprofundando discussões que não cabiam nos limites dos verbetes. Na impossibilidade de lançar a enciclopédia inteira, Guinsburg selecionou dela apenas a parte filosófica, embora reconhecendo a contribuição que Diderot deu às ciências. "Ao contrário de Voltaire, sua pesquisa está calcada na ciência como instrumento de descoberta, aproximando-se do que viria a ser o positivismo", explica ele. Não é difícil entender as razões de a Enciclopédia ter sido proibida pela monarquia francesa. Era mesmo uma ameaça aos nobres, por promover o artesanato (Diderot era filho de cuteleiro) e o saber das classes "inferiores" (os enciclopedistas entrevistavam artesãos e trabalhadores para conhecer seus ofícios). Atacada por obscurantistas e saudada por outros como sinal de uma nova era, ela entrou na lista dos livros perigosos dos conselheiros de Luís XV por "incitar o espírito de independência e revolta", além de "promover a dissolução de costumes e a descrença na religião". Não era exatamente esse o espírito da publicação, mas o mundo jamais foi o mesmo depois da enciclopédia de Diderot.


Em Coleção


Oito volumes da Coleção Diderot já foram lançados pela Editora Perspectiva, de São Paulo. Além dos dois dedicados à História da Filosofia - que usam verbetes da Enciclopédia - as duas principais coletâneas dos textos de Denis Diderot reúnem os livros Filosofia e Política (Obras I) e Estética, Poética e Contos (Obras II). Dos textos ficcionais, três obras são essenciais: Jacques, o Fatalista, e Seu Amo, A Religiosa e O Sobrinho de Rameau. Jacques, o Fatalista foi considerado até mesmo superior a seu modelo, o Tristram Shandy, de Laurence Sterne, tratando com humor o tema do destino e do livre-arbítrio.

A Religiosa, a via-crúcis do filósofo

Publicado postumamente, o livro teve censurada a adaptação para o cinema

Antonio Gonçalves Filho

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É uma adaptação austera como o texto original que a inspirou. E igualmente polêmica e censurada em sua época. Finalmente, após anos de ausência do circuito cinematográfico, chega ao mercado (em DVD) o filme A Religiosa, dirigido por Jacques Rivette em 1966 com base no último romance de Diderot, publicado apenas em 1796, doze anos após a morte do filósofo. Compreensível. Preso uma vez, em 1749, por causa de um ensaio cujo tema era o poder dos cinco sentidos sobre a razão (Carta Sobre os Cegos), Diderot foi mais cauteloso ao dar ao mundo sua versão de uma história real, a de uma freira de Longchamp, Suzanne Saulier, que perdeu um processo contra o convento em que foi confinada. Sem vocação, ela teria lutado sem sucesso pela revogação de seus votos religiosos, como a bela Suzanne Simonin de seu livro, que, aos 17 anos, obrigada pelos pais, ingressa na vida religiosa sem convicção.

A nova tradução, a cargo de Jacó Guinsburg, destaca o vigor crítico desse texto "visual" que nasceu de uma brincadeira de salão de Diderot e seus amigos, ao saber da história da freira de Longchamp. A esse respeito, o filósofo Roberto Romano, que coordena a Coleção Diderot com o editor Guinsburg, aponta os exageros dos analistas que viram no romance certo "pictorialismo literário", embora defenda que se trata, efetivamente, de um livro com vocação cinematográfica. Considerando o interesse do filósofo por todas as manifestações artísticas e literárias da época, é bem possível que estivesse hoje escrevendo roteiros para cinema - e certamente menos reverentes que o de Rivette e Jean Gruault para o seu livro. A Religiosa antecipa algumas invenções da literatura moderna, que o diretor deixa escapar em seu filme. Parece claro que, para Rivette, a ética precede a estética. Já para Diderot, as duas andam juntas.

Aparentemente, Diderot teria escrito o livro como um panfleto amargo contra a vida monástica, um ataque à religião mais voraz que seus escritos anteriores sobre o tema. A prisão de Suzanne Simonin não seria apenas física, mas, acima de tudo, moral. Privada de sua liberdade para pagar uma pena que não era a sua - a de ser filha bastarda de um advogado e uma mãe adúltera culpada -, a "religiosa" antecipa o drama dos personagens sartrianos. Para ela, não há saída. Seja no convento das freiras histéricas de Longchamp, que a identificam com Satã por ter negado seus votos, ou no convento das lésbicas libertinas de Arpajon, para o qual é enviada depois, Suzanne está condenada a pagar por sua lucidez e seu desejo de liberdade. E a pagar com a própria vida. Ajudada por um padre confessor igualmente sem vocação, ela foge do convento para viver livre, mas descobre tarde demais que a liberdade tem alto preço num mundo em que o senso de justiça social é precário. Às portas da prostituição, ela se mata.

De algum modo, A Religiosa (1760) é o tratamento trágico de temas que seriam posteriormente abordados em Jacques, o Fatalista, e Seu Amo (1773) e O Sobrinho de Rameau (1761). Se, no primeiro, Jacques acredita ingenuamente no destino, sendo contestado por seu amo, a "religiosa" de Diderot luta contra esse destino, embora saiba - e diga isso com todas as letras - que sua história está traçada pela sociedade. Esta marcou seu corpo com o estigma do hábito, grudado nela como a própria pele. Em outras palavras, sua roupa de freira seria equivalente à burca da mulher muçulmana, cuja identidade é negada em nome de uma lei divina - nos países fundamentalistas, evoque-se, uma mulher pode ser presa por não usar o véu.

O acadêmico suíço Jean Starobinski já observou que Diderot se sentia embaraçado por ser obrigado a dar aos seus personagens uma identidade fixa e estável. Ele se saía melhor quando podia contar a história de forças naturais agindo sobre a estabilidade dessa existência individual, quando se abandonava ao prazer de acabar com a ilusão da autonomia pessoal, segundo Starobinski. Não por outro motivo a freira de Diderot é uma filha ilegítima sem recursos ou poder de barganha com a família. Se, na tragédia grega, os filhos sempre acabam pagando pela culpa dos pais, o destino de Susanne Simonin não é diferente. Há, efetivamente, uma progressão trágica que marca A Religiosa desde o princípio.

Diderot assume a personagem colocando-se no lugar da atormentada religiosa, numa espécie de "androginia literária" em que Rivette apenas esbarra. Essa ética hedonista, que derrubaria as fronteiras morais, fazendo com que freira e criador se unissem contra uma disciplina estoica, é inútil porque se limita a um impulso isolado contra o despotismo. Em todo caso, Diderot tem uma esperança, assim como Suzanne: a de que seja ouvido pelo leitor; que ele, ao menos, experimente a liberdade de imaginar a liberdade.

É ao leitor que o autor conta (como se fosse Suzanne) que o relato só existe por causa do marquês de Croismare, seu amigo, a quem escrevia cartas como se fosse a freira perseguida de Longchamp, provocando-o com a necessidade de um benfeitor para interceder em seu caso, mentira que se revelou, afinal, a mais trágica e pura verdade.



Filme Proibido


Ao ser lançado, em 1966, o filme A Religiosa, dirigido por Jacques Rivette e agora disponível em DVD da Cult Classic, provocou um escândalo e tanto. O Ministério da Informação da França recebeu 12 mil cartas solicitando sua interdição e o governo do general De Gaulle simplesmente acolheu os pedidos. Proibiu o longa tanto na França como no exterior. Ele só foi liberado porque o ministro da Cultura, André Malraux, convenceu os produtores do Festival de Cannes a mostrar o filme, proibido por "imoralidade". No Brasil, o longa foi exibido com cortes.

IHU-UNISINOS ampliando a polofonia...


Os EUA e o mundo: uma história não contada. Entrevista especial com Noam Chomsky

Para o filósofo e linguista estadunidense, os bancos estão sendo salvos com dinheiro público, estão enriquecendo, e se tornando os responsáveis pela crise econômica

Confira a entrevista.


Em uma entrevista contundente e incisiva, o linguista, filósofo e ativista político estadunidense, Noam Chomsky, falou por telefone com a IHU On-Line sobre a influência dos Estados Unidos em importantes eventos históricos da humanidade, como os golpes militares na América Latina e os assassinatos dos seis jesuítas em El Salvador, em 1989. Sobre esse episódio, Chomsky destaca que “o assassinato dos jesuítas essencialmente finalizou uma década em El Salvador, a qual havia iniciado com o assassinato do arcebispo Oscar Romero, praticamente pelas mesmas mãos. Nesse período, foram mortas cerca de 70 mil pessoas, geralmente pelas forças de segurança apoiadas pelos EUA”. Ao questionar o silêncio histórico que se fez sobre o fato, Noam Chomsky explica que “a razão é muito simples: trata-se de um crime; crimes desse tipo são expurgados, eles não aconteceram”.

Chomsky também faz uma longa e crítica análise do primeiro ano do governo de Barack Obama, e não suaviza seu posicionamento. Para ele, a principal “realização” de Obama tem sido a de “pagar uma fiança colossal para salvar os bancos. Os grandes bancos agora têm lucros maiores do que tiveram no passado e pagam bônus enormes a seus gestores”. Chomsky lembra que os bancos tinham destruído o sistema financeiro e que a medida de Obama “os livrou com dinheiro e os reconstituiu, de modo que agora são maiores do que antes”. E alerta: “a não ser que haja alguma significativa regulamentação, o que parece bastante improvável, está se estabelecendo a base para a próxima crise financeira, até pior que a que acaba de ocorrer”.

Noam Chomsky nasceu na Filadélfia, Estados Unidos, em 1928. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Seu nome está associado à criação da gramática generativa transformacional, abordagem que revolucionou os estudos no domínio da linguística teórica. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais. Além da sua pesquisa e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas de esquerda e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário. Sua página pessoal na internet é http://www.chomsky.info/

Por Graziela Wolfart. Tradução de Walter Schlupp

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como o senhor avalia o primeiro ano de governo de Barack Obama? Quais suas principais realizações, avanços e retrocessos?

Noam Chomsky - A principal realização tem sido a de pagar uma fiança colossal para salvar os bancos. Os grandes bancos agora têm lucros maiores do que tiveram no passado e pagam bônus enormes a seus gestores. Basicamente, eles tinham destruído o sistema financeiro; aquela medida os livrou com dinheiro e os reconstituiu, de modo que agora são maiores do que antes. A não ser que haja alguma significativa regulamentação, o que parece bastante improvável, está se estabelecendo a base para a próxima crise financeira, até pior que a que acaba de ocorrer. O governo anunciou a sua política de seguros, chamada de “Grande demais para falir”, o que significa: se você for um banco realmente grande, como a Goldmann & Sachs, não vamos deixar você falir. Então, o contribuinte pagará a sua fiança salvadora, você pode assumir grandes riscos ao emprestar e investir, fazer muito lucro, sem se preocupar se tudo for mal. Isto continua igual. Esta é a principal realização do governo federal. É uma das razões para a considerável indignação prevalente no país. Os bancos estão sendo salvos com dinheiro público, estão enriquecendo, e se tornando os responsáveis pela crise econômica. Bem, pelo menos para a população a crise econômica está crescendo.

Desemprego

Atualmente, os dados oficiais são de que mais de 10% da população está desempregada – a realidade naturalmente é mais elevada e a indústria de fábricas, onde as pessoas ganham empregos dignos, está passando por uma grande depressão. Uma em cada seis pessoas está desempregada, e as chances de conseguir um emprego não são boas, já que as bases da manufatura estão solapadas. Obama deu, sim, um incentivo que reduziu o efeito da perda de emprego até certo ponto, mas é muito pequeno para produzir alguma diferença perceptível. As pessoas quase não se dão conta deste incentivo. Mas surtiu algum efeito. Isto foi na questão econômica.

"Em nível internacional (...) Obama está dando seguimento aos programas de Bush, seguindo a mesma política contra o Iraque, onde intensificou a guerra, bem como no Afeganistão e Paquistão"

Sistema de saúde

Por outro lado, ele apresentou um projeto de lei para a reforma do sistema de saúde, mas deixou isso nas mãos do Congresso, onde tem sido gradativamente desbastado pelas seguradoras, instituições financeiras, indústria farmacêutica, de modo que sobrou muito pouco do projeto de lei. Talvez nem passe, e se passar, será por cima das objeções da maioria da população. A essas alturas, a maioria da população é contra essa reforma do sistema de saúde, e o motivo para tanto é que ela não vai longe o suficiente. Uma maioria considerável da população está a favor de se permitir uma opção pública, um sistema público de saúde paralelo ao sistema privado. Esta opção foi para a cucuia. Uma grande maioria é a favor de permitir pessoas mais jovens, de 55 anos para cima, em vez de acima de 65 anos, entrar no sistema nacional de saúde limitado para os ricos. Também uma grande maioria, cerca de 85%, opõe-se a à regulamentação que impede o governo de negociar preços de medicações. Penso que os Estados Unidos são o único país no mundo onde isto acontece.

"O sistema de saúde dos Estados Unidos é totalmente disfuncional; (...) é distribuído segundo a riqueza"

Obama informou os bancos de que ele manteria isto. Portanto, é algo que talvez seja aprovado; mas não será muito, e este é um assunto muito sério. O sistema de saúde dos Estados Unidos é totalmente disfuncional; funciona bem para gente como eu, para pessoas relativamente privilegiadas. O sistema de saúde é distribuído segundo a riqueza, basicamente. Os custos da assistência médica, per capita, são cerca de duas vezes mais elevados que em países industrializados, e apresenta um dos piores resultados. Isto porque em grande parte é privatizada, não-regulamentada. Isto cria muita ineficiência, custos, burocracia, etc. Os custos também estão subindo muito rapidamente. As previsões são de que isto basicamente vai sobrepujar a economia, não muito longe no futuro. Praticamente todo o déficit orçamentário será acarretado pelo sistema de saúde. Estávamos falando em reduzir o déficit, mas isto não vai acontecer, a não ser que o sistema de saúde seja sanado – o que não é o caso.

Política internacional: na linha de Bush

Em nível internacional, nada digno de nota, basicamente Obama está dando seguimento aos programas de Bush, seguindo a mesma política contra o Iraque, onde intensificou a guerra, bem como no Afeganistão e Paquistão. O número de ataques em solo, o que equivale a assassinatos, aumentou muitíssimo. Em outras áreas, na América Latina, ele apoiou o golpe de estado em Honduras e os Estados Unidos são um dos poucos países que reconheceram a eleição lá. O governo Obama praticamente ridicularizou o restante do hemisfério por este viver um mundo de realismo mágico – como formulou o representante na OEA – e não a realidade, ao negar-se a aceitar o golpe. O governo Bush tinha reativado a Quarta Frota Naval, que cobre as águas sul-americanas e caribenhas. Obama apoiou isto, conseguiu duas novas bases navais para ela no Panamá. E continuam estabelecendo novas bases militares, acordadas com a Colômbia, com planos bem dispendiosos de monitoramento de boa parte do hemisfério sul. Quanto a Israel e a Palestina, que é um problema importante, Obama basicamente nada fez. Ele apenas fez algumas pequenas críticas, mas essencialmente informou Israel de que pode ir em frente com as construções ilegais nos territórios ocupados, todas ilegais, todo mundo sabe disso. Essa conversa de negociações, ninguém sabe exatamente o que é. Antes de se eleger, no fundo, ele apoiou o ataque a Gaza e a manutenção do grave bloqueio militar sobre Gaza.

"Praticamente todo o déficit orçamentário será acarretado pelo sistema de saúde"

Quanto ao resto do mundo, ele tem considerado a possibilidade de negociar com o Irã, o que é mais do que o governo Bush estava disposto a fazer. Por outro lado, é muito claro que não vão chegar a lugar algum. Há a questão de o Irã não satisfazer todas as condições impostas pelo Conselho de Segurança da ONU e a Agência Internacional de Energia Atômica. Isto é verdade, eles não cumpriram todas as condições. Entretanto, o que menos se discute é o status dos três países que nunca assinaram o tratado de não-proliferação: Israel, Índia e Paquistão. O governo Obama continua advogando a posição de que eles estão isentados das regras do Conselho de Segurança e da Agência Internacional de Energia Atômica. Em outubro, a AIEA aprovou uma resolução cobrando de Israel que entrasse no tratado de não-proliferação e abrisse suas instalações para inspeção. Os Estados Unidos e a Europa tentaram bloquear essa resolução, mas ela foi aprovada mesmo assim. O governo Obama imediatamente disse a Israel que eles não precisavam dar qualquer atenção a isso, que estão isentados. A mesma coisa com a Índia, que está desenvolvendo suas armas atômicas com ajuda dos Estados Unidos. O Conselho de Segurança conclamou todos os estados, particularmente a Índia, a assinar o tratado de não-proliferação. A Índia reagiu, anunciando que agora consegue produzir armas nucleares com a mesma potência que as superpotências EUA e Rússia. E os EUA, a administração Obama, imediatamente informaram a Índia de que não precisam se preocupar com a resolução do Conselho de Segurança. A mesma coisa com o Paquistão. Nesse contexto, fica bem claro que a ONU não vai fazer qualquer coisa fora do comum para impor suas condições.

IHU On-Line – Mudando um pouco de assunto, como o senhor analisa o assassinato dos mártires de El Salvador em 1989 e o silêncio que se fez sobre esse episódio?

Noam Chomsky - Foi espantoso, isso. Em novembro passado foi o vigésimo aniversário de dois eventos importantes acontecidos em novembro de 1989: um foi a queda do muro de Berlim, outro foi o assassinato dos jesuítas. Novas informações apareceram em outubro de 2009, mas foram totalmente ignoradas. O jornal espanhol El Mundo publicou o documento que pedia o assassinato, assinado pelo Chefe do Estado Maior, Rene Emilio Ponce, e por outros altos oficiais. Isto já tinha sido suspeitado, mas agora havia o documento em si, com comentários escritos à mão e as assinaturas. Isto faz com que seja quase impossível que a embaixada americana e o Pentágono nada soubessem a respeito. Além disso, o assassinato foi executado por uma brigada de elite, a brigada Atlacatl, que já tinha matado milhares de pessoas. Eles acabavam de chegar do treinamento na Escola de Forças Especiais J. F. Kennedy em Fort Bragg poucos meses antes, e poucos dias antes do assassinato houve delegação de forças e oficiais especiais que foram a El Salvador para treinamento adicional. Portanto, tinham acabado de receber treinamento por forças especiais americanas. Isto, portanto, torna ainda menos provável que o fato fosse desconhecido. Ou seja, foi algo solenemente ignorado. Mas isto não é nada. O assassinato dos jesuítas essencialmente finalizou uma década em El Salvador, a qual havia iniciado com o assassinato do arcebispo Oscar Romero, praticamente pelas mesmas mãos. Nesse período, foram mortas cerca de 70 mil pessoas, geralmente pelas forças de segurança apoiadas pelos EUA.

"O assassinato dos jesuítas essencialmente finalizou uma década em El Salvador, a qual havia iniciado com o assassinato do arcebispo Romero, praticamente pelas mesmas mãos"

Além disso, o assassinato dos jesuítas foi um golpe letal ou ao menos muito sério no que ainda restava da teologia da libertação. Isto é de considerável importância. A teologia da libertação deslanchou após o Vaticano II, sob o comando do papa João XXIII, em 1962. Este foi um momento crucial na história. Foi a primeira vez que a Igreja tentou voltar aos evangelhos, para a Igreja pré-constantina. Nos primeiros séculos, o cristianismo era basicamente uma religião de um pastor radical, perseguida. Mas o imperador Constantino, no século IV, assumiu o cristianismo e o transformou na Igreja do Império Romano. Hans Küng, um teólogo bem conhecido, formulou da seguinte maneira: de uma Igreja de perseguidos, a Igreja passou a ser uma Igreja de perseguidores. E em grande parte tem sido isso mesmo, até chegar ao papa João XXIII e o Concílio Vaticano II, que inspirou bispos latino-americanos a empreender a opção preferencial pelos pobres, como nos evangelhos; e o resto da história vocês conhecem: padres, freiras, leigos tentaram organizar camponeses, criaram grupos de leitura bíblica, tomar algumas iniciativas, para que as pessoas tivessem seus destinos nas próprias mãos.

Golpes de estado na América Latina: efeito dominó

Isto desencadeou o pior período de repressão na história do continente. Os EUA foram muito claros: não vamos tolerar isto. O primeiro passo foi o golpe de estado no Brasil. Foi planejado sob o governo Kennedy e executado pouco depois do seu assassinato. Isto estabeleceu o primeiro dos estados de segurança nacional na América Latina. O embaixador de Kennedy o chamou de "a maior vitória da liberdade em meados do século XX"; ele também acrescentou que isto melhoraria as perspectivas para investimentos americanos. Como o Brasil é um país importante, logo depois outras peças do dominó começaram a cair. Houve um golpe no Chile, o golpe de Pinochet, e continuou um país atrás do outro, finalmente chegando à Argentina, talvez o pior de todos os golpes, com forte apoio de Reagan. Depois, a praga se espalhou para a América Central nos anos 1980, com centenas ou milhares de pessoas sendo mortas. Grande parte do mundo estava voltada contra a Igreja. Havia muitos assassinatos, como o do arcebispo Oscar Romero e também os seis jesuítas, terminando basicamente em 1989. Esta é uma parte bastante importante da história do mundo – e não há nenhuma memória a este respeito, nada. A razão é muito simples: trata-se de um crime; crimes desse tipo são expurgados, eles não aconteceram.

"O assassinato dos jesuítas foi um golpe letal ou ao menos muito sério no que ainda restava da teologia da libertação"

Podemos ficar muito empolgados com a derrubada da tirania soviética. Falou-se muito, em novembro passado, de que foi um triunfo do amor, da não-violência, que a mensagem para o mundo é não-violência, etc. É a mensagem para o mundo quando se olha para o Leste da Europa, mas não é a mensagem para o mundo quando se olha para a América Latina. E a coincidência do assassinato dos jesuítas e a queda do muro é um lembrete contundente neste sentido, de que foi totalmente suprimido, da mesma forma como o resto do que acabei de dizer.

IHU On-Line - Podemos estabelecer alguma relação entre o exército de El Salvador de 1989 e o exército de Honduras atualmente?

Noam Chomsky - Na verdade não sei. Talvez. Certamente o Pentágono está pesadamente envolvido em ambos. Os principais oficiais do exército hondurenho em sua maioria são treinados na Escola das Américas, que é a outra escola que treina oficiais latino-americanos, assassinos latino-americanos; há conexões muito estreitas com o Pentágono, e naturalmente isto também vale para El Salvador. É perfeitamente possível que haja coordenação via EUA, mas não sei de nenhuma evidência direta neste sentido. Um elemento no golpe em Honduras, presumo, é que ali se encontra uma base aérea importante usada pelos EUA, a base aérea de Pomarola, que desempenhou um papel crucial durante a guerra dos EUA contra a Nicarágua nos anos 1980. Foi a base chamada de "porta-aviões inafundável" para os "contras" baseados em Honduras atacarem a Nicarágua. É difícil imaginar que não haja coordenação entre os exércitos centro-americanos. Mas não posso afirmar que haja evidência concreta disso.

IHU On-Line - Qual a importância que o senhor atribui ao Fórum Social Mundial e que avaliação faz do evento em função de seus 10 anos? Por que o senhor não veio para esta edição?

Noam Chomsky - Eu fui a várias edições nos primeiros anos. Nos últimos anos tenho tido problemas pessoais. Houve três anos em que não conseguia viajar de forma alguma, tinha que ficar em casa. Este ano estive irremediavelmente envolvido em outras coisas. Mas penso que é um evento extremamente importante. Quando estive lá, 8 ou 9 anos atrás, sugeri que o Fórum era a semente para a primeira Real Internacional verdadeira, e continuo pensando assim. Sua influência agora se espalha pelo mundo todo, há fóruns sociais regionais e locais. Temos um em Boston. Minha sensação é de que nenhuma contribuição que eu poderia dar agora teria importância comparável à que porventura a de anos atrás teve – não sei se teve ou não, e estive muito contente em estar lá. Acho que há coisas que posso fazer na mesma linha, talvez mais importantes. Em todos os casos, o que está acontecendo é extremamente importante, também para o Brasil. Por exemplo, a questão dos direitos fundiários no Brasil é extremamente séria. Poucos passos de menor importância foram dados durante os anos de Lula, mas não é muita coisa. E o efeito do que foi feito não é tão positivo assim. Há muitos outros problemas ainda na América Latina e em outros lugares. Portanto, o Fórum preserva sua significação. Penso que difundiu sua influência, que tem sido uma influência muito positiva sobre as lutas sociais em todo o mundo, e espero que continue neste sentido.

"Os principais oficiais do exército hondurenho em sua maioria são treinados na Escola das Américas, que é a outra escola que treina oficiais latino-americanos, assassinos latino-americanos"

IHU On-Line - O senhor gostaria de acrescentar mais algum comentário?

Noam Chomsky
- Há coisas importantes acontecendo. Veja os próprios EUA. Não sei até que ponto isto foi veiculado no Brasil, mas quinta-feira passada (dia 21-01) a Suprema Corte tomou uma decisão extremamente importante: que corporações que já têm uma influência avassaladora no sistema político, agora podem gastar dinheiro livremente nas eleições para apoiar candidatos. Isto virtualmente significa que as corporações podem comprar as eleições. Trata-se de um golpe gravíssimo contra o que resta da democracia funcionando. E é muito difícil ver como isto poderá ser revogado. Isto anula precedentes de um século, que pelo menos colocavam algum limite no custeio corporativo de eleições. Basicamente é um convite para as corporações praticamente partirem para o suborno. Em vez de comprar um legislador na Casa Branca indiretamente, eles podem fazê-lo diretamente.



A marolinha...

Comentário: dias atrás uma daquelas "pesquisas" de opinião (ah, bom Platão! Opinar é modo inferior de pensamento...) trazia o "otimismo dos industriais brasileiros", a confiança no governo do PT, etc.etc.etc. E dá-lhe falação (termo horrivel, mas de boa cepa petista) dos "jornalistas" louvando os donos do país. Tudo em clima de corte absolutista, no costume chaleira de louvar El Rey. Este, pimpão e orgulhoso, como o seu colega da fábula (em Brasília não tem nenhuma criança para gritar a nudez majestática) deita...falação pelos cotovelos, sobre o "nunca antes neste país". Seguido pelo coro dos que usufruem cotas do poder. Os industriais, bem dizia o gênio Delfim Netto, adoram os úberes governamentais, desde que tenham a sua exclusividade. Esta é a terra em que se rouba e mente em todos os tempos, modos, declinações. Declino e não continuarei estes comentários, por fastio. Mas noto o usual: na França também existe o ridículo. Mas naquela terra ele mata. Aqui, engorda. RR


02/02/2010 - 09h14

Crise faz indústria ter em 2009 maior retração desde 1990, diz IBGE

RIO DE JANEIRO, 2 de fevereiro (Reuters) - A produção da indústria brasileira retraiu em dezembro pelo segundo mês consecutivo, encerrando 2009 com queda de 7,4%, a mais forte desde 1990, abatida pela crise financeira mundial.

A atividade recuou 0,3% em dezembro sobre novembro, mas saltou 18,9% ante dezembro de 2008, quando o setor foi fortemente abatido pela crise global, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nesta terça-feira.


Analistas consultados pela Reuters previam uma queda mensal de 0,8% e uma elevação anual de 18,4%. As estimativas para a taxa mês a mês variaram de alta de 0,1% a baixa de 1,1%, enquanto para a comparação com o ano passado ficaram entre avanço de 15,5% a 20,7%.

O IBGE revisou para baixo o dado de atividade em novembro, de uma queda inicialmente divulgada de 0,2% sobre outubro para recuo de 0,8%. O dado de outubro sobre setembro foi revisto para cima, de crescimento de 2,3% para 2,9%.

(Reportagem de Rodrigo Viga Gaier; Edição de Vanessa Stelzer e Alberto Alerigi Jr.)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Aí está: os arrependidos de hoje, eram convictos chaleiras do tirano ontem. Se existe lição da história é que ninguem aprende lições da história.






01/02/2010 - 16h43

Ex-aliados pedem renúncia do presidente Chávez em artigo

Um grupo de ex-aliados do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, integrado por antigos ministros, militares e congressistas, pediu sua renúncia hoje considerando que, depois de 11 anos no cargo, o político "não tem legitimidade nem capacidade de governar".

"Presidente Chávez, nós que fizemos da defesa da Constituição nossa luta [...] para evitar maiores males e desgraças ao país, como estão ocorrendo, exigimos formalmente a sua renúncia", pede o documento, assinado pelo grupo Polo Constitucional e publicado hoje na imprensa venezuelana.

Entre as assinaturas estão a do ex-ministro de Relações Exteriores Luis Alfonso Dávila, do ex-ministro de Defesa Raúl Isaías Baduel, de Herman Escarrá, um dos principais redatores da atual Constituição, e de dois ex-comandantes que acompanharam Chávez na tentativa de golpe de Estado em 1992, Yoel Acosta e Jesús Urdaneta, entre outros.

O texto afirma que Chávez deve deixar o poder por "seu projeto absolutista e totalitário", "pela falta de prestação de contas", "pela linguagem imprópria" empregada que "despe a alma intolerante, mesquinha, cheia de ódio e de ressentimento". Chávez "não tem autoridade moral e material para governar, pois não responde à satisfação das exigências do povo", continua.

O Polo Constitucional reivindica também o direito dos venezuelanos "à propriedade privada", à "educação plural" e ao "pluralismo político" e lamenta que o Exército e outras instituições estejam "distorcidas pela penetração de elementos estranhos", em uma clara alusão a Cuba. Além disso, considera que o atual Executivo peca por uma "centralização irresponsável que coloca seus caprichos na frente das necessidades do Estado".

Os responsáveis pela carta dizem que a Venezuela vive com falta de água, energia elétrica, sofre com altos índices de insegurança e com uma "escandalosa corrupção", que "agregam elementos para a desqualificação de Chávez como governante".

"Funcionários, familiares e personagens conhecidos como os 'boliburgueses' [burgueses bolivarianos] saquearam administrações, ministérios, Prefeituras, empresas do Estado", assegura o texto opositor.

Chávez disse neste domingo em seu programa dominical de rádio e televisão "Alô Presidente" e em seu artigo semanal "As linhas de Chávez" que observou nas manifestações contra ele nos últimos dias "o mesmo formato de violência" de abril de 2002, quando foi derrubado durante dois dias. "Há grupos que estão chamando os militares ativos, incitando-os. Recomendo que não o façam porque juro que minha resposta será forte", advertiu Chávez.

Com Efe e France Presse







It´s about nothing...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O fracasso do filho do Brasil e o mito da popularidade

O retumbante fracasso de "Lula - O filho do Brasil" está evidente e sendo destaque em vários jornais do mundo, tal fato permite o paralelo (a despeito do que algumas pessoas dizem) entre o fracasso cinematográfico do presidente e o mito de sua popularidade. Sempre desconfiei da alta popularidade de Lula. Talvez em algum momento de seu primeiro mandato, pode ter batido a casa dos 60%, mas dizer que Lula possui 70% ou 80% é abusar da boa fé alheia.

O fracasso de seu filme nos cinemas serve como prova de que Lula não é tão popular quanto o Planalto e as pesquisas tentam mostrar. Na realidade esta obsessão pela popularidade (típica de tiranos) é marca do governo Lula. Não sei quantas pesquisas foram realizadas para auferir a popularidade do presidente, mas a impressão é que a cada mês temos uma. Se tivesse que arriscar o número chutaria uma centena delas.

Sei que não cabem comparações (por enorme série de razões), mas até mesmo o político mais popular dos últimos tempos, Barack Obama, não resistiu ao encanto sobre sua personalidade, hoje amarga 50% de aprovação do povo americano. Basta lembrar que há dois anos Obama seria eleito em qualquer lugar do mundo para qualquer cargo que disputasse. Lula nem chegou perto de ter tamanho prestígio.

Lula tem se desgastado em demasia, sucessivos escândalos de corrupção em seu governo aliado com a defesa pública de corruptos (como foi o caso de Sarney), desastres vexatórios na política internacional como ceder patrimônios nacionais e celebrar acordos desvantajosos para o Brasil na América Latina e decisões diplomáticas estranhas (guarita a Césare Battisti, abrigo a Manuel Zelaya na embaixada brasileira e amizade com Ahmadinejad e Hugo Chávez).

Muitos apostam na famosa alienação do povo para afirmar que tais escândalos e más condutas não afetam a imagem (popularidade) do presidente junto à população. Mas isto não é inteiramente verdade. Afirmo categoricamente que Lula já não é tão popular quanto era há quatro ou cinco anos. Pode levar tempo, mas as pessoas acordam de seu torpor.

Lula é seguido cegamente por seus adoradores e por aqueles que não se importam com o que ocorre desde que recebam suas benesses. Isto não chega a oitenta por cento da população e tão pouco a cinquenta.

Mas uma coisa é certa: eles tentarão empurrar Lula e este tentará empurrar Dilma goela abaixo, farão de tudo para não perder a boquinha.

QUEM FAZ AUDITOTIA CIENTÍFICA NAS PESQUISAS? É TUDO ESTRANHO, MUITO ESTRANHO...



BLOG FERNANDO RODRIGUES

11h02 - 01/02/2010

CNT/Sensus dá empate técnico entre Serra e Dilma, mas só quando Ciro Gomes continua como candidato

· cenário é de 33,2% para tucano e 27,8% para petista

· se Ciro Gomes sai, Serra vai a 40,7% e Dilma fica com 28,5%

· margem de erro da pesquisa é de 3 pontos percentuais

A mais recente pesquisa do instituto Sensus, bancada pela Confederação Nacional do Transporte, traz uma notícia muito boa e outra ruim para o PT. A boa é que a petista Dilma Rousseff está empatada tecnicamente com o tucano José Serra em primeiro lugar na disputa pelo Palácio do Planalto quando se considera a margem de erro da pesquisa. A notícia ruim é que esse cenário só existe quando Ciro Gomes (PSB) está no páreo.

Como Serra tem 33,2%, pode variar de 30,2% a 36,2% (a margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos). E Dilma, de acordo com a margem de erro da Sensus, pode variar de 24,8% a 30,8%. Ou seja, se Serra estiver próximo de seu limite mínimo e Dilma próxima de seu limite máximo, ambos estariam hoje juntos.

A julgar pelo cenário atual, a polarização apenas entre PSDB e PT, tão desejada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda depende da presença de Ciro Gomes na lista de candidatos. Até porque, se Ciro sai e se a eleição fosse hoje, José Serra iria a 40,7% e praticamente levaria no primeiro turno –pois a soma de Dilma e de Marina Silva (PV) daria 38%. Como a margem de erro da pesquisa é de 3 pontos percentuais, não se pode afirmar que o tucano ganha no primeiro turno com 100% de certeza.

É necessário sempre ressalvar, entretanto, que a eleição é só em 3 de outubro e há uma candidata claramente em linha ascendente (Dilma) e outro (Serra) que às vezes cai e às vezes se mantém estável na faixa acima dos 30% (e batendo em 40% quando Ciro está fora).

No caso de Marina Silva, a situação não é das melhores. Ela varia de 6,8% a 9,5%. Nesta semana, terá seus 10 minutos na TV (no programa partidário do PV). É a esperança que tem para atingir um público mais amplo.

Já Ciro Gomes também tem, a exemplo do PT, duas notícias, uma boa outra ruim. A boa é que o PT depende de Ciro, pelo menos por enquanto, para levar a disputa com folga para o segundo turno. A notícia ruim é que o deputado federal pelo PSB do Ceará está com apenas 11,9%, bem atrás dos 27,8% de Dilma.

Todas as pesquisas eleitorais para 2010 já divulgadas estão no maior levantamento disponível na web aqui neste blog.

A seguir, os números da pesquisa Sensus divulgada hoje (1.fev.2010):

Cenário com Ciro:

José Serra - 33,2%

Dilma Rousseff - 27,8%

Ciro Gomes - 11,9%

Marina Silva - 6,8%

Nenhum/Branco/Nulo - 10,5%

NS/NR - 9,9%

Cenário sem Ciro

José Serra - 40,7%

Dilma Rousseff - 28,5%

Marina Silva- 9,5%

Nenhum/branco/ Nulo - 11,4%

NS/NR - 10%

Metodologia

2.000 entrevistas

Margem de erro: 3 pontos percentuais

Data da coleta de dados: de 25 a 29 de janeiro de 2010

A seguir, os dados sobre a avaliação do governo Lula e do desempenho pessoal do presidente:

Avaliação do governo:

Positivo - 71,4%

Regular - 22,0%

Negativo - 5,8%

Desempenho pessoal de Lula:

Aprova- 81,7%

Desaprova - 13,9%

Os dados históricos do desempenho do governo Lula e de seus antecessores pode ser visto aqui.