quarta-feira, 28 de maio de 2014

IHU/Unisinos

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O inimigo interno é, no conceito de pacificação de hoje, o povo todo das favelas

Movimentos sociais protestam, em frente à favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, e na Avenida Brasil, contra ação da tropa do Bope na comunidade em junho, que resultou na morte de 10 pessoas. Foto de Tomaz Silva/ABr.
O Brasil inteiro se acostumou a assistir, por anos a fio, notícias da violência que caracterizava a vida de uma de suas cidades: em qualquer canto desse país, todo mundo sabia que, no Rio de Janeiro, traficantes de drogas instalados nas favelas imprimiam um clima de guerra à população. Em 2009, o Brasil inteiro recebeu, com otimismo, o anúncio de uma política que expulsaria o tráfico, ‘pacificando’ as favelas cariocas. Cinco anos depois, esse mesmo Brasil inteiro assiste, na tela da mesma TV, a cenas em que moradores dessas comunidades interditam ruas, queimam pneus em protesto e atacam a sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), chorando seus mortos – só que, agora, pela polícia.
A entrevista é de Viviane Tavares, publicada por EcoDebate, 27-05-2014.
Depois de passar seis meses visitando, conhecendo e entrevistando pessoas de diversas favelas cariocas, Maria Helena Moreira Alves, professora aposentada da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), acaba de lançar o livro ‘Vivendo no fogo cruzado’, que ajuda a entender esse processo. Nesta entrevista, ela explica que o projeto de pacificação que chegou ao Brasil tem origens num programa norte-americano que foi aplicado durante a Guerra do Vietnã e que tem semelhança com a experiência de outros países, como a Colômbia. Ela localiza na ditadura o início da construção de um inimigo interno, que hoje se identifica com as populações de favela. E alerta: as pessoas reagem quando começam a perder seus filhos.
Eis a entrevista.
A política de ‘pacificação’ no Brasil vem desde Duque de Caxias, passa por Canudos e hoje é encontrada nas favelas. Como se deu isso historicamente e como você avalia o que temos hoje?
É claro que já temos todo um precedente que apoia isso, mas o que nós temos hoje, o programa da UPP e o termo pacificação, está ligado diretamente ao programa dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, que, aqui, está ligado à doutrina de segurança interna, que foi aplicada durante toda a ditadura militar. Isso foi criado durante a ditadura, não foi com Duque de Caxias nem com a escravidão. Apesar de podermos dizer que o Bope [Batalhão de Operações de Policias Especiais] parece o capitão do mato, na verdade ele é um soldado armado para enfrentar uma guerra interna, e o inimigo interno é, no conceito da pacificação de hoje, o povo todo das favelas.
Costuma-se dizer que a referência da UPP aqui no Brasil veio da Colômbia. Você diz que veio do Vietnã. O que há em comum na experiência de Brasil, Colômbia e Vietnã?
Têm em comum o cerco, a tomada do território, o trabalho primeiro militar, seguido de um trabalho social. No Rio o trabalho social nunca chegou, ficou só no repressivo. Em Bogotá sim, teve mais trabalho social, que também não foi adiante, mas a repressão foi mais intensa. O Vietnã foi o modelo, com um programa que se chamava Pacification Hamlets. Era o cerco das aldeias que eles achavam que estavam sob influência dos vietcongues, em áreas do Vietnã do Sul, que estava em guerra com o Vietnã do Norte. Os Estados Unidos apoiavam o Vietnã do Sul, mas havia várias áreas que estavam sob influência dos vietcongues. E nesses territórios eles fizeram o Pacification Hamlets, que seguia muito o modelo que agora a gente vê da UPP: primeiro uma invasão militar do território, seletivamente eliminando os líderes mais importantes; depois uma segunda onda de repressão que envolvia tortura não seletiva – já não eram os líderes, mas qualquer pessoa comum que eles pegavam, torturavam e jogavam para as outras verem, como parte do terror; e controle de modo que a aldeia ficasse pacificada pelo medo. Mas vinha uma segunda etapa que era para ganhar corações e mentes, com programas de educação, esportes em geral e saúde também, com muita coisa voltada para crianças. A ideia era dividir a comunidade, que algumas pessoas que estivessem envolvidas em programas sociais achassem bom e tentassem ignorar a parte repressiva. E a parte repressiva passava a ser mais escondida. No caso do Vietnã, quando houve o massacre muito famoso em My Lai, o povo se rebelou e os Estados Unidos tiveram que fugir quando perderam a guerra. E o mesmo vai acontecer no Brasil. Chega um momento em que a política de terror gera mais raiva do que medo. É parte da própria sobrevivência: qualquer animal quando está muito acuado se defende atacando. E essa reação vem quando você começa, por exemplo, a perder seus filhos.
Qual é o objetivo da pacificação e quem está sendo pacificado?
A população que está sofrendo esse processo é aquela que não é útil para o sistema econômico. Então, se eliminá-la, não faz falta. O que eles estão eliminando são os jovens pobres, negros, analfabetos que não servem para a mão de obra, aquela mão de obra fácil, que já tem muito. Em termos de direitos humanos, o Brasil é um dos piores países. É sempre importante lembrar que estamos em um país que não está em guerra declarada, embora o ex-governador do Rio de Janeiro tenha declarado guerra, mas isso foi da cabeça dele. O Brasil está em situação de rebelião popular, mas não é uma guerra civil, ainda. Espero que não venha a ser. Se continuar essa pressão, até pode vir a ser, como é o caso da Colômbia. Muitos casos, como o da Nicarágua, com o levante de Manágua, que eu vivi quando morei lá, foram causados também pelo terror, que controla até certo ponto. Depois, quando você não tem mais esperança, acaba o medo.
O levante de Manágua foi quando aconteceu a operação Herodes, no final do governo contra os sandinistas, na qual eles mandaram rodear certas áreas mais combativas de Manágua, retiraram à noite das casas os maiores de dez anos e metralharam na rua, com argumento de que eles já estavam entrando na Frente Sandinista de Libertação Nacional. É muito parecido com a forma como a polícia brasileira fala que o jovem vai virar traficante: ‘Nasceu, vira criminoso ’. E eles mataram tantas crianças, que houve uma rebelião total, as pessoas se juntaram aos sandinistas e fortaleceram o movimento, que ganhou a revolução. E as pessoas falaram que acabou o medo quando não tinham mais nada a perder. Hoje, o que temos? O Bope entra nas casas, arromba as portas, bate nas pessoas… Ouvi relatos de mulheres que falavam ‘Graças a Deus meu marido não estava em casa, porque quando tem homem eles matam’.
Mas, nos exemplos que você cita, como o da Nicarágua, havia forças de esquerda organizada com a qual a população revoltosa se aliou. Como isso se dá no Brasil?
Nós temos um exemplo histórico único no Brasil de organização de revolta popular, que são os quilombos. Infelizmente, não se trabalha muito com isso, mas somos um dos únicos países que teve uma revolução popular de escravos que chegaram a fundar cidades, foram mais de 8 mil quilombos. Eu acho que ainda temos essa cultura nas favelas pelo trabalho comunitário, o chamado mutirão. Existe muito dos quilombos nesse sentido. Fiquei admirada de ver que, quando começava um tiroteio nas favelas, apareciam pessoas de tudo quanto era lugar e esvaziavam a escola em 20 minutos. Retiravam mil crianças, não necessariamente deles, mas de vizinhos, e elas ficavam protegidas até os pais voltarem. É uma organização comunitária muito profunda de solidariedade. Não é que as pessoas estejam a favor do tráfico ou achem o tráfico melhor do que a polícia, mas diziam o seguinte: o traficante local é da comunidade, nós temos menos medo dele porque se você não for diretamente contra ele, ele não faz nada com você nem com a sua família, já a polícia não, vai contra todo mundo. A diretora de uma das escolas em que eu estive no Complexo do Alemão me contou que, durante um tiroteio muito grande, houve um momento em que o Bope entrou, com Caveirão e tudo, e começou a dar tiros de dentro da escola. Tiraram até telhas para dar tiro. E no dia seguinte veio o chefe do tráfico reclamar com ela, dizendo: ‘como é que você deixa uma coisa dessas? Eu tenho filho nessa escola’.
Agora, sobre rebelião popular, é outra coisa. Acho que você tem razão. Nós não temos condições hoje de organizar nenhuma resistência – eu nem diria rebelião – com caminhos dirigidos, como tínhamos esperança, quando fundamos o PT, de que o partido fizesse esse papel. Seria o caminho da classe trabalhadora guiada pelo PT para um jeito petista de governar, mudando todas as referências, não fazendo alianças, inclusive com uma coisa que também não aconteceu, e que é triste, que era o novo movimento sindical ser autônomo, não ligado a nenhum governo. Durante um tempo isso foi muito forte, mas hoje a CUT tem dirigentes no governo, acabou a autonomia do movimento sindical e, de certa maneira, de outros movimentos também. Então, diminuíram os movimentos sociais como uma corrente que possa organizar o povo e não existe partido que possa organizar o povo em geral, porque todos estão vinculados a uma política de interesses. Isso é muito grave porque a população deixou de acreditar nas instituições. E o que pode ser uma rebelião popular, então? Pode ser uma explosão social, do tipo queima tudo, quebra tudo, sem direção, que pode virar fascista ou pode ser só quebra-quebra e ter um massacre geral de repressão e voltar à situação de repressão interna das comunidades mais pobres. Até ter outra explosão. Isso acontece em vários países. Tem que ter um grande líder carismático e todo um movimento por trás organizado para conseguir isso. E o Brasil não tem mais nem um líder carismático. Eu acho que o Lula ainda é, mas já não tem mais a força da condução de um movimento, como tinha antes. Ele podia ter feito isso em 2002, acho que tinha 80% de aprovação para fazer transformações profundas. Na hora em que não fez, em que começou a fazer alianças para governar dentro do modelo político que existe, tirou essa possibilidade. E hoje em dia acho que o povo está descrente. Então nós podemos ter uma situação de muita confusão, muita briga na rua, mas sem uma condução política.
Você disse que a política de segurança mudou muito pouco, mas muitas pessoas acreditaram nas UPPs. Por quê?
Acho que as pessoas tiveram uma esperança muito grande por chegarem outras coisas com a UPP. E foi-se vendo, com o passar do tempo, que não era isso. Lembro uma frase de uma moradora da Rocinha [favela do Rio de Janeiro] que, quando perguntada se era a favor da UPP, respondeu: ‘Estou em silêncio’. E foi indagada que, se estava em silêncio é porque estava gostando, e ela respondeu que o silêncio significava o medo. Se você mora lá, diante da violência, não é possível dizer que é contra, com sua família na mira de uma metralhadora em cada esquina. E essa população está em um fogo cruzado porque os donos do morro ainda estão lá, mas os mandantes estão fora da favela. No livro ‘Vivendo no fogo cruzado’, a entrevista com Beltrame [secretário de segurança do Rio de Janeiro] mostra que não tem traficante nas favelas, que eles moram fora das favelas, o que existe é o pequeno tráfico, vendido em envelopinho de R$ 300. O governo não está com véu nos olhos e sabe quem comanda o tráfico e quem comanda o tráfico é internacional.
Ainda é cedo para avaliar a estratégia adotada no Brasil, como defende o secretário de segurança pública do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame? O que já dá para avaliar hoje?
A UPP está muito clara. É possível avaliar há muito tempo. O Beltrame, por ser um intelectual e ter uma certa vivência que vai além da UPP, ele não gosta muito do programa. Inclusive na entrevista do livro [‘Vivendo no fogo cruzado’] ele diz que não gosta do nome ‘pacificação’ por chamar muita atenção ao que realmente é. O que não está claro é por que o governo federal está apoiando. E por que a Ministra de Direitos Humanos chora quando vê uma notícia como a da mulher arrastada [Cláudia Silva Ferreira], a do Amarildo, e depois não faz nada de concreto. Não tem uma intervenção do Governo Federal. E tinha na época do Lula, isso eu tenho que dar crédito a ele, mas ele acabou se aliando ao Cabral, e a aliança com o Cabral foi mais importante do que os direitos humanos. Aliás, ele nos falou isso em uma das entrevistas: que faria aliança até com o diabo se fosse necessário para o Brasil aprovar as leis sociais para acabar com a pobreza. ‘E para passar as leis no Congresso, eu preciso do PMDB. E o PMDB no Rio é o Cabral. Eu tenho que me aliar ao Cabral’, ele disse. Era uma crítica dele mesmo ao sistema de governo. Ainda estávamos no Pronasci [Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania], mas ele já sabia que o programa iria morrer. O que precisamos é uma reforma geral, temos que rever a Constituição. Antes eu falava de desmilitarizar, mas agora eu defendo que a PM deve ser abolida. Precisamos de uma polícia civil para lidar com o povo, melhorá-la, treiná-la, trabalhar com inteligência, não pode ser os que estão aí hoje, mas acho muito difícil. A PM está nas mãos dos governadores.
Por que o Pronasci não vingou?
Eu acho que existem interesses por trás que estão vinculados ao crime organizado e que não querem que o programa dê certo. Realmente não interessa a muita gente poderosa – eu não diria que está no poder, diria poderosa – do crime organizado internacional, que está vinculado com o crime local, que isso dê certo. É mais fácil comprar a polícia, formar miliciano, do que ter uma polícia eficaz que trabalha com a comunidade e vai prevenir crime. Isso é bem claro. Os governadores não querem porque têm o Exército nas suas mãos e muitas vezes defendem interesses não só deles, mas interesses econômicos próprios. Vi uma notícia de que a senadora Kátia Abreu está apresentando um projeto no Congresso que elimina o cadastro das empresas que têm trabalho escravo. Isso é muito grave e mostra como ainda existem interesses até para manter a escravidão.
A investigação coordenada por Philipp Alston, relator especial da ONU sobre Execuções Extrajudiciais, Sumárias ou Arbitrárias, aponta diversas iniciativas como o fim da polícia militar e do caveirão, a instalação da ouvidoria da polícia de forma séria e a eliminação dos ‘autos de resistência’ ou ‘resistência seguida de morte’ para o avanço da segurança pública no país. Isso pode ajudar?
As sugestões do Philipp são importantes porque vêm da ONU, mas Luiz Eduardo Soares já falava isso e continua falando. Hoje a OAB já assumiu esse discurso. É importante que seja a ONU porque há possibilidade de sanções sobre o Governo Federal. E não vai ter esse papo de que não posso intervir porque a Constituição não deixa. Isso é difícil porque faz parte da geopolítica internacional não falar da violência do Brasil, não falar mal da UPP, não fazer sanção. Se o que está acontecendo no Brasil fosse na Ucrânia seria um escândalo internacional. Há todo um esquema internacional, porque querem que o Brasil continue fazendo o seu papel de subimpério. A doutrina de segurança nacional com desenvolvimento existe ainda e o papel geopolítico do Brasil como a Escola Superior de Guerra concedeu ainda está vigente dentro do contexto geopolítico internacional. Não é à toa que o Obama deu palmadinha nas costas do Lula e falou que ele é o cara. O Lula não entendeu o que isso quis dizer. Ele é o cara ideal para conduzir o país em uma geopolítica que interessa aos Estados Unidos, que nunca quiseram reformas políticas profundas no Brasil. Pode ter o Mujica no Uruguai que eles aguentam, dão prêmio, mas o Brasil é outro papo. O Brasil tem fronteira em quase toda a América Latina, domina o Atlântico inteiro, de lado a lado, com isso domina a África, e isso tudo está dentro da concepção da doutrina de segurança nacional e internacional da Escola Superior de Guerra.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Roque


De rerum natura

terça-feira, 27 de Maio de 2014

Quem ganhou as Europeias foram a abstenção, nulos e brancos



Texto recebido do nosso leitor A. Küttner de Magalhães:

Por muitas voltas que todos possam querer dar aos resultados destas eleições para o Parlamento Europeu, convenhamos que quem ganhou foi a abstenção, os brancos e os nulos. Tudo o resto é fazer de conta.
A abstenção por haver quem não achou que deveria ir votar, por não ter qualquer vantagem em lá ir. E os nulos e os brancos por haver quem fez o esforço de ir votar, por ser um dever democrático, mas, não tendo escolha, ou votaram em branco ou riscaram o voto.
Tudo o resto será vontade de negação de quem não quer assumir abertamente que perdeu. Todos, sem excepções, perderam. E até a  surpresa, para todos ou pelo menos para muitos, que foi  um candidato a estas europeias ter obtido muito mais votos do que se julgava, aconteceu devido à descrença em todos os outros e ao excessivo populismo da pessoa em questão.
Assim, foram mais umas eleições que só nos vieram mostrar que os políticos portugueses, sem excepções, estão no caminho errado. Nenhum defendeu a sério o país e a sua população, todos tentaram  defenderem-se a si próprios e obterem lugares individuais na Europa. Tudo o resto é justificar o injustificável. Ou falar muito sem  ter muito para dizer.
Todas as ilacções que sejam tiradas de que houve censura ao governo, ou aos partidos do “arco da governação”,   não serão mais do que manobras de diversão. Até a inexistência no nosso país de um partido de extrema-direita fez aumentar a votação no único partido,  que há muito tempo defende o nacionalismo e preconiza a saída imediata do Euro.
O povo mostrou claramente o seu desânimo, revelou o seu descrédito em todos os políticos. Se assim não fosse, a abstenção, os nulos e os brancos não seriam sido os grandes venderores da noite.
Claro que nenhum dos políticos que foi a eleições para estas auropeias aceitará esta conclusão. Nem o Presidente da República, no final do seu mandato, a irá aceitar. Se for para escrever comentários no seu Facebook ou para nos falar quando for ao estrangeiro, mais valerá estar quieto e calado, deixando o seu tempo acabar.
Se nenhum político de carreira aprender a lição destas eleições será desastroso. Se nenhum arrepiar percurso passando a fazer diferente será dramático.
É chegado o momento de nós, cidadãos, não candidatos a qualquer cargo político, mas desejosos de ter um país onde possamos viver, exigir que aqueles que se apresentaram nas eleições no dia 25 de Maio de 2014 nos digam o que pensam fazer num futuro próximo. Se for mais do mesmo, não se admirem se, numas próximas eleições, a percentagem de abstenção, nulos e brancos chegar quase aos 100%.

A. Küttner de Magalhães

domingo, 25 de maio de 2014

IHU/Unisinos. Adereços esportivos com produtos tóxicos. É o mundo oxímoro...


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Jogo sujo

Para além de todos os impactos que a realização da Copa do Mundo no Brasil vem trazendo, estudo do Greenpeace Alemanha aponta agora que, dentro dos gramados, também há graves problemas.
A reportagem foi publicada por Greenpeace, 20-05-2014.

A pesquisa revelou que produtos da Adidas, Nike e Puma voltados ao mercado de futebol se mostraram quimicamente tóxicos. Trinta e três itens, incluindo chuteiras, luvas de goleiro e a ‘Brazuca’, bola oficial da Copa, tiveram suas substâncias analisadas. A famosa chuteira 'Predator’, da Adidas, contém quatorze vezes mais substâncias tóxicas do que o permitido pela própria empresa.
“Marcas como a Adidas fornecem equipamento para alguns dos maiores times do mundo, e dizem estar proporcionando um lindo jogo. No entanto, nossas pesquisas revelam que eles estão jogando sujo. Com seus lucros exorbitantes durante a Copa, pedimos que essas marcas parem de estragar o futebol e limpem seus produtos”, explica Manfred Santen, coordenador da campanha de Detox do Greenpeace.

Laboratórios independentes encontraram compostos químicos como os perfluorados (PFC), nonilfenol (NPE), ftalatos e dimetilformamida (DMF) em produtos de todas as três empresas, que são largamente consumidos no mundo. Essas substâncias podem afetar o meio ambiente e influenciar a cadeia alimentar, além de serem cancerígenas, desregularem o sistema hormonal e afetarem a reprodução.

Dezessete de vinte e uma chuteiras e metade das luvas de goleiro testadas apresentaram PFCs particularmente perigosos, com PFOA, que pode afetar o sistema imunológico e reprodutivo.

Atrás da ‘Predator’, a chuteira ‘Tiempo’, da Nike, contém 5,93 microgramas por m² de PFOA, nível considerado alarmante. Um par de luvas Adidas ‘Predator’ também mostra excesso de substâncias tóxicas em relação aos limites propostos pela empresa.

A bola ‘Brazuca’, por sua vez, é composta por NPEs, uma substância que, quando em contato com o ambiente, libera nonilfenol, conhecido por causar a feminilização de peixes machos na Europa e modificar outros organismos aquáticos. O nonilfenol é proibido nas produções têxteis de países da União Europeia e nos EUA, mas na China e em outros países, onde as grandes marcas de roupa estabelecem suas linhas de produção, o uso é liberado. NPEs também foram encontrados em mais de dois terços das chuteiras e em metade das luvas, indicando um uso intenso desse composto químico.
Ftalatos e dimetilformamidas foram detectados em todas as 21 chuteiras. O DMF, usado como solvente em chuteiras manufaturadas, é classificado como tóxico para reprodução e pode causar lesões se entrar em contato com a pele.

“Apesar de seus compromissos, a Nike e a Adidas não estão limpando sua produção de substâncias tóxicas. Em nome das comunidades locais afetadas pela água contaminada, dos torcedores e dos jogadores, pedimos a retirada de qualquer composto químico tóxico dos produtos citados e a publicação de um plano para a erradicação do uso do PFC”, defende Santen.

Detox

Desde seu lançamento em 2011 pelo Greenpeace, a campanha Detox já convenceu vinte marcas de roupas e acessórios, de luxuosas e pret-à-porter até esportivas, a se comprometerem com o fim do uso de compostos químicos tóxicos em suas cadeias de produção até 2020. Enquanto algumas empresas reconhecem a urgência da situação agindo de acordo com o combinado, outras como a Adidas e Nike se escondem atrás da papelada e da ‘maquiagem verde’.

De Rerum Natura. O poema faz recordar Matraga : "Eu vou pro céu nem que seja a porrete!".

sábado, 24 de Maio de 2014

Ai Se Sesse

Um estudante do nordeste brasileiro que se encontra em Coimbra a fazer parte da formação para ser professor, deu-me a conhecer um poema maravilhoso da "literatura de cordel". O seu título é Ai Se Sêsse e escreveu-o Zé da Luz, grande poeta popular. Se o leitor o ler ou o ouvir (aqui) aposto que sorrirá. É essa a força da arte...

Ai Se Sesse
Zé da Luz
Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse 
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse
e as virgi toda fugisse!

Estado. Enquanto tal coisa ocorre, no Brasil, os marqueteiros de bancos, digo, analistas econômicos da imprensa, falam em "lição de casa", "accountability"(distorcendo a palavra e a idéia, porque accountability é algo que surgiu para defender o cidadão contra os poderes, inclusive os econômicos), etc. Quem discorda dos ditos marqueteiros, oooppsss, analistas econômicos, sofre censura, somem das redações, etc. This is this and that is that.

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Recuperação da Islândia é retrato de Europa dividida

País deixou os bancos quebrarem, manteve benefícios sociais e população rejeitou adesão à União Europeia

25 de maio de 2014 | 0h 14

Jamil Chade
 
Enviado Especial a Reykjavic - Numa ilha com 12 vulcões e instalada sobre uma falha geológica, o maior desastre sofrido pelo país veio dos escritórios de banqueiros sofisticados. Há cinco anos, os bancos da Islândia acumularam uma dívida 12 vezes o tamanho do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Quando eles quebraram, o país derreteu.
Para superar seus problemas, o governo adotou uma política contrária a todas as receitas conhecidas: o governo não salvou os bancos, manteve os benefícios sociais da população, implementou um controle de capitais e deu um calote bilionário em investidores internacionais. Mas, quando o debate foi definir o seu futuro, a ideia que parecia óbvia, de se unir à União Europeia (UE), foi rejeitada pela maioria da população. 

Cinco anos depois da maior crise do continente desde a 2.ª Guerra Mundial, o euro sobreviveu graças a resgates bilionários. Se o pior foi evitado, uma das heranças foi um continente mais dividido e mais desigual que nunca. Se o sul quase entrou em colapso, economias como as da Alemanha, Luxemburgo, Áustria e os países escandinavos conseguiram se manter numa situação relativamente positiva. 

A disparidade foi escancarada e acabou reabrindo debates que durante anos haviam sido aparentemente enterrados. Várias questões voltaram a surgir: quais são as fronteiras da UE, quem deve fazer parte dela, para que serve o bloco e, acima de tudo, qual a responsabilidade dos países ricos dentro do bloco. 

Entre as nações que fazem parte da UE, partidos que defendem a saída do bloco ganharam força. Já as forças políticas tradicionais que sempre apoiaram o projeto europeu hoje falam abertamente na volta das fronteiras internas. 

A ideia de que todos no continente inevitavelmente fariam parte um dia do bloco foi também derrubada. Na Islândia, o processo de adesão foi engavetado. Na Suíça, os grupos que defendiam um novo referendo foram colocados na geladeira. Na Noruega, a adesão já nem mais é debatida. Entre os governos que pedem a adesão ao bloco, as negociações estão mortas. 

Mas o que mais chama a atenção é que, mesmo dentro do bloco de países que usam a moeda comum, governos defendem a criação de uma Europa a "duas velocidades". De um lado, os países saneados, que crescem e querem aprofundar a integração. De outro, aqueles que ou não têm condições de aderir às regras ou simplesmente acreditam que não seja a melhor opção para suas economias.

A reação, segundo diplomatas, é resultado dos erros cometidos pela UE no passado. Documentos obtidos com exclusividade pelo Estado revelam que a Europa sabia que a Grécia não tinha condições de aderir ao euro, mas, politicamente, não queria deixar o país de fora. Agora, com a crise, esses arranjos políticos foram denunciados. 

Fronteiras claras. Politicamente, o euro abafou a disparidade econômica do continente nos últimos anos. Mas, com a crise, as fronteiras da Europa que haviam sido suprimidas pelos políticos voltaram a ficar claras na economia real. E o mercado foi o primeiro a denunciá-las. 

De um lado, títulos de governos como o da Grécia foram classificados por agências de rating como "lixo". França, Holanda e Reino Unido perderam o status de AAA. A classificação máxima acabou sendo um direito exclusivo de apenas sete países na Europa: Alemanha, Finlândia, Luxemburgo, Suécia, Noruega, Dinamarca e Suíça. Desses, apenas três estão na zona do euro. 

Os últimos dados de crescimento também apontam para uma Europa a dois ritmos. A Alemanha, que representa hoje 30% da produção do continente, deve crescer 1,8% em 2014. O Reino Unido também deve ter uma expansão de 2,7% em 2014 e 2,5% em 2015. Na Islândia, a projeção é de crescimento de quase 3%, ante 2,8% na Suécia. 

Já a Espanha, Grécia e Itália teriam uma expansão de apenas 0,6%. Mesmo a França crescerá menos de 1%. 

A crise também aprofundou a disparidade social entre os países europeus. Segundo um estudo realizado por mais de cem especialistas e reunidos pelo think-tank alemão Bertelsmann Stiftung, as diferenças sociais dentro da Europa aumentaram durante a crise e hoje são uma ameaça ao bloco. "A brecha social ameaça a viabilidade da UE", alertou Aart De Geus, o diretor do Bertelsmann Stiftung.

De um lado, a Europa conta com Suécia, Noruega, Suíça, Finlândia, Dinamarca e Alemanha. Nesses países, as contas estão relativamente em dia, o desemprego é baixo e o sistema de bem-estar social foi mantido. "Considerada em um momento como ‘o homem doente’ da Europa, a Alemanha é hoje a líder entre os países que usam o euro", apontou.

Na Islândia, mesmo as famílias que sofreram com a crise foram de certa forma resgatadas. O governo fechou um acordo para o perdão das dívidas e os benefícios sociais não foram cortados. A estudante Solveig Gisladettir conta que, quando o país quebrou em 2008, sua família teve de sair da casa onde estavam. 

"Foi um momento difícil. Mas hoje já voltamos a uma situação normal", conta a islandesa, com seu computador de último modelo se preparando para as provas na faculdade de Ciências Sociais.
Do outro lado estão Grécia, Itália, Portugal e Espanha, onde o desemprego entre os jovens chega a passar a marca de 50% em alguns casos. "Diante desses dados, precisamos falar em uma geração perdida nesses países", disse De Geus.

Os dados colhidos pela pesquisa revelam uma dura realidade. Na Espanha e na Grécia, mais de um quinto das crianças vive na pobreza. Desde 2009, as taxas de pobreza no bloco aumentaram de 9,4% da população para 10%. Na Europa Central, a promessa de que a adesão ao bloco acabaria com a pobreza não se transformou em realidade. Na Romênia, 30% da população vive ainda com menos de 4 por dia

sábado, 24 de maio de 2014

Radio Jovem Pan, alguns comentários de Roberto Romano sobre a política nacional.

 Radio Jovem Pan, alguns comentários de Roberto Romano sobre a política nacional.

http://mais.uol.com.br/view/85r7d735pwrw/roberto-romano-0402CD183368CCA94326?types=A&

The New York Times

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Pope Francis arriving in Amman Jordan on Saturday. Credit Muhammad Hamed/Reuters
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AMMAN, Jordan — Pope Francis called “urgently” on Saturday for a “peaceful solution” to the Syrian crisis and a “just solution” to the Israeli-Palestinian conflict, as he started a three-day sojourn through the Holy Land at a time of regional turmoil and tension.

Reiterating a theme of his 15-month-old papacy, Francis praised Jordan for providing a “generous welcome” to refugees from “neighboring Syria, ravaged by a conflict which has lasted all too long.” He expressed “deep regret” for the “continuing grave tensions in the Middle East,” and, detouring from his prepared remarks, said, “May God protect us from the fear of change.”

The pope spoke to about 200 invited guests – many of them Christian dignitaries in elaborate costume – at the royal palace at an afternoon welcome ceremony. King Abdullah II told the pope his “humanity and wisdom can make a special contribution” to helping Jordan and other countries where Syrian refugees have settled, as well as in the Israeli-Palestinian arena.

“The status quo of justice denied to the Palestinians, fear of the other, fear of change – these are the way to mutual ruin, not mutual respect,” the king said. “Together, we can help leaders on both sides take the courageous steps needed, for peace, justice and coexistence.”

Abdullah spoke repeatedly about the collaborations and historic connections between Muslims and Christians, saying that they are neighbors and that they together make up “more than half of humanity.” He did not mention Jews. The pontiff, in contrast, spoke about all three monotheistic religions, calling Jordan a “land so rich in history and with such great religious significance for Judaism, Christianity and Islam.”

Francis is the fourth pope to visit the Holy Land, making what he described as a “strictly religious” pilgrimage that is focused on a meeting Sunday with the Patriarch of Constantinople to mark the 50th anniversary of a historic Catholic-Orthodox reconciliation. But the itinerary is laced with political minefields, particularly given last month’s collapse of Israeli-Palestinian peace negotiations and the raging Syrian civil war.

On Sunday morning, Francis is to become the first pope to travel directly from Jordan to the Israeli-occupied West Bank. He will meet President Mahmoud Abbas of the Palestinian Authority as a peer head of state, underscoring the Vatican’s support for the 2012 United Nations resolution upgrading the Palestinians’ status. Palestinians have trumpeted the visit to the “State of Palestine,” as the Vatican website also describes it, and will use Francis’s time in Bethlehem to highlight hardships under Israeli occupation.

Francis will also be the first pontiff to lay a wreath on the grave of Theodore Herzl, the father of modern Zionism, a boon to Israelis more than a century after Pope Pius X harshly rejected Herzl’s appeal for support. And on Monday, he is to say Mass on Mount Zion, claimed as both the site of the Last Supper and the tomb of King David, a plan that has ignited anti-Christian graffiti and protests from religious Jews.

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Here in Jordan, where the pope had his largest public audience about 15,000 people attending a two-hour Mass at a soccer stadium — the landscape is less fraught. The palace hopes the visit will focus the world’s attention on the influx of more than 600,000 Syrian war refugees, which has overwhelmed Jordanian cities and strained water, health and educational resources. Jordan is also counting on his sunset prayers at Bethany Beyond the Jordan, where some believe Jesus was baptized, to help a lagging tourism industry.
 
About 90,000 pilgrims visited Bethany last year, compared with 430,000 who stopped at an Israeli park on the other side of Jordan River that offers a rival claim as the baptism site described in the New Testament. Francis is the third pope to visit Bethany, and the Jordanians are promoting a website filled with biblical, archaeological and other evidence that theirs is the authentic spot.

The trip is both a showcase and a test for Francis, 77, who has so far thrilled the faithful with his humility, warmth and disregard for Vatican formality. His popularity began practically before the white smoke declaring his election had cleared, when he greeted throngs in St. Peter’s Square with a simple “good evening.” He has shunned gilded vestments and fancy shoes, flummoxed guardians of Vatican protocol with off-the-cuff remarks and impromptu personal phone calls. He lives in modest quarters and on this trip refused armored vehicles and brought a trimmed-down entourage.

Francis, who chose his name to focus attention on the plight of the poor, shocked the Roman Catholic world with a September interview in which he said the church had grown “obsessed” with abortion, same-sex marriage and contraception. While he has not changed church doctrine, he has transformed the tone, asking, “Who am I to judge?” regarding homosexuality.

Refugees have been a particular concern of the pope. His first official trip was to the tiny Mediterranean island of Lampedusa, a gateway to Europe for thousands of desperate asylum seekers. He later suggested empty church buildings could house refugees, and visited a Rome refugee center, where he spoke with a Syrian family.

Francis, who was scheduled to meet Saturday evening with several hundred refugee children from Syria and Iraq, has decried the “globalization of indifference” to the humanitarian crisis in and around Syria, but also refused to resign himself to the flight of Christians from the Middle East.

Shamon Bahnan, who fled Syria with his wife and son in October and has been staying at a church in downtown Amman, welcomed the pope’s visit but worried that he might publicly urge Christians to stay in the region.

“That will ruin it for us,” said Mr. Bahnan, 60, who hopes to emigrate to Sweden or Belgium. “European countries will close their doors on us. I can’t stay living in these conditions and I can’t go back.”

At the stadium in Amman, thousands of refugees, Jordanians, and pilgrims from Europe listened to Christian music as they awaited the pontiff’s arrival on a stage festooned in yellow and white fabric, the Vatican colors. Some 1,200 schoolchildren were to take their first communion, including Jude Handal, 10, who said, “the Pope is the King of all Christians.” Francesca Osbaldeston, 64, a retired teacher, said she and a friend had traveled from England “to tell the Christians of the Middle East we haven’t forgotten them.”

Juliana Muni, 27, an Iraqi Chaldean who came to Jordan six months ago with her three children, said, “Christians are the first to pay the price of instability.”

Roque


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Semana em Pauta, Radio Web Unicamp, entrevista com Roberto Romano

Gazeta de Piracicaba. Agradeço ao professor Daner Hornich, pelo envio da matéria e pela gentil acolhida em Piracicaba.

GAZETA DE PIRACICABA 

 CIDADE PIRACICABA, TERÇA-FEIRA, 20 DE MAIO DE 2014

ADRIANA FEREZIM
Da Gazeta de Piracicaba
adriana.ferezim@gazetadepiracicaba.com.br
“Osistema político brasileiro  ainda é contrário ao debate com a sociedade e à liberdadede imprensa", afirmou, ontem, o professor de Filosofia Roberto Romano, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), à Gazeta. Ele participoudo evento Ciclo de Debates: 50 anos do Golpe Civil Militar e os Direitos Humanos que está sendo realizado pela Faculdade Salesiana Dom Bosco Piracicaba. Mais duas palestras serão realizadas pela instituição, sobre ética e educação. Romano é doutorado pela L'École des Hautes Études en Sciences Sociales, (EHESS), na França e falou, ontem, paracerca de 200 pessoas, entre estudantesdo Ensino Médio, da Faculdade Dom Bosco dos cursos de Pedagogia, Administração e Ciências Contábeis. O auditório da instituição ficou lotado durante o evento, que teve início às 19h30.


O professor destacou que o Brasil não aprendeu com o golpe, mesmo passados 50 anos e que outros golpes continuam ocorrendo, como os planos econômicos que são elaborados em segredo pelos governos, sem a participação da sociedade, e lançados ocasionando prejuízos a toda sociedade ou a grande parte dela, como exemplo o Plano Collor e o Cruzado. "Há muitas coisas geradas no Estado autorítário que são baseados em três monopólios, o da força física que precisa ser empregada pelo Estado, o da norma jurídica, onde mais uma vez o Estado mantém a criação das leis e a taxação do excedente econômico por meio dos impostos. O que aprendemos com as ditaduras de Vargas (ex-presidente Getúlio Vargas) e o golpe de 64 é que esses três monopólios têm de ser controlados pela cidadania". Segundo ele, um exemplo atual é o controle da polícia. "No Brasil não temos uma política de segurança pública, mas uma Polícia Militar com as mesmas prerrogativas de Exército. Para a polícia não há cidadãos que cometem crimes,mas bandidos inimigos e há o conceito que por isso eles não têm o direito de defesa", afirmou.


O professor analisa que na Constituição Federal de 1988, ficou uma herança do período da ditadura militar que precisa ser debatida. "As Forças Armadas Brasileiras têm a função de garantir a ordem externa e interna do país. Em outros países, as Forças Armadas combatem o inimigo externo. Foi uma continuidade do golpe colocada na Constituição pelas forças conservadoras. Para mudar isso, somente com a força da cidadania".Os cidadãos, por meio de mobilizaçõestêm conseguido algumas vitórias contra essa herança que está impregnada no sistema político do país. "Poucoa pouco estão obtendo conquistas.Entre elas destacou aLei da Ficha Limpa e a Lei daTransparência. Somente conhecendo as ações dos governos é possível diminuir os excessos e as ocorrências de novos golpes", comentou. INTERESSES Na palestra, Roberto Romano explicou, didaticamente, o que é o Estado Moderno e como ocorre a relação entre o governo e o controle da população. "Em um Estado absolutista a conduta é autoritária e o direito dos povos é derrocado por leis e passa a vigorar somente
as do interesse do Estado". Romano fez considerações sobre o que é o golpe. "De acordo com Gabriel Naude, que afirmou em 1640, há dois tipos de golpes: o bem-sucedidoe mal-sucedido. Os que têm êxito ocorrem sem que a população perceba, já os malsucedidos, para serem implantados, tiveram de fazer uso da força física, com uso da violência, torturas, e isso aconteceu no século XX em muitos países". afirmou.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Após críticas, juiz federal volta atrás e reconhece religiões afro-brasileiras

Após críticas, juiz federal volta atrás e reconhece religiões afro-brasileiras

Ouvir o texto

O juiz da 17ª Vara Federal do Rio, Eugênio Rosa de Araujo, voltou atrás e afirmou nesta terça-feira (20) que reconhece os cultos afro-brasileiros como religiões. 

Na semana passada, adeptos da umbanda e do candomblé se revoltaram com o magistrado ao tomar conhecimento de uma decisão em que ele sustentava o contrário. 

Araujo recusou pedido do Ministério Público Federal para retirar do YouTube vídeos postados pela Igreja Universal que fazem ataques às crenças de origem africana. 

Em nova decisão, o juiz manteve os vídeos no ar, com o argumento de que defendeu a liberdade de expressão, mas voltou atrás em sua opinião sobre os cultos afro-brasileiros. 

"Faço a devida adequação argumentativa para registrar a percepção deste Juízo de se tratarem os cultos afro-brasileiros de religiões, eis que suas liturgias, deidade e texto base são elementos que podem se cristalizar, de forma nem sempre homogênea", afirmou. 

O juiz disse ainda que "o forte apoio dado pela mídia e pela sociedade civil demonstra, por si só e de forma inquestionável, a crença no culto de tais religiões". 

A Procuradoria já recorreu ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região para tentar tirar os vídeos do ar

Guerra nas Estrelas, Roberto Romano

“Guerra nas Estrelas” (uma análise das metáforas do corpo e da máquina na filmografia). Roberto Romano

Guerra nas estrelas

1) O senhor poderia explicar melhor o conceito da fantasia romântica, com a qual disse que a saga tem muito a ver?'

Quem segue A Flauta Mágica nota que a peça de Mozart pertence de fato à era das Luzes. Nela, o jogo entre o lado sombrio(a rainha da Noite) e o solar (Sarastro) se resolve na guerra em que vence o brilho da nossa estrela. É o que entoam os versos finais da obra: “die Strahlen der Sonne vertreiben die Nacht,/Zernichten der Heuchler erschlichene Macht” (Os raios do Sol afastam a Noite, destruindo o poder maligno). Graças são dadas ao casal divino, Osíris e Ísis, porque eles permitiram que o bom poder, o luminoso, triunfasse “premiando a beleza e a sabedoria com uma coroa eterna”. O romantismo lutou contra o triunfo da Luz celebrado por Mozart em nome da Razão. Os românticos tentaram dizer que os humanos são dotados de forças mais amplas (entre elas, o sonho e o dom dos poemas) do que a racionalidade científica e tecnológica. A imaginação é um poder cujo ápice encontra-se na fantasia, segundo Friedrich Schlegel, importante romântico. Para ele, a razão só conhece o mundo físico, que éexterior ao homem. Já a imaginação, em sentido oposto, conduz ao divino. Ela não brota apenas do intelecto e da pura lógica matemática, e o seu momento mais livre de amarras lógicas, a fantasia, gera a força dos sonhos e a beleza anímica. O termo alemão para a força em questão é das Wunder, o maravilhosoque afasta o cotidiano prosaico, sem graça, racional. Os mitos entram na perspectiva romântica deste maravilhoso, em favor do lado noturno da alma. Na fantasia não existem contrários ou contraditórios insolúveis, como ocorre na lógica puramenteintelectual. Nela, afirma Maxime Alexandre, “uma princesa nasce de uma gota de sangue, as árvores cantam, ocorrem chuvas de vinho ou as rosas caem como neve, as correntes dos riachos são de puro leite”.

Ao contrário do pensamento mecânico que determinou a cultura moderna, no romantismo os homens não constituem um sistema de máquinas cuja alma, puro pensamento, seria exterior ao corpo. Uma filosofia assim, que separa corpo consciência, foi produzida pela doutrina cartesiana, seguida pelo racionalismo até o século XVIII. A Luz da estrela solar (metáfora da consciência pura, separada do corpo) na guerra cósmica, espanca eternamente o lado escuro. No lado oposto a este ideário racionalista, os românticos assumem que é impossível superar a polaridade entre luz e trevas e que resiste sempre uma passagem possível das trevas às luzes, e vice-versa, da alma ao intelecto. O romantismo une-se à Noite e à Morte, sendo esta última tão apaixonante quanto a via racional luminosa. Diz Novalis, talvez o maior dos poetas românticos: “É na morte que o amor transforma-se em mais doce; para o amante, a morte é noite nupcial, segredo de suaves mistérios”. Para o romantismo, o universo imaginado enquanto máquina e produzido pelo cálculo matemático (sobretudo no século XVIII) é pesadelo ameaçador. Não é verdade, dizem os românticos, que os animais e os homens sejam apenas mecanismos automáticos e sem liberdade. Os mecanicistas do século XVII, por exemplo, causaram uma anedota que ilustra bem a idéia do animal e do homem mecânico: certo dia um filósofo mecanicista topa com uma cadela grávida. Dá-lhe um pontapé. Seu colega o acusa de maldade. Resposta : “trata-se apenas de uma bem agenciada máquina”. Se os animais são máquinas e os homens idem, pensavam os mecanicistas, as sociedades e os Estados também seriam mecânicos. Os românticos erguem-se contra Hobbes que comparava o Estado a um relógio bem ordenado. A sociedade e o Estado, no pensamento romântico, seriam organismos, não máquinas, e nos organismos da sociedade e do Estado se reúnem indivíduos capazes de sentimentos, afetos, solidariedade. Se fosse verdade, de outro lado, que a consciência lógica seria a única atividade além da operação corporal, e se o corpo fosse de fato apenas máquina, desapareceriam a poesia, o sonho e a liberdade porque a máquina não possui sentimentos. A tese filosófica puramente racional afasta o aspecto sensível dos homens – a fantasia – e também expulsa os mitos e as fábulas. Sem estes últimos, a alma humana resseca. O mundo racionalista se reduz a afirmar a existência de um amontoado de engenhos mecânicos sem coração, emoções, liberdade ou sentimentos. O grito de Novalis resume o programa romântico: “é preciso romantizar o mundo (…) introduzir alma na máquina”.

O programa político do romantismo prega o retorno à Idade Média (chamada pelos racionalistas de a Idade das Trevas) com seus heróis e cavaleiros, suas fábulas, seus milagres, sua Igreja Católica organizada de maneira hierárquica como um corpo e não como uma fria máquina burocrática. A Idade Média é a era da fantasia, não da racionalidade sem coração. George Lucas se apropria desse legado romântico imenso e o projeta num futuro incerto onde as fronteiras do sonho e da realidade são mais incertas ainda. Seu filme expõe a existência de entes mecânicos em profusão maravilhosa. Existem Estados-máquina, garantidos por soldados-máquinas, onde os governantes são máquinas ou homens que se transformaram em máquinas. Na saga fílmada por Lucas, a técnica e a mecânica podem ser dirigidas em favor da alma e dos sentimentos, mas também produzem morte e insensibilidade.

Note-se a diferença entre o romantismo de Lucas e o de Stanley Kubrick. Este, sobretudo em 2001, uma Odisséia no Espaço, mostra os malefícios da cultura mecânica e os limites do ser humano. É antológica, neste sentido, a seqüência que vai da morte de um macaco por outro, com um instrumento mecânico, um osso que perde a função de integrador do corpo animal e se torna porrete. Aquele osso, jogado para o firmamento, continua movendo-se com o formato de nave espacial e termina seu itinerário revestido com a forma de uma caneta flutuante. A caneta acumula os significados de vida e morte porque é imagem que sintetiza a ciência, a literatura, o poder. Entre o porrete e a caneta, a evolução apenas refina a força corrosiva da técnica e da ciência mecânicas. Hall resume o problema: ele é superinteligente e quando surge uma “falha” (a paixão do orgulho) no seu funcionamento, torna-se assassino frio. Em Kubrick não existe salvação pela fantasia nem pelos sentimentos.

Já em Lucas as máquinas podem ser vencidas pela inteligência a serviço da sensibilidade. Sem fantasia não resiste nenhum afeto, o homem decai e se torna máquina insensível que produz poder e morte. Anakin, orgulhoso e vingativo, torna-se uma entidade mecânica e impiedosa, pois opera sem nenhuma simpatia ou amor pelos outros. Ele perde a fraqueza humana (as paixões), mas regride ao plano de “máquina sem alma”. A trilogia inteira retoma o das Wunder romântico, com suas maravilhas e heroísmos que realizam façanhas impossíveis se os parâmetros para elas fossem dados apenas pela ordem puramente racional. Em todas as seqüências de Star Wars domina a atmosfera onírica com base num pesadelo perene: a luta entre o lado escuro e o luminoso. Ao contrário, portanto, d’ A Flauta Mágica, não existe vitória da Luz sobre as Trevas na trepidante narrativa de Lucas. Os humanos podem seguir o rumo do amor e dos afetos (dirigidos pela sabedoria) ou caminhar para a morte escura. Uma suspeita generalizada se espalha pelas seqüências, anunciando a mais do que certa morte do universo, dos homens e de suas instituições. Não existe república que sempre dure, não existe império que nunca acabe.

A lição, aqui, serve para todos os poderosos que usam máquinas para dominar seres humanos. Especula-se muito sobre o “recado” político do filme, se ele critica o império norte-americano ou faz a sua apologia. As duas hipóteses não indicam algo mais fundamentalque se manifesta no filme. República e império são formas políticas derivadas, repetem o Estado enquanto um sistema mecânico superposto aos organismos dos seus cidadãos. Os regimes são cascas duras que emolduram as vidas individuais e coletivas.

A tese romântica, claramente exposta por Lucas, recusa as formas derivadas do Estado, império ou república. Elas são instáveis, efêmeras, exteriores aos corações, caducas e só permanecem com o uso da força física, a guerra e o contínuo aperfeiçoamento das armas. A família, pelo contrário, é mantida por laços afetivos originais e não-derivados. Ela resiste mesmo quando os regimes políticos estão em frangalhos. A família é o centro de sentido orgânico da vida coletiva e nela o afeto, os sentimentos e o amor são os elos que unem indivíduos e grupos. Daí que os políticos procurem controlar, manipular ou mesmo extinguir os laços familiares. A obra-prima da política imperial é a ruptura entre Anakin/Vader e seu filho, o que subverte todos os laços familiares e inviabiliza a família como fundamento de unidade societária. Esta tese sobre a família é o centro mais estratégico do romantismo, contra o Estado e a sociedade modernos, desde o começo do século XIX. Para dizer as coisas bem diretamente: pouco importa se o Estado aparece hoje na figura de uma república democrática, como seriam os EUA antes de se definir como a potência hegemônica, ou se ele assume a função imperial, sob o comando conservador instalado na linhagem Reagan-Bush. Para Lucas, as duas formas são violentas,contrárias à vida orgânica e promovem a guerra, o avanço científico e tecnológico tendo em vista apenas a morte. O Estado, republicano ou imperial, é o inimigo da família, a única fonte da vida e dos afetos. Entre os regimes estabelecidos e a família, a irmandade Jedi ocupa um espaço intermediário. Nela, como nas ordens religiosas medievais, todos são “irmãos” e nela os afetos existem, temperados pela força que, por sua vez, é dosada pela sabedoria. Mesmo os jedis, no entanto, precisam das famílias para regenerar a sua organização.Embora vivam séculos, eles morrem e devem ser substituídos.

A família cumpre o papel de renovar a fraternidade com indivíduos afetivos, pensantes, dispostos ao bem coletivo. Os jedis guardam a sabedoria tradicional e a força legítima, a família é a sua fonte de rejuvenescimento. E dizendo as coisas mais diretamente ainda: Lucas não apóia a república ou o império norteamericano, mas reaviva o ideário conservador e romântico que lutou e luta contra a modernidade. Seus heróis viveriam perfeitamente adequados nos moldes de associações fraternas como a TFP. Esta última, em sua fala, ritos e gestos, é fóssil guardado no escrínio da memória e da imaginação. Nela pode-se enxergar o que foi o ideal romântico-conservador dos séculos XIX e XX. O filme de Lucas mostra, no entanto, que longe de se limitar ao folclore ultrapassado, como na TFP, o romantismo instalou-se na alma das massas como resultado de uma propaganda que moveu poetas, romancistas, filósofos, antropólogos e, com o cinema e a TV, atingiu escala planetária.


Star Wars é uma das versões românticas, talvez a mais popular, de nossos dias. Como disse acima, cineastas também românticos como Kubrick criticam o mundo do Estado-mecânico que se mantém apenas com a força das armas e com instrumentos tecnológicos que produzem morte. Basta assistir ao magnífico Dr. Strangelove para perceber este ponto. Mas em Kubrick não existe nenhuma mensagem de salvação, como em Lucas. Este último apresenta a família e os afetos como o último recurso dos humanos contra o Estado-guerreiro. A saga é um evangelho que anuncia uma notícia antiga como a crítica da modernidade ocidental, atualizando o sonho e o pesadelo anunciados pelos românticos. A saga recolhe elementos das lendas medievais e do Oriente (outro traço do romantismo é a valorização da sabedoria do Oriente, em detrimento da seca racionalidade ocidental) e das poesias guerreiras (aristocráticas) elaboradas na Grécia. O herói de Homero implora à divindade: “Grande Zeus, dissipa a obscuridade que esconde os gregos; devolve-nos a luz; e se é preciso que pereçamos, se tal é a tua vontade suprema, faz com que pereçamos à luz dos céus”. Esta prece se repete nos mínimos gestos e falas dos jedis e de outros personagens valorosos expostos no filme. Todos eles temem o lado escuro da força, procuram ampliar o lado claro. A vitória da luz, ou das trevas, é sempre provisória, jamais garantida.

2) A trilogia anterior é comumente associada à idéia mitológica da jornada do herói (no caso, Luke Skywalker). Existe alguma associação desse tipo também nessa nova série? Ou ainda, como fica a questão do herói? Anakin pode ser considerado o herói da saga em algum momento (já que nos primeiros filmes ainda está ao lado dos jedis, se preocupa em defender a senadora, por quem se apaixona, etc.)? E existe algum mito sobre essa transformação do herói em vilão?

Nas sagas medievais o herói comete infrações éticas, viola as leis e os costumes tendo em vista valores maiores que definem os seus alvos como a luta pela justiça, o resgate de uma donzela, a recuperação de um reino usurpado. Não se deve projetar nele a forma que impera depois do século XIX, a do personagem segundo os termos de Carlyle, para quem o herói “é uma fonte viva de luz, junto a qual é agradável estar perto. A luz que ilumina e que iluminou a escuridão do mundo; e isto não apenas como uma espécie de lâmpada apenas, mas em vez disto como uma luminária natural brilhando por graça celeste; uma fonte fluente de luz (…) de uma intuição nativa e original, de masculina e heróica nobreza; – em cujo brilho todas as almas sentem-se bem”.

No universo grego não se encontra nenhum sujeito assim. Uma das marcas do herói grego é a metis (astúcia) que permite enganar os inimigos no momento exato (kayrós). Como explica o antropólogo Jean-Pierre Vernant, em livro especialmente dedicado às noções de astúcia na Grécia, para um grego todos os seres naturais (e o homem integra a natureza) possuem a sua astúcia. O polvo a usa quando joga a tinta negra que o disfarça. O camaleão é todo ele astucioso. O pescador precisa de muita ardileza para apanhar o peixe no exato momento em que o animal passa no rio. Se ele não sabe jogar o arpão no momento exato (kayrós), perde o peixe. O político tem sua astúcia, etc. Ulisses seria, se pensado pelos padrões morais posteriores ao século XIX, um perfeito salafrário, nunca um “herói”. Tanto na Grécia quanto na Idade Média há, sim, uma idealização dos heróis. Mas eles seriam tão formidáveis, generosos e destemidos que os defeitos se integram no todo de seu caráter. Ulisses, na jornada de retorno ao lar, usa inúmeras trapaças. Agamenon é um covarde com sede de poder (não pisca ao condenar à morte a sua própria filha, Ifigênia, para garantir o controle dos gregos) e assim por diante. No teatro grego, Antígona é acusada de traidora porque enterrou seu irmão, Polinice contra as ordens do governante. Polinice tomou as armas contra a sua cidade e tornou-se um traidor. Como o governante era um tirano, o gesto de Polinice é ao mesmo tempo bom e mau; ele é ao mesmo tempo herói e traidor. No mundo dramático moderno encontramos em Shakespeare um personagem heróico que se transforma em vilão. Trata-se do guerreiro Coriolano. Corajoso, leal, cheio de virtudes, aquele soldado defende os valores aristocráticos e se revolta contra a demagogia (que gerou o império). Coriolano é o guerreiro que salva Roma, mas se transforma em inimigo do povo romano. Ele, que estava para atingir o consulado, foi banido e se uniu aos inimigos da cidade. Trata-se de uma longa história de vingança. O lado trágico de muitos heróis deve-se justamente à sua passagem do estatuto de homem “bom” para o de “renegado”. É o caso de Macbeth e, ainda na Grécia, de Édipo. O romantismo trouxe muitos exemplos deste tipo, como o caso de Michael Kohlhaas que lutou pela justiça e pouco a pouco se degradou ao papel de

vilão e sanguinário.

3) Outro aspecto que o senhor cita é a questão da estética do feio. Ao ser revelado que ele é o representante do lado negro da Força, por exemplo, o chanceler Palpatine assume uma aparência muito feia, e Anakin também é deformado ao se tornar Darth Vader. Como é possível interpretar isso? Seria simplesmente porque as pessoas têm tendência natural de associar o feio ao mau? Que outros exemplos você consegue citar na saga de Lucas?

O que é feio para os humanos? É o que ameaça, possibilita a morte, horroriza , afasta pela repulsa. Dessa forma, quanto mais o indivíduo percebe-se na proximidade de ser classificado como feio pelos outros, ele tende a introduzir entre a situação real do seu corpo e o olhar do coletivo, máscaras que garantam o reconhecimento e o acolhimento, pelo menos de forma momentânea. Para ser belo, algo deve ser “natural”. Tudo o que se afasta desse âmbito é sentido como feio, monstruoso. O impulso rumo aos tratamentos cosméticos revela algo profundo na psicologia humana. A repulsa diante do feio passa pela experiência da alteridade. É feio (ou ruim) o que desconhecemos e tememos, portanto odiamos. A filósofa Elisabeth de Fontenay mostra que na França dos séculos XVIII e sobretudo no XIX, no que seria depois o Museu do Homem, houve a exposição de indivíduos considerados inferiores e feios cuja finalidade era voltada a estudos científicos. Uma negra hotentote foi chamada de Vênus Esteatopigia (com acúmulo excessivo de gordura nas nádegas). Essa mulher foi vendida para sábios franceses. Estes, por sua vez, fizeram sessões, em 1815, no Museu de História Natural de Paris para mostrar o quanto ela seria um desvio da humanidade. Seu corpo foi doado ao Museu de História Natural, onde é conservado no esqueleto e na sua moldura. Quando se fala de beleza ou feiúra temos juízos de valor que não pertencem apenas à psicologia ou medicina, mas apresentam preconceitos etnocêntricos, padrões que há 2500 anos vêm sendo repostos e que excluem seres humanos. Se ocorrer algo assim no trato de humanos com humanos, não será diferente, muito pelo contrário, com a fantasia e a experiência ligada a seres extraterrestres ou entes humanos que abandonam a normalidade, mergulhando no lado escuro onde os bons não se aventuram.

Na saga de Lucas, temos, de um lado, os feios seres que ameaçam o mundo humano e, do outro, os belos corpos humanos marcados pela bondade. Entre eles e os monstros instalam-se inúmeros seres que transitam entre o estatuto de “feios”, mas “bons” (é o caso do quase lobisomem que ajuda um dos heróis) e de máquinas “boas” e “quase humanas”. Os extremos são as máquinas nada humanas e os homens que se tornaram máquinas feias, como o pai de Luke. Há nos filmes uma explosão de vidas diferentes, todas lutando pela sobrevivência num cenário hobbesiano de guerra de todos contra todos. Contra este pano de fundo vital, mas letífero, instala-se a comunidade dos bons e dos bonitos, fundados no arquétipo grego (na verdade gerado pelas doutrinas do classicismo moderno sobre a Grécia, porque, segundo a lição de Nietzsche e da arqueologia, as estátuas gregas não eram imaculadamente brancas mas cobertas de cores berrantes, o que no classicismo seria visto como péssimo gosto) de beleza e bondade. Um ser humano bom e belo torna-se horrendo e monstruoso quando expõe em seu corpo a fealdade que se instalou na sua alma, como é o caso de Vader. Mas também surgem no filme seres horrendos, estranhos ao homem, como os bandidos que operam à margem da lei e do Estado. O romantismo explorou muito a experiência do feio e do monstruoso (basta pensar no Corcunda de Notre Dame) em contraposição ao belo. O contraste entre os dois campos não impede de notar que um passa ao outro, em situações dramáticas. É o caso do Retrato de Dorian Gray, de Mr. Hyde e seu oposto, etc. Todos aqueles “heróis” tentam fugir da feia e cansativa rotina cotidiana e caem na monstruosidade. Segundo Karl Rosenkranz, “o tedioso é feio ou quase isto: feiúra na beira da morte, despertar tautológico e vazio do tédio em nós”. O mesmo Rosenkranz publicou um tratado sobre o assunto chamado Ästhetik des Hässlichen (Estética do Feio), em 1883. Nele, temos uma lista de feiúras em categorias de deformações, desfiguração, etc. Cada categoria possui divisões menores. Entre as categorias, temos o repulsivo e o banal. No item “repulsivo” temos o Mal, o demoníaco, o criminoso. Todas essas categorias são exploradas em personagens humanos e não humanos por Lucas.