sábado, 16 de maio de 2015

Zero Hora, Porto Alegre, Caderno PROA, na coluna quinzenal de Roberto Romano


Roberto Romano: comédia, tragédia…

"Se o país é dividido entre "nós" e "eles", com certeza a autoridade constituída beira a ruína"

por Roberto Romano*
16/05/2015 | 15h01min
Roberto Romano: comédia, tragédia… Wikimedia Commons/Reprodução
Obra "Morte di Cesare" (1798), de Vincenzo Camuccini, retrata morte de César Foto: Wikimedia Commons / Reprodução
 
* Roberto Romano é professor titular de ética e filosofia política da Unicamp. Escreve quinzenalmente.

O leitor se enfada ao ler e ouvir, como ladainha, o dito marxista repetido até a náusea na mídia nacional. Falo do chavão: na primeira vez um evento é tragédia, depois comédia. O enunciado não é de Marx. O dito encontra-se nas hegelianas Lições sobre a Filosofia da História, onde se analisa a crise política do Império Romano. Ali, Hegel nota que a entrega do poder a César atenuou a guerra civil em Roma mas levou o império a conflitos bélicos externos. "César abriu um novo teatro; ele criou a cena que deveria tornar-se o centro da história universal". O ditador corrupto sapou o regime republicano pois "o que restava da república era desprovido de força". Imaginando o cesarismo efêmero, Brutus e Cassius usaram punhais. César morto, pensavam, voltaria a república. Presas de espanto ilusório, eles quiseram deter a história, mas "uma revolução política, em geral, é sancionada pela opinião dos homens quando ela se renova". Assim, diz Hegel, "Napoleão caiu duas vezes e os Bourbons foram expulsos duas vezes. A repetição realiza e confirma o que, no início, parecia contingente". Hegel não fala em tragédia ou comédia, mas recorda Shakespeare e sua peça sobre César. E ironiza a tolice conservadora posterior à Revolução Francesa. Marx também bebeu das águas hegelianas, nas Lições sobre a Estética. Ali sim, Hegel fala da tragédia divina e, depois, da sátira.
As frases de Marx, repetidas pelos pedantes de hoje, surgem no 18 Brumário de Luis Bonaparte, livro ignorado pelos preguiçosos universitários ou jornalistas. Como bom acadêmico alemão, o jovem Karl estudou os clássicos. A sua tese de doutorado trata com acuidade e rigor dos mestres éticos ocidentais, Epicuro e Demócrito. Mesmo hoje aquele trabalho serve como fonte (não raro silenciada pelos pesquisadores) no estudo da filosofia antiga e moderna. A tragédia ética é o centro do 18 Brumário

Marx já aproveitara a ideia na Crítica da Filosofia Hegeliana do Direito. Cito: "A última fase de uma figura histórica mundial é sua comédia. Os deuses gregos atingidos mortalmente na tragédia, como no Prometeu Acorrentado (Ésquilo), precisariam morrer de novo, comicamente, nos diálogos de Luciano. Por que a história segue tal via? Assim a Humanidade separa-se feliz e alegremente de seu passado". Mesmo quem recusa o pensamento marxista percebe que tais pensamentos fazem refletir, ao contrário da cantilena sobre "tragédia" e "comédia". As palavras são as mesmas, o contexto exige estudo, disciplina, inteligência.

Hegel exprime com figuras fortes outros símiles do poder. Um deles é muito atual no Brasil. Se  o governo se apresenta como facção, aí "reside a sua inevitável queda. Como é governo, ele se torna culpado". Um dirigente que age apenas como representante dos seus eleitores comete crime, não apenas por ser facção, mas por ser facção e governo. Ele perde legitimidade ao combater "os outros" que deveria representar (Fenomenologia do Espírito). Quem seguiu a entrevista de Miguel Rosseto e do ministro da Justiça, posterior à manifestação ocorrida em 15 de março, entende o que Hegel expressa. Se o país é dividido entre "nós" e "eles", com certeza a autoridade constituída beira a ruína. Em nosso caso, vivemos um aterrador vazio de poder. A presidente da república é tutelada pelos partidos e segue ditames de seus ministros, sobretudo na área econômica. Sem autoridade, ela não lidera o governo de todos. Ao mesmo tempo os ódios, as calúnias, a intolerância desgastam a cidadania e devem ser atenuados em todos os partidos e movimentos. Caso contrário, agonizam as instituições. E quando tal fato ocorre surge um César qualquer, ditador que a todos submete e cala. Então, os dias pouco têm de alegria e risos. As lágrimas dos exilados (não importa se de esquerda ou direita), dominam a cena histórica.

>>> Leia mais textos de Roberto Romano

Sobre Lula, de um seu amigo, no Estadão.


Incrível desabafo do ex-assessor de Lula

Marcelo Rubens Paiva
07 maio 2015 | 12:54
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O incrível e sincero desabafo do ex-assessor de Lula

Ricardo Kotscho, 67, repórter desde 1964, é dos profissionais mais queridos e respeitados do meio.
Educado, sempre sorridente, trabalhou nos principais veículos da imprensa brasileira como repórter, repórter especial, editor, chefe de reportagem, colunista e diretor de jornalismo.

Passou pelas redações do Estadão, Folha, JB, das revistas Isto É, Época e da TV Globo, CNT, SBT e Rede Bandeirantes. Recebeu quatro vezes o Prêmio Esso de Jornalismo.

Atualmente, é comentarista do Jornal da Record News, repórter especial da revista Brasileiros, que ajudou a fundar, e mantém o blog Balaio do Kotscho no R7.

Por um tempo, foi para o outro lado do balcão. Assessorou Lula, que conheceu cobrindo as primeiras greves do ABC, quando ainda era um metalúrgico com um partido em formação.

Foi seu porta-voz em campanha que rodou o Brasil em caravanas.

Foi o Assessor de Imprensa de Lula da histórica campanha de 2002.

Estar no primeiro governo Lula era extensão de anos de trabalho e militância.

De 2003 a 2004, foi secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República.
Discretamente e sem dar explicações, saiu cedo do Poder e voltou para o lado de cá. Mas nunca deixou de militar pela causa.

Surpreendeu ao publicar agora um desabafo amargo no seu blog, retratando com carinho o personagem e amigo que conhece como poucos: “Lula está na mira, isolado no palanque e sem discurso”.

Aqui, alguns trechos para a reflexão:

“Fiquei triste ao ver e ouvir o discurso de Lula neste 1º de Maio da CUT, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. Basta rever as imagens na internet. Em toda a sua longa trajetória, do sindicato ao Palácio do Planalto, Lula nunca ficou tão isolado num palanque, sem estar cercado por importantes lideranças políticas, populares e sindicais. A presidente Dilma já tinha avisado que não viria, mas desta vez nem o prefeito Fernando Haddad apareceu. Só havia gente desconhecida a seu lado e, ainda por cima, um deles segurava o cartaz em que se lia ‘Abaixo Plano Levy – Ação Petista’, mostrando o descompasso entre a CUT, o partido e o governo.”

“Também não me lembro de ter visto Lula falando para tão pouca gente, e tão desanimada, num Dia do Trabalhador. Não havia ali sinais de alegria e esperança em quem o ouvia, como me acostumei a acompanhar desde o final dos anos 70 do século passado, nas lutas dos metalúrgicos no ABC. Lamento muito dizer, mas o discurso de Lula também não tem mais novidades, não aponta para o futuro. Tem sido muito repetitivo, raivoso, retroativo, sempre com os mesmos ataques à mídia e às elites, sem dar argumentos para seus amigos e eleitores poderem defendê-lo dos ataques.”

“Não que Lula deixe de ter caminhões de razões para se queixar da imprensa, desde que o chamado quarto poder resolveu assumir oficialmente a liderança da oposição e fechar o cerco contra os governos petistas. Só não podemos esquecer, porém, que foi com esta mesma mídia, com os mesmos donos, com as mesmas elites conservadoras, que nunca se conformaram com a mudança de mãos do poder, que o PT ganhou sucessivamente as últimas quatro eleições presidenciais.”

Kotscho afirma que assiste ao fim de um “ciclo mágico”, que levou um líder operário ao Poder e promoveu profundas transformações sociais. Lembra que Lula reelegeu a sucessora e deixou o governo com 80% de aprovação popular. Até Obama reconhecia: “Este é o cara”

E se pergunta: “O que aconteceu?”

Também está em busca de uma resposta.

“De lá para cá, tanta água passou por debaixo da ponte, em tão pouco tempo, que, em algum lugar da estrada, perderam-se a velha confiança e a capacidade de dar a volta por cima, sem que Lula consiga encontrar um novo discurso capaz de mobilizar os jovens eleitores e os velhos companheiros que ficaram pelo caminho. Vida que segue”, finaliza.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Em tempos de ideologia e de má fé, quando o mundo acadêmico se transformou em arena de "ladrões roubados "(Alexandre Kojève), ler uma resenha serena de escritos meus é um consolo. A análise abaixo é séria e justa. Discorda de mim mas não tenta reduzir argumentos. É filosófica, não sectária. Obrigado professor Bignotto!

São Paulo, domingo, 06 de janeiro de 2002


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+ livros

Filosofia de guerra
Newton Bignotto

especial para a Folha

O Caldeirão de Medéia" reúne ensaios e escritos publicados em periódicos e revistas por Roberto Romano nos últimos anos. Embora não tenha sido concebido para dar ao leitor uma síntese das preocupações filosóficas e políticas do autor, o livro acaba fornecendo um painel amplo do percurso desse escritor que, desde seu primeiro livro -dedicado a estudar as relações entre a igreja e o Estado no Brasil-, sempre procurou entrelaçar questões de atualidade com estudos de problemas fundamentais da tradição filosófica.

Estudioso da filosofia moderna, Roberto Romano oferece uma visão renovada de alguns debates clássicos sobre o período em vários dos capítulos do livro. Num deles, dedicado ao problema da guerra em Hegel, percorre a tradição crítica de Meinecke a Cláudio Cesa, passando por Franz Rosenzweig e Jacques d'Hondt de maneira a fazer do recurso à tradição uma ferramenta para expor sua própria interpretação. Nesse caminho, sobressaem duas marcas constantes de seu pensamento. Em primeiro lugar, o uso da tradição interpretativa de maneira rigorosa e aberta. 

Multiplicando as referências e abandonando por vezes o campo original do problema por meio da citação de outros pensadores das mais variadas épocas, o autor aumenta em muito o âmbito no qual a questão parecia estar circunscrita. Procedendo dessa forma, no capítulo mencionado, ele não se furta a chamar de hagiografia a obra de Jacques d'Hondt e a apontar o viés conservador do trabalho de Meinecke.
Ao concluir seu ensaio, entretanto, Romano, que havia mostrado a vertente belicista e autoritária do pensamento hegeliano ou pelo menos a possibilidade de entender o filósofo alemão dessa maneira, adverte ao leitor brasileiro, que poderia se embevecer com uma crítica fácil do pensador alemão, de que "deveríamos, em vez de apontar autoritarismo no filósofo, discutir a nossa "realidade" miserável". O tom forte, por vezes polêmico, de suas interpelações de nossa "realidade" é a segunda marca de seus escritos.

Embora os autores modernos sejam os que mereçam maior atenção, mesmo nos capítulos dedicados a Diderot, Voltaire ou Hobbes proliferam as referências aos pensadores gregos e medievais assim como aos autores contemporâneos. Ao analisar o problema da sátira na obra de Voltaire, Romano conduz seu leitor por um universo habitado ao mesmo tempo por Platão, Luciano e Espinosa, para apoiar uma das teses que lhe são caras e que liga o riso e a sátira à possibilidade de realizar com êxito a crítica das mentes adormecidas pelas mais variadas formas de obscurantismo.

Buscando um Descartes diferente do sisudo pai da racionalidade contemporânea, ironizando os que aceitam a pecha de mero divulgador atribuída a Diderot ou mostrando o quanto Voltaire contribuiu para solidificar o caráter libertador do Iluminismo, ele afirma, dirigindo-se mais uma vez ao público brasileiro: "Urge purificar a fé pública e imprimir os iluministas franceses. Antes de escurecer os cérebros dos estudantes com o o lero-lero irracionalista, ponha-se diante de seus olhos a saudável irreverência das Luzes, a razão satírica que atenua a loucura séria do fanatismo".

Especialista em filosofia francesa do século 18, Romano mobiliza seus pensadores para tomar posição nos debates contemporâneos. Já no primeiro capítulo ele discute a relação entre a produção das ciências -e sua incorporação pelo Estado- e a educação do povo. Deixando de lado as idéias dos que querem isolar as camadas populares do processo de desenvolvimento da esfera técnica e científica, ele mostra que essa é uma discussão essencialmente política. 

A simples recusa de tratar da educação das massas como uma questão relevante para a vida pública traz, segundo ele, graves consequências para a afirmação da soberania popular.
Na mesma via se inscreve a crítica repetida que o autor faz do que chama de pensamento conservador, identificado como o daqueles que têm "medo de que a população estrague a festa do poder, destruindo a segurança, a propriedade, os vínculos da tradição, as inovações técnicas que só beneficiam alguns".

Pode-se discordar de algumas teses de Romano. O retrato do Brasil, esboçado em alguns capítulos, parece por demais pessimista assim como a aproximação entre realismo e reacionarismo, sugerida no final do capítulo sobre o "sublime e o prosaico", talvez seja excessiva. Seja como for, o leitor encontrará sempre a sustentar as posições explicitadas um rico conjunto de argumentos, que constituem um convite aberto para um debate de idéias fundado na liberdade e na razão, que são o ponto de partida e o eixo do processo de investigação do autor.

O Caldeirão de Medéia
440 págs., R$ 35,00
de Roberto Romano. Editora Perspectiva.

Newton Bignotto é professor de filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais e autor de "Origens do Republicanismo Moderno" (ed. UFMG).

Sobre o Fanatismo. Palestra efetuada no CIEE, em São Paulo.



 Sobre o Fanatismo.
Roberto Romano

O fanatismo é zelo cego e apaixonado, nascido de crenças endurecidas e que faz cometer atos ridículos, injustos e cruéis, não apenas sem vergonha ou remorso, mas com uma espécie de alegria e consolo. O fanatismo é a recusa de qualquer convívio social livre e democrático.

Imaginemos um enorme templo onde a cada metro exista um altar a certo deus inimigo de outros, postos em altares próximos. A guerra entre os vários seguidores não se limita ao interior do templo mas segue fora dele, prejudica a todos os alheios aos cultos ali praticados. A técnica usada pelos adeptos de todos os deuses é o paradoxo. Paradoxo é termo grego que significa ir contra o pensamento comum. Absurdos são usados pelos  fanáticos para maravilhar ou trazer medo aos  que não partilham suas crenças. As falas paradoxais são acompanhadas de gestos paradoxais, prodígios, promessas, milagres. O medo, sobretudo o de perder a vida e o sentido da vida. Os fanáticos costumam aterrorizar os ainda não atraídos por seus dogmas. Do inferno às ameaças de morte, na receita do fanatismo o medo é o fermento que faz crescer a massa.

O medo divide os ameaçados física ou moralmente pelo fanático. Este não aceita a condição de minoria e tenta desorientar a maioria, gera guerra e secessão. Um meio para tal fim é a calúnia, a injúria,  mentiras sobre os que não vivem na seita e, mesmo, dos que nela vivem mas não aprovam totalmente seus métodos e certezas. A luta do fanático para impor dogmas começa na perseguição dos que, em vez de acreditar na sua palavra, procuram a verdade fora dos círculos por ele dominados. O medo faz o fanático indicar vítimas propiciatórias, as quais devem ser massacradas para que seu partido seja aceito ou aplacado. Não existe fanatismo sem execuções físicas ou morais dos alheios ou contrários à fé sectária. Quanto mais justa e prudente uma pessoa, mais será ela candidata ao ataque dos fanáticos. As crianças e os velhos são também destinados ao sacrifício, porque as primeiras estão longe de serem militantes ágeis do fanatismo, e os segundos deixaram a idade em que podem ser úteis à causa assassina.

O fanatismo surge em todas as sociedades, classes, situações humanas. Nas igrejas e partidos políticos encontram-se fanáticos e pessoas prudentes. Numa crise social, política ou econômica, no entanto, os fanáticos ganham relêvo, aproveitam o medo da sociedade para aprofundar o embate de todos contra todos.  O fanatismo se instala no mundo islâmico ou cristão, católico ou protestante, ateu ou religioso. O fanático adere a certezas que ele jamais critica e tenta impor aos demais. O fanático nunca duvida. Sua fala e  atos sempre são afirmativos, sua escrita não conhece o sinal de interrogação, mas apenas o de exclamação. Seu discurso não busca persuadir pois sempre quer mandar sem réplicas. O fanático é surdo para as falas que não repetem suas doutrinas. Ele não ouve razões alheias que, no seu entender, são crime a ser punido com castigos físicos, morais, ou a morte. Elias Canetti, em Massa e Poder, fala dos poderosos que acumulam corpos mortos, para que o seu apenas sobreviva. Ela também recorda os que  acumulam riquezas, o famoso que acumula aplausos ao seu nome. Ele não fala, nem seria preciso, do fanático que acumula espinhas curvadas diante de sua prática aterrorizante. O fanático também acumula corpos de crianças, mulheres, jovens e idosos imolados à sua crença. A sua lógica é a seguinte: existem lados na sociedade. E nestes lados vivem o bem e o mal. O bem, por definição, está no acampamento do fanático. O mal, claro, reside nos setores que não o reconhecem.

O fanático é hipócrita, pois usa a máscara da religião, da democracia, do bem comum social, da justiça, para minar os mesmos valores em nome de seus desejos. O fanático ignora toda amizade efetiva. Para ele,  quem não aceita seus ultimatos são inimigos. Amigos, e sempre temporários, só os que pertencem no momento ao seu círculo sectário. O fanático não valoriza partidos políticos ou religiosos, mas vive e lavora em regime de facção, prestes a dar golpes nos coletivos que ele considera inimigos. O fanático se revela corrupto e não é responsável: se  calunia, rouba, mata, tudo é feito  em nome da Causa que, por definição jamais pode ser criticada pelos outros mortais. Se estes últimos falam em nome próprio, o fanático sempre se julga a voz de Deus, da História, da Ideologia, da Raça. E, como pressuposto, sua divindade, sua história, sua raça e ideologia são “superiores”.  Os seus decretos de vida e morte são inapeláveis. O fanático não aceita o Estado e a sociedade porque, na sua mente, só ele encarna o verdadeiro Estado e a verdadeira sociedade : ambos definidos pela sua crença. O fanático, como o terrorista, não reconhece autonomia e independência dos poderes porque ele se julga legislador, executor, julgador e carrasco. Sua lei não pode ser pensada ou discutida. O fanático é o executivo sem amarra externa, legislativa ou judicial. O próprio fanático é molécula das ditaduras mas, ao contrário das ditaduras comuns, a dele precisa durar eternamente.

O fanático não reconhece cidadanias, pois deseja mansos rebanhos comandados por ele. O fanatismo não tem base na ordem natural ou humana. Ele é uma distorção subjetiva, ocorrida na mente e na vontade. Como não pode se impor pelos meios da fala e do exemplo, ele só consegue mandar com violência física ou moral o  que aprofunda o medo da morte cívica ou biológica. O fanático não reconhece autoridade alheias : religiosa, intelectual, política. Ele é o princípio e o fim de toda autoridade. O fanatismo não encontra lugar no prudente pensamento e mora nas paixões do orgulho, do poder, no que os gregos chamam pleonexia (pleon echein):  ele não aceita nem reconhece limites. O fanatismo é satânico. Lemos no Paraíso Perdido que Lucifer é o pai da arrogância e do orgulho, marcas do pandemônio gerado pelo fanatismo. Só quem pertence à seita deve mandar, enriquecer, ser honrado.

O fanático ignora as virtudes coletivas da simpatia, despreza o termo e a realidade da misericórdia e do respeito. Se não encontra espinhas dóceis, além das ameaças  usa o insulto, os palavrões contra quem pensa diferente dele. Seu Deus cruel fala uma só lingua e decreta o certo e o errado na  integralidade, nada resta para a opção das pessoas. Quem não segue seus caminhos está condenado à morte, sem compaixão. Assim, é certo para o fanático destruir os inimigos da sua fé. Ele não aceita a igualdade jurídica nem a diferença de idéias. O fruto do fanatismo não é um povo pacífico, amigo e fraterno, mas a divisão, a perseguição mútua, o sacrifício dos dissidentes. O fruto do fanatismo é a guerra civil. Para o sectário faccioso, governantes que não se dobram aos seus ditames são tiranos e devem ser depostos ou mortos. O fanático não aceita eleições em que ele perde, só as que vence, sempre está à espreita de um golpe de Estado se os eleitores não o escolhem. O fanático ignora a coexistência dos opostos, mas louva a perseguição à diferença. O fanático pode se alojar na esquerda, direita, centro da política. Ele endurece toda prática e discurso, pois odeia o debate, o diálogo, a tolerância.

O que é o fanatismo? É o efeito de uma consciência falsa que abusa das coisas mais nobres e sujeita a política, a religião, as artes, as ciências aos caprichos de sua imaginação febril, às suas paixões do orgulho, ambição, desejo de mando.

Quais são os componentes do fanatismo?

1)   as certezas aceitas sem exame. Para afirmar uma idéia, é preciso estudar a sua história, a sua consistência lógica, a sua adequação à realidade. Mas as noções fanáticas são paradoxais, e não raro vão contra a racionalidade humana, o estudo, a comprovação factual. Elas têm mais a forma de imaginação delirante do que pensamento.
2)   Dogmas obscuros e delirantes geram  seitas que se guerreiam e lutam para que o coletivo inteiro se torne inimigo dos seus inimigos. Batalhas sectárias se transformam em guerras civis.
3)   Uma fonte do fanatismo é o moralismo. O moralista, ao contrário da pessoa moral, limpa o exterior mas guarda a sujeira como num túmulo. O moralista tem o odor da morte em tudo o que faz e diz. Ele, neste sentido, é fundamentalista:  a letra vale mais do que o espírito.
4)   Outra fonte do fanatismo é a incomprensão dos deveres. O ser humano vive num complexo de ordens e leis, dentre as quais ele deve optar se quiser o respeito dos semelhantes. O fanático não tem a experiência da vacilação e da escolha, aceita normas e as impõem sem refletir. Daí, suas certezas serem duras e, ao mesmo tempo, tolas.
5)    O fanático usa a intolerância já existente nas religiões e partidos e a transforma, de relativa em absoluta.
6)   Uma fonte do seu recrutamento é o fato seguinte : as seitas fanáticas são perseguidas. Como são perseguidas, só entendem a lingua da perseguição, ignoram o diálogo.
7)   Porque muito sofrem, os fanáticos adquirem impassibilidade: eles não sofrem com a dor alheia. Aprendem a ser implacáveis.
8)   O fanatismo oferece segurança, ao contrário da liberdade que só tem desafios a proporcionar.
9)   “O fanático”diz a Enciclopédia de Diderot, “faz um mal maior à humanidade do que o impio. Estes últimos pretendem se livrar de todo jugo. Já o fanático quer ampliar seus ferros para toda a terra”.

Todas essas marcas do fanatismo podem ser lidas na Enciclopédia francêsa comandada por Denis Diderot, pensador das Luzes no século 18. A responsabilidade do verbete é de Deleyre, um colaborador de Diderot. Algo da minha lavra foi posto nas frases acima.


O Brasil vive uma crise inédita de sociedade e de Estado. Tal crise inclui uma urbanização intensa, pois ainda em 1960 nosso país pouco ia além da franja do Oceano Atlântico. Logo após a inauguração de Brasília tivemos um enorme crescimento de cidades no interior. Todas elas são carentes de políticas públicas (água, esgôto, segurança, saúde, escola, cultura, etc). Com a centralização excessiva das mesmas políticas públicas no Executivo federal, os impostos saem das cidades mas só retornam pelo apadrinhamento de lobbies e políticos. Muitos deles cobram uma taxa dos municípios tendo em vista sua reeleição. As massas urbanas, carentes de quase tudo, têm no entanto acesso às informações: a imprensa cresceu bastante, o rádio e a TV trazem contínuas notícias, a internet pode ser acessada em qualquer lugar afastado.

No mesmo passo em que as massas urbanas se informam e amadurecem, a máquina do Estado brasileiro é anacrônica, centralista,  favorece a corrupção. Não existe elo federativo de fato em nosso país, mas um império do poder central, que retira dos Estados e munícipios toda autonomia efetiva. A burocracia gigantesca favorece o desperdício de recursos, o apadrinhamento de grupos econômicos e políticos. O poder de Estado brasileiro existe para garantir privilégios aos que integram os três poderes. Se fossem cortados todos os privilégios dos que operam o poder, alguns trilhões sobrariam para as políticas públicas. Cito apenas os carros, motoristas, gasolina, pedágios e outros enfeitos usados por vereadores, prefeitos, secretários, deputados estaduais, federais, senadores, ministros, magistrados, etc. Outro abuso encontra-se nas contas de publicidade dos governos, do município ao Palácio do Planalto. Tais gastos, supostamente para informar a opinião pública em assuntos relevantes para a saúde, educação, segurança, etc. na verdade constituem meios de propaganda e intimidação da cidadania, paradoxo e medo, portanto. Cito por último (a lista seria interminável), os “cargos em confiança” em número inédito e desconhecido no mundo. Eles representam na verdade cabos eleitorais a serviço de políticos e partidos, fontes de corrupção perene. Todos esses abusos são aceitos, apoiados, louvados pelos fanáticos, pois servem à Causa, ajudam a conseguir o alvo final que é o de impor o poder ao todo da sociedade.

Nossos partidos políticos são máquinas anacrônicas e pouco democráticas. Elas são dominadas por grupos de velhos políticos que nelas mandam com mão férrea. Alguns estão nos postos diretivos há décadas e décadas. Temos aí verdadeiros proprietários dos partidos pois controlam as alianças, os apoios ou oposições aos governos, as candidaturas, as propagandas, e sobretudo os cofres. Nas agremiações não existem corretivos aos desmandos dos dirigentes, não ocorrem eleições primárias, a fiscalização pelos filiados é quimera. A Justiça eleitoral, por sua vez, emperra o processo das eleições com mandamentos pouco democráticos e mostra ineficiência na fiscalização das contas partidárias. Fala-se muito em financiamento público de campanha. Mas sem democratizar os partidos, sem exigir que as direções sejam mudadas a cada dois anos pelo menos, a ditadura dos grupos poderosos será mantida e ampliada pela suposta reforma política e seu tipo de financiamento. Agora mesmo, num arroubo de descaso pela crise econômica que mostra sinais terríveis, o fundo partidário foi aumentado de maneira inusitada. Como os atuais dirigentes são donos dos cofres, imaginemos o que pode ocorrer se o financiamento for totalmente garantido pelos contribuintes, em termos de corrupção, arbítrio, abuso do poder pelos donos dos partidos. Os oligarcas partidários mandam nas candidaturas, nas alianças, nos cofres. Mandam também na propaganda eleitoral “gratuita” que leva bilhões da vida econômica, paga marqueteiros aos milhões, mente de modo desavergonhado e intimida eleitores. O medo surge novamente, nas operações de marketing político. Basta ver o que ocorreu na última campanha presidencial quando mentiras e medo partilharam as imagens da TV, as ondas do rádio, as páginas de jornais dependentes dos recursos financeiros governamentais.  

A máquina do Estado emperrada, os partidos autocráticos dão as costas à cidadania, sobretudo à juventude. Esta foge das agremiações e não recebe nelas acolhida. Se entram para os partidos é para cumprir tarefas, obedecer aos donos do organismo à espera de uma possível candidatura a cargo público. Os jovens, nos partidos, não aprendem a liderar, mas a obedecer servilmente. Daí a nossa carência de novos estadistas. Peço aos senhores que enumerem mentalmente o número de nossos líderes nacionais. Com certeza, a conta não supera os dedos das mãos.

Estado com imensa burocracia emperrada, partidos ossificados, juventude expulsa ou fugindo da política.

Agora, temos uma terrível novidade entre nós. Partidos que chegaram ao poder nacional decretam a divisão do país entre “eles”e “nós”. Ou seja, só merece respeito quem segue os nossos ditames. Os “outros”, por definição, pertencem às hostes inimigas. Esta é a palavra que deslancha o fanatismo, que estimula a secessão, que provoca a guerra civil, que justifica os golpes de Estado.

Termino. O que disse é o bastante para evocar os labirintos de nossa vida pública. O perigo maior é o crescimento da lógica fanática. O jurista alemão Carl Schmitt, idealizador do confronto político entre “amigo”e “inimigo” e justificador de Hitler, está em voga em muitos ambientes nacionais. Ele já esteve na moda na era Vargas quando Francisco Campos, leitor de Schmitt, idealizou a Polaca, constituição fascista que instaurou um Estado que ignorou todos os direitos da cidadania, sobretudo o direito à divergência em relação ao governo.

Na ordem democrática não existe a divisão entre “nós”e “eles”, entre o “nosso lado”e o “deles”. Todos são responsáveis pela vida comum, todos merecem respeito. Em Francogallia, tratado jurídico que ajudou a instaurar o moderno Estado democrático, Francisco Hotmann resume o ponto ao dizer que “é essencial à liberdade que as questões coletivas sejam administradas sob o conselho e autoridade de quem deve suportar seu risco, pois segundo antigo ditado, o relativo a todos deve ser aprovado por todos’”.  Althusius afirma o mesmo : “é justo que o relativo a todos, seja resolvido por todos”(Política). A tese de fundo reside na certeza de que o governante detém o uso do poder, mas a sua fonte é o povo, a quem deve prestar contas. O governo que se deixa levar pela diferenciação entre “nós”e “eles” não passa de uma facção fanática. Lutemos para que o Brasil não seja estraçalhado pelas  seitas, mas seja a terra comum de todos, livres e iguais.




terça-feira, 12 de maio de 2015

The Washington Post. Texto importante, a ser lido com muita atenção, pois aponta para um problema sério.

I’m a florist, but I refused to do flowers for my gay friend’s wedding

My relationship with God trumps my connection to anyone on Earth. And now I’m getting sued.

  May 12 at 12:00 PM

Barronelle Stutzman is owner of Arlene's Flowers in Richland, Wash.


I’ve been a florist in Richmond, Wash., for more than 30 years. In that time, I’ve developed close relationships with many of my clients.

One of my favorites was Rob Ingersoll. Ingersoll came in often and we’d talk. Like me, he had an artistic eye. I’d try to create really special arrangements for him. I knew he was gay, but it didn’t matter — I enjoyed his company and his creativity.


Then he asked me to create the floral arrangements for his wedding. I love Rob, and I’d always been happy to design for his special days. But there’s something different about a wedding.

Every person in the creative professions regularly has to make decisions about where they lend their artistic talents and which events they will participate in.  For me, it’s never about the person who walks into the shop, but about the message I’m communicating when someone asks me to “say it with flowers.”

I was raised Christian. In my religious tradition, marriage is a sacred religious ceremony between a man, a woman and Christ. It’s a covenant with the church. To participate in a wedding that violates those principles violates the core of my faith.

When Rob  asked me, I thought about it carefully. I talked over the decision with my husband, and I prayed. But ultimately I know I had to stay true to my faith. I couldn’t do it.

When I told Rob, I felt terrible that I couldn’t share this day with him, as I’d shared so many with him before. I took his hands and said, “I’m sorry I can’t do your wedding because of my relationship with Jesus Christ.” Rob said he understood, and that he hoped his mom would walk him down the aisle, but he wasn’t sureWe talked about how he got engaged and why they decided to get married after all these years. He asked me for the names of other flower shops. I gave him the names of three floral artists that I knew would do a good job, because I knew he would want something very special. We hugged and he left.

I never imagined what would happen next. Washington State Attorney General Bob Ferguson sued me after hearing in the media what had happened. That was shocking. Even more surprising, Rob and his partner Curt, with their ACLU attorneys, filed suit shortly thereafter. A judge ruled against me, but this week, with the help of the Alliance Defending Freedom, I appealed.

We’ve always heard that same-sex marriage would never affect anyone aside from the same-sex couples who wanted to be married. But a judge recently told me that my freedom to live and work according to my beliefs about marriage expired the day same-sex marriage became the law in my state.

Our government is supposed to protect our First Amendment rights — freedom of religion and expression. But the government is telling me I can only be a faithful Christian within the four walls of my church. That’s impossible and it’s unjust. What would Rob and Curt say if the government told them they could only be who they are in their own homes?

This isn’t about bigotry. I’ve had gay and lesbian employees and friends. And it’s important to remember that Rob was a long-time customer and friend despite our different beliefs about marriage. When I had to refer him for this one event, I did everything I could to avoid hurting his feelings and I believed we would remain friends when he left the shop.  He got enough offers after this situation became public to do about 20 weddings.

In Washington, Rob and Curt have the right to get a marriage license. But that doesn’t mean that the state should be able to force people in the creative professions like myself to create expression celebrating the ceremonies.  We all have different viewpoints about how to live our lives.  One thing I’ve loved about our country is that we protect the freedom of artistic expression and the right to disagree over these kinds of issues without one side being threatened by the government over it.

But whatever the state says and however they want to try to punish me, they can’t change my faith. What happens in my business or my life is in God’s hands. Having a clear conscience means much more to me than any amount of money or my business. Rob and Curt have their beliefs about marriage and aren’t being stopped by the state from living them out. I only ask for the same freedom.

 

domingo, 10 de maio de 2015

Hoje é fácil falar sobre a Petrobrás e quejandos. Mas em 2009 era muito dificil e perigoso. Peço que leiam o último parágrafo deste artigo. Por favor. E depois me digam se eu tenho, ou não, coerência. Na época, o Sr. Gabeira e outros estavam com o PT, apoiando informalmente. Eu, formalmente, critiquei e paguei o preço. Mas, infelizmente, não tenho claque de esuqerda ou direita. Assim....

CPI da Petrobras e Absolutismo

(*) Roberto Romano da Silva

O Brasil é um resquício do absolutismo, doutrina do poder hegemônica nos séculos 17 e 18. Quando a Inglaterra fez sua Revolução democrática com os Niveladores (os Levellers), ela atenuou o mando irresponsável dos reis. Ganharam os cidadãos que pagavam impostos, sem usufruir direitos públicos. A prestação de contas passou a ser exigida dos parlamentares, dos ministros, dos juízes ingleses. É o que explica a diferença de hoje entre o Brasil, com um Congresso que se “lixa para a opinião pública” e a Inglaterra, onde caiu o responsável pela Câmara dos Comuns, com possível convocação de eleições para mudar o governo.

As sementes da Revolução democrática inglesa foram levadas para o solo norte-americano, onde brotaram até a ruptura entre Colônia e metrópole. A independência consagrou a responsabilização pública dos governantes, legisladores e magistrados. As mesmas sementes voltaram ao continente europeu na figura de norte-americanos, que lutaram com revolucionários franceses.

Mas veio o Termidor, a ruptura com os princípios da responsabilização dos governantes. Com Napoleão 1 começa a hegemonia do Executivo sobre o Estado. Quando fugiu do imperador, João, futuro rei, trouxe na comitiva o plano de aqui instaurar um Estado reacionário, contra as normas de responsabilidade dos governos. Ele seguiu o projeto, bem sucedido, de instaurar um Estado absolutista no Brasil. As formas legais e as práticas administrativas inauguradas em nossa terra garantiram o Estado com base em ações irresponsáveis, bem de acordo com o absolutismo. Assim foi criado o Banco do Brasil, para imprimir moeda sem lastro, com o fito de financiar o Estado que deveria dominar o imenso território nacional. As dificuldades administrativas e de outros teores foram resolvidas pelo reforço do Estado central, com impostos salgados e nenhum retorno às regiões escorchadas. É em tal situação que, na Independência, com uma fraude teórica e prática, foi instaurado o Poder Moderador.

Fraude: Benjamin Constant (o francês liberal) ideara aquele sistema para estabelecer os limites dos poderes, garantir sua harmoniosa relação. Neutro, o poder Moderador seria o apanágio da realeza, os ministros seriam responsáveis pelo governo e os legisladores não seriam pagos. O julgamento pelo juri seria a norma e haveria liberdade de imprensa. (B. Constant: Cours de Politique Constitutionelle ou collection des ouvrages publiés sur le gouvernement représentatif, Paris, Guillaumin et Cie. 1872), Erra, diz o autor, quem ignora limites de qualquer poder. “Crime é crime, pouco importa a fonte de poder alegada por quem o comete: indivíduo, partido, nação. Com o Poder Moderador segundo Constant se tentou idear os limites dos três poderes, impedindo a hipertrofia de um deles como ocorreu na ditadura napoleônica, em nome do Executivo, e da ditadura jacobina, em nome do Legislativo. Ambos seguiram a tendência ao absolutismo, o que, segundo Constant, é idêntico a despotismo sem barreiras.

A fraude cometida no Primeiro Império contra aquela doutrina gerou uma estrutura política monstruosa na qual o Chefe do Estado não foi neutro, como queria Constant, mas superior, com prerrogativas para interferir nos demais poderes. A República conservou, silenciosamente, tais prerrogativas na Presidência da República. Esta, segundo a sua gênese e costume, opera como se estivesse acima dos outros setores estatais. É ditadura perene.

Daí que, para todo presidente, investigações do judiciário ou legislativo no Executivo são crimes de lesa majestade. É o que assistimos hoje com Lula, na CPI da Petrobrás. Trata-se de um retorno dos lemas antidemocráticos instaurados por João VI. Um político e seu partido, que se diziam “progressistas”, voltam ao Antigo Regime. O pior é ver grupos que ainda hoje se dizem socialistas e marxistas, mas exibem sem pudor trejeitos do absolutismo, incluindo a corrupta venalidade dos cargos e os benefícios auferidos para apoiar os governantes. Que vergonha, companheiros!

E por falar em racismo dos filósofos e pessoas afins...

Négrophobie des « Lumières »

« Les Blancs sont supérieurs à ces Nègres, comme les Nègres le sont aux singes, et comme les singes le sont aux huîtres. »  « Leurs yeux ronds, leur nez épaté, leurs lèvres toujours grosses, leurs oreilles différemment figurées, la laine de leur tête, la mesure même de leur intelligence, mettent entre eux et les autres espèces d’hommes des différences prodigieuses. Et ce qui démontre qu’ils doivent point cette différence à leur climat, c’est que des Nègres et des Négresses transportés dans les pays les plus froids y produisent toujours des animaux de leur espèce, et que les mulâtres ne sont qu’une race bâtarde d’un noir et d’une blanche, ou d’un blanc et d’une noire. »  « La nature a subordonné à ce principe ces différents degrés et ces caractères des nations, qu’on voit si rarement se changer. C’est par là que les Nègres sont les esclaves des autres hommes. On les achète sur les côtes d’Afrique comme des bêtes. »  « La race des Nègres est une espèce d’hommes différente de la nôtre [...] on peut dire que si leur intelligence n’est pas d’une autre espèce que notre entendement, elle est très inférieure. Ils ne sont pas capables d’une grande attention, ils combinent peu et ne paraissent faits ni pour les avantages, ni pour les abus de notre philosophie. Ils sont originaires de cette partie de l’Afrique comme les éléphants et les singes ; ils se croient nés en Guinée pour être vendus aux Blancs et pour les servir. » Voltaire (1694-1778, écrivain et philosophe, Essai sur les moeurs)


 « On ne peut se mettre dans l’idée que Dieu, qui est un être sage, ait mis une âme, surtout une âme bonne, dans un corps tout noir. (...) Il est impossible que nous supposions que ces gens-là soient des hommes, on commencerait à croire que nous ne sommes pas nous mêmes chrétiens. » Montesquieu (1689-1755, L’esprit des Lois).

« Le Noir africain est guidé par la fantaisie ; l’homme européen est guidé par les coutumes. »
Carl von Linné (1707-1778, naturaliste, fondateur de la systématique moderne, Systema naturae).

« Je suspecte les Nègres et en général les autres espèces humaines d’être naturellement inférieurs à la race blanche. Il n’y a jamais eu de nation civilisée d’une autre couleur que la couleur blanche, ni d’individu illustre par ses actions ou par sa capacité de réflexion... Il n’y a chez eux ni engins manufacturés, ni art, ni science. Sans faire mention de nos colonies, il y a des Nègres esclaves dispersés à travers l’Europe, on n’a jamais découvert chez eux le moindre signe d’intelligence. »
David Hume (1711-1776, économiste anglais).

« La nature n’a doté le nègre d’Afrique d’aucun sentiment qui ne s’élève au-dessus de la niaiserie (...) Les Noirs (...) sont si bavards qu’il faut les séparer et les disperser à coups de bâton. »
Emmanuel Kant (1724-1804, Essai sur les maladies de la tête, Observation sur le sentiment du beau et du sublime).

« L’achat des nègres aux côtes d’Afrique, pour les transférer et revendre ensuite dans les possessions de l’Amérique, est-il un commerce légitime et peut-on le faire en conscience ? ... La formulation de la question dont on vient de parler dépend d’un point de vue principal, il consiste à savoir si on peut légitimement avoir en sa possession des esclaves et les retenir en servitude, En effet, une fois bien prouvé qu’on peut légitimement en avoir et s’en servir : il demeure hors de doute, que l’on peut en acheter et en vendre ... A cette dernière question, je réponds que l’on peut licitement avoir des esclaves et s’en servir ; cette possession et ce service ne sont ni contraires à la loi naturelle, ni à la loi Divine écrite, ni même à la loi de l’Évangile. »
Bellon de Saint-Quentin (théologien, Dissertation sur la traite et le commerce des nègres, 1765).

« Tout sentiment d’honneur et d’humanité est inconnu à ces barbares... Point de raisonnement chez les nègres, point d’esprit, point d’aptitude à aucune sorte d’étude abstraite... Leur naturel est pervers... »
Jacques-Philibert Rousselot de Surgy (Histoire générale des voyages, 1765).

« Par le métissage, le sang noir attaquerait en France jusqu’au cœur de la nation en déformant les traits et en brunissant le teint. »
Louis Narcisse Baudry Deslozières (1764-1841, avocat et écrivain, Les égarements du Négrophilisme).

« La race nègre est confinée au midi de l’Atlas, son teint est noir, ses cheveux crépus, son crâne comprimé et son nez écrasé ; son museau saillant et ses grosses lèvres la rapprochent manifestement des singes : les peuplades qui la composent sont toujours restées barbares (...) la plus dégradée des races humaines, dont les formes s’approchent le plus de la brute, et dont l’intelligence ne s’est élevée nulle part au point d’arriver à un gouvernement régulier. »
Georges Cuvier (1769-1832, zoologiste, Recherches sur les ossements fossiles).

« Les Africains, en revanche, ne sont pas encore parvenus à cette reconnaissance de l’universel. Leur nature est le repliement en soi. Ce que nous appelons religion, état, réalité existant en soi et pour soi, valable absolument, tout cela n’existe pas encore pour eux. Les abondantes relations des missionnaires mettent ce fait hors de doute (...) Ce qui caractérise en effet les nègres, c’est précisément que leur conscience n’est pas parvenue à la contemplation d’une objectivité solide, comme par exemple Dieu, la loi, à laquelle puisse adhérer la volonté de l’homme, et par laquelle il puisse parvenir à l’intuition de sa propre essence" et de continuer en disant que l’Afrique est "un monde anhistorique non développé, entièrement prisonnier de l’esprit naturel et dont la place se trouve encore au seuil de l’histoire de l’universel. »
Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831, La raison dans l’histoire).

« Le cerveau du Bochiman (…) mène à celui des Simiadae (les singes). Cela implique une liaison entre le défaut d’intelligence et l’assimilation structurelle. Chaque race d’Homme a sa place, comme les animaux inférieurs. »
Charles Lyell (1797-1875, géologue, fondateur de la géologie scientifique).

« Le Nègre est une monstruosité intellectuelle, en prenant ici le mot dans son acception scientifique. Pour le produire, la nature a employé les mêmes moyens que lorsqu’elle enfante ces monstruosités dont nos cabinets offrent de nombreux exemples. (…) Il a suffi pour atteindre ce résultat que certaines parties de l’être s’arrêtassent à un certain degré de leur formation. De là, ces fœtus sans tête ou sans membres, ces enfants qui réalisent la fable de cyclope (…). Eh bien ! Le Nègre est un Blanc dont le corps acquiert la forme définitive de l’espèce, mais dont l’intelligence tout entière s’arrête en chemin. »
Armand de Quatrefages de Breau (1810-1892, naturaliste et anthropologue, cité par Léon Poliakov, in Le racisme)

« La plus stupide, la plus perverse, la plus sanglante des races humaines », « Aucun progrès, aucune invention, aucun désir de savoir, aucune pitié, aucun sentiment », « La couleur noire, la couleur des ténèbres est vraiment le signe de leur dépravation. »
Alfred Michiels (1813-1892, écrivain, Le capitaine Firmin ou la vie des nègres en Afrique).

« Il me semble voir un Bambara assistant à l’exécution d’un des airs qui lui plaisent. Son visage s’enflamme, ses yeux brillent. Il rie, et sa large bouche montre, étincelante au milieu de sa face ténébreuse, ses dents blanches et aiguës. La jouissance vient ... Des sons inarticulés font effort pour sortir de sa gorge, que comprime la passion ; de grosses larmes roulent sur ses joues proéminentes ; encore un moment, il va crier : la musique cesse, il est accablé de fatigue... Le nègre possède au plus haut degré la faculté sensuelle sans laquelle il n’y a pas d’art possible ; et, d’autre part, l’absence des aptitudes intellectuelles le rend complètement impropre à la culture de l’art, même l’appréciation de ce que cette noble application de l’intelligence des humains peut produire d’élevé. Pour mettre ses facultés en valeurs, il faut qu’il s’allie avec une race différemment douée… »
Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882, diplomate et écrivain, Essai sur l’inégalité des races humaines).

« Les traits de caractères intellectuel du sauvage (…) se retrouvent chez l’enfant civilisé. »
Herbert Spencer (1820-1903, philosophe darwiniste, cité par Jay Gould, in Le mal mesure de l’homme).

« La nature a fait une race d’ouvrier, c’est la race chinoise (...) une race de travailleur de la terre, c’est le nègre (...) une race de maîtres et de soldats, c’est la race européenne. »
Ernest Renan (1823-1892, le Discours sur la nation).

« La colonisation en grand est une nécessité politique tout à fait de premier ordre… La conquête d’un pays de race inférieure par une race supérieure n’a rien de choquant ... »
Ernest Renan (La réforme intellectuelle et morale).

« Ces malheureux sauvages ont la taille rabougrie, le visage hideux, couvert de peinture blanche, la peau sale et graisseuse, les cheveux mêlés, la voix discordante et les gestes violents. Quand on voit ces hommes, c’est à peine si l’on peut croire que ce soient des créatures humaines … On se demande souvent quelles jouissances peut procurer la vie à quelques-uns des animaux inférieur ; on pourrait se faire la même question, et avec beaucoup plus de raison, relativement à ces sauvages. »
Charles Darwin (Voyage d’un naturaliste autour du monde, 1831 à 1836).

« Déjà les deux peuples colonisateurs, qui sont deux grands peuples libres, la France et l’Angleterre, ont saisi l’Afrique ; la France la tient par l’ouest et par le nord ; l’Angleterre la tient par l’est et le midi. Voici que l’Italie accepte sa part de ce travail colossal. L’Amérique joint ses efforts aux nôtres ; car l’unité des peuples se révèle en tout. L’Afrique importe à l’univers. Une telle suppression de mouvement et de circulation entrave la vie universelle, et la marche humaine ne peut s’accommoder plus longtemps d’un cinquième du globe paralysé. De hardis pionniers se sont risqués, et, dès leurs premiers pas, ce sol étrange est apparu réel ; ces paysages lunaires deviennent des paysages terrestres. La France est prête à y apporter une mer. Cette Afrique farouche n’a que deux aspects : peuplée, c’est la barbarie ; déserte, c’est la sauvagerie (...). Au dix-neuvième siècle, le Blanc a fait du Noir un homme ; au vingtième siècle, l’Europe fera de l’Afrique un monde. (Applaudissements) Refaire une Afrique nouvelle, rendre la vieille Afrique maniable à la civilisation, tel est le problème. L’Europe le résoudra. Allez, Peuples ! Emparez-vous de cette terre. Prenez là. A qui ? À personne. Prenez cette terre à Dieu. Dieu donne la terre aux hommes, Dieu offre l’Afrique à l’Europe. Prenez-la. Où les rois apporteraient la guerre, apportez la concorde. Prenez-la, non pour le canon, mais pour la charrue ; non pour le sabre, mais pour le commerce ; non pour la bataille, mais pour l’industrie ; non pour la conquête, mais pour la fraternité. (Applaudissements prolongés). Versez votre trop-plein dans cette Afrique, et du même coup résolvez vos questions sociales, changez vos prolétaires en propriétaires. Allez, faites ! Faites des routes, faites des ports, faites des villes ; croissez, cultivez, colonisez, multipliez. »
Victor Hugo (Discours sur l’Afrique, 18 mai 1879).

« En Afrique les filles foisonnent, mais elles sont toutes aussi malfaisantes et pourries que le liquide fangeux des puits sahariens. »
Guy de Maupassant (1850-1893).

« Je vous défie de soutenir jusqu’au bout votre thèse qui repose sur l’égalité, la liberté, l’indépendance des races inférieures. Messieurs, il faut parler plus haut et plus vrai ! Il faut dire ouvertement que les races supérieures ont un droit vis à vis des races inférieures. »
Jules Ferry (Débats parlementaires du 28 juillet 1885).

« Lorsque les Nègres sont échauffés, il se dégage de leur peau une exsudation huileuse et noirâtre qui tache le linge et répand une odeur désagréable. »
Grand dictionnaire universel du XIXe siècle, au chapitre « Nègre ».

« Nous créerons parmi les races qui peuplent la Terre, une véritable aristocratie, celle des blancs, non mélangés avec les détestables éléments ethniques que l’Asie et l’Afrique introduisent parmi nous ». « Après l’élimination des races inférieures, le premier pas dans la voie de la sélection, c’est l’élimination des anormaux ... On va me traiter de monstre parce que je préfère les enfants sains aux enfants tarés ... Ce qui fait l’homme c’est l’intelligence. Une masse de chair humaine, sans intelligence, ce n’est rien ... »
Charles Richet (1850-1935, médecin, prix Nobel 1913 de physiologie, il considérait que la civilisation avait perverti la sélection naturelle, en donnant des avantages aux dégénérés qui ne méritaient pas de vivre).

« Notre sensibilité spécifique pour la beauté et la laideur chez nos congénères, dépend très étroitement des symptômes de dégénérescence dus à la domestication qui menace notre race. Il faudrait, pour la préservation de la race, être attentif à une élimination des êtres moralement inférieurs, encore plus sévère qu’elle ne l’est aujourd’hui ».
Francis Galton (1822-1911, physiologiste, cousin de Darwin, sa doctrine eugénique inspirera, cinquante ans plus tard, Hitler et le régime nazi).

« Au point de vue sélectionniste, je regarderais comme fâcheux le très grand développement numérique des éléments Jaunes et Noirs qui seraient d’une élimination difficile. Si toutefois la société future s’organise sur une base dualiste, avec une classe dolicho-blonde dirigeante et une classe de race inférieure confinée dans la main-d’œuvre la plus grossière, il est possible que ce dernier rôle incombe à des éléments Jaunes et Noirs. (…) Il ne faut pas oublier que l’esclavage n’a rien de plus anormal que la domestication du cheval ou du bœuf. »
Georges Vacher de Lapouge (1854-1946, entomologiste et anthropologue, père de l’aryanisme, il fut l’auteur de L’Aryen et son rôle social, éléments fondateurs de l’antisémitisme nazi).

« Aucun gouvernement démocratique ne pourra jamais marcher en Afrique. »
Bertrand Russell (1872-1970, mathématicien, cité par Paul Johnson, in Le grand mensonge des intellectuels).

« La principale de ces circonstances est assurément la privation de la lumière du Christ et même de tout reflet de cette lumière, qui a permis à l’Esprit mauvais de s’établir en maître, sur cette terre déshéritée de l’Afrique ... Les Noirs sont de temps immémorial livrés sans contrôle à un sensualisme abject, à la cruauté, au mensonge. (...) Les nègres aujourd’hui vivent sous l’influence corruptrice de tant de générations impures qu’il serait étonnant de les trouver aptes à une haute civilisation morale immédiate. »
Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955, jésuite et théologien, La Guinée supérieure et ses missions, Les causes de l’infériorité du nègre ; Sa doctrine est toujours enseignée dans les séminaires en Afrique…).

« Il faudrait pour la préservation de la race, être attentif à une élimination des êtres moralement inférieurs encore plus sévère qu’elle ne l’est aujourd’hui ... nous devons, et nous en avons le droit, nous fier aux meilleurs d’entre nous et les charger de faire la sélection qui déterminera la prospérité ou l’anéantissement de notre peuple. »
Konrad Lorenz (1903-1989, biologiste et philosophe, ancien sympathisant nazi devenu militant écologiste, prix Nobel 1973 de physiologie pour ses recherches sur le comportement animal).

William Shockley (1919-1989, physicien, prix Nobel 1956 de Physique, co-inventeur du transistor) demanda à l’Académie des Sciences américaines : « que des recherches soient entreprises pour déterminer l’influence de la forte natalité des Noirs sur la qualité de la population américaine et propose de stériliser ceux qui ont un QI inférieur à 100 », et fut l’auteur d’une proposition de loi destinée à octroyer une prime financière à toutes les femmes noires qui accepteraient de se faire stériliser.

« L’Européen ne saura jamais à quel point est effroyable la vie de ces malheureux qui passent leur temps dans la crainte des sortilèges dirigés contre eux. Seuls, ceux qui ont vu cette misère de près comprennent que c’est un devoir d’humanité d’enseigner aux peuples primitifs une autre conception du monde et de la vie, pour les délivrer de ces croyances funestes (…) Quant à l’effort intellectuel que représentent les conquêtes techniques, l’indigène n’est pas capable de l’évaluer. Mais quand il a affaire à un Blanc, il sent avec une intuition infaillible si celui-ci est une personnalité, une personnalité morale (…) le primitif ne connaît que des jugements de valeurs élémentaires (…) quand il rencontre la bonté unie à la justice et à la véracité, la dignité intérieure derrière la dignité extérieure, il s’incline et reconnaît son maître. »
Albert Schweitzer (1875-1965, théologien, philosophe, musicien et médecin missionnaire au Gabon, prix Nobel 1952 de la Paix, in À l’orée de la forêt vierge).

Estadão, 10/05/2015

Aula magna de preconceito, na USP


ROBERTO ROMANO*
10 Maio 2015 | 03h 00
 
A eugenia constituiu uma doutrina genocida espalhada no século 20, mas com raízes antigas no pensamento ocidental. O etnocentrismo que a precede é patente na Política de Aristóteles (Livro VI, 1327b). Os nórdicos, diz o preceptor de Alexandre, são valentes, mas burros. Os asiáticos têm inteligência, mas se acovardam. Já os helenos reúnem mente atilada e valentia. Eles seriam os únicos a quem serve o designativo “homem”. Mas para os atenienses “grego” bastava, porque o resto… era o resto. Como é cego para a dignidade dos estrangeiros, o filósofo marca as mulheres como inferiores, e assim por diante. A linhagem dos teóricos ocidentais que desprezam etnias não brancas é imensa. Ela inclui I. Kant, David Hume, Hegel e outros. Tempos atrás publiquei um artigo intitulado A Mulher e a Desrazão Ocidental (no livro Lux in Tenebris). Nele cito exemplos nada edificantes da filosofia presa ao racismo, ao gênero masculino, à violência contra os mais fracos.

Mesmo em países democráticos brotam casos de preconceito larvar contra judeus, negros, mulheres e pobres. No caso da eugenia, o processo Buck versus Bell, definido na Suprema Corte norte-americana sob a égide do juiz Oliver Wendell Holmes, mostra até onde pode ir a injustiça contra indivíduos ou grupos sem riqueza e poder. A esterilização forçada de uma suposta ou efetiva doente mental - Carrie Buck -, em nome da saúde pública, tem sua joia discursiva na sentença de Holmes. Para ele, “três gerações de imbecis é muito”. O magistrado, paradoxalmente, advogou em favor da livre expressão. E, no entanto, as manifestações hoje reprimidas nos EUA - Baltimore é uma cidade a mais - contra assassinatos cometidos pela polícia provam que a liberdade de expressão vale para quem ostenta colorido alvo da pele.

Edwin Black (A Guerra Contra os Fracos) mostra o itinerário da eugenia, dos EUA à Europa, daí às práticas nazistas contra doentes. A eutanásia, inaugurada por um decreto secreto de Hitler na Aktion T4, foi ampliada para o massacre dos “inferiores” ao branco, louro, corajoso, inteligente herdeiro dos gregos, o suposto ariano germânico.

As linhas acima servem como introito a um atentado cometido na USP contra os afrodescendentes. Um professor, Peter Lees Pearson, no Instituto de Biociências (22/4/2015), em aula de pós-graduação discorreu apologeticamente sobre o artigo de J. Philippe Rusthon e Arthur R. Jensen intitulado James Watson’s mostly inconvenient truth: race realism and moralistic fallacy. Segundo esses autores, nada originais, pois repetem um palavrório que impera desde Aristóteles, os testes de Q.I. comprovariam que a força cognitiva dos negros africanos seria inferior à dos brancos e asiáticos. O docente silencia que James Watson perdeu o cargo de conselheiro do Spring Harbor Laboratory (CSHL) de Nova York por exagerar em sua militância racista.

Afrodescendentes entraram na sala de aula para discutir o dogma exposto por Lees Pearson. A postura do professor seguiu a linha grega de argumentação. Nela, o xingatório do termo “bárbaro” designa indivíduos sem capacidade de falar a superior língua helênica. Assim, eles seriam desprovidos do logos, da razão. Pearson repete todos os pedantes históricos ao ironizar os jovens. “Quem não fala inglês, fique sem se expressar”, decretou o propagandista disfarçado de pesquisador. Cabe à USP justificar o injustificável: como e por quem foi convidada uma pessoa com tais formas de agir?

É moda, em tempos de conservadorismo com tinturas fascistas, desprezar as Luzes, a filosofia emancipadora do século 18. Nem todos os integrantes daquele movimento, é certo, foram democráticos. Voltaire é prova. Mas ele batalhou contra a tortura e os processos judiciais injustos, defendeu a minoria protestante. O caso Calas o imortalizou. Diderot e Condorcet mostraram coragem inaudita ao defenderem os negros contra a violência branca. No caso de Condorcet, também os judeus e as mulheres receberam apoio combativo.

Condorcet invectivou os verdadeiros bandidos de seu tempo, aqueles brancos que inventaram a mais “horrível barbárie”. Em escrito sobre o pensamento de Pascal (1776), ele propõe a renúncia ao açúcar, guloseima “suja pelo sangue de nossos irmãos negros”. E lutou contra o Código Negro, que autorizava os donos de escravos a torturar sua mão de obra. Em 1781 publicou, com o pseudônimo de Joachim Schwartz (Joaquim Negro), escrito em que se dirigia aos afrodescendentes. A natureza, dizia ele, vos formou “para ter o mesmo espírito, a mesma razão, as mesmas virtudes dos brancos. (…) No relativo aos brancos das colônias, não vos faço a injúria de a eles vos comparar. Sei bem o quanto a vossa fidelidade, probidade, coragem fazem enrubescer os donos de escravos. Se procurássemos um homem nas ilhas da América, ele não seria encontrado entre as pessoas de carne branca”. A lembrança do filósofo Diógenes é certeira: entre escravistas, sobretudo quando se imaginam gregos e adeptos da filosofia, não existe humanidade, mas elegante e covarde selvageria.

Graças aos iluministas e democratas, a escravidão foi abolida na França em 1794. Os escravistas franceses negaram-se a obedecer à lei e pediram ajuda dos espanhóis para vencer Toussaint L’ Ouverture, o líder da negritude no Haiti. A derrota do general negro é percebida até hoje naquele triste país, corroído pela miséria após ditaduras amigas dos brancos, como a do sinistro Papa Doc. No Termidor veio o triunfo de Bonaparte e a escravidão foi restabelecida. O imperador guerreiro destruiu os revoltados escravos. Só em 1848 a escravidão foi novamente abolida. Na Inglaterra tal fato ocorreu em 1833 e nos EUA, em 1865.

No Brasil, apesar da Lei Áurea, ainda hoje existem escravidão e preconceitos nada disfarçados em todas as camadas sociais brancas. As autoridades fingem reprimir o racismo e o antissemitismo, como alguns colegas da USP fingem liberdade acadêmica e democracia. Desde que elas sejam para pessoas de pela alva. Shame on you, colegas!

*PROFESSOR DA UNICAMP, É AUTOR DE ‘RAZÃO DE ESTADO E OUTROS ESTADOS DA RAZÃO’ (PERSPECTIVA)

Roque


sexta-feira, 8 de maio de 2015

XXVIII Reunião da Associação Brasileira de Editoras Universitárias. Santa Maria, Rio Grande do Sul



Para Roberto Romano da Silva, a missão das editoras universitárias é a de servirem de elo entre o saber acadêmico e outras partes interessadas da sociedade.

por Vinícius Gaiger

A crítica severa ao mercado editorial foi pauta da conferência de abertura da XXVIII Reunião Anual da ABEU, a Associação Brasileira de Editoras Universitárias. O doutor em filosofia e professor da Universidade Estadual de Campinas, Roberto Romano da Silva, foi o convidado do evento para discutir a produção editorial "Do renascimento aos nossos dias: as letras e suas formas". Contemplando de Sócrates ao universo tecnológico dos nossos dias, o professor da UNICAMP criticou duramente as formas de conhecimento (e desconhecimento) existentes na contemporaneidade. 

Romano da Silva criticou o que chamou de pedantismo, uma prática adotada desde o advento da imprensa, que popularizou as publicações mas provocou o exibicionismo do saber. "Vivemos em uma época de fundamentalismo, em que a letra em si supera o espirito", afirmou. O conferencista definiu o pedante como aquele que não tem capacidade de inventar e apenas reproduz, apropria-se de conhecimentos sem digeri-los, apenas nutrindo-se dele.

Ao falar da missão das editoras universitárias destacou a necessidade de servirem de elo entre o saber acadêmico e outras partes interessadas da sociedade, além de auxiliar a pesquisa, buscando esse saber inventivo. "A produção universitária" - afirma - "precisa diminuir as estranhezas acadêmicas, deve propor uma naturalização do meio acadêmico aliado com a interdisciplinaridade". 

O docente ainda criticou o produtivismo acadêmico e a pressa das instituições de pesquisa em qualificar mestres e doutores, o que, segundo ele, gera teses com pouca relevância editorial. Para ele, essa é mais uma das funções das editoras universitárias, oxigenar o pensamento produtivista que se cultiva nas universidades. 

Roberto Romano condenou as políticas editoriais de grandes empresas, como a Amazon. Fazendo referência ao best seller "Cinquenta tons de cinza", o palestrante denominou as atuais obras mais vendidas como "Cinquanta tons de lucro". Na seqüência, criticou a fragilidade do saber que circula pela internet. Para Romano da Silva, "nos tempos online são poucas pessoas produzindo e muitas apenas consumindo, tratando de apenas mastigar o conhecimento". 

Por fim, tratou de refletir sobre a cultura brasileira. Segundo o palestrante, criou-se o hábito de consumir sem se conhecer a técnica. Gosta-se dos programas, usam-se as ferramentas, mas não há dedicação em conhecer, em apropriar-se do modo de fazer. 

A palestra encerrou-se com um pedido de desculpas pelas duras críticas apresentadas, que logo se mostrou desnecessária, pois os aplausos e sentimentos de admiração mostraram que as criticas do professor foram assimiladas e aprovadas, e podem contribuir com os temas abordados. Principalmente com o universo das editoras universitárias.