sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

SIEG!

estadão

Na próxima semana, as comissões técnicas da Câmara dos Deputados definem seus novos presidentes e existe enorme expectativa para saber quem assumirá a Comissão de Direitos Humanos. A comissão foi palco, em 2013, das maiores polêmicas e protestos dentro do Congresso por conta do comando exercido pelo deputado Marco Feliciano (PSC-SP). À frente da comissão, Feliciano trabalhou a favor de bandeiras conservadoras radicais como a “cura gay”, que previa tratamento para homossexuais, considerando que essa opção sexual era uma doença. A proposta passou na comissão, mas nunca mais prosperou pelo seu conteúdo absurdo.

O grupo que conseguiu eleger Feliciano agora opera para fazer um sucessor com o mesmo tipo de pensamento ou até mais radical. De olho na comissão, o PP se articula, com o apoio dos grupos conservadores da Câmara, para eleger o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ). Capitão militar da reserva, Bolsonaro tem mais de vinte anos de atuação dentro do Parlamento criando polêmicas, especialmente contra partidos de esquerda como o PT. Bolsonaro já defendeu o fechamento do Congresso, aplaudiu na tribuna do plenário a ditadura militar e não perde uma oportunidade para engrossar o coro contra conquistas de direitos civis dos homossexuais.

“Se eu virar presidente da Comissão de Direitos Humanos, as pessoas vão sentir saudades do Feliciano”, avisa Bolsonaro em entrevista ao blog. “Porque, comigo na presidência, não vai adiantar pressão de grupos de defesa de homossexuais dentro da comissão. E quem tem visto minha trajetória no Congresso sabe que, sozinho, eu toco um rebu contra PT, Psol ou qualquer outro partido”, diz.

O controvertido deputado, que já teve sua cassação pedida pelos adversários várias vezes pelas ideias que defende, tem uma pauta de propostas polêmicas, caso prospere a negociação política para comandar a Comissão de Direitos Humanos.

“Quero votar a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Por mim, baixaria até para 14 anos, mas estaria sendo hipócrita porque sei que essa proposta não passa”.

Adoção de crianças por casais do mesmo sexo também enfrentará a resistência do deputado. “Se depender de mim, vou trabalhar na comissão para não ter isso”, afirma.

A metralhadora giratória de Bolsonaro atira contra todos e tem o PT como um dos principais alvos, especialmente em relação aos programas de assistência social.

“O governo não faz planejamento familiar porque acha que quanto mais pobre existir melhor. Porque serão mais eleitores amarrados nos seus programas assistencialistas”, ataca.

Bolsonaro também anuncia que vai propor audiências públicas com familiares de militares que morreram durante a ditadura em ações promovidas por guerrilheiros. “Quero dar voz aos parentes dessas pessoas para contarem o que aconteceu naquele período”.

Adoção da pena de morte também é outro alvo do parlamentar. “Sei que é uma cláusula pétrea da Constituição. Mas minha vida ou a sua não são cláusulas pétreas e estão sujeitas aos criminosos”, diz.
A possibilidade de Bolsonaro assumir a comissão causa preocupação no comando da Câmara, que não quer ver a repetição do palco de confusões que a Direitos Humanos se tornou com Feliciano. A ideia é monitorar a eleição na comissão para garantir que um parlamentar com perfil mais moderado assuma a vaga.

Não sou adepto do Sr. Joaquim Barbosa. Tenho receio de sua truculência autoritária e rezo para que ele nunca seja eleito presidente do Brasil, porque tenho certeza de que será uma ditadura "do bem". Agora, o gesto do deputado é tolo, e também autoritário. Anauê!

Marta Bellini. O post mais poético é o do menino com o gato...

 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Playboy...

O mar não está para “Tartaruga”

beto
Do blog de Valdir Cruz:
O governador Beto Richa, nesta fase em que tenta desmontar sua imagem de playboy e imaturo, resolveu dar um rolé no Tartaruga Bar e Restaurante, no Alto da XV. Chegou no local em sua possante Harley Davidson, acompanhado de dois amigos. Escolheu para se acomodar e beber uma cerveja, uma mesa sobre a calçada, na parte de fora do bar. Foi o seu grande erro. 
Uma cliente do bar, ao perceber o governador bebendo e em trajes de motoqueiro se indignou. Foi até a mesa onde ele estava e, num linguajar popular, “soltou os cachorros em cima dele”. “Foi uma barra”, conta um cliente que viu a cena. A mulher chamou o governador de moleque e irresponsável, que fez promessas vazias e que não gosta de trabalhar.
Aos gritos, e sob o olhar estupefato dos demais clientes, a mulher mostrou a quanto anda a popularidade de Beto Richa. Sobrou até para o pai do governador. “O seu José Richa, um homem simples e trabalhador, deve estar no céu lamentando a administração que o filho está fazendo”, berrou. Desconcertado, Beto Richa não reagiu aos xingamentos e, sua única atitude, foi levantar-se, constrangido, pegar a moto e sair queimando pneu.
Sobre a mesa, ficaram as bebidas que eles mal começaram a consumir.
Na pressa, esqueceram de pagar a conta.
Com o governador longe, muitos aplaudiram a mulher.

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Irmãos e irmãs...

rsrsrsrssrrs

Sublime

Enviado pelo Ze  de Arimatheia

Uma ordem vital...

"Conforme Bergson demonstrou, a desordem não existe. O que existe são duas espécies de ordem: uma geométrica e a outra vital. Minha ordem é univocamente da espécie vital. Os dossiers de que preciso encontram-se ao alcance da minha mão, de conformidade com a frequência com que os utilizo" (Piaget em entrevista para Bringuier, 1978).


Do Facebook de Vicente Marçal

Roque


IHU/Unisinos, Estadão.

 

 

“Há ainda muito apoio a grupos de extermínio e justiceiros”

Pesquisadora da violência urbana desde os anos 1970, a antropóloga Alba Zaluar em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, 06-02-2014, vê com preocupação a legitimação do comportamento dos jovens justiceiros pelas classes média e alta. Coordenadora do Núcleo de Pesquisa das Violências da Universidade do Estado do Rio (Uerj), ela defende que se ensine às crianças a importância das leis.

Eis a entrevista.

Achar normal que se prenda um jovem supostamente infrator num poste diz o que sobre nossa sociedade?

É algo que ocorre no Brasil todo. Não é um fenômeno do Rio, da classe média. Tem muito apoio a justiceiro, grupo de extermínio. Veem de forma imediatista e preconceituosa. Bandido bom é bandido morto? O que chamam de bandido? O pobre, negro, favelado.

Por que o brasileiro é tão tolerante com esses abusos?

Temos de dar aulas de cidadania e civilidade às crianças, ensinar o que é tolerância, respeito. Tem de ter um professor que mostre como as coisas funcionavam antes da polícia e da democracia. Esse tipo de vingança é interminável. Não tem vida dentro de uma cidade com milhões de pessoas sem que existam leis.

Como responder a quem argumenta que é preciso agir com as próprias mãos porque a polícia e a Justiça são falhas?

A justiça pelas próprias mãos é própria de uma sociedade que não funciona como deveria. Não há democracia sem polícia, mas tem de ser uma polícia que esteja agindo corretamente.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Roque


DO AMIGO ALVARO CAPUTO. GOSTO DE VER PESSOAS LUTANDO. QUEM SABE O NOVO É DE FATO, NOVO?


Amigos
a convite de um amigo fui assistir a reunião do Diretorio do NOVO, um movimento que tenta criar um partido com valores com os quais me identifico. Encontrei um grupo de pessoas idealistas, extremamente comprometidos e conscientes que não se muda o Brasil em um prazo curto, mas que, se queremos muda-lo dentro do regime democratico, é vital a criação de um partido alinhado com os ideais éticos que tanto nos faltam.

O Partido ja foi criado e está agora no processo de registro, necessitando apresentar ao TSE 500 mil fichas de apoio a sua criação. O NOVO esta num mutirão para obter estas fichas, que não significam filiação partidária, mas simplesmente o apoio a criação do partido.

Recomendo as pessoas como eu, desiludidas e céticas em relação ao futuro de nosso filhos e netos, uma visita ao site do partido:


Se voce se sentir parcial ou totalmente em linha com as ideias ali expostas, voce poderá contribuir completando e assinando (como assinou na ultima eleição) a ficha de apoio anexa, com porte pago e entregando-a numa agencia do Correio.

 
abcs
Alvaro

Você conhece o NOVO? 
 
Trata-se de um grupo de pessoas que decidiu se organizar para constituir o primeiro partido político “ficha limpa” do Brasil, com foco em: 

- melhorar a gestão e a eficiência do setor público, 
- defesa das liberdades individuais e da livre iniciativa, 
- priorizar e garantir educação básica de qualidade para todos. 
 
Chama-se Partido NOVO. Se você, assim como eu, acredita que um Brasil melhor é possível, conheça o NOVO. 
 
Acesse o site: 
Ou participe dos debates online na página: 
 
Seja a mudança que você deseja ver no Brasil! Participe para tornar o NOVO realidade

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

IHU/Unisinos

 

 

“As águas subterrâneas são um recurso pouco entendido e ainda pouco apreciado”. Entrevista especial com Ricardo Hirata

“Nos aquíferos é que se encontra reservada a maior parte da água do mundo — 97% das águas doces e líquidas do planeta. Quando vemos problemas de estiagem, que serão agravados pelas mudanças climáticas, podemos supor que é no recurso subterrâneo que está a possibilidade de superação”, destaca o hidrogeólogo.

 
 
Foto: iThirst
“O usuário não tem ideia dos custos de extração das águas e, sobretudo, de que problemas advindos da falta de controle afetam a sua extração. Ele está pagando mais pela água sem saber que muitas vezes é a irregularidade dos poços do seu vizinho que está provocando esse incremento de gastos. Isso ocorre também com grandes usuários, incluindo as companhias municipais de água. É um conflito não percebido pela população, que não tem ideia de causa e efeito nesse ambiente. Mesmo os técnicos do estado têm muitas vezes uma percepção bastante restrita desses problemas, ainda mais em áreas urbanas. As empresas, os condomínios e mesmo as concessionárias poderiam economizar muito se medidas simples, mas bem equacionadas, fossem implementadas em suas captações”, aponta o hidrogeólogo Ricardo Hirata.

O pesquisador lidera o Centro de Pesquisas de Água Subterrânea – CEPAS, instituição vinculada à Universidade de São Paulo - USP e que há mais de dez anos investiga os índices de nitrato em águas subterrâneas no estado de São Paulo. “O nitrato é o contaminante mais comum encontrado nas águas subterrâneas no Brasil e no resto do mundo”, enfatiza Hirata. As principais fontes de contaminação são o esgoto urbano, proveniente de fossas sépticas ou negras ou mesmo do vazamento das redes de saneamento que sofrem com a falta de manutenção, e o uso excessivo de fertilizantes nitrogenados no meio rural. As pesquisas do CEPAS vêm demonstrando aumento na concentração de nitrato nas águas subterrâneas, mesmo naquelas áreas em que há redes antigas de saneamento — o que é indicativo da existência de vazamentos nos canos de esgoto.

“As águas subterrâneas são um recurso pouco entendido e ainda pouco apreciado pela população, embora elas sejam utilizadas por mais de 35-40% da população brasileira. No estado de São Paulo, mais de 70% de seus municípios são total ou parcialmente abastecidos pela rede pública com águas de aquíferos. Isso é mais notável em cidades de médio e pequeno porte, onde os recursos subterrâneos são comparativamente mais vantajosos que os recursos superficiais. Cidades como Ribeirão Preto - SP, Porto Alegre - RS, Manaus - AM, Natal - RN, Brasília - DF, São José dos Campos - SP, Jales - SP, Marília - SP dependem fortemente das águas subterrâneas”, ressalta o pesquisador.

Foto: bloggeografiaf
Ricardo Cesar Aoki Hirata é diretor do Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas – CEPAS da Universidade de São Paulo – USP e professor do Instituto de Geociências da mesma instituição. Possui graduação em Geologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP, mestrado e doutorado em Geociências com área de concentração em Recursos Minerais e Hidrogeologia pela USP e pós-doutorado pela Universidade de Waterloo, no Canadá. É consultor da UNESCO e da International Atomic Energy Agency - IAEA, tendo atuado também como consultor da Organização Pan-Americana da Saúde - OPAS/OMS.
Confira a entrevista.

Ricardo Hirata. Foto: arquivo pessoal
IHU On-Line – Que relação há exatamente entre os índices de nitrato e a contaminação de aquíferos por infiltração de esgoto urbano?
Ricardo Hirata - O nitrato é o contaminante mais comum encontrado nas águas subterrâneas no Brasil e no resto do mundo. As suas características de alta mobilidade e grande persistência nas águas subterrâneas fazem com que plumas de nitrato sejam encontradas em quase todos os aquíferos urbanos no Brasil. Nesse caso, a principal fonte é o esgoto proveniente de fossas sépticas ou negras ou mesmo do vazamento da rede de esgoto, que carecem de manutenção.
IHU On-Line – Este cenário é também verificado no meio rural? Qual a incidência de contaminação das águas por fertilizantes e agrotóxicos?
Ricardo Hirata - O nitrato também é bastante comum no meio rural, pois em áreas agrícolas o excesso de fertilizantes nitrogenados, que é bastante comum, acaba chegando até o aquífero, contaminando-o. Neste caso, não temos muitos estudos no Brasil e, portanto, temos ainda pouca ideia de sua extensão. Mas, a partir da experiência em outros países, é de se acreditar que haja problemas no Brasil, atingindo-se grandes áreas, sobretudo pela sua grande vocação agrícola, de alta técnica.
IHU On-Line – Quais são os principais riscos da ingestão de nitrato para a saúde humana?
Ricardo Hirata - O nitrato é um contaminante de média toxicidade. Assim, em concentrações acima de 10mg/L (como nitrogênio-nitrato; e 45mg/L, como nitrato), pode provocar a meta-hemoglobinemia, que afeta bebês. Há igualmente suspeitas de que, em concentrações bastante menores, ele também seja carcinogênico [que pode provocar câncer].
IHU On-Line – Que outros contaminantes nocivos à saúde humana são encontrados nas águas subterrâneas? Que riscos provocam?
Ricardo Hirata - Há uma infinidade de compostos que podem, em concentrações excessivas, provocar problemas à saúde humana. Um grupo de contaminantes bastante preocupantes são os solventes sintéticos clorados. Esses apresentam grande toxicidade e são bastante persistentes e móveis em aquíferos. O interessante é que, devido a sua grande volatilidade, esses contaminantes não têm a mesma importância para as águas superficiais. Isso faz com que os órgãos de controle ambiental do Brasil não deem atenção a eles em programas de monitoramento regular nas águas subterrâneas. Metais pesados formam outro grupo bem importante e nocivo às águas subterrâneas, embora eles não apresentem a mesma mobilidade que o nitrato ou os solventes clorados nos aquíferos.
IHU On-Line – Nesta perspectiva, quais foram os principais resultados encontrados pelas pesquisas realizadas pelo CEPAS?
Ricardo Hirata - Os resultados que o CEPAS tem acumulado ao longo desses 10 anos no estudo do nitrato fez concluir que esse contaminante tem sido detectado cada vez mais no estado de São Paulo, permitindo afirmar que todas as cidades paulistas apresentam, em variados graus, problemas com esse contaminante. A rede oficial de monitoramento do estado, operada pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo - CETESB, tem inclusive mostrado aumentos nas concentrações desse contaminante em seus poços, corroborando com os resultados de nossas pesquisas.
Outra importante constatação que não era considerada pelos gestores ambientais é que grandes plumas de nitrato estão sendo detectadas em aquíferos urbanos, mesmo que a área já tenha há muito tempo rede de esgoto. Embora a existência de rede de esgoto diminua substancialmente a carga contaminante ao subsolo (comparativamente a fossas sépticas e negras), a falta de manutenção da rede pública e os seus vazamentos são suficientes para criar importantes plumas contaminantes. O que preocupa nesse cenário é que simulações em computador feitas pelo nosso grupo com as plumas observadas em cidades (mesmo com rede de esgoto) têm mostrado que estas levariam, caso cessadas completamente as fugas de esgoto, mais de 60 anos para ter os seus aquíferos novamente limpos, mostrando claramente que evitar o problema é a melhor e mais barata solução para o nitrato. Neste caso, o que se conclui é que a rede de esgoto moderna, com tubos plásticos, deve anteceder a qualquer ocupação do terreno urbano.
IHU On-Line – Estes resultados servem de parâmetro para outras realidades regionais e/ou para um cenário nacional?
Ricardo Hirata - Sim, a presença de nitrato em outros aquíferos fora do estado de São Paulo deve ocorrer, e até em maiores proporções, pois as cidades possuem menor cobertura de rede de esgoto comparativamente às cidades paulistanas. O melhor exemplo disso é Natal - RN, cidade abençoada pela excelente qualidade de suas águas subterrâneas, mas onde a concessionária tem dificuldades de fornecer água sem nitrato (e potável) à sua população. A combinação entre poços mal localizados (dentro da malha urbana densa) e a falta histórica de rede de esgoto tem criado os sérios problemas lá observados.
IHU On-Line – Há fiscalização sobre a potabilidade da água de poços tubulares (artesianos)?
Ricardo Hirata - A legislação que controla o uso da água subterrânea é estadual e em muitos estados há mecanismos para a fiscalização da qualidade das águas extraídas por poços tubulares. O problema é que essas leis são pouco seguidas, foram daqueles instrumentos que não “pegaram” ainda. O usuário não vê importância na regularização de seu poço e nos benefícios que isso pode trazer para ele e para toda a comunidade, e, por extensão, ao ambiente. De outro lado, o estado não tem oferecido nenhum dos serviços pelos quais ele é responsável, como o de implementar a sustentabilidade do recurso, fazendo com que o controle evite a contaminação e os problemas de superexploração.
A falta de um controle das demandas de água pode levar a importantes problemas, muitas vezes desconhecidos pelos usuários, incluindo:
a) redução dos níveis aquíferos, encarecendo o bombeamento das águas subterrâneas pelo aumento do consumo de energia ou necessidade de aprofundamento do poço;
b) redução dos fluxos de base a corpos de água superficial, como rios e lagos, causando problemas de vazão durante, sobretudo, as estiagens;
c) indução de contaminação e salinização das águas;
d) indução de problemas geotécnicos, como afundamentos do terreno;
e) exaustão do recurso e sua perda.
Outra área de pesquisa do CEPAS está concentrada na gestão dos recursos hídricos subterrâneos e tem concluído que o usuário não tem ideia dos custos de extração das águas e, sobretudo, de que problemas advindos da falta de controle afetam a sua extração. O usuário está pagando mais pela água sem saber que muitas vezes é a irregularidade dos poços do seu vizinho que está provocando esse incremento de gastos. Isso ocorre também com grandes usuários, incluindo as companhias municipais de água. É um conflito não percebido pela população, que não tem ideia de causa e efeito nesse ambiente. Mesmo os técnicos do estado têm muitas vezes uma percepção bastante restrita desses problemas, ainda mais em áreas urbanas. As empresas, os condomínios e mesmo as concessionárias poderiam economizar muito se medidas simples, mas bem equacionadas, fossem implementadas em suas captações.
IHU On-Line – Qual é a relevância dos poços tubulares para o abastecimento de água no Brasil?
Ricardo Hirata - Muito maior que a percepção que o brasileiro e seus gestores têm. As águas subterrâneas são um recurso pouco entendido e ainda pouco apreciado pela população, embora elas sejam utilizadas por mais de 35-40% da população brasileira. No estado de São Paulo, mais de 70% de seus municípios são total ou parcialmente abastecidos pela rede pública com águas de aquíferos. Isso é mais notável em cidades de médio e pequeno porte, onde os recursos subterrâneos são comparativamente mais vantajosos que os recursos superficiais. Cidades como Ribeirão Preto - SP, Porto Alegre - RS, Manaus - AM, Natal - RN, Brasília - DF, São José dos Campos - SP, Jales - SP, Marília – SP dependem fortemente das águas subterrâneas. Mesmo na Bacia do Alto Tietê, as águas subterrâneas são o quarto mais importante manancial, fornecendo mais de 10 metros cúbicos por segundo de água, superando os outros cinco mananciais superficiais operados pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo - SABESP. Na agricultura, o censo agrícola do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE computa mais de 450 mil poços tubulares (não cacimbas) em áreas rurais brasileiras.
IHU On-Line – É viável a descontaminação da água com incidência de nitrato?
Ricardo Hirata - Sim, há tecnologias, como os sistemas de osmose reversa, que são bastante caras. Há técnicas de descontaminação das águas dentro do aquífero, com a injeção de produtos que provocam a desnitrificação, mas essas técnicas estão ainda no campo da pesquisa. O que as empresas concessionárias de água têm feito é mesclar águas contaminadas com outras em que a concentração de nitrato é menor, permitindo fornecer águas não contaminadas.
Foto: Mundo das Tribos
IHU On-Line – O que pode ser feito para a reversão deste quadro de contaminação contínua das águas subterrâneas?
Ricardo Hirata - Um dos grandes problemas que as águas subterrâneas enfrentam é o desconhecimento de sua importância, o que leva à falta de atenção por parte dos gestores. As águas subterrâneas não estão na agenda dos governos nem do setor agrícola. De um lado há um recurso já bastante utilizado no Brasil, cujos ganhos econômicos, sociais e ambientais não são percebidos, entretanto, pela população. Isso faz com que esse recurso não seja discutido nas grandes tomadas de decisão no planejamento urbano ou mesmo rural.
De outro lado, nos aquíferos é que se encontra reservada a maior parte da água do mundo — 97% das águas doces e líquidas do planeta estão nos aquíferos. Quando vemos problemas de estiagem, que serão agravados pelas mudanças climáticas, podemos supor que é no recurso subterrâneo que está a nossa possibilidade de superação do problema, a partir do uso conjunto e racional do recurso subterrâneo e superficial. É uma imensa caixa de água de excelente qualidade esperando para ser convenientemente aproveitada. Assim, investir no conhecimento do recurso, buscando as novas oportunidades, é imperioso para aumentar a segurança hídrica em cidades.
Um segundo ponto é que os estados, por meio de seus órgãos gestores, realmente gestionem as águas subterrâneas, fazendo com que as leis sejam de fato cumpridas, e que a população e usuários sejam informados dos benefícios e limitações que podem surgir pelo mau uso do recurso ou do solo.
IHU On-Line – As políticas públicas de saneamento e a legislação brasileira dão conta da preservação das águas e, consequentemente, da saúde humana?
Ricardo Hirata - Em parte sim, mas é importante notar que a simples presença de redes de esgoto não elimina o problema da contaminação por nitrato em áreas urbanas. Novas redes, com novos materiais, e manutenção periódica é que vão garantir a qualidade das águas. Da mesma forma, os planejadores devem levar em consideração que é importante construir redes de esgoto nas novas áreas urbanas (preferencialmente antes de sua ocupação), antecipando-se aos problemas.
Outro ponto importante é que muitos sanitaristas acreditam que se deveria fechar os poços tubulares quando a área já tenha rede de água potável. A motivação para isso é muitas vezes simplista e não leva em consideração o real papel que o abastecimento privado tem nas nossas cidades. Por exemplo, considerando-se as cidades da Bacia do Alto Tietê. A população é razoavelmente bem servida de água, mas o que os dados estatísticos oficiais esquecem é que temos mais de 10 metros cúbicos por segundo advindos de 12 mil poços privados que suplementam o abastecimento. Sem essa água, o sistema de abastecimento não daria conta e teríamos sérios problemas. O mesmo é para Recife, onde mais de 13 mil poços (a maioria privada) suplementam o abastecimento da Companhia Pernambucana de Saneamento - COMPESA e fazem a diferença, sobretudo em períodos de estiagem como o que ocorreu recentemente.
Adicionalmente, deve-se considerar a economia que as águas subterrâneas trazem para o usuário. Um poço bem operado em um aquífero produtivo geralmente fornece água com menores custos, comparativamente às águas das concessionárias, e muitas vezes com qualidade superior. Vide as águas minerais. Todas elas são subterrâneas!

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Marta Bellini.

Objetos da afetividade....

 
 
De Arthur Bispo do Rosário
 
Em um mundo de objetos sem objetos, a gente inventa o mundo de objetos e afetos. Para mim, Arthur Bispo do Rosário, despido do mundo e pelo mundo, construía o seu e se rodeava de botões, latas, aventais, retratos, linhas...afetos. 
 

Coutinho....

Um dos meus cineastas prediletos. Anos atrás assisti em São Paulo, Cabra marcado para morrer. Divino documentário. Anos depois, distraída, vi na TV, Edifício Master. E daí Eduardo Coutinho, definitivamente, me conquistou. No final do documentário Edifício Master, ele diz, "Vamos embora que eu estou muito cansado".  E eu também fiquei cansada. De ver aqueles edifícios de homens e mulheres solitários, desempregados, ou com emprego ruim, brigas ... na cidade imensa e quase ou mesmo infeliz. SALVE, EDUARDO COUTINHO. Não morreu, virou estrela. Imagem: Abril.

The Washington Post


In China’s war on bad air, government decision to release data gives fresh hope

Aly Song/Reuters - A man wears a mask while walking on a bridge during a hazy day in Shanghai. Starting this year, the government has required 15,000 factories to publicly report details on their air emissions and water discharges in real time.
BEIJING — China’s Communist state is hardly known for its transparency. So when environmental groups appealed to the government last year to disclose official data on air pollution, they were not expecting much.

“Way beyond our expectations, the government actually said yes,” said Ma Jun, head of the Institute of Public and Environmental Affairs in Beijing. “I am quite amazed.”
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Comparing Chinese and U.S. air pollution
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Comparing Chinese and U.S. air pollution
Since Jan. 1, the central government has required 15,000 factories — including influential state-run enterprises — to publicly report details on their air emissions and water discharges in real time, an unprecedented degree of disclosure that is shedding light on the who, what, when and where of China’s devastating environmental problems.

The reporting requirement is part of a striking turnaround by China’s government, which is also publishing data on the sootiest cities and trying to limit the use of coal. The country’s appalling air is blamed for more than a million premature deaths a year, for producing acid rain that damages the nation’s agriculture, for driving away tourists and even for encouraging the brightest students to study abroad. Perhaps just as important, Beijing’s bad air has been making its Communist leaders lose face.
Cleaning up China’s bad air will take years, even in the best of circumstances. The economy is dependent on coal, and there are many powerful interests involved. But activists say the new steps could at least represent the beginning of change.

Linda Greer of the Natural Resources Defense Council in Washington says the reporting requirement for factories is the “biggest thing” China has done to address its pollution problems, and the most likely to produce results. 

“It brings them from the back of the pack globally, in terms of public information disclosure, to the front of the pack,” Greer added by telephone. “Inevitably it will strengthen the hand of regulators when they have bad air pollution days, to look at real-time data.”

Roots of the disclosure
 
The seeds of the new transparency were sown by the U.S. Embassy when it began monitoring and publishing data on the fine particles in Beijing’s air that cause the most harm to human health — those that measure less than 2.5 micrometers in diameter. Today, the air-quality readings by the U.S. Embassy and consulates around the country are a major topic on China’s microblogs and are widely watched through a smartphone app.

The Chinese government initially pushed back against such disclosure, requesting in 2009 that the United States stop making public the data.

But in 2012, Chinese authorities ordered cities to publish their own data on PM2.5 pollution levels; today, 179 cities issue real-time figures, while the Ministry of Environmental Protection has begun ranking the worst offenders. Those rankings have been dynamite.

Everyone knew that heavy industry around Beijing was responsible for much of the capital’s bad air, but few people fully appreciated the scale of the problem. The ministry’s rankings showed that seven of the 10 most polluted cities in China in 2013 were in Hebei province, which surrounds the capital and is the center of the nation’s steel industry, as well as being a major glass, coke and cement producer.

The data made one conclusion inescapable: Beijing’s pollution would never be tackled unless Hebei’s heavy industry was either cleaned up or shut down.

The data disclosure was part of a new resolve in China’s government to confront its environmental problems, which have increasingly been the subject of protests.

In September, the Chinese government unveiled a $280 billion plan to improve air quality, including limiting coal use and banning high-polluting vehicles. Under the plan, the Beijing-Tianjan-Hebei area is required to cut concentrations of PM2.5 fine particles by 25 percent by 2017.

Of course, China has set and missed environmental targets before. And a real cleanup would involve significant social and economic costs, especially for Hebei. In 2012, the province produced more crude steel than the entire European Union and twice as much as the United States, according to the economics research firm Dragonomics. Its steel plants are not only massive polluters, but also massive tax and employment generators. No one in government wants a sea of unemployed factory workers at Beijing’s doorstep.

Nevertheless, as part of a plan to cut overcapacity in heavy industry and limit pollution, China declared in October that it would reduce steel production by 10 percent, or 80 million tons, by 2017, with the bulk of the adjustment forced on Hebei.

At provincial party congress meetings in January, cleaning up the nation’s air seemed to garner as much attention as preserving its economic growth. Beijing’s mayor promised to cut coal use as part of an “all-out effort” to curb air pollution, while Hebei’s governor threatened to sack party secretaries and industry managers if production of steel, glass and cement was even one ton above target.

Public pressure
 
But it is the focus on individual factories that really gives environmentalists such as Ma reason for optimism. Although several provinces have yet to comply with the government’s edict to publish data, figures from Hebei are available and show factories brazenly flaunting limits on emissions.
Ma is working with experts to design a phone app that could vividly expose the offenders, with factories meeting emissions targets showing up as blue and those breaking the law coded red.
“What we aim to do, through public pressure, is help the environment protection bureau to enforce the law,” he said.

In the United States, the Toxics Release Inventory, created in 1986, was one of the Environmental Protection Agency’s most successful programs, Greer said. China’s real-time disclosure program is bigger than anything the EPA has done, she said.

On a recent day in Hebei, a thick carpet of gray smog blanketed the province and the smell of sulphur hung in the air. Near one factory outside the city of Tangshan, a worker on a bicycle angrily confronted journalists trying to photograph smoke and steam billowing into the air.
“Recently journalists have been complaining about pollution, and all the factory owners have come under pressure,” he said. “We are very afraid they will lay us off. Each worker has a family to raise. We have no land, or other industry. Everything we have depends on steel factories.”

But in the village of Wushizhuang, near the Zhengda steel works, locals were as angry as anyone about the pollution that was harming their lungs and ruining their crops — even though many had relatives employed in the surrounding factories.

One man said the apples and pears in his orchard grew so black with grime that they could never be sold, while another wiped thick black dust off a car that he said had been washed the day before.
Transparency obviously still has its limits in China — the Ministry of Environmental Protection and the provincial government in Hebei declined requests for an interview. But the new information may drive action.

Greer said that officials could focus on forcing factories that were egregiously violating pollution limits to use control devices.

“Making them run their pollution control devices is a lot easier than closing them down,” she said. “First, I would see what happens if they all ran those devices. We might see a meaningful reduction.”


Rongkun Zhao contributed to this report.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

IHU/Isto É. Know how de repressão eles tem...

A estratégia de Dilma

Governo monitora comitês populares e líderes anarquistas para evitar que protestos, que certamente acontecerão durante a Copa do Mundo, adquiram maiores proporções e inviabilizem acesso aos jogos.

A reportagem é de Sérgio Pardellas e publicada pelo IstoÉ, 31-01-2014.

Num ano que já teve rolezinho, ônibus incendiados e até um ataque covarde contra um trabalhador que dava carona em seu Fusca, o Planalto aguarda pela Copa do Mundo com a certeza de que o País irá conviver com protestos de natureza variada. A dúvida é o tamanho e a tonalidade. Na semana passada, ao iniciar um périplo pelas 12 cidades que irão sediar a Copa, o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, procurava colocar a discussão em termos políticos.

“A Copa vai ser um sucesso porque a população quer ver os jogos, quer torcer pelo Brasil e quer receber bem as torcidas estrangeiras.” Um levantamento do Datafolha junto a 10.403 torcedores, realizado um mês após os protestos apocalípticos de junho de 2013, mostra um ambiente favorável. Se 21% disseram não apoiar a Copa, 37% se disseram a favor e 26% deram apoio em parte. Para 75%, a Copa irá reforçar o “orgulho de ser brasileiro”. Para 51%, a Copa deixará um legado positivo. Nas cidades-sede, o otimismo é maior: 59% acreditam num saldo favorável.

Na Secretaria-Geral da Presidência da República, emissários sob comando do ministro Gilberto Carvalho monitoram tanto Comitês Populares da Copa, que reúnem famílias  que foram retiradas de suas casas para a abertura de avenidas e demais obras públicas, quanto aquilo que o governo chama de “o pessoal de Seattle”: anarquistas que irão se mobilizar em torno dos estádios em busca de confronto permanente. Com os primeiros o Planalto acha que tem diálogo e desde já procura debater reivindicações. Com os segundos não haverá muito o que fazer – a não ser torcer para que sejam menos numerosos do que no ano passado e possam ser contidos em limites aceitáveis de cidadania.
A cinco meses para o pontapé inicial, o Planalto encomendou às prefeituras de cada cidade-sede e aos respectivos governos estaduais um balanço específico de cada investimento anunciado. Os resultados – que devem ser desiguais – começaram a chegar a Brasília e devem ser finalizados no início da semana.

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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Zero Hora 01/02/2014

Brasil de hoje01/02/2014 | 08h31

Como novas manifestações devem interferir no jogo eleitoral de 2014

Especialistas avaliam qual será o impacto do atual cenário pós-2013 no tabuleiro da política nacional no ano de uma nova eleição



Como novas manifestações devem interferir no jogo eleitoral de 2014 Carlos Macedo/Agencia RBS
 
Manifestação contra a Copa no centro de Porto Alegre, em 2013 Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

O tabuleiro sobre o qual se travará a próxima eleição está incompleto – e isso é absolutamente normal faltando oito meses para a realização do primeiro turno. Mas algumas peças já se posicionam no espaço quadriculado, tanto sobre o branco quanto sobre o preto, antecipando-se como possíveis protagonistas no jogo eleitoral.

Cientistas sociais se acautelam nas análises, por agora. Compreende-se: palpitar sobre eleições  pode ser tão incerto como arriscar a previsão do tempo, ainda mais no instável cenário brasileiro, sujeito a guinadas políticas bruscas. No entanto, o filósofo Roberto Romano, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diz que já se pode identificar as peças mais salientes.

De um lado, perfilam-se as peças da insatisfação popular, como as que voltaram a eclodir nos últimos dias, notadamente em São Paulo, contra a realização da Copa. Sobram queixas para o transporte público desconfortável, caro e ineficiente, enquanto o governo torra dinheiro em estádios de utilidade duvidosa. O mesmo descontentamento abrange os serviços de educação, saúde, segurança e logística.


Na outra parte, alinham-se as peças de matiz econômico e político. O dragão da inflação debochou da caderneta de poupança, ano passado, e mordisca os salários. A indústria brasileira não deslancha, esbarrou na precariedade dos portos e das rodovias e no atraso tecnológico. Atitudes como a do senador Renan Calheiros (PMDB), que usou a frota da Força Aérea Brasileira (FAB) como táxi aéreo duas vezes, uma para implantar fios de cabelo na pronunciada careca, amplificam o desagrado.
– O tabuleiro está montado. Vai depender de quem jogar e qual peça será movida –  observa Roberto Romano, doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales.

Ativistas de junho são uma incógnita 

Seria precipitado supor como agirão os movimentos sociais nas eleições. O vendaval popular que sacudiu o país em junho de 2013 parece ter refluído, voltado ao leito das águas calmas – os últimos espasmos são autoria dos radicais Black Blocs. Romano percebe grupos autônomos de oposição, enquanto outros estão vinculados ou foram cooptados pela máquina governista do Partido dos Trabalhadores. São os neo-chapa-brancas, os assumidos e constrangidos, na última categoria aqueles que trocaram o passado de lutas por cargos, salários e verbas. 

– Não vejo, por parte dos movimentos sociais e mesmo entre os partidos, uma estratégia capaz de levar o povo para as ruas e influir nas eleições – ressalta o professor da Unicamp.

Se acontecer uma nova onda de contestação em massa, como a de junho, não será por iniciativa de líderes, mas pelo rebentar de alguma situação imponderável. Romano exemplifica que o governo de São Paulo está às voltas com os sem-teto há décadas. Quanto mais a polícia reprime, mais o movimento cresce. É como um ioiô, que desce mas sempre torna a se elevar na direção de quem aciona o cordel. 

– Chega-se a um limite em que não se pode controlar as massas, o estouro torna-se irreversível – alerta Romano, citando um dos seus pensadores preferidos, o escritor búlgaro Elias Canetti.
O cientista político André Marenco não acredita que as multidões de junho possam direcionar as eleições. Se voltarem às praças, deverão provocar um “impacto residual”, sem desequilibrar a balança para um dos lados. Professor de pós-graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Marenco diz que a tempestade democrática do inverno de 2013 resultou de uma contradição. Nos últimos 10 anos de PT, houve avanços inegáveis: maior renda e consumo, menos desemprego, redução da  desigualdade, ascensão de classes desfavorecidas. 

Em contrapartida, o governo não conseguiu lançar uma agenda de reformas política, econômica e administrativa. As instituições continuam funcionando do mesmo jeito – obsoletas e ineficazes. Marenco lamenta que o PT, para se manter no poder, precise fazer alianças com setores atrasados e oportunistas, o que significa conviver com o clientelismo e a corrupção.

– O resultado é que temos uma máquina pública pouco responsiva, pouco sensível à população – avalia.

Junho foi intenso como um furacão, mas de duração limitada. Derrubou a popularidade da presidente Dilma Rousseff, conforme as pesquisas de opinião da época, mas os índices tornaram a subir depois. O próprio movimento, ao ser envolvido pela tática de vandalismo e violência dos Black Blocs, recuou .
– Houve um momento em que catalisou o sentimento latente de inconformidade, mas não tinha uma agenda para se manter – diz Marenco.

As eleições tendem a ser chochas. O professor da UFRGS não quer fazer apologia, mas lembra que a rotina de votar pode diminuir o apetite da população. É o fastio da democracia, como ocorreu no Chile, em dezembro, quando a socialista Michelle Bachelet foi eleita pela segunda vez à presidência, mas sob uma abstenção de quase 60%. Como o voto não é mais obrigatório no Chile, os eleitores desertaram.

No Brasil, o que incomoda Roberto Romano é a peculiaridade das campanhas eleitorais. Os políticos, do Executivo e do Legislativo, estão à caça de votos mesmo no exercício dos mandatos. A reeleição parece ser o objetivo maior. O que era para ser uma vocação temporária virou profissão – e das mais atraentes. Gordas aposentadorias vitalícias, como as que são pagas a ex-governadores gaúchos por terem ficado quatro anos no Palácio Piratini por vontade própria, garantem um futuro que é negado à totalidade dos trabalhadores. 

Fator Lula, o “condottiero” 

A peça mais decisiva do tabuleiro eleitoral, para Marenco, será a economia. Em 2010, foi valiosa para que Luiz Inácio Lula da Silva emplacasse a sucessora no Planalto. A situação não se deteriorou, o Brasil resistiu às reverberações da crise internacional, mas um deslize financeiro poderia afetar a reeleição de Dilma. Seriam os percentuais de emprego e renda, e não o clamor das ruas, que balizariam os votos. O sociólogo Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira, o Chico de Oliveira, tem uma interpretação um pouco diferente. Acha que o fator preponderante será o ex-presidente Lula, a quem  define como um “condottiero autoritário”, em referência aos chefes de milícias mercenárias com poderes ilimitados nas guerras antigas. Na condição de um dos fundadores do PT,critica:
– Infelizmente, ele tem o poder. Já tirou dois coelhos da cartola, a Dilma e o Hadadd (Fernando Haddad, eleito prefeito de São Paulo pelas mãos de Lula).

Professor da Universidade de São Paulo (USP), Chico de Oliveira acredita que Lula neutralizou e continuará subjugando a oposição, porque, entre outras estratégias, adotou um programa de governo neoliberal, nos moldes propostos pelo arquirrival PSDB. Não atribui o mérito exclusivamente a Lula, esclarece que a debilidade das oposições facilitou a manobra.

– Ou os tucanos desmontam o Lula, ou terão de esperar um novo ciclo político –destaca o sociólogo, pós-graduado na École des Hautes Études en Sciences Sociales.

A exemplo de André Marenco, Chico de Oliveira espera uma eleição “morna”. Diz que a sociedade “está satisfeita e acomodada”, porque a inflação não é assustadora e o nível de emprego se mantém. Também não detecta vigor nos movimentos sociais, mesmo os independentes, porque não conseguiram imprimir sua marca.

– Não há muito o que esperar dessa eleição. A política não está processando os conflitos reais da sociedade – analisa.

Haverá um “efeito Copa”?

O que ocorrer fora dos gramados, na Copa do Mundo, poderá repercutir nas urnas, não se sabe com que intensidade. Lembre-se que a Fifa instalou um enclave, com regras próprias, no território brasileiro. Uma das exigências, contrariando a legislação daqui, foi permitir a venda de bebida alcoólica nos estádios durante os jogos. Para o filósofo Roberto Romano, A Fifa se comporta com “arrogância e falta de respeito”. Não se surpreenderia se alguma falha nos preparativos, como na venda de ingressos, deflagrassem protestos.

O professor de comunicação digital Marcelo Träsel, da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), lembra que as redes sociais devem canalizar as manifestações. Também serão a plataforma para debates políticos. Apesar de o brasileiro ter aprendido a usar a ferramenta virtual, Träsel acha que as discussões poderão ser algo caóticas.

– Deve ter muita gente gritando para todo o lado, mas poucos discutindo propostas com mais racionalidade. As pessoas reagem primeiro, analisam depois – pondera. 

Será o reinado do Facebook. Träsel diz que os blogs despontaram até 2010, oferecendo informação política, mas decaíram a partir de 2012. O Facebook assumiu como porta-voz virtual, tem espaço ilimitado, mas não é uma âncora visível como o blog. Os conteúdos podem se perder no oceano de sucessivas postagens. Militantes organizados devem se fazer ouvir no que Träsel chama de “algaravia geral” nas redes sociais. Multiplicarão suas mensagens, terão poder de mobilização, como já demonstraram nas jornadas de junho. Se resolverem, podem ser uma das peças mais ativas do tabuleiro eleitoral.

O Globo

‘Delúbio sempre foi o cara da arrecadação’, avalia cientista político

  • Especialistas consideram que histórico como ex-tesoureiro ajudou na busca por recursos
Tatiana Farah 
Publicado:
SÃO PAULO — A campanha que arrecadou, em nove dias, R$ 1 milhão para Delúbio Soares reforça seu perfil de homem do dinheiro no PT. Essa é a opinião de cientistas políticos ouvidos pelo GLOBO. O ex-tesoureiro petista conseguiu arrecadar em nove dias mais que o dobro do que precisava para pagar a multa imposta pelo STF por causa do mensalão.

— Delúbio sempre foi o cara da arrecadação. Ele mobiliza um setor do petismo vinculado a ações financeiras. É impressionante como ele arrecadou bem mais rápido que José Genoino. Isso mostra a natureza das relações políticas de Delúbio — avaliou Carlos Melo, cientista político do Insper.


Para Fernando Faria de Azevedo, do departamento de Ciências Sociais da UFSCar, a campanha teve tal desempenho porque “Delúbio tinha posição estratégica, extremamente articulada e colada à máquina do PT”.

— Delúbio chegou a ser expulso do PT, foi um bode expiatório, mas nunca deixou te der relevância no partido. Parte dos petistas o vê como um herói. Delúbio era um burocrata extremamente influente e isso deve ter feito a diferença nas doações — disse Azevedo.

Para o professor da UFSCar, o ex-tesoureiro superou Genoino nas doações porque suas conexões têm outras bases. Enquanto Genoino sempre se portou como militante, o ex-tesoureiro atuava na burocracia.

O filósofo Roberto Romano, professor de Ética da Unicamp, diz que o comando do PT se empenhou em pagar as multas dos mensaleiros porque o caso tornou-se um fardo para o partido:

— Para o PT, todos esses condenados são um obstáculo e um peso na marcha deles. O que podem fazer para diminuir esse peso eles estão fazendo. Querem tirar do caminho os réus do mensalão. Algo como “afasta de mim esse cálice”.

Tanto Melo quanto Azevedo destacam que a impressão é de que as doações são lícitas, uma vez que são declaradas e nominadas.
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A Inglaterra regride ao tempo da Star Chamber. Quem entender, entenda.

31 de janeiro de 2014 17h34

Funcionários do Guardian destroem arquivos de Snowden

Jornal foi ameaçado de processo pelas autoridades do Reino Unido caso não eliminasse o material considerado confidencial
Por Camilo Rocha



SÃO PAULO – Imagens de jornalistas do diário britânico The Guardian destruindo computadores que continham os arquivos passados ao jornal pelo ex-agente da CIA Edward Snowden foram divulgadas nesta sexta-feira. O episódio aconteceu em 20 de julho do ano passado.

O jornal foi ameaçado de processo pelas autoridades do Reino Unido caso não destruísse o material, que continha informações sobre o governo do país consideradas confidenciais. O chefe da casa civil britânico, Jeremy Heywood, teria dito a Alan Rusbridger, editor do Guardian: “Podemos fazer isso de um jeito tranquilo ou podemos seguir a lei. Muita gente no governo acha que vocês deveriam ser fechados”.

Através das reportagens de seu correspondente Glenn Greenwald, que teve acesso a documentos vazados pelo ex-agente da CIA Edward Snowden, o Guardian revelou o esquema de espionagem online da agência norte-americana NSA.

O governo britânico agiu para barrar a divulgação de segredos seus contidos na massa de informação. O serviço de inteligência do país (GCHQ) pediu ao jornal que entregasse os computadores onde as informações estariam armazenadas para que fossem destruidos.

O Guardian recusou, propondo que seus próprios jornalistas eliminassem o material. Oficiais do GCHQ acompanharam então o processo de destruição, feito por três funcionários do Guardian. Foram usadas furadeiras e rebarbadoras para “lixar” as placas dos computadores. Depois, tudo foi passado por um desmagnetizador do GCHQ.

Segundo o Guardian, todos os arquivos relacionados a Snowden que o jornal tinha em seu poder estavam em quatro laptops sem conexão à internet ou qualquer rede interna. Os computadores ficavam numa sala especial, vigiada 24 horas por dia por seguranças. Havia múltiplas senhas e uma proibição ao uso de aparelhos eletrônicos na sala. Apenas uma pequena equipe de repórteres veteranos de confiança tinha acesso aos arquivos. O editor do jornal, Alan Rusbridger, lembrou ao governo, porém, que cópias dos documentos existiam em outros países.

Na semana que vem, a editora do jornal lança o livro The Snowden Files, de Luke Harding, que conta a história do agente, desde seus tempos de juventude, o período em que trabalhou para a CIA até o ano passado, quando decidiu contar ao mundo tudo que sabia.