terça-feira, 19 de agosto de 2014

Diário do Comércio, 19/agosto/2014

Marina deve se preparar para o embate


Roberto Romano / Patrícia Cruz/LUZ - 09/09/2010
 
Se o início de agosto foi trágico, o fim dele será difícil. Tanto para Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) como para a ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, provável candidata do PSB após a morte de Eduardo Campos. Em pesquisa do Datafolha divulgada ontem, a ex-senadora aparece em empate técnico – tanto com Aécio Neves no 1º turno (ela com 21% e ele 20%) quanto com Dilma Rousseff no 2º turno (ela com 47% e a petista com 43%), já que a margem de erro é de dois pontos porcentuais para mais ou para menos.

"Marina vai levar muita pancada agora porque ela tira Aécio do 1º turno e pode tirar Dilma no 2º", afirma o historiador e professor de Ciências Sociais da UFSCar, Marco Antônio Villa. "Pancada vem, a questão é: quem vai bater primeiro?", acrescenta o professor de Filosofia Política da Unicamp, Roberto Romano.

Segundo ele, Dilma não poderá ser tão ferrenha com Marina porque, num 2º turno, terá que disputar os eleitores que preferiram a ex-senadora ao tucano Aécio.

PRIMEIRO GOLPE

Para Glauco Peres, doutor em Ciência Política pela USP, quem vai bater primeiro em Marina será Aécio . "É emergencial para Aécio porque ele precisa garantir o 2º turno", aposta. "Já Dilma prefere bater no tucano, porque o desgaste batendo em Marina seria muito grande e ela não quer um índice de rejeição maior do que o que ela já tem", acrescenta.

Roberto Romano, da Unicamp, diz que tanto tucanos quanto petistas irão desqualificar a capacidade de Marina de governar, tática que ele classifica como "desleal". "Falar que alguém não tem capacidade de governar por nunca ter tido cargo público mostra que você não quer renovação política", sustenta o professor.

RAZÃO X EMOÇÃO

A boa colocação de Marina no Datafolha chegou a ser relacionada com a emoção popular após a morte trágica de seu antecessor, Eduardo Campos, e vista como uma espécie de compensação. Mas, para os especialistas ouvidos pelo DC, a emoção pouco tem a ver com o resultado das intenções de voto.

"Claro que houve uma superexposição de Marina desde quarta-feira, há um lado emocional forte, mas deve ser levado em consideração que ela já tinha 27% dos votos na pesquisa feita antes dela se tornar vice de Campos", lembra Villa. "Digamos que a emoção é um acréscimo, até porque ela é bastante conhecida de longa data, teve votação expressiva em 2010", afirma Romano.

DESAFIOS

Marina Silva saiu abruptamente do PT após ter sido ministra do Meio Ambiente, discordou veementemente do Código Florestal por entender que o texto favorecia o agronegócio e, dissonante de todos os partidos políticos, tentou criar o seu – "à sua imagem e semelhança", na definição do atual candidato à Presidência da República pelo PV , Eduardo Jorge (partido no qual Marina conquistou quase 20 milhões de votos em 2010).

"Ela vai ter que pesar muito cada fala, cada gesto. Se ela acentuar muito os seus próprios valores, suas próprias doutrinas, ela pode contrariar a vontade do PSB e perder força", diz Romano.

Para o cientista político da USP, a economia não será problema para Marina Silva, que terá ajuda de assessores mais liberais, como Eduardo Giannetti da Fonseca, mas sim a maneira como colocará seu discurso ambiental, como lidará com o agronegócio e como convencerá o eleitor de sua moderação.

"O grande problema é ser convincente. O Código Florestal, por exemplo, que ela foi contra, como agora vai desdizer? E mesmo que diga o contrário, as pessoas vão acreditar nisso?", questiona Glauco Peres da Silva, da USP.

ALIANÇAS

Costurar alianças difíceis de engolir será uma das maiores provas de fogo de Marina Silva. "Manter a aliança feita por Campos com Geraldo Alckmin e ver Marina subindo no palanque ao lado do tucano vai ser difícil", afirma Glauco.

A ex-senadora, antes de Eduardo Campos anunciar oficialmente sua aliança com o tucanato paulista, afirmou que não queria de nenhuma forma uma aliança com Alckmin. Mas, pouco depois, Campos fechou apoio e, Marina, contrariada, não permitiu que sua imagem fosse impressa em santinhos da dobradinha Alckmin-Campos nem participou de ações de campanha com Márcio França (PSB), vice de Alckmin. "São 30 milhões de votos, ela não pode desprezar", afirma Roberto Romano sobre o eleitorado em São Paulo que vota, majoritarimente, no tucano. "Se Aécio conseguir colar sua candidatura na do Alckmin, ele vai se dar bem", acrescenta Marco Antônio Villa, da UFSCar.

Outras alianças que Marina precisa manter, segundo eles, são a com o PROS, no Rio de Janeiro, com o PHS, em Minas Gerais, e apoiar o PSB em Pernambuco. "Ela não pode deixar de fazer alianças como essas, pode tentar mudar alguns termos se mostrando uma candidata viável de ser eleita, mas não sei qual é o limite, ela não pode impor muito", afirma Glauco, que questiona se as alianças costuradas por Campos ficarão como estavam.
presidenciaveis.jpg