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Pesquisa ou crença eleitoral?

Um traço ridículo, com pinceladas trágicas devido às tristes consequências sociais e políticas que ele acarreta, é a crença ingênua demonstrada pelos analistas e público nas pesquisas de opinião. Supondo-se a base científica e metodológica daqueles levantamentos, poucos alertas indicam algo de solar evidência: o objeto mesmo das enquetes, a opinião, é fluido, sem estabilidade ou solidez. Menor ainda é o número dos prudentes que percebem e expõem o fato inconteste de que as próprias pesquisas servem, desde sempre, como instrumento usado pelos candidatos e partidos na perene busca de votos. Pesquisas supostamente medem as tendências da consciência coletiva (ela existe? Assunto para debates teóricos antigos e recentes) partindo de amostras grupais e individuais. Mas elas entram na retórica que substituiu os comícios tradicionais. Existem elaborações críticas sobre os procedimentos, alvos e bases dos institutos de pesquisa eleitoral nos EUA, a terra que inventou metodologias no setor. Por exemplo, David W. Moore (
As pesquisas, enuncia aquele autor, “ajudaram a transformar o processo eleitoral, embora nem sempre para melhor. Elas aumentaram a destreza dos candidatos para manipular a opinião pública e a imprensa, e formular mensagens tendo em vista um efeito máximo. Elas contribuíram para algo caracterizado por um pesquisador da corrida presidencial como a deteriorização da fé pública”. Além de semelhantes advertências, cuja forma e conteúdo entram no plano da reflexão prudencial, o autor indica algo quase nunca assinalado pelos analistas brasileiros. “Pesquisas de opinião têm seus limites. Elas podem revelar o que as pessoas estão pensando num instante dado, num contexto definido. (...) Mas elas determinam um contexto artificial, criado pelo próprio questionário”. A elaboração de tal item é das mais complexas, tanto em termos matemáticos quanto no que diz respeito a fatores de ordem social, psicológica, ideológica, religiosa etc. Os que se dedicam ao setor de pesquisa conhecem perfeitamente as precauções necessárias para não contaminar as amostragens. Nem sempre, no entanto, jornalistas e políticos têm pleno domínio das dificuldades epistemológicas, lógicas, matemáticas e de conteúdo mental aninhadas nos questionários e na sua interpretação. Resulta um dogmatismo cuja tendência maior é cair na tolice partilhada coletivamente. E aí está o terreno fértil dos encarregados pela propaganda partidária. Os números, quando não pensados, se transformam em meras palavras de ordem, slogans deste ou daquele interesse político.
Outro escritor indica feia chaga, visível em reportagens sobre as pesquisas. “Muitos jornalistas (...) não retiram conclusões dos números obtidos. Para eles é mais fácil apenas citar números, deixando que o leitor extraia as conclusões. Eles não tentam chegar à qualidade da pesquisa, até que algo pareça suspeito. Em minha experiência noto sempre que os jornalistas que seguem campanhas políticas tomam os números, habitualmente sem crítica, e os repetem”. Tal procedimento é passado ao leitor, ouvinte ou espectador, sem que eles tenham informações mais aprofundadas sobre os problemas de exegese dos dados recolhidos. (Paul J. Lavrakas (ed.) e outros:
Um chavão na esquerda e na direita brasileiras, tempos atrás, dizia que todo leitor apto à cidadania precisa adquirir espírito crítico, deixar para trás o dogmatismo ingênuo. Pelas pesquisas de opinião e, sobretudo, pelo uso que delas se faz entre nós, notamos o quanto estamos distantes daquele desejo. Uma pequena provocação. No Datafolha da semana passada, que sinalizou empate entre os dois candidatos mais fortes à presidência, veio de brinde a enquete sobre a popularidade do nosso presidente e do inefável... Dunga. Sessenta e nove por cento dos brasileiros estavam satisfeitos com o treinador canarinho. Passado o trator da Holanda... onde está a certeza da opinião? Enterrada.