terça-feira, 7 de abril de 2009

Blog do Noblat




Em comentários interessantes, não raro podem ser encontradas afirmações que merecem pleno repúdio, como os enunciados que sublinho em vermelho. Que esperava o autor de João Goulart? Resistência armada com guerra civil? É possível criticar o presidente deposto por muita coisa. Mas ele foi expulso por um golpe de Estado, que instituiu uma ditadura sanguinária, censora, e que longe de abolir a corrupção a tolerou. Boa parte dos corruptos que hoje infestam os poderes foi mantida pelas oligarquias que atravessaram, impávidas e impunes, o governo dos generais. E outra afirmação muito problemática: se imaginassem que, de fato, o poder era um aborrecimento, os fardados não o aceitariam, ou melhor, não lutariam uns contra os outros para o empolgar.

Brincar com palavras, fazer " esprit" com assuntos sérios, resulta em pura obscenidade política, como as frases sublinhadas, que se destacam qual espinha horrenda em face bonita. O texto é interessante, repito, mas o desvio semântico e político é imperdoável, tão ruim quanto a " ditabranda".

" João Goulart gostava de vida boa. A ter que lutar para se manter no poder, caiu fora. Os generais-presidentes encararam o poder como uma missão aborrecida." Esta é pérola de desconhecimento histórico e de insensibilidade política. Seria jornalismo? Tenho alguma dúvida.

RR

Enviado por Ricardo Noblat -
7.4.2009
| 8h04m
Comentário

O desafio do "cara"

O problema do “cara” é o que fazer com ele mesmo nas atuais circunstâncias, segundo concluiu recente reportagem publicada pelo jornal mais importante da Espanha, o “El País”. É verdade que a crise lhe tirou uma lasca da popularidade. Mesmo assim 51% dos brasileiros se dizem dispostos a conferir-lhe um terceiro mandato. E aí, meu chapa? E aí, nada. O “boa pinta” voltará ao seu apartamento em São Bernardo do Campo. E ali se ocupará com o retorno ao poder em 2014.

Se tiver cedido a vaga à atual ministra Dilma Rousseff, moleza. Os dois já se acertaram. A própria Dilma irá buscá-lo no confortável exílio. A graça será menor. Caso tenha perdido o lugar para o atual governador José Serra, de São Paulo, então, sim, haverá graça. Reprise de 2002 quando eles se enfrentaram.

Fora dona Marisa, Lula gosta de duas coisas acima de quaisquer outras: disputar eleições e exercer o poder. Getúlio Vargas gostava do poder – de eleições, não. Juscelino Kubitschek gostava mais do poder do que de eleições. Jânio Quadros gostava do poder e de se embriagar. Renunciou à presidência da República para ganhar mais poder. Perdeu.

João Goulart gostava de vida boa. A ter que lutar para se manter no poder, caiu fora. Os generais-presidentes encararam o poder como uma missão aborrecida.

Para José Sarney, o poder foi um sacrifício – salvo no curto período em que congelou preços e salários, autorizou comissários do povo a fecharem supermercados e decretou a moratória da dívida externa. Nenhum presidente foi mais fiel do que ele ao receituário da antiga esquerda. Fernando Collor encantou-se com a liturgia do poder. E não soube conservá-lo. Fernando Henrique Cardoso foi além da maioria: subverteu os costumes e inventou a reeleição.

Lula alimentou o sonho de uma segunda reeleição desde que obteve a primeira. Por muitas vezes conversou a respeito com gente de sua mais estrita confiança.Uma vez foi quando viajou à Suíça para a confirmação do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014. A bordo do AeroLula, perguntou aos seus acompanhantes o que pensavam a respeito do terceiro mandato. Jacques Wagner, governador da Bahia, matou a idéia a pau.

Matou, não, porque Lula ainda insistiu com ela no decorrer de outros encontros com governadores e caciques do PT. Era tal sua vontade de governar pela terceira vez que ele se aborrecia no início quando interlocutores o aconselhavam a esquecer o assunto.Cansou de ouvir: o Congresso não mudaria a Constituição para permitir o terceiro mandato. E se mudasse, o Supremo Tribunal Federal desautorizaria o Congresso. Convenceu-se, afinal. Restam-lhe 20 meses de governo. O que o governador Jackson Lago (PDT), do Maranhão, não daria para continuar governando por pelo menos mais seis meses? Acusado de abuso de poder econômico, perderá o lugar em breve.O que o ex-governador Cássio Cunha Lima (PSDB), da Paraíba, não teria dado em troca de mais um ou dois meses apenas? Foi cassado pelo mesmo motivo.

Para Lula, o desafio que tem pela frente não é eleger Dilma – mas recuperar os pontinhos perdidos nas pesquisas e descer a rampa do Palácio do Planalto no dia 1º de janeiro de 2011 como o ex-presidente da República mais popular da face da terra. Pois salvo se a crise econômica estragar seus planos, poderá ser essa a condição que o cara ostentará. Nada mal para o filho de dona Lindu. Nada mal mesmo.