sexta-feira, 10 de abril de 2009

Blog Retrato do Artista quando Jovem.

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Sábado, 4 de Abril de 2009

A indústria noticiosa, mensalão e outras notícias

Depois de Fernando Collor de Mello a "invenção" do mensalão foi o maior golpe de engenharia política desferido pela indústria noticiosa faminta em garantir seu tradicional espaço sobre a mesa do poder e no orçamento do Estado brasileiro. O neologismo mensalão é uma variante da palavra mensalidade usada para se referir a uma suposta “mesada” paga a deputados para votarem a favor de projetos de interesse do Poder Executivo Federal. Embora a palavra tenha sido cunhada pela Folha de São Paulo em junho de 2005, a prática dos Executivos pagarem mensalidades à bancada de oposição nos Legislativos é uma manobra tão antiga quanto conhecida de nossa República, sobretudo na esfera municipal e estadual. No episódio que a mídia denominou de mensalão, o que desperta a reflexão é que a tal mesada, contrário à lógica da política nacional, não era paga à oposição para votar com a bancada da situação, mas à bancada do próprio governo já beneficiada com cargos do alto escalão e ministérios.
O que precisa ficar claro para todo o país é que a mídia é um negócio como qualquer outro negócio, como a indústria da construção civil ou o setor financeiro. A construção civil e o setor financeiro, porém, fazem lobby doando para seus candidatos e partidos de um modo transparente, submetendo-se, inclusive, tanto o doador como o favorecido, à fiscalização pública de um eventual tráfico de influência ou de outros vícios que este tipo de relação pode resultar.
A mídia, no entanto, traveste suas doações e interesses sob o manto imaculado da notícia; manipulam os fatos e destroem a reputação dos adversários e depois publicam a peça publicitária como se fosse a coisa mais pura e destituída de qualquer interesse senão o bem-estar da nação.
Sabemos como a coisa funciona nas pequenas cidades: quando o jornaleco recebe verba de publicidade da prefeitura dá destaque aos atos do governo, coloca a cara do prefeito na primeira página e oculta toda corrupção que limpa os cofres da cidade; inversamente, quando o prefeito deixa de publicar o jornal faz oposição e ensaia denunciar a quadrilha, resumidamente: “Ou paga ou apanha”.
Este é um dos piores cânceres que destrói nossa sociedade: em cada cidadela do interior do país existe pelo menos um caipira cretino metido a empresário da mídia rindo da cara de William Randolph Hearst, o magnata das comunicações norte-americano que inspirou em Orson Welles a criação de Cidadão Kane. E ainda temos as grandes empresas do setor com poder em todo o território nacional. Verdadeiros Kraken da comunicação. Manipulam a opinião pública e fazem naufragar o interesse coletivo com seus tentáculos poderosos: revistas, jornais e televisão. Elegem qualquer safado desde que a fatura da campanha seja paga após a abertura do cofre público. Quando o larápio se apodera da caneta mágica, num simples abra-te Sésamo, são introduzidos no mundo mágico da fortuna instantânea. A moeda corrente desses cretinos, em geral, é novas concessões de transmissão, verbas de publicidade, fraude em licitações e tráfico de influência.
As grandes empresas de comunicação do nosso país fazem de Cidadão Kane uma historinha imbecil para iniciantes na arte de como fazer fortuna manipulando o povo para saquear os cofres públicos em parceria de políticos corruptos.


Carlos de Andrade
escritor, autor do romance Chuva de Novembro


Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

As instituições nascem Estóicas e morrem Epicuristas.


As instituições são organismos vivos e têm grande semelhança com aqueles que lhes dão vida: o homem. O homem, tal como as instituições, nascem estóicos e, em geral, morrem epicuristas. O epicurismo e o estoicismo são duas doutrinas filosóficas que floresceram na Grécia no século III A.C.
O estoicismo propõe viver de acordo com a lei racional da natureza e aconselha a indiferença (apathea) em relação a tudo que é externo ao ser. O homem sábio obedece à lei natural reconhecendo-se como uma peça na grande ordem e propósito do universo. O epicurismo, por outro, lado preconiza que para ser feliz o homem necessita de três coisas: liberdade, amizade e tempo para meditar e que a presença do prazer é sinônimo de ausência de dor, ou de qualquer tipo de aflição: a fome, a abstenção sexual, o aborrecimento, etc. Para os epicuristas uma vida de continuo prazer é a chave para a felicidade total e absoluta.
Ao afirmar que os homens e as instituições nascem estóicas e morrem epicuristas aparentemente me entrego ao determinismo, doutrina que prega que todos os acontecimentos, inclusive vontades e escolhas humanas, são causados por acontecimentos anteriores, ou seja, o homem é fruto direto do meio, logo, destituído de liberdade total de decidir e de influir nos fenômenos em que toma parte, mas esta entrega ao determinismo é apenas aparente, visto que me filio filosoficamente a Jean-Paul Sartre para quem o homem está condenado a ser livre, escolher o tempo todo.
O Partido dos Trabalhadores em breve estará completando 30 anos. Nascemos estóicos, revolucionários e fizemos uma revolução na política e na história do Brasil. A idade de trinta anos, porém, é cabalística. É a Idade da Razão. Foi a partir dos trinta anos que Jesus tomou a maior decisão de sua vida: ser o Cristo ou o “homem” de “A última tentação de Cristo”, do escritor grego Nikos Kazantizakis, filmado por Martin Scorcese, onde Jesus acalenta o sonho de casar-se com Maria Madalena para ter muitos filhos e netos, renunciando, portanto, ao seu messianismo.
Existe um fato: as instituições nascem estóicas e morrem epicuristas. Mas o grande mérito das instituições e do homem é a liberdade de protelar esta queda ao epicurismo. Houvesse Jesus caído na “Última tentação de Cristo” o mundo deixaria de conhecer o cristianismo. Este é o dilema pelo qual nosso partido passa ao aproximar-se de seus trinta anos. Por quanto tempo o Partido dos Trabalhadores manterá vivo as raízes ideológicas, o princípio ético e ideais sociais pelos quais foi criado? Por quanto tempo ainda seremos um partido político antes de nos convertermos em uma simples legenda? Por quanto tempo ainda seremos idealistas, no sentido de lutar por uma sociedade mais justa para todos, antes de nos convertermos ao pragmatismo individualista?
A ética partidária deve ser rediscutida. Precisamos reafirmar nossos valores se quisermos sobreviver como partido político. Qualquer escolha diferente disso será uma renúncia ao papel histórico que assumimos no início da década de 80 quando nascemos vocacionados ao estoicismo e à revolução.


Carlos de Andrade
escritor, autor do romance Chuva de Novembro