Um aperitivo do livro A Dangerous Mind, Carl Schmitt in post-war European Thought (aqui, nas páginas 144 e seguintes). Na medida do possível, traduzirei o capítulo inteiro, muito revelador da origem do namoro da esquerda com o pensamento de Schmitt, incluindo a simpatia por notórios terrorismos " progressistas".
RR
Os partisans na paisagem da traição: a teoria de Schmitt sobre a guerrilha e seus partisans.
RR
Os partisans na paisagem da traição: a teoria de Schmitt sobre a guerrilha e seus partisans.
A velha cavalaria morreu…agora as guerras são conduzidas pelos técnicos.
(Ernst Jünger, 1949)
Numa recepção histórica cheia de ironias, uma das mais irônicas viradas históricas foi a ocorrida em 1970, quando um maoísta de Berlim afirmou que Carl Schmitt foi a “única pessoa competente para dizer alguma coisa sobre os partisans e combatentes irregulares ” (1) O comentário de Joachim Schickel dificilmente pode ser dito uma aberração individual. Os textos de Schmitt sobre o partisan contribuíram muito para seu secreto e às vezes não muito escondido renascimento entre os estudantes radicais de esquerda, o que discutirei mais adiante.
A figura do partisan permite a Schmitt reiterar suas teses sobre o fim da moderna prática estatal européia e sobre o sistema legal internacional do ius publicum Europeum, no mesmo tempo em que reinsere a possibilidade do político no campo indicado por Kojève, ou seja, o estado homogêneo universal. O partisan não apenas ajuda a garantir o espaço,precioso recurso contra os exércitos ocupantes, mas suas ações violentas também geram uma fratura no espaço político moderno e homogêneo dominado pelo que Schmitt viu como ideologias niilistas.
Não existe uma via simples, no entanto, segundo a qual a guerilha pode ser dita redentora da política. O medo de Schmitt diante da ambigüidade e da traição também foi projetado no partisan, figura essencial na Guerra Fria —potencial agente, sabotador e, mais importante, aparente tipo político conservador que poderia, de repente, ser voltado para um compromisso revolucionário rumo à inimizade absoluta. No fim, Schmitt reforça sua esperança de que o partisan possa reavivar uma noção cheia de significado sobre a inimizade —contra a sociedade industrial e burocrática que funciona segundo padrões de legalidade, e necessariamente provar ser mais forte do que a legitimidade nacionalista que todo partisan poderia exigir para si mesmo.
Grupo Partisan e Personalidade
Schmitt se interessou particularmente pelo partisan e pela sua relação com a política nos primeiros instantes dos anos 60, no século 20. Seu pensamento brotou de um livro publicado pelo jornalista Rolf Schroers, liberal e figura um tanto trágica na história intelectual da Alemanha após a Guerra. (2) Em 1961, Schroers redigiu um extenso tratado sobre o partisan como “contribuição à antropologia política”. (3) Uma personalidade contraditória e auto consciente, ele havia escrito um livro sobre T. E. Lawrence e editou bom número de revistas intelectuais sem sucesso. Ele se encontrou pela primeira vez com Schmitt em 1955 e depois tentou persuadir o jurista a escrever um livro sobre Hitler —tentativa à qual Schmitt respondeu dizendo que ´estúpidas reações que abortaram o Ex captivitate Salus, o livraram de toda obrigação posterior sobre o tema´. (4)
Embora o livro de Schroers antecipe o pequeno volume de Schmitt sobre a Teoria do Partisan em dois anos, há nele uma clara e perceptível fragância schmittiana. De fato, Schroers diz numa carta que seu livro não poderia ser escrito sem Schmitt —e vai ainda mais longe ao revelar que Schmitt foi a sua audiência durante toda a produção da obra. (5) Schroers faz do partisan a última encarnação da autonomia num mundo que se tornou cada vez mais regulado pela burocracia e tecnologia. Mais especificamente, o partisan é o tipo da personalidade autêntica que sente sua identidade ferida de modo agudo, quando não quebrada, por uma ocupação estrangeira, mesmo que não tenham sido danificados a sua vida e todos os seus sentidos. (6) Ele é dirigido instintivamente pela Heimat (7) — e portanto difere fundamentalmente do revolucionário que luta pelo futuro diferente, em vez de conseguir uma experiência pessoal do pretérito. Apesar de seu desejo de defender a lei e o tipo de vida associado a um território particular, a luta do partisan poderia ser facilmente instrumentalizada pelo que Schroers chama ´terceiras partes interessadas´. Tais seriam os Estados, primariamente, que usariam o partisan para seus próprios fins inspirados na Realpolitik ou, mais certamente, na ideologia. Segundo Schroers, a instrumentalização ideológica, com frequência efetivada por ´agentes´ que operam no interesse de partes terceiras, só poderia trazer a ´morte moral´ do partisan. (8)
----
1 Schickel, Gespräche, 9. Ver também Joachim Schickel (ed.), Guerilleros, Partisanen: Theorie und Praxis (Munique: Hanser, 1970).
2 Ver também Monika Fassbender e Klaus Hansen (eds.), Feuilleton und Realpolitick—Ralf Schoers : Schrifsteller, Intellektueller, Liberaler (Baden-Baden: Nomos, 1984).
3 Rolf Schoers, Der Partisan : Ein Beitrag zur politischen Anthropologie (Colônia: Kiepenheuer & Witsch, 1961).
4 Van Laak, Gespräche, 252.5 ibid. 252
6 Hans Grünberger, ´Die Kippfigur des Partisanen. Zur politischen Anthropologie von Ralf Schroers´ in Herfried Münkler (ed.), Der Partisan: Theorie, Strategie, Gestalt (Opladen : West deutscher Verlag, 1990), 42-60.
7 A pátria, a terra mãe, RR.8 Ibid. , 45.