quarta-feira, 20 de junho de 2012

UOL Notícias. Lula, Maluf e a xepa.


"Eleição em São Paulo vive a hora da xepa", diz Roberto Romano

Janaina Garcia
Do UOL, em São Paulo

O acordo selado entre o PP de Paulo Maluf e o PT do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu pupilo, Fernando Haddad, representa uma espécie de “xepa” que tem marcado não apenas a política eleitoral em São Paulo, como no restante do país.
A avaliação é do professor de ética e política da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Roberto Romano, que comparou o cenário eleitoral em São Paulo ao “vale-tudo” de fim de feira, nesta quinta-feira (20), em entrevista ao UOL. Ontem, o PT perdeu a deputada federal Luiza Erundina (PSB) na chapa encabeçada por Haddad à prefeitura paulistana. A parlamentar se insurgiu à aliança entre os petistas e Maluf, seu adversário histórico.

A polêmica foto de Lula com Maluf

 
 
Foto 7 de 14 - 18.jun.2012 - O ex-prefeito Paulo Maluf cumprimenta o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, durante encontro na casa do líder do PP no qual sua legenda anunciou o apoio à candidatura petista Mais Adriana Spaca/Brazil Photo Press
 
“Estamos no momento da xepa no qual se vende um programa de partido, uma ideologia ou um conjunto de propostas em troca de 1min35s de campanha”, disse Romano. O tempo é o que a propaganda eleitoral do PT na TV receberá a mais por ter o PP na coligação.

Os partidos como "negocistas"

Para Romano, o acordo do PT com o PP na pré-campanha paulistana ilustra um processo de “corrosão do Estado” e de “perda dos conteúdos programáticos” que atinge outros países, desde o fim da União Soviética, e no qual partidos de direita e de esquerda passam a agir como meros negocistas em busca do poder.

“É um momento em que não se está mais preocupado com o conteúdo programático do partido, mas se vai ou não ganhar as eleições para chegar aos postos e se servir aos próprios propósitos. Aí, quando se chega ao poder, retribui-se se o apoio --mas é algo muito arriscado, pois o resultado não é garantido”, disse.

O estudioso afirma que a situação reflete “uma espécie de flexibilização ideológica e ética”. “Nesse modelo figuram os negociantes dos partidos. Para eles, dentro dessa grande feira política, tudo que lhes possibilite ganhar a eleição pode ser aceito --é a figura dos ‘bossistas’ [de “boss”, "chefe", em inglês], ou dos compradores e vendedores de eleições”.

A fotografia da discórdia e a “briga” comprada por Lula

Romano falou também sobre a consternação de Erundina com a foto que simbolizou a união de Maluf com os petistas --na qual aparecem o ex-prefeito, o ex-presidente e Haddad, na casa do pepista, pouco antes da feijoada que selaria o acordo. Para ele, a reação de Erundina reflete a de uma militância que, em certa medida, acabou confrontada pelo próprio Lula.

“É uma foto que confere simultaneidade a personagens distantes, e esse contraste choca. E o Lula tem uma espécie de complexo de Maquiavel, que é o de achar que pode fazer coisas não boas, como impor sua própria vontade, mas rapidamente, achando que em pouco tempo as pessoas vão esquecer”, declarou Romano.

“E a imagem tem um elemento nuclear na civilização ocidental; ela desenvolve outros sentidos. Só que a maior fonte de poder do PT ainda é a militância, apesar de o [marqueteiro do PT] João Santana ser um grande manipulador de imagens”, observou.

É com a militância e com eleitores simpáticos à esquerda, por sinal, que os efeitos de uma aliança como essa mais deveriam preocupar, aponta Romano.

“Essa militância fica perplexa, paralisada, podem nem sair às ruas em campanha. Imagine ver todas as suas certezas indo por terra ao se defrontar aliado com tudo o que você sempre combateu, ou a burguesia nacional da qual Maluf faz parte e representa. Aí se cria uma divisão entre até na burguesia, entre as que apoiam o Maluf e as que podem começar a ver o PT como opção”, afirmou.

Mas o estudioso faz um alerta: “O vale-tudo político tem limites, se esgota”. “Porque, em situações de crise, as pessoas podem, por medo, optar pela via autoritária porque esta tem um lado definido. É esse medo quando se vê quando não se pode ter confiança em instituições e programas que leva as pessoas a quererem um poder forte”, disse.