quarta-feira, 4 de março de 2009

Correio Popular de Campinas, 04 de março 2009

Publicada em 4/3/2009


Conceitos e xingatórios

Roberto Romano

A filosofia de Spinoza é um pilar do pensamento republicano e democrático. Sem ela não teríamos ideia clara e distinta de algo difícil e raro: a democracia na qual os indivíduos são ao mesmo tempo livres e responsáveis. O Brasil, país onde não existe conceito e prática de uma democracia nos moldes spinozanos, padece da plena irresponsabilidade governamental, o que resulta, por espelhamento perverso, na falta de compromisso popular com a lei, o respeito mútuo, amizade verdadeira. O fato não é verificável apenas em nossa terra. Ele se apresenta em todo e qualquer coletivo afastado das normas racionais. Quem é desprovido de ciência e prudente conselho não se libera da escravidão trazida pelo ódio perene. Os faltos de raciocínio apelam sempre para os xingatórios, porque estes últimos são embebidos nas mesmas paixões que os escravizam.

Os fanáticos de uma religião, partido, seita bebem ódio sem interrupções, não suportam a diferença de opiniões e sentimentos. O adversário, no seu entender, não deve ser refutado, suas razões pesadas ou convertidas em conceitos. O adversário é inimigo que deve ser morto, física ou moralmente. Daí que não existe em nenhum partido a isenção, o desejo moral do bem comum para a sociedade. Cada militante político busca impor, aos que rodeiam sua máquina partidária (ele imagina, a tentam assaltar), os dogmas correntes no agrupamento.

Spinoza sofreu na carne o grande ódio que emana dos sectários. Ele enviou para a Itália um jovem promissor, Alberto Burgh, para que na terra de Leonardo da Vinci aprendesse o valor da ciência e das artes. Mas o efeito foi contrário ao aspirado pelo filósofo. Na península o rapaz se dedicou pouco ao exercício científico e muito aos rituais de exclusão sectária. Quando se converteu ao catolicismo, ele enviou uma carta a Spinoza (11/11/1675) para instalar o arrependimento e a conversão na alma do antigo mestre. A primeira apóstrofe contida na missiva desafia Spinoza em tom aparentemente teórico. Como sabe o pensador que a sua filosofia “é a melhor”? Depois dá-se ares de refutar o método exegético proposto no Tratado Teológico Político spinozano para interpretar a Bíblia. Como o fôlego analítico não o levou para muito longe, depressa a sua pena se inclinou para o xingatório. “Ser miserável e vil, pasto de vermes”, tais palavras são jogadas na face do antigo professor. Confortado pelas “boas palavras” cristãs, muito cristãs, Burgh passa ao “argumento” do número. Como poderia responder Spinoza aos incontáveis testemunhos católicos, cuja persuasão é extraordinária? Diante de tamanha massa de pessoas, o filósofo deve admitir o quanto sua pobre filosofia não passa de coisa vã, falsa, ímpia. Se o antigo professor se arrependesse, Deus o arrancaria da eterna danação. Caso contrário...

A resposta de Spinoza é singela. Ele aponta o “progresso” de Burgh no ofício do militante, pois aprendeu a xingar com maestria de calejado membro do exército fanático. O filósofo passa ao “argumento da maioria” usado pelo recém convertido. “Concordo que na Igreja romana existe número maior de eruditos íntegros, do que em outra igreja cristã. A causa reside no fato de que ela reúne um número maior de seres humanos, de todas as condições”. Ou seja, o argumento da maioria... nada prova, apenas repete na conclusão o que foi posto na premissa. Poderíamos dizer: trata-se do sofisma da maioria. Citemos o bom Diógenes e a sua frase célebre: “quando sou aplaudido pelo grande número, tenho medo de ter dito uma grande bobagem”. Quanto à “melhor filosofia”, retruca Spinoza: “não pretendo ter encontrado a melhor filosofia, mas sei que compreendo a verdadeira”. O mundo filosófico é nutrido pelos conceitos, não pelos xingamentos.

PS: Se José Dirceu praticasse, desde o seu primeiro ataque à minha entrevista ao Globo, o tom do artigo de ontem no Correio, teria poupado a si mesmo palavras amargas. Finalizo a contenda. RR