quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Uma pausa na loucura, para cair em outra...sobre os cosméticos, a vida e a morte.

Revista E, número 83.



Guerra de Vênus - por Roberto Romano


















Todo ser humano integra a natureza. Ela nos envolve e mantém. Um ponto fundamental dessa realidade é o esforço de cada ente vivo em perseverar no seu ser. Todos nós precisamos nos manter vivos (Spinoza: "O esforço para se conservar é o primeiro e único fundamento da virtude", Ética, livro 4, proposição 22, corolário). E como entra o elemento cosmético nesse aspecto? Quando o indivíduo se trata, se banha, cuida de suas feridas ou se maquila, ele garante seu lugar no espaço da sobrevivência e da vida, ao menos aparentemente. Trata-se de uma experiência psicológica importante, dado que o ser humano tem consciência da sua situação e percebe, com muita clareza, que a cada minuto ele morre, enfraquece. Com isso, ele corre o perigo de se aparecer na consciência dos outros como um ser feio. E o que é feio para o ser humano? É o que ameaça, possibilita a morte, horroriza , afasta pela repulsa . Dessa forma, quanto mais o indivíduo percebe-se na proximidade dessa classificação - o feio como algo a ser não cultuado, não festejado -, ele tende a introduzir entre a situação real do seu corpo e o olhar dos outros máscaras que garantam o reconhecimento e o acolhimento, pelo menos de forma momentânea. Quando se diz que o "cosmético" é o frívolo, isso não corresponde à verdade. Recorde-se que cosmético tem a mesma raiz de "cosmos", ou seja, trata-se da idéia arraigada de que o mundo é belo ou deve ser belo. E para ser belo, algo deve ser "natural". Tudo o que se afasta desse âmbito é sentido como "feio", "não natural", monstruoso. Assim, o impulso rumo aos tratamentos cosméticos revela algo profundo na psicologia humana. 

É justamente a profundidade do sentimento ligado à necessária conservação de si pela beleza que indica ao mercado e aos investidores capitalistas o quanto essa experiência de milhões de seres humanos pode ser lucrativa. A indústria cosmética é uma das mais importantes do planeta, quase tão relevante quanto a indústria da morte. Assim como existe a venda de armas - ou seja, a expansão da morte -, tem-se igualmente um corretivo que o próprio mercado procura proporcionar: a continuidade da vida. É uma dança de morte e vida que atravessa o mercado capitalista. É importante ter isso em mente porque ninguém tem o direito de julgar uma mulher, uma jovem, um homem, enfim, quem quer que seja, dizendo que essa pessoa não tem o direito de aplicar recursos na produção da máscara que lhe garante alguma sobrevida e uma esperança de acolhimento pelos demais seres humanos.

Em outro aspecto, em relação aos limites em que isso acontece, surge a clássica pergunta: quem pode dizer o que é saudável e o que não é? Para um psicólogo social, "saudável" é o que não chega a agredir a estrutura inicial do corpo e da alma dos indivíduos. Por exemplo: uma pessoa tem um corpo jovem e um nariz considerado torto, por ela mesma ou pelos outros. Seria saudável fazer uma operação plástica para corrigir o nariz? Mas é nítido que a partir do momento em que a pessoa faz operação plástica e entra num círculo de ansiedade, querendo não apenas transformar o seu nariz mas seu corpo todo, surgem indícios de problemas de adequação psicológica. O mesmo ocorre com uma senhora de 80 anos de idade, outro exemplo. Ela possui uma estrutura física e psicológica que a impede de ostentar o rosto de uma jovem de 20. Todas as tentativas de fazer com que o viço da juventude retorne, através das operações plásticas, irão somente decepcioná-la e enganá-la. Inclusive armadilha essa que costuma capturar principalmente os incautos. A partir desse momento, já não mais ocorre um investimento saudável na sobrevivência e no reconhecimento alheio, mas a tentativa de enganar a si próprio, além de todo o limite. O que leva ao auto-engano e ao engano do público. Aí sim, lucra a indústria de charlatães que oferecem milagres e coisas impossíveis. É quando entramos no reino do Eldorado - local mítico onde haveria a fonte da eterna juventude. Tal lugar, justamente por ser um mito, sempre desgraçou os que o procuraram.

No entanto, essa distinção é muito delicada. Quando você coloca lado a lado uma jovem de 20 anos e uma senhora de 80, a distância cronológica, por ser muito grande, nos previne dos exageros de um lado e de outro. Mas quando você coloca uma senhora de 40 anos junto a uma de 45, a distância diminui. Nesse caso, são outros padrões que devem ser observados. Uma senhora que tem uma determinada estrutura corporal fora dos padrões estéticos definidos não seria bela, inclusive por preconceito social. Logo, é muito difícil que essa mulher chegue a ser uma estrela de cinema. E é nesse pequeno intervalo que se cria o tempo para que muitos charlatões ofereçam os seus serviços, com o incentivo da própria imprensa, que explora isso com fortes doses de marketing. Veja o caso da gordura. Nós temos um padrão grego de beleza, o qual determina que o homem deve ter determinada altura, dimensão e que a sua estrutura deve ser harmônica. A mesma coisa para a mulher. Dessa forma, temos a chamada Vênus Calipígia, a que tem belas nádegas. Ocorre, no entanto, que esse modelo se implantou em milênios de repetição e, além disso, temos, hoje, a indústria hollywoodiana que restaura aquele paradigma e determina a "mulher bela". O que, às vezes, revela uma certa ironia, porque, por exemplo, para fazer o filme Uma Linda Mulher, foi preciso pegar "pedaços" de corpos para compor a personagem de Julia Roberts quando ela apareceria na cama só com roupas de baixo. Julia Roberts é, sem dúvida, uma bela mulher, mas não tem os glúteos avantajados e nada do que seria necessário para a ocasião. Ou seja, quando você tem esse padrão, tão obrigatório quanto abstrato, você tende a dizer que uma mulher que não está nele incluída é feia. 

Há uma filósofa chamada Elisabeth de Fontenay que tem um estudo sobre Diderot no qual mostra, por exemplo, que nos séculos 18 e 19 - sobretudo no 19 - na França, no que seria depois o Museu do Homem, houve a exposição de indivíduos considerados "inferiores" e "feios", com fins de "estudos" científicos. Uma negra hotentote foi chamada de Vênus Esteatopigia (com acúmulo excessivo de gordura nas nádegas). Essa mulher foi vendida para sábios franceses que, por sua vez, fizeram sessões com ela em 1815 no Museu de História Natural de Paris, para mostrar o quanto era um desvio da humanidade. O nome da hotentote, em sua língua natal, foi perdido. O seu nome europeu era Sara Bartmann, "batizada na Inglaterra, em dezembro de 1811, por uma permissão especial do bispo de Chester, morreu em Paris, no dia 1º de janeiro de 1816. Seu corpo foi doado ao Museu de História Natural, onde ele é conservado no esqueleto e sua moldura. Se você, leitor, nunca a viu, poderá observá-la longamente e à vontade numa vitrine daquele museu do homem, onde, nos domingos, em todas as estações do ano, bocejam as famílias livre-pensadoras e os positivistas (…) Os hotentotes eram mostrados no Jardin d´acclimatation em 1888 e mesmo mais tarde; eles eram exibidos nas Folies-Bergère…" (Elisabeth de Fontenay, O materialismo Encantado de Diderot). Trata-se, pois, quando se fala de "beleza" ou "feiúra", de juízos de valor que não pertencem apenas à psicologia ou medicina, mas apresentam um preconceito etnocêntrico herdado dos gregos e que passou pelos romanos, foi exercido pelos colonizadores europeus e hoje tornou-se um paradigma para a percepção do ser humano em Hollywood. São padrões que há 2500 anos vêm sendo repostos e que excluem seres humanos. 

Uma coisa é o trabalho da pesquisa na medicina, que deve receber todo o incentivo e apoio; outra coisa é a apropriação da medicina e da pesquisa para fins de mercado. Não obstante, mesmo na apropriação do mercado é preciso distinguir aqueles que o fazem dentro de limites éticos e os que não têm esses limites.
Roberto Romano é professor titular de Ética e Filosofia na Unicamp