sexta-feira, 7 de maio de 2010

Do amigo Alvaro Caputo, com minhas naturais objeções pelo tom demasiado maniqueísta do texto, de resto com boas noções.

London calling


Os comunistas, essa espécie em extinção que ninguém quer preservar, costumavam aconselhar o eleitor britânico a votar no Partido Conservador porque isso aceleraria o colapso do capitalismo.

Pois justamente depois do colapso do capitalismo como o conhecíamos, após sua pior crise desde os anos 1930, particularmente aguda no Reino Unido, adivinhe em quem os britânicos acabam de votar para substituir os trabalhistas no poder: o Partido Conservador.

Ou seja, não foram políticas dos conservadores que levaram ao colapso do capitalismo e colocaram os comunistas no poder, mas o contrário: o colapso do capitalismo financeiro 2.0 é que levará os conservadores de volta ao poder depois de anos de domínio trabalhista.

A eleição britânica desenrolou-se à sombra desse colapso financeiro que ameaça o futuro do Reino Unido como potência líder do Ocidente. Mas todos os três grandes partidos, Trabalhista, Conservador e Liberal-Democrata, defenderam na campanha uma receita papai-mamãe do capitalismo: equilíbrio fiscal, cortes de gastos, melhora no ambiente de negócios.

Ninguém saiu defendendo um Estado forte, como se faz por aqui, mas um Estado mais eficiente, que reduza suas dívidas e pese menos no bolso dos britânicos para que eles possam desenvolver o país novamente.

O mundo agora olha para a tragédia grega e aprende. Aposentadorias generosas a funcionários públicos, salários privilegiados aos servidores gregos, gastos irresponsáveis do governo (conservador, diga-se) foram a receita de morte súbita para a economia da Grécia depois que a crise financeira tornou insustentável a rolagem dessa roda-gigante presa no ar.

A estranha eleição britânica impôs aos três principais partidos um discurso de austeridade e corte de gastos, o oposto do que se espera de políticos em campanha, o que mostra não só a gravidade da situação econômica, mas também maturidade do sistema político e falta de propostas viáveis da esquerda diante da grande crise capitalista.

Se a crise felizmente enterrou a fé simplista nos mercados financeiros, ela também anulou a esquerda tradicional como alternativa viável de poder. O país que mais ajuda o mundo a se recuperar da crise, a China, o faz mergulhando agressivamente e de corpo e alma no capitalismo.

Assim, a vanguarda da oposição ao capitalismo hoje se deslocou dos antigos chavões esquerdistas para um conservadorismo ambiental que vê e busca limites ao desenvolvimento (capitalista).

É a "prosperidade sem crescimento", como cunhou Tim Jackson, comissário para Crescimento Sustentável do governo britânico, em relatório oficial tornado best-seller editorial. Nele, Jackson ataca a noção de que desenvolvimento significa crescimento econômico num planeta de recursos finitos e cada vez mais escassos. Um argumento essencialmente reacionário que ignora a extraordinária capacidade de adaptação e inovação tecnológica do ser humano.

Ao socialismo já demos adeus, e a eleição britânica é a última prova dessa conquista. Sem sua fantasia, na lata de lixo da história, os ex-socialistas agora se assumem como reacionários ambientais antidesenvolvimentistas.A bandeira ambientalista é justa, importante e urgente, mas essa política reacionária contra o desenvolvimento, não.

Não passarão!

Sérgio Malbergier na Folha Online